quinta-feira, 18 de abril de 2013

Clássicos da Cinemateca - Os Sapatinhos Vermelhos (1948)


BORIS : Por que você quer dançar?  
VICTORIA : Por que você quer viver? 
BORIS: Eu não sei exatamente o porquê… mas EU PRECISO. 
VICTORIA: Essa é a minha resposta também.


Divulgação
“Nem o melhor mágico do mundo pode tirar um coelho da cartola se já não existir um coelho na cartola.”
Os Sapatinhos Vermelhos é certamente a obra mais famosa da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, conhecidos como The Archers (os Arqueiros). Ainda que o musical de 1948 seja uma obra-prima admirada no mundo inteiro, seus realizadores nunca alcançaram a fama e o reconhecimento internacionais de outros diretores britânicos da mesma época, como Alfred Hitchcock, David Lean e Carol Reed. A bela e pouco conhecida filmografia dos Arqueiros merece definitivamente ser descoberta pelo grande público.
Powell e Pressburger trabalharam juntos pela primeira vez em 1940, no filme Contraband (1940). Em 1943, eles criaram sua própria companhia, a Archers Film Productions.
Os filmes da dupla costumam contar com o letreiro “Produzido, dirigido e escrito pelos Arqueiros”. Ainda assim, muitos especialistas apontam uma certa divisão de tarefas: Powell seria incumbido de grande parte da direção dos filmes, enquanto Pressburger estaria mais envolvido com a elaboração do roteiro, com a produção e com a edição dos longas-metragens. Dentre os frutos dessa parceria, destacam-se Paralelo 49 (1941),  E Um de Nossos Aviões Não Regressou (1942), Coronel Blimp - Vida e Morte (1943), Neste Mundo e no Outro(1946), Narciso Negro (1947) e Os Contos de Hoffmann (1951).
Powell e Pressburger também fizeram muitos trabalhos “solos”. O primeiro escreveu diversos roteiros para outros diretores e dirigiu apenas um filme sozinho, Twice Upon a Time (1953). O trabalho mais conhecido de Powell fora dos Arqueiros é, sem dúvida, A Tortura do Medo (1960), um filme cult extremamente controverso que é hoje considerado uma obra-prima por alguns críticos. 
Divulgação
“Não se esqueça: uma grande impressão de simplicidade só pode ser alcançada pela agonia do corpo e do espírito.”
Powell e Pressburger são dois dos maiores nomes do cinema britânico e o trabalho dessa dupla influenciou grandes diretores dentro e fora do Reino Unido. Não é de se espantar, por exemplo, que Os Sapatinhos Vermelhos tenham inspirado Vincent Minnelli e Gene Kelly na realização do clássico hollywoodiano Sinfonia de Paris (1951). A sequência de balé que encerra o musical americano é um filho legítimo e assumido da obra-prima dos Arqueiros. Dizem, inclusive, que Gene Kelly fez os executivos da MGM assistirem a Os Sapatinhos Vermelhos algumas vezes e, somente assim, conseguiu convencê-los a incluir o monumental número de dança em Sinfonia de Paris.  
Divulgação
“Uma bailarina que depende dos duvidosos confortos do amor humano nunca poderá ser uma grande bailarina. Nunca.”
O trabalho de Powell e Pressburger influenciou não somente seus contemporâneos, como serviu de inspiração para gerações posteriores. Martin Scorsese, por exemplo, é fã incondicional do trabalho dos Arqueiros e não é segredo para ninguém que Michael Powell é um de seus diretores prediletos. Segundo Scorsese, o conjunto de trabalhos da dupla desde o final dos anos 30 até o início dos anos 50 corresponde ao “mais longo período de cinema subversivo em um grande estúdio”. Sobre o seu encontro com o ídolo, no final dos anos 70, ele disse: 
Ele estava muito calado e não sabia o que pensar de mim. Eu tive que lhe explicar que o seu trabalho foi uma grande fonte de inspiração para toda uma nova geração de cineastas: eu, Spielberg, Paul Schrader, Coppola, De Palma. Nós falávamos muitas vezes de seus filmes em Los Angeles. Eles foram uma força vital para nós em um momento em que os filmes não eram necessariamente disponíveis de imediato. Powell não tinha ideia de que tudo isso estava acontecendo."
Divulgação
“A música é tudo que importa. Nada além da música.”
O diretor de Taxi Driver viu Os Sapatinhos Vermelhos no cinema quando tinha nove anos e desde então apaixonou-se pela sensibilidade cinematográfica da dupla britânica. O diretor chegou a afirmar que Os Sapatinhos Vermelhos é um dos filmes em cores mais bonitos de todos os tempos. Em 2009, quase 20 anos depois da morte de Powell, Scorsese apresentou em Cannes a versão restaurada do musical.
A relação do diretor americano com os Arqueiros não se restringe a uma simples admiração. Scorsese é um dos grandes defensores e divulgadores da obra da dupla, subestimada por muitos e ainda pouco estudada. Outro detalhe interessante: a premiadíssima montadora Thelma Schoonmaker, parceira habitual de Scorsese, foi a terceira e última esposa de Powell.
Divulgação
“A tristeza vai passar, acredite. A vida é tão sem importância. E a partir de agora, você vai dançar como ninguém jamais dançou”.
Os Sapatinhos Vermelhos conta a história de Victoria Page (Moira Shearer), uma jovem bailarina que sonha em se tornar profissional. Certa noite, ela encontra o enigmático Boris Lermontov (Anton Walbrook), diretor de uma famosa companhia de dança. Lermontov logo percebe o talento da jovem e a chama para se juntar a sua companhia. A bailarina vira uma das estrelas do Ballet Lermontov. No entanto, tudo vira de cabeça para baixo quando ela se apaixona por Julian Craster (Marius Goring), o compositor de “Os Sapatinhos Vermelhos”. O autoritário Lermontov exige que a moça se dedique exclusivamente à dança. Dividida entre o amor de um homem e a paixão pela dança, Victoria terá um destino trágico.
Os Sapatinhos Vermelhos é uma belíssima fábula sobre a doação incondicional de um artista a sua arte. O filme, que é também uma homenagem ao grande coreógrafo russo Sergei Diaghilev, é inspirado em um conto de fadas do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. Em uma cena do filme, Lermontov conta à bailarina a história de Os Sapatinhos Vermelhos:
“É a história de uma jovem que é devorada pela ambição de ir a um baile com um par de sapatos vermelhos. Ela recebe os sapatos e vai para ao baile. Por um tempo, tudo vai bem e ela está muito feliz. No final da noite, ela está cansada e quer ir para casa, mas os sapatos vermelhos não estão cansados. Na verdade, os sapatos vermelhos nunca estão cansados. Eles a fazem dançar na rua, sobre as montanhas e vales, através de campos e florestas, de noite e de dia. O tempo passa rapidamente, o amor passa rapidamente, a vida passa rapidamente, mas os sapatinhos vermelhos continuam.”
Divulgação
“Eu quero criar para fazer algo grande de algo pequeno, para fazer uma grande bailarina de você. Mas, primeiro, tenho que lhe perguntar: o que você quer da vida? Para viver? - DANÇAR.”
São muitas as qualidades que fazem de Os Sapatinhos Vermelhos uma obra-prima. Esteticamente arrebatador e brilhante no uso das cores, o filme pode ser visto como a simbiose perfeita de diversas manifestações artísticas como a música, a dança e a pintura. O musical é, antes de tudo, uma exaltação do poder da arte. Além de incríveis números de dança, inspirados na obra de Diaghilev, o filme conta com a bela fotografia de Jack Cardiff, um dos grandes diretores de fotografia do cinema inglês. O elenco, por sua vez, é comandado pela escocesa Moira Shearer, exímia bailarina que conquistou  fama internacional com o filme e atuou em outras cinco produções para o cinema. Já o austríaco Anton Walbrook interpreta Boris Lermontov, um personagem fascinante, obsessivo e dominador.
O grande trunfo de Powell e Pressburger é o de combinar fantasia e realismo, o universo do sonho e o mundo da dança. Em certos momentos, o filme vira a mais a bela e pura abstração: tudo é movimento, ritmo e música. É admirável a maneira com que os Arqueiros traduzem em linguagem cinematográfica a essência do conto de fadas de Hans Christian Andersen. Eles fazem algo parecido com a ópera de Offenbach, no sensacional Contos de Hoffmann (1951). Esses dois filmes representam provavelmente o auge do apuro técnico no cinema dos Arqueiros.
Os Sapatinhos Vermelhos foi indicado a cinco Oscars, incluindo o de Melhor Filme, e levou o de Melhor Direção de Arte e o de Melhor Trilha Sonora, para o grande compositor Brian Easdale (outro parceiro habitual dos Arqueiros). O filme foi um sucesso dentro e fora do Reino Unido. Powell e Presspurger nos oferecem através deste clássico um espetáculo único, uma experiência cinematográfica intensa e inspiradora.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Clássicos da Cinemateca - Contos da lua vaga depois da chuva


