Mostrando postagens com marcador cinema japonês. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema japonês. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Clássicos da Cinemateca - Contos da lua vaga depois da chuva


“Tantas coisas aconteceram. Finalmente você se tornou o homem pelo qual eu esperava. Mas ai de mim… eu não estou mais entre os vivos. Acho que esse é o caminho do mundo.” 
Divulgação
“Esse seu amor é proibido. Você não ama sua esposa e filho? Você abriria mão da sua vida e os abandonaria também?”
Kenji Mizoguchi foi um dos primeiros grandes mestres do cinema japonês. Ele nasceu em Tóquio, em 1898. A infância e a adolescência do diretor foram marcadas por grandes dificuldades financeiras e traumas. Seu pai, carpinteiro de profissão, chegou a vender guarda-chuvas para os militares durante a guerra russo-japonesa. Aos 13 anos, Mizoguchi teve que abandonar a escola e virar aprendiz de farmacêutico no interior. Ele voltou para casa um ano depois, sofrendo de artrite degenerativa, doença que afetou sua maneira de andar pelo resto da vida.
Um dos acontecimentos que mais marcaram o jovem Mizoguchi foi a venda de sua irmã mais velha para uma casa de gueixas, quando esta era ainda adolescente. Foi essa mesma irmã quem cuidou dele e do irmão mais novo após a morte da mãe. Aos 18 anos, Mizoguchi começou a se interessar por diferentes manifestações artísticas: ópera, teatro e pintura. Antes de dirigir seu primeiro filme em 1923, ele trabalhou como designer publicitário em um jornal, como ator e como assistente de direção.
Divulgação
“Este mundo é uma residência temporária, onde vamos chorar até que a madrugada venha coberta pelas ondas.”
Mizoguchi dirigiu mais de 90 filmes ao longo de seus 33 anos de carreira. Entre as décadas de 20 e 30, ele chegou a dirigir mais de um filme por mês. No entanto, o diretor declarou que foi a maturidade dos quarenta anos que o fez realmente distinguir quais verdades humanas ele queria expressar em suas obras. Mizoguchi deu especial atenção, em seus filmes, ao papel da mulher na sociedade japonesa e, por essa razão, ele é considerado um diretor feminista. Muitas das heroínas dos filmes do cineasta são mulheres marginalizadas e sofredoras, como gueixas e donas de casa infelizes. Alguns biógrafos apontam que esse interesse em retratar a condição da mulher no Japão está relacionado às dificuldades e aos sofrimentos pelos quais passaram a mãe e irmã do diretor. 
O cineasta deixou uma extensa filmografia, ainda que muitos de seus primeiros filmes tenham se perdido. Mizoguchi morreu aos 58 anos, vítima de uma leucemia. A influência do diretor cruzou fronteiras e ele adquiriu em vida grande reconhecimento dentro e fora do Japão. Ele ganhou dois prêmios no Festival de Veneza e chegou a ser indicado à Palma de Ouro em Cannes. Seu estilo influenciou grandes diretores e ele era tido como referência pelos cineastas da Nouvelle Vague francesa. Jacques Rivette e Jean-Luc Godard, por exemplo, eram grandes fãs do diretor japonês. Dentre os filmes mais célebres do cineasta estão: As Irmãs de Gion(1936), Crisântemos Tardios (1939), O Intendente Sancho (1954), Olharu – A Vida de uma Cortesã (1952) e Os Amantes Crucificados (1954). O filme Contos da Lua Vaga (1953) é geralmente apontado como a sua maior obra-prima.
Divulgação
“Você não poderá retornar. