sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cena do Dia - Um Tiro na Noite (1981)


Brian de Palma é um dos cineastas mais apaixonados pelo cinema. Ele domina como poucos a linguagem cinematográfica e quase todas as suas obras contém sequências exemplares e extremamente sofisticadas, muitas vezes, referências a cenas clássicas ou a grandes diretores do cinema. Seu virtuosismo técnico pode ser comprovado na sequência escolhida como a nossa Cena do Dia

Palma é um verdadeiro discípulo de Alfred Hitchcock, mas, diferentemente do mestre, ele acumula um número significativo de filmes mal-sucedidos e medianos, como A Fogueira das Vaidades (1990), Missão: Marte (2000) e outros. Hitchcock conseguia contar grandes histórias sempre reinventando a forma de se contar e, por consequência, revolucionando o cinema. Talvez justamente por dar prioridade ao estilo, Brian de Palma deixe um pouco de lado a história que conta. Muitas vezes, temos a impressão de estarmos diante de um meta-cinema, um cinema voltado para si mesmo. No entanto, o diretor americano também tem no currículo grandes filmes como O Pagamento Final (1993), Scarface (1983), Os Intocáveis (1987) que representam o melhor do seu cinema. 

A premissa de Um Tiro na Noite (Blow out em inglês) é uma homenagem ao clássico de Michelangelo Antonioni, Blow up - Depois daquele beijo (1966). No filme de Antonioni, um fotógrafo descobre, em suas fotos, indícios de um crime. No filme de Palma, um técnico de efeitos sonoros capta em seu gravador o que ele também considera ser o indício de um crime. Não é a primeira vez que um filme de Brian de Palma dialoga com um clássico. Em Os Intocáveis, por exemplo, ele faz referência explícita a O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein

A Cena do Dia corresponde ao início de Um Tiro na Noite. Nela, Jack Terry (John Travolta) está numa ponte quase deserta, imerso numa mata, ao lado de uma rodovia. Ele grava os sons da floresta com a ajuda de um microfone direcional. A cena pode ser dividida em 5 momentos, de acordo com o que Jerry capta em seu gravador:  o som de um casal namorando, o coaxar de um sapo, o som da coruja,  um barulho misterioso e o cantar de pneus do acidente. É interessante observar que o som precede a imagem de sua origem. A origem do som é mostrada numa amplificação da escala do plano, através de cortes secos. Temos acesso ao que ouve Jerry, no que poderíamos chamar de ponto de escuta subjetiva. Já com relação ao ponto de vista, temos uma variação constante de ângulos, enquadramentos e de posicionamentos da câmera. Ou seja, o ponto de vista não corresponde ao ponto de escuta. A complexidade visual da cena envolve grande planos em plongée (do alto), em contre-plongée (de baixo), zoom nos fones de ouvido de Jerry, no gravador, etc. O movimento da câmera em alguns momentos parece imitar o movimento do microfone. O diretor opta também em não utilizar nenhuma profundidade de campo ao mostrar simultaneamente a coruja e Jerry, dando um efeito quase de split screen. A cena termina após o acidente, com um maravilhoso plano plongée e a introdução da música grandiosa bem ao estilo de Palma. 

Assista a essa belíssima cena de suspense (até 02'30):


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