“Tantas coisas aconteceram. Finalmente você se tornou o homem pelo qual eu esperava. Mas ai de mim… eu não estou mais entre os vivos. Acho que esse é o caminho do mundo.” 
Divulgação
“Esse seu amor é proibido. Você não ama sua esposa e filho? Você abriria mão da sua vida e os abandonaria também?”
Kenji Mizoguchi foi um dos primeiros grandes mestres do cinema japonês. Ele nasceu em Tóquio, em 1898. A infância e a adolescência do diretor foram marcadas por grandes dificuldades financeiras e traumas. Seu pai, carpinteiro de profissão, chegou a vender guarda-chuvas para os militares durante a guerra russo-japonesa. Aos 13 anos, Mizoguchi teve que abandonar a escola e virar aprendiz de farmacêutico no interior. Ele voltou para casa um ano depois, sofrendo de artrite degenerativa, doença que afetou sua maneira de andar pelo resto da vida.
Um dos acontecimentos que mais marcaram o jovem Mizoguchi foi a venda de sua irmã mais velha para uma casa de gueixas, quando esta era ainda adolescente. Foi essa mesma irmã quem cuidou dele e do irmão mais novo após a morte da mãe. Aos 18 anos, Mizoguchi começou a se interessar por diferentes manifestações artísticas: ópera, teatro e pintura. Antes de dirigir seu primeiro filme em 1923, ele trabalhou como designer publicitário em um jornal, como ator e como assistente de direção.
Divulgação
“Este mundo é uma residência temporária, onde vamos chorar até que a madrugada venha coberta pelas ondas.”
Mizoguchi dirigiu mais de 90 filmes ao longo de seus 33 anos de carreira. Entre as décadas de 20 e 30, ele chegou a dirigir mais de um filme por mês. No entanto, o diretor declarou que foi a maturidade dos quarenta anos que o fez realmente distinguir quais verdades humanas ele queria expressar em suas obras. Mizoguchi deu especial atenção, em seus filmes, ao papel da mulher na sociedade japonesa e, por essa razão, ele é considerado um diretor feminista. Muitas das heroínas dos filmes do cineasta são mulheres marginalizadas e sofredoras, como gueixas e donas de casa infelizes. Alguns biógrafos apontam que esse interesse em retratar a condição da mulher no Japão está relacionado às dificuldades e aos sofrimentos pelos quais passaram a mãe e irmã do diretor. 
O cineasta deixou uma extensa filmografia, ainda que muitos de seus primeiros filmes tenham se perdido. Mizoguchi morreu aos 58 anos, vítima de uma leucemia. A influência do diretor cruzou fronteiras e ele adquiriu em vida grande reconhecimento dentro e fora do Japão. Ele ganhou dois prêmios no Festival de Veneza e chegou a ser indicado à Palma de Ouro em Cannes. Seu estilo influenciou grandes diretores e ele era tido como referência pelos cineastas da Nouvelle Vague francesa. Jacques Rivette e Jean-Luc Godard, por exemplo, eram grandes fãs do diretor japonês. Dentre os filmes mais célebres do cineasta estão: As Irmãs de Gion(1936), Crisântemos Tardios (1939), O Intendente Sancho (1954), Olharu – A Vida de uma Cortesã (1952) e Os Amantes Crucificados (1954). O filme Contos da Lua Vaga (1953) é geralmente apontado como a sua maior obra-prima.
Divulgação
“Você não poderá retornar. Venha comigo para minha terra natal.”
Contos da Lua Vaga (ou Contos da Lua Vaga Depois da Chuva, tradução aproximativa deUgetsu Monogatari) é a adaptação de duas histórias presentesUgetsu Monogatari) é a adaptação de duas histórias presentes no livro de mesmo nome, escrito por Ueda Akinari, autor japonês do século 18. Uma das intrigas do filme, no entanto, é inspirada no contoDécoré! (1883) de Guy de Maupassant, escritor francês. O filme se passa no século 16, em meio às guerras civis japonesas. Genjurô vive com a esposa Miyagi e seu filho pequeno à beira do lago Biwa, na província de Omi. Ele faz potes de cerâmica para vender na cidade grande. Com esperança de ficar rico, ele decide iniciar uma grande produção de potes. Nessa empreitada, Genjurô conta com a ajuda de Tobei, seu vizinho e irmão, um homem obcecado pela ideia de virar samurai.
Após o ataque de soldados ao vilarejo onde moram, Genjurô e sua família, assim como Tobei e sua esposa Ohama, resolvem partir com as mercadorias para outra cidade. Temendo a ação de piratas, Genjurô decide deixar sua mulher e filho para trás, acreditando que eles estarão mais seguros. Ele promete voltar em breve para buscá-los. No entanto, chegando à cidade, Genjurô acaba por conhecer uma elegante e misteriosa mulher, Lady Wasaka, que o faz esquecer sua família. Enquanto isso, Tobei faz de tudo para virar um samurai, deixando também de lado sua mulher. Abandonada, Ohama é estuprada por um grupo de soldados e, depois, é obrigada a se prostituir para sobreviver. Ao longo do filme, acompanhamos o destino dos quatro personagens principais. Será que Genjurô e Tobei reencontrarão suas esposas?
Divulgação
“Eu não morri. Eu estou ao seu lado. Seus delírios chegaram ao fim. Você é novamente seu verdadeiro ‘eu’ no lugar onde pertence. Seu trabalho está esperando…”
A popularidade de Contos da Lua Vaga no ocidente foi impressionante na época de seu lançamento e nos anos que se seguiram. O filme contribuiu enormemente para aumentar o interesse do público ocidental pelo cinema japonês. Tudo indica que o clássico de Mizoguchi tenha feito mais sucesso internacionalmente que dentro do Japão. Vários críticos e cineastas louvaram a direção do filme e ele é tido, ainda hoje, como uma das maiores joias do cinema japonês. O filme é, de fato, primoroso em inúmeros aspectos. A cena inicial e a cena final do longa-metragem são, por exemplo, belas rimas visuais. Contos da Lua Vaga começa e termina com a imagem do vilarejo, que nos é revelado através do mesmo tipo de movimento de câmera.
Outras sequências são inesquecíveis. Uma das mais famosas é aquela em que os personagens principais viajam de barco pelo lago Biwa, em meio à névoa. A belíssima fotografia e o canto mórbido de Ohama fazem com que essa cena ganhe contornos oníricos e inquietantes. A direção de Mizoguchi continua a nos impressionar ao longo do filme. É admirável, por exemplo, a maneira com que ele representa o estupro. Ao invés de mostrar o acontecimento em si, ele focaliza alguns elementos laterais, como os sapatos da personagem jogados na areia, do lado de fora da casa. Essa é uma maneira de representar indiretamente o horror que ocorre entre quatro paredes.
O diretor explora brilhantemente o jogo de luz e sombras para representar o universo de Lady Wasaka. É interessante observar como a iluminação participa da construção da personagem. Na maioria das vezes, ela tem uma brancura fantasmagórica. Em outros momentos, ela parece se misturar à escuridão e mesmo flutuar. Todo envolvimento de Genjurô e Lady Wasaka é, por sinal, tratado com uma sensibilidade impressionante. A perda de referência temporal e a impressão de um universo paralelo são resultado das escolhas formais do diretor. O preciosismo de Mizoguchi dá ao fantástico e ao sobrenatural uma dimensão estética impressionante.
Em Contos da Lua Vaga, Mizoguchi combina magistralmente realismo social e o sobrenatural. No filme, Miyagi e Ohama são vítimas da ambição e da imprudência de seus maridos. Ainda assim, são as personagens mais fortes. Se Mizoguchi explora o fantástico através da figura de Lady Wasaka, ele faz prova de um realismo impiedoso, tanto na cena em que Ohama tenta se defender dos soldados, quanto naquela em que Miyagi tenta proteger sozinha seu filho pequeno e impedir o roubo de seu último alimento.
O desfecho de Contos da Lua Vaga é de um lirismo inigualável: uma emocionante reflexão sobre a morte e sobre a pós-morte. A obra-prima de Mizoguchi é uma aula de cinema.
Divulgação

quinta-feira, 21 de março de 2013

Clássicos da Cinemateca - Era uma vez em Tóquio


Kyoko: A vida não é decepcionante?
Noriko [sorrindo]: Sim, ela é.
Divulgação
"Vamos voltar para casa."
Yasujirō Ozu nasceu em 12 de dezembro de 1903 e faleceu exatamente sessenta anos depois, em 12 de dezembro de 1963. O cineasta japonês morreu de câncer dois anos após o falecimento de sua mãe, com quem ele morou durante toda a sua vida. Na sepultura que ele divide com ela, está escrito apenas o símbolo mu, que significa “nada”. Ozu nunca se casou, nunca teve filhos. Seus grandes filmes, no entanto, falam sobre casamento, família e relacionamentos. O diretor nos legou mais de 50 filmes, dos quais 35 mudos. Foi depois da Segunda Guerra Mundial, que Ozu dirigiu seus filmes mais famosos, como Pai e Filha (1949), Crepúsculo em Tóquio (1957), Também Fomos Felizes (1951), Ervas Flutuantes (1959) e A Rotina Tem Seu Encanto (1962). Era uma Vez em Tóquio (1953) é visto como sua maior obra-prima. O filme é considerado por diversos especialistas como um dos melhores filmes de todos os tempos e aparece em quase todas as listas desse gênero: terceiro na lista da Sight and Sound (votos dos críticos), primeiro em outra lista da mesma revista (votos dos diretores), sétimo na lista da Total Film, para citar apenas algumas. 
Divulgação
“A Mãe me contou quão boa você foi pra ela quando ela ficou na sua casa. Ela me disse que foi a noite mais feliz que passou em Tóquio.”
Apesar de ser visto, hoje em dia, como um dos maiores diretores de todos os tempos, Ozu só foi efetivamente descoberto pelo mundo ocidental nos anos 60, quando seus filmes começaram a ter uma maior exibição fora da Ásia. Era uma Vez em Tóquio, por exemplo, só estreou nos Estados Unidos em 1964. Outros mestres do cinema japonês, contemporâneos de Ozu, como Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi, tiveram um reconhecimento mais imediato fora de seu país. Ozu é celebrado pelo seu estilo único: o uso rigoroso da câmera estática na altura dos olhos de uma pessoa sentada num tatami (ou um pouco abaixo); a quase ausência de movimentos de câmera; um gosto refinado pela composição do plano, pelos efeitos de simetria; e a utilização do campo-contracampo que viola a regra dos 180º (regra de posicionamento de câmera que segue um eixo imaginário de 180º). 
Divulgação
“Às vezes penso que não posso continuar sozinha para sempre. Em outras ocasiões, passo a noite acordada pensando no que acontecerá se tudo continuar assim. Os dias passam e as noites vêm, e nada acontece, e sinto um pouco de solidão. Meu coração parece esperar por algo.”
O estilo de Ozu é inconfundível e, de uma certa maneira, anti-hollywoodiano (sabe-se que o diretor não era um grande fã do cinema norte-americano). O cinema de Ozu é um cinema realista, ancorado no quotidiano, nos pequenos acontecimentos do dia-a-dia. O diretor raramente usa a voz off em seus filmes. Quando um personagem fala, o vemos em cena. Em momentos de diálogo entre dois personagens, muitas vezes, ele prefere mostrá-los de costas para tê-los no mesmo plano. O corte não é desperdiçado no cinema de Ozu. A montagem é precisa, nada é em vão. Para o espectador que não está familiarizado com o cinema de Ozu, talvez seu estilo cause um estranhamento inicial, mas, uma vez que você adere ao universo do cineasta, dificilmente deixará de apreciar a beleza da sua arte. Não há sentimentalismo no cinema de Ozu, nada que seja excessivo. Mesmo assim, seus filmes nos tocam profundamente. Era uma Vez em Tóquio talvez seja aquele em que o diretor mais se aproxime do melodrama (ainda que mantenha uma boa distância). Esse é um dos filmes mais sentimentais do diretor. 
Divulgação
“Ela não vai sobreviver… Então, este é o fim.”
Era uma Vez em Tóquio conta a história de um casal de idosos, Tomi e Shukichi (interpretados pelos maravilhosos Chieko Higashiyama e Chishu Ryu), que moram numa pequena cidade no Japão e que fazem uma longa viagem a Tóquio para visitarem seus dois filhos mais velhos, já casados. A estadia na capital japonesa, no entanto, não se dá como o casal esperava. Os filhos não têm tempo para passar com eles, já que estão muito envolvidos com suas próprias ocupações. Após alguns dias, Tomi e Shukichi são enviados para um centro termal em Atami, perto do mar. Essa é a alternativa encontrada pelos filhos mais velhos para não terem que se preocupar com os pais e evitarem maiores gastos. A estadia no spa, no entanto, é desgastante para o casal, devido aos outros hóspedes barulhentos. O casal decide, então, voltar para casa antes do previsto.
A única pessoa que se mostra gentil e acolhedora com os idosos durante a estadia em Tóquio é Noriko, viúva de um dos filhos do casal, morto na guerra. Noriko é interpretada pela encantadora Setsuko Hara, estrela do cinema japonês. O sorriso da personagem, um misto de bondade e dor, é apaixonante e de cortar o coração. Hara protagonizou outros filmes de Ozu, como Pai e Filha e Também Fomos Felizes. O ator Chishu Ryu é outro parceiro habitual de Ozu, presente em vários filmes do diretor.
Divulgação
“Mas que belo amanhecer. Temo que teremos mais um dia quente hoje.”
Era uma Vez em Tóquio é um filme que permanece, mesmo quando acaba. Ele nos habita por muito tempo. A obra-prima de Ozu nos faz refletir sobre a efemeridade da vida, sobre os relacionamentos, sobre o tempo que passa, sobre a morte. Esse clássico do cinema mundial é de fato universal e atemporal. 
Divulgação
“Ela era uma mulher de cabeça dura, mas se eu soubesse que as coisas ficariam assim, eu poderia ter sido um pouco melhor para ela”.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Clássicos da Cinemateca: O mestre Lean e o Dr. Jivago


“Can you play the balalaika?” 
DivulgaçãoDr. Jivago é o 14º filme de David Lean. O cineasta britânico dirigiu 16 longas-metragens. Ele foi premiado com o Oscar de Melhor Diretor em duas ocasiões, por Lawrence da Arábia (1962) e por A Ponte do Rio Kwai (1957). 
Quarenta e dois anos separam o primeiro filme de David Lean, Nosso Barco, Nossa Alma(1942), do seu último projeto, Passagem para a Índia (1984). Sua carreira no cinema começou, no entanto, muito antes de seu primeiro filme, no final dos anos 20. Durante toda a década seguinte, ele trabalhou como montador. É dele, por exemplo, a montagem do filmePigmaleão (1938), clássico do cinema britânico. Lean nos legou uma filmografia impressionante. Ela contém grandes clássicos como Oliver Twist (1948), Grandes Esperanças(1946), Quando o Coração Floresce (1955) e obras-primas como Desencanto (1945), Lawrence da Arábia (1962), A Ponte do Rio Kwai (1957) e A Filha de Ryan (1970). Dr. Jivago foi o maior sucesso comercial da carreira do diretor, um dos filmes de maior bilheteria da história do cinema americano e um dos produtos mais rentáveis do estúdio MGM. Ainda que tenha recedido críticas mistas na época de seu lançamento, o clássico de 1965 tem hoje um lugar de destaque na filmografia de Lean, sendo um dos filmes mais populares do diretor. 
Divulgação
Dr. Jivago
 ganhou cinco Oscars em 1966. Na mesma cerimônia, Julie Christie ganhou o Oscar de Melhor Atriz, mas por outro filme: Darling, a que Amou Demais. Em Dr. Jivago, ela interpreta Lara.
David Lean é constantemente apontado como o maior cineasta britânico de todos os tempos (ao lado de Alfred Hitchcock), tendo sido aclamado por diretores como Steven Spielberg e Stanley Kubrick. Ele ocupa a nona posição na lista de melhores diretores da história do cinema da revista Sight & Sound. publicada em 2002. Apesar de ser muitas vezes associado a grandes produções e filmes épicos, David Lean tem uma filmografia bastante diversificada e foi por muito tempo visto como um diretor intimista. Esse aspecto de sua filmografia pode ser conferido no belíssimo Desencanto. Especialistas costumam dividir sua obra em dois períodos: a fase britânica, de 1942 a 1955; e, a partir de 1957, a fase dos filmes-espetáculos, em colaboração com Hollywood. David Lean é um cineasta sentimental e romântico. Seu cinema é caracterizado por um imenso lirismo e, ao mesmo tempo, uma certa frieza, um antissentimentalismo. Essa combinação de características é um dos charmes e encantos dos filmes do cineasta.
DivulgaçãoDavid Lean dirigiu 11 atores indicados ao Oscar, dentre eles Omar Sharif (direita) e Alec Guinness (esquerda), que ganhou por A Ponte do Rio Kwai (1957). Guinness era o ator favorito de Lean. Os dois trabalharam juntos em seis filmes.
A partir de Quando o Coração Floresce, protagonizado por Katharine Hepburn, o cinema de Lean começa a mudar. Esse clássico marca o início de uma nova fase da filmografia do diretor. Foi a primeira vez que Lean filmou fora do Reino Unido, em Veneza. O cinema de Lean se torna um cinema do exterior, do exótico, das grandes paisagens. A Ponte do rio Kwai é o primeiro de uma série de filmes monumentais que dariam ao diretor a reputação de mestre do cinema épico. A partir de então, a duração dos filmes do cineasta ficou cada vez maior. Para se ter uma ideia, Desencanto (1938) tem 1h26 de duração e Lawrence de Arábia (1965), 3h36. A Filha de Ryan foi um de seus projetos mais ambiciosos e um dos mais queridos ao diretor. Após o fracasso do filme e uma série de críticas negativas, Lean ficou 14 anos sem dirigir outro longa-metragem. Em 1984, ele lançou o seu último filme, o bem sucedido Passagem para Índia.
DivulgaçãoCom a ajuda da maquiagem, Omar Sharif, que é egípcio, interpreta o personagem-título, que é russo. O filho do ator, Tarek Sharif, interpreta o personagem quando criança. Tarek fez apenas mais um filme depois de Dr. Jivago.
David Lean adaptou diversos romances para o cinema, dois de Charles Dickens: Grandes Esperanças e Oliver TwistDr. Jivago é a adaptação do romance homônimo de Boris Pasternak, um grande best-seller que deu ao escritor russo o prêmio Nobel de literatura em 1958. A obra de Pasternak tem como pano de fundo os acontecimentos políticos que marcaram a primeira metade do século 20 na Rússia, dentre eles, a Revolução de 1917. Muitos críticos condenaram a opção feita por Lean de dar mais importância à história de amor de Yuri Jivago e Lara que aos fatos históricos. Tal escolha é compreensível, se considerarmos que o filme foi lançado em plena Guerra Fria.
DivulgaçãoGeraldine Chaplin, filha de Charlie Chaplin, interpreta Tonya. Dr. Jivago foi o primeiro filme em língua inglesa da atriz. Dizem que David Lean queria Audrey Hepburn no papel, mas que ele mudou de ideia depois de ver a audição de Geraldine.
Dr. Jivago acompanha os encontros e desencontros de Lara e o médico/poeta Yuri Jivago e a tumultuada história de amor desses dois personagens. Na época de seu lançamento, muitos torceram o nariz para o caráter romântico e sentimental. Essa característica, aliada às mais de três horas de duração do filme, parecem repelir alguns espectadores ainda hoje. Motivo de repulsa para uns, motivo de idolatria para outros. A triste história de amor de Lara e Yuri é contada com um refinamento estético único, que faz do filme um belo espetáculo.
Divulgação
A famosa trilha sonora de Dr. Jivago é de autoria de Maurice Jarre, que havia trabalhado com Lean pela primeira vez em Lawrence da Arábia (1962). O compositor francês ganhou o Oscar pelos dois trabalhos e ganharia um terceiro por outro filme de Lean, Passagem para a Índia(1984).
A maestria da direção de Lean é comprovada já no início do filme, na belíssima cena do funeral da mãe do pequeno Yuri, uma experiência estranha e misteriosa para o menino. Nesse momento, vemos o nascimento do poeta, a atenção difusa da criança para os pequenos acontecimentos ao seu redor. A partir da utilização de planos subjetivos, de uma brilhante montagem e da música, Lean nos apresenta esse despertar do olhar do poeta. Esse é apenas um dos grandes momentos de Dr. Jivago. Ao longo do filme, o espectador atento e curioso pode se deliciar com o refinamento formal da obra, com as metáforas visuais, com os símbolos etc. 
Divulgação
O roteiro de Dr. Jivago foi escrito por Robert Bolt, outro parceiro habitual de David Lean. Bolt ganhou o Oscar de Melhor Roteiro por Dr. Jivago. A parceria de Lean, Bolt e Jarre é uma das mais bem sucedidas do cinema.
Uma das qualidades do filme é o seu ótimo elenco. Lean reuniu grandes atores britânicos, já veteranos, como Alec Guinness e Ralph Richardson, e atores que representavam a nouvelle vague do cinema britânico como Rita Tushingham, Julie Christie e Tom Courtenay. O resultado não poderia ser melhor. Destaque deve ser dado à beleza e ao talento de Julie Christie, à sensibilidade de Omar Sharif, à força de Rod Steiger, à versatilidade de Guinness e ao carisma de Geraldine Chaplin. Extremamente perfeccionista, David Lean gostava de tirar o melhor dos seus atores. Dizem que para fazer a cena em que Yuri Jivago presenciava o massacre de inúmeros civis, Lean pediu a Omar Sharif que a interpretasse como se ele estivesse tendo um orgasmo, para que o seu olhar tivesse a intensidade que o diretor queria. Lean era o diretor do olhar.
Além do ótimo elenco, da direção primorosa, Dr. Jivago conta com uma belíssima fotografia e com uma trilha sonora inesquecível, que se tornou um imenso sucesso. O tema de Lara é um dos grandes ícones musicais do cinema. Dr. Jivago pode dividir opiniões, mas é sem dúvida um espetáculo e a prova viva do talento do seu diretor.
Divulgação
Ouça um trecho da trilha do filme - clique aqui

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Clássicos da Cinemateca - Se meu apartamento falasse


Movie-wise, there has never been anything like "The Apartment", love-wise, laugh-wise, or otherwise-wise! (Frase do cartaz original do filme.)
Divulgação
Fran [prestes a chorar]: “Como pude ser tão burra? Você deve pensar: ela já deveria ter aprendido. Quando se está apaixonada por um homem casado, não se deve usar maquiagem.”
Às vezes parece difícil crescer numa empresa. Você se sente estagnado, sem falar na grande competitividade que existe entre os funcionários. No entanto, existem algumas maneiras de ganhar a simpatia do chefe, ser valorizado e, quem sabe, ser até promovido. Uma delas é trabalhar muito. Evidentemente, essa (exaustiva) alternativa não é garantia de sucesso. Se você vive esse dilema, a ideia inovadora de C.C. Baxter (Jack Lemmon) pode te ajudar. O moço descobriu uma nova forma de chamar a atenção do alto-escalão da empresa de seguros onde trabalha e se tornar indispensável na vida de algumas pessoas influentes. O solícito funcionário passou a ceder seu apartamento para que alguns dos seus colegas pudessem ter um lugar discreto e aconchegante para levar as amantes.
Claro que essa prática não é isenta de dores de cabeça. Você tem que lidar com a bagunça deixada no seu apartamento, com problemas de agendamento e revezamento entre os colegas, com o risco de dormir fora de casa quando alguém esquece de devolver a chave, com os olhares de reprovação do vizinho que acha que você é um mulherengo… Mas esses são os menores dos problemas. A situação se torna realmente grave quando você se apaixona pela amante do seu chefe e, mais grave ainda, quando ela tenta se suicidar no seu apartamento. Se você quiser saber se vale a pena fazer como C.C. Baxter, não deixe de ver Se Meu Apartamento Falasse.
Divulgação
C.C. Baxter: “Eu costumava viver como Robinson Crusoé. Quero dizer… Como um náufrago no meio de 8 milhões de pessoas. Um dia eu vi uma pegada na areia e lá estava você.”
Em Se Meu Apartamento Falasse, o diretor e roteirista Billy Wilder trata (de uma maneira leve, mas crítica) a questão da ética no trabalho, mostrando como o sucesso no mundo corporativo está, muitas vezes, ligado à troca de favores. No entanto, o clássico de 1960 é, acima de tudo, a história de dois indivíduos desajustados, uma história de amor nada convencional. É interessante observar que Se Meu Apartamento Falasse é bastante diferente do hilário Quanto Mais Quente Melhor, imenso sucesso de Wilder, lançado apenas um ano antes. Se o clássico de 1959 é uma comédia de erros que conta com personagens travestidos, diálogos de duplo sentido e situações absurdas, o filme de 1960 é uma comédia dramática sentimental. Os dois filmes têm em comum a genialidade de Wilder, diálogos brilhantes e o talento de Jack Lemmon. 
Divulgação
J.D. Sheldrake: “Você sai com uma garota algumas vezes, só para dar risadas, e ela já pensa que você vai se divorciar da sua esposa. Agora eu te pergunto: isso é justo?” 
C.C. Baxter: “Não senhor, é muito injusto… Especialmente com a sua esposa.”
Se Meu Apartamento Falasse é centrado em personagens cativantes e humanos, interpretados por grandes atores. Jack Lemmon, que dá vida ao protagonista, é o anti-herói por excelência. A aparência do ator (que não corresponde a do típico galã), seu incríveltimming cômico e sua expressividade lhe possibilitaram interpretar grandes papéis durante sua carreira e C.C. Baxter é, sem dúvida, um dos seus melhores trabalhos. Lemmon confere certa tristeza e melancolia ao personagem. Não se trata apenas do anti-herói engraçado, desajeitado e azarado. C.C. Baxter é também um homem de coração partido. Lemmon confere dignidade ao protagonista e, se rimos de suas desventuras, também nos compadecemos do seu drama.
O mesmo pode ser dito de Shirley MacLaine, que interpreta Fran e cria uma personagem tragicômica, uma suicida em potencial. A atriz comunica magistralmente o desamparo e vulnerabilidade de sua personagem. Talvez o maior charme de Se Meu Apartamento Falasseseja o de revelar, sob a aparente face de comédia, o drama desses indivíduos complexos. Fechando o triângulo amoroso, temos Fred MacMurray (como Jeff D. Sheldrake, chefe de C.C. e amante de Fran), galã e grande estrela da época, que é o perfeito contraponto de Jack Lemmon. 
Divulgação
C.C. Baxter: “O seu espelhinho está quebrado.” 
Fran Kubelik: “Sim, eu sei. Eu gosto dele desse jeito. Eu me vejo como eu me sinto.” 
Sentimental, sem ser sentimentalista, Se Meu Apartemento Falasse se passa, em grande parte, entre quatro paredes, o que revela a intenção de Wilder de criar uma narrativa intimista. O diretor focaliza a construção dos personagens e a interação entre eles. A relação de Fran e C.C. é a alma do filme (muito em função da ótima química entre Lemmon e MacLaine, ambos indicados ao Oscar). Essa relação não é baseada em uma atração física, mas numa simpatia de almas. Os dois personagens são problemáticos: ela é apaixonada por um homem casado que nunca deixará a esposa; e ele tem que lidar com um amor não correspondido, a humilhante submissão ao chefe cafajeste e o desejo de ascensão na empresa. O belíssimo final do filme (Wilder é o mestre em finais geniais) é a prova da sensibilidade do diretor, que opta por sugerir qual será o futuro do casal, ao invés de explicitá-lo. Mesmo que não testemunhemos o esperado beijo, Se Meu Apartamento Falasse continua sendo um dos filmes mais românticos de Hollywood. Ganhador de cinco Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Montagem, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte), essa celebrada obra-prima é também prova da versatilidade de Wilder. Poucos filmes combinam com tanta maestria comédia, romance e drama.
Divulgação
C.C. Baxter: “Você ouviu o que eu falei, Miss Kubelik? Eu absolutamente adoro você.” 
Fran Kubelik: “Cale a boca e dê as cartas.”

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Clássicos da Cinemateca - Gilda


 “Mame kissed a buyer from out of town /That kiss burned Chicago down / So you can put the blame on Mame, boys /  Put the blame on Mame.”
Divulgação
Johnny Farrell: “Eu a odiava tanto que não conseguia tirá-la da minha cabeça por um só minuto!”
Nunca houve uma mulher como Gilda! Já dizia o pôster do filme de 1946, dirigido por Charles Vidor. Rita Hayworth, no auge da sua beleza, encarnou a personagem mais importante da sua carreira e uma das mais célebres femmes fatales da história do cinema. Se especializando nesse tipo de personagem, a atriz realizou outro clássico noir, no ano seguinte, A Dama de Shangai, dirigido e estrelado por Orson Welles, com quem a estrela hollywoodiana foi casada por cinco anos. A década de 40 foi o período de ouro da carreira da atriz, quando ela se firmou como um dos maiores símbolos sexuais de Hollywood. Foi, no entanto, Gilda que fez com que Hayworth se tornasse um verdadeiro mito. Hayworth se casou cinco vezes, sendo uma delas com o príncipe Aly Khan. Ela se tornou assim a primeira estrela de cinema a se tornar uma princesa (Grace Kelly é a mais famosa). Mas esse casamento, como todos os outros, não durou muito tempo. A atriz chegou a confessar certa vez: “Todos os homens que conheci se apaixonaram por Gilda e acordaram comigo”. 
Divulgação
Johnny Farrell: “Estatísticas mostram que existem mais mulheres no mundo do que qualquer outra coisa. Exceto insetos”.
 Sem dúvida, Gilda possui algo a mais, algo que nem todos os filmes noirs apresentam. EmGilda, existe uma tensão sexual latente e sempre presente, tensão que permeia as relações do trio de protagonistas. Talvez pudéssemos afirmar que Gilda é um filme sobre desejo e repulsa. Claro que existe uma trama, envolvendo mistério e crime, mas essa trama é apimentada por uma atmosfera de puro erotismo. A antológica cena do semi-striptease de Gilda é apenas um exemplo de como o filme é altamente erótico sem, no entanto, infrigir os rígidos códigos de censura da época. O gesto da retirada da luva acaba por ser infinitamente mais sensual do que um completo striptease. Uma das qualidades do filme está justamente nesse jogo entre o que é revelado e o que é apenas sugerido. É o que está velado, é o que está subentendido nos diálogos enigmáticos e dúbios, nos comportamentos ambíguos dos protagonistas, que desperta a imaginação do espectador e faz desse clássico um exemplar tão instigante. 
Divulgação
Gilda: “Eu não consigo nunca fechar meu zipper. Talvez isso queira dizer algo, não acha?”
Gilda se passa na Argentina. Johnny Farrell (Glenn Ford), um aventureiro americano de caráter duvidoso, começa a trabalhar para um sinistro dono de cassino e simpatizante nazista, Ballin Mundsun (George Macready). Para a surpresa de Johnny, a nova esposa do patrão é seu amor do passado, Gilda (Rita Hayworth). A partir de então, um triângulo amoroso se forma. A sinopse de Gilda lembra estranhamente Casablanca: um americano expatriado que reencontra a mulher com quem teve um caso no passado, em terras estrangeiras, com direito à presença de nazistas como no clássico de 1942, um plano de fuga e um cassino que muito lembra o Bar do Rick.
Gilda é um gêmeo perverso de Casablanca. O relacionamento de Johnny e Gilda não é movido por sentimentos nobres como o de Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman). A dinâmica de amor e ódio que se estabelece entre os dois personagens do filme de 1946 é muito mais venal e doentia do que a relação do famoso casal de Casablanca. Gilda também não possui a doçura de Ilsa e não assume o papel de vítima das circunstâncias como a heroína interpretada por Ingrid Bergman. Gilda é uma mulher sexualmente agressiva, voluptuosa, perigosa e vampiresca, que desafia a noção clássica de heroína. 
DivulgaçãoBallin a Johnny: “Você ficaria surpreso de ouvir uma mulher cantando na minha casa”.
Gilda comanda não só o olhar do espectador, como o dos seus dois amantes. Como uma força da natureza, ela é o centro das atenções quando está em cena. A aparição da femme fatale é orquestrada magistralmente. Ela ocorre após mais de 15 minutos de projeção. Primeiro ouvimos a voz da personagem, depois vemos a reação de Johnny e Ballin à visão da musa e, aí sim, ela surge na tela, fazendo um movimento inesperado, jogando os cabelos para trás. Assim nasce o mito. Exuberante e sensual, a protagonista é também um mistério a ser desvendado. Ela talvez possa ser considerada como uma manifestação da fantasia e do imaginário masculinos. Afinal, como afirmou certa vez Rita Hayworth, não é possível ser Gilda 24 horas por dia.
Paradoxalmente, Gilda assume o papel de objeto sexual, mas também é uma personagem moderna, livre sexualmente, em uma época de extrema repressão sexual. A canção “Put the Blame on Mame” se tornou um grande sucesso graças à performance de Rayworth (dublada por Anita Ellis). A irônica letra da canção fala justamente da mulher vista como a causa de todos os males. Nos anos 40, o nome Gilda passou a ser sinônimo de “mulher selvagem”. Também foi o apelido dado à primeira bomba atômica jogada em Bikini Atoll, ilha usada para testes nucleares pelos norte-americanos. 
Divulgação
Johnny a Ballin: “You must lead a gay life!”
Mas nem tudo é sobre Gilda. A relação entre Ballin e Johnny é, no mínimo, curiosa. Não são poucos os estudiosos e críticos que apontam certo homoerotismo no relacionamento extremamente próximo e ambíguo dos dois principais personagens masculinos. O primeiro indício desse provável homoerotismo ocorre no início do filme: Ballin está segurando um objeto fálico e Johnny exclama: "You must lead a gay life" (Você de levar uma vida gay/alegre). A utilização da palavra “gay”, que comporta duas significações, permite assim duas leituras. Tanto Charles Vidor quanto Glenn Ford afirmaram posteriormente que, durantes as filmagens, eles não cogitaram a hipótese de que os dois personagens pudessem ser homossexuais. No entanto, o subtexto gay e a relação potencialmente homoafetiva de Ballin e Johnny fazem com que o triângulo amoroso do filme seja ainda mais complexo e intrigante.
Divulgação
Nunca houve uma mulher como Gilda!
Gilda é o filme mais célebre de Charles Vidor, diretor de origem húngara que, apesar de ter tido uma prolífica carreira nos Estados Unidos, é lembrado hoje em dia quase exclusivamente pelo clássico de 1946. A forma com que o filme aborda aspectos da sexualidade humana, a maneira provocativa com que ele lida com um triângulo amoroso não convencional e a ousada representação da femme fatale fazem de Gilda um exemplar único no cinema clássico americano. As qualidades do filme em termos de estilo se sobrepõem a uma trama pouco original. E nem mesmo o tradicional final feliz é capaz de obscurecer o caráter provocador desse clássico.  

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Clássicos da Cinemateca - Bonequinha de Luxo (1961)


Moon river, wider than a mile
I'm crossing you in style some day
Oh, dream maker, you heart breaker
Wherever you're going, I'm going your way
Divulgação
“Você sempre pode dizer que tipo de pessoa um homem é, pelos brincos que ele lhe dá.”
No livro Breakfast at Tiffany's, de Truman Capote, Holly Golightly é uma prostituta bissexual, que fuma maconha e fala palavrão. No filme, ela é Audrey Hepburn! A adaptação da obra de Capote pode não ter sido a mais fiel possível, mas se tornou um imenso ícone. A imagem de Hepburn com seu coque, tiara, luvas pretas e cigarro na mão se tornou mítica. Ela atravessa gerações, culturas e é hoje um dos símbolos mais queridos do cinema. Nem precisamos assistir ao filme para conhecermos Holly. Ela existe por si só, ela estampa camisas, ela ilustra cartazes, canecas, sites de cinema. No entanto, é preciso ver o filme para amá-la de verdade.Bonequinha de Luxo (1961) é uma comédia romântica clássica, e “clássica” não quer dizer velha (raramente quer). O filme de Blake Edwards é clássico porque define o melhor do seu gênero.
Divulgação
Paul: “Eu te amo”. Holly: “E daí?”
Bonequinha de Luxo poderia ter sido um filme completamente diferente. A princípio, ele seria estrelado por outro mito, Marilyn Monroe, e dirigido por John Frankenheimer. Monroe desistiu de estrelá-lo a conselho de Lee Strasberg e Frankenheimer foi tirado do projeto a pedido de Hepburn, já que ela nunca tinha ouvido falar no diretor. Capote era totalmente a favor da escalação de Marilyn para o papel e, ao que tudo indica, ele ficou bastante frustrado com a substituição. Reza a lenda que quando o escritor estava nos sets de filmagem, Hepburn se sentia bastante desconfortável e insegura. A atriz chegou a declarar posteriormente que foi mal escalada e que era inadequada para o papel. Paradoxalmente, Holly é a personagem mais célebre da atriz e uma das mais populares. Na época, Hepburn, que é belga de nascimento, foi a segunda atriz mais bem paga de Hollywood, só perdendo para Elizabeth Taylor.
Divulgação
“Se eu pudesse encontrar algum lugar na vida real que me fizesse sentir como na Tyffany’s, então eu compraria alguns móveis e daria nome ao gato.”
Em Bonequinha de Luxo, Holly é uma jovem sonhadora, excêntrica e extrovertida. Fascinada pelo luxo e sem recursos, ela sonha em realizar um rico casamento. Na vida da moça, não falta badalação e festas, mas ela só encontra o amor quando Paul Varjac (George Peppard) se muda para o seu prédio. O bonitão, que é sustentado por sua amante, uma mulher mais velha (Patricia Neal), se fascina pela nova vizinha e pelo confuso estilo de vida da moça. Alguns dos aspectos menos palatáveis (para o público da época) da obra de Capote foram cortados na adaptação, como o fato de Holly ter realizado um aborto e também sua bissexualidade. Certamente, a personagem também foi moldada para atender à persona de Audrey Hepburn.
Divulgação
“We're after that same rainbow's end, waiting, round the bend
My Huckleberry Friend, Moon River, and me.”
A comédia romântica foi um sucesso de público e de crítica, tendo sido indicada a cinco Oscars (incluindo Melhor Atriz) e levado dois (de Melhor Canção para Moon River e de Melhor Trilha Sonora). Um detalhe curioso do longa-metragem, no entanto, causou polêmica. Duras críticas e protestos foram feitos à bizarra escalação de Mickey Rooney para viver Mr. Yunioshi. O ator teve que usar uma maquiagem pesada para chegar a uma aproximação de um japonês. A representação esterotipada do personagem asiático, utilizado apenas para alívio cômico e vivido por um ator branco, não agradou em nada à comunidade asiática e incomodou muita gente. Os produtores Richard Shepherd e Blake Edwards chegaram a afirmar posteriormente que se arrependeram da escalação de Rooney. Felizmente, a presença do personagem em cena não é grande o suficiente para “estragar” o filme. 
Divulgação
“Uma garota não pode ler uma coisa dessas sem batom!”
Uma das cenas mais lembradas de Bonequinha de Luxo é aquela em que Audrey Hepburn canta "Moon River" sentada na janela de seu apartamento. No entanto, essa cena quase foi cortada. Um dos executivos do estúdio Paramount teria pedido a supressão da música. Há rumores de que Hepburn teria dito: “Só por cima do meu cadáver!” A canção, de Henry Mancini e Johnny Mercer, foi criada especialmente para a atriz. Como ela não não tinha treinamento como cantora, a música, cantada em uma só oitava, foi criada para favorecer a atriz. Mesmo não sendo cantora profissional, Hepburn se sai muitíssimo bem. Henri Mancini, famoso por ser o criador do tema da Pantera Cor-de-Rosa, afirmou ter criado a melodia de "Moon River" em apenas meia hora. O compositor chegou a afirmar que, mesmo a canção tendo sido regravada por inúmeros grandes cantores, a versão de Hepburn é imbatível. No premiadíssimo musical Minha Bela Dama (1964), a atriz também canta, mas é dublada por Marni Nixon. 
Divulgação
“Leva-se exatamente quatro segundos para ir daqui àquela porta. Te darei dois.”
Blake Edwards se consagrou fazendo comédias e é geralmente apontado como um dos grandes gênios do gênero. É dele a série da Pantera Cor-de-Rosa e filmes como Um Convidado Bem Trapalhão (1968) e Victor ou Victoria (1982). Edwards e o roteirista George Axelrod se apropriaram do drama nada palátável de Capote e o transformaram em dos filmes mais românticos da Hollywood clássica, cheio de humor e não isento de drama e pathos. Ainda que ajustada aos moldes de uma “bonequinha”, Holly continua sendo uma garota problemática e fascinante. Edwards e Axelrold transformaram a história de amor entre uma caçadora de fortunas desajustada e um gigolô em um conto de fadas ambientado em Manhattan.
Divulgação
“Nós somos iguais, eu e o gato. Um casal de pobres coitados sem nome.”
Ainda que uma versão menos otimista e mais fiel ao livro de Capote seja bem-vinda, não se pode negar que o clássico de 1962 é encantador. Muito do charme do filme vem do carisma de Audrey Hepburn, que cria uma heróina vibrante e inesquecível. Dificilmente Bonequinha de Luxo será citado nas famigeradas listas dos melhores filmes de todos os tempos, mas ele continua entre os favoritos de muitos cinéfilos apaixonados, tendo fãs que atravessam gerações. Provavelmente, mesmo o mais cínico espectador não resistirá à cena em que o gatinho de Holly (vivido por nove “atores” diferentes) é colocado na chuva. E talvez esse mesmo espectador até suspire ao ver o antológico beijo final. 
Divulgação
“Não quero colocá-la em uma jaula. Eu quero amá-la.”

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Clássicos da Cinemateca - Sonata de Outono (1978)


“Eu te amava, mamãe, era uma questão de vida ou morte, mas eu não confiava nas tuas palavras. Elas não expressavam o que os teus olhos diziam. Você tem uma voz linda, mamãe. Quando eu era criança, eu a sentia no meu corpo todo. Mas eu sentia que você não falava de coração. Eu não conseguia entender suas palavras.” 
Divulgação
“Eu a amava, mas você me achava repulsiva, burra e fracassada.”
Em 1978, o cineasta sueco Ingmar Bergman lançou um dos seus últimos filmes para o cinema, o premiado Sonata de Outono. Esta foi a única colaboração do diretor com a atriz Ingrid Bergman, também sueca, com quem não tinha nenhum parentesco apesar da homonimia. Ingmar é um dos maiores nomes do cinema mundial, com uma filmografia que não cessa de impressionar gerações sucessivas; Ingrid será para sempre lembrada como uma das maiores divas do cinema hollywoodiano, uma atriz sublime que tem também importantes trabalhos na Europa. O encontro desses dois ícones do cinema é abrilhantado pelo belíssimo texto de Ingmar Bergman e pela presença arrebatadora de Liv Ullmann.
Divulgação
“Eu era uma boneca com que você brincava quando tinha tempo.”
Sonata de Outono focaliza o reencontro entre Charlotte Andergast (Ingrid Bergman), uma célebre pianista, e suas duas filhas, Eva (Liv Ullmann) e Helena (Lena Nyman). Após anos de separação, Charlotte decide fazer uma visita a sua filha mais velha, Eva, e ao genro Viktor (Halvar Björk). Para a surpresa da pianista, ela encontra a filha mais nova sob os cuidados de Eva. Helena, deficiente física e mental, havia sido internada pela mãe em uma instituição de onde foi resgatada por Eva. O encontro entre Eva e Charlotte trará à tona diversas mágoas do passado. Eva, ferida pela negligência e pela indiferença maternal, confrontará sua mãe, alvo do seu mais puro amor e também do seu rancor, em um longo e doloroso desabafo.
Divulgação
“Você se trancava e trabalhava e ninguém podia atrapalhar. Eu ficava do lado de fora ouvindo. Quando parava para tomar café, ia ver se você existia mesmo.”
Sonata de Outono se passa em um espaço reduzido. A ação se concentra na casa de Eva e, em grande parte, em um cômodo desta casa. Ingmar Bergman enfatiza assim o caráter extremamente íntimo dessa história. O cineasta, com o auxílio de belos e recorrentes closes, parece penetrar as almas dessas duas mulheres, que se vêem repentinamente reféns do passado e reféns de sentimentos reprimidos por muito tempo. Gradualmente, invadimos a intimidade de Eva e Charlotte e descobrimos os fantasmas dessas personagens extremamente humanas.
Divulgação
“Seu cheiro era gostoso, mas estranho. Você era uma estranha já de partida. Você nem me via.”
À medida que o filme avança, Ingmar Bergman parece retirar as camadas que encobriam a essência da relação entre mãe e filha, até então, baseada em não-ditos. Gradualmente, o filme se torna urgente, como se as frustrações, as mágoas, os sentimentos das personagens estivessem por muito tempo guardados, esperando a ocasião certa para eclodirem. E essa explosão emocional se dá em uma conversa noturna entre mãe e filha, duas mulheres que nunca estiveram tão vulneráveis e tão expostas uma à outra. O embate é uma (con)fusão de sentimentos, misturados com recriminações, justificativas, verdades indesejadas. A conversa/desabafo das duas mulheres é alimentada por lembranças do passado e, através dos flashbacks, Ingmar Bergman reconstitui a história de uma relação disfuncional. Filmados geralmente em planos gerais, tais flashbacks ilustram a distância que era a base da relação entre Eva e Charlotte. 
Divulgação
“Você trazia livros pra mim, livros que eu não entendia. Eu lia, lia e lia, para depois discutirmos. Você falava e me dava um branco. Eu tinha medo que você fosse escancarar minha burrice.”
Em um momento de catarse, Eva manifesta todo o seu desajuste perante à figura materna. A personagem é tomada pelos ressentimentos da infância e da adolescência e se insurge contra a mãe, em um ato de coragem que dificilmente se repetirá. Ela se rebela assim contra o seu grande ídolo, manifestando os sentimentos contraditórios que a atormentam: o desejo de ser amada e o rancor profundo que continua a lhe torturar. Vivida magistralmente por Liv Ullmann (parceira habitual de Ingmar Bergman), Eva é uma personagem ferida pela indiferença materna. Seu desabafo é um pedido de explicação, um pedido de socorro a uma mãe auto-centrada e ausente. Ullmann expõe com sensibilidade toda a fragilidade de sua personagem, que também se culpabiliza por não poder despertar o amor e a admiração da mãe.
Divulgação
“Eu não percebia que a odiava, pois achava que nós nos amávamos. Eu não podia odiá-la e meu ódio se tornou um medo insano.”
Charlotte é uma mulher exuberante, bem-sucedida profissionalmente, mas que não apresenta uma verdadeira vocação maternal. A personagem é confrontada de uma maneira definitiva por sua filha e deve assim encarar seus fracassos como mãe e os efeitos que sua escolhas tiveram sobre a vida da filha. A fantástica Ingrid Bergman humaniza de uma maneira exemplar essa personagem complexa, racional e fria. Charlotte é uma mulher que se recusou a se reduzir ao papel de mãe e que colocou seus interesses pessoais, seu trabalho, na frente da maternidade. Ela se vê de repente obrigada a encarar o seu papel de mãe, um papel que ela procurou evitar por toda a vida. Charlotte é uma mulher do mundo que se preocupa sobretudo com as aparências das coisas. No entanto, ela também demonstra suas razões e suas motivações de uma maneira tal que julgá-la se torna difícil. Ao fim do filme, é possível imaginar que muito pouco irá mudar na relação entre ela e suas filhas.
Divulgação
“Quando eu não disser mais nada por vergonha… você poderá se explicar e eu ouvirei e entenderei como eu sempre fiz.”
A elegância e o preciosismo da direção de Bergman são sentidos na maneira com a qual o diretor compõe cada quadro, na maneira com que ele opõe as figuras das duas protagonistas, na forma com que a câmera se fixa nos rostos das duas mulheres, no uso da música de Chopin, na utilização do contraste e das cores outonais e nas escolhas da iluminação que permitem a criação de um ambiente sombrio, íntimo e melancólico. Sonata de Outonocomunica a cada instante, através dos silêncios, dos olhares, da música, das composições, das performances inspiradas de suas protagonistas, o drama da relação mais intensa e complexa que possa existir: a relação mãe e filho.
Divulgação
“Você conseguiu me ferir para o resto da vida, assim como você está ferida.”
Sonata de Outono é uma brilhante obra-prima, um rico estudo de personagens que se torna mais interessante e instigante à cada visualização. É um filme universal e atemporal, que continua relevante e desafiador, assim como os maravilhosos Gritos e Sussuros (1972),Persona (1966), O Sétimo Selo (1957), Morangos Silvestres (1957), outros clássicos de Ingmar Bergman. 
Divulgação
“Eu não me atrevia a ser eu mesma, nem quando estava sozinha, porque eu detestava tudo que era meu.”
Divulgação
“Você me escravizou porque queria o meu amor e você quer o amor de todo mundo.”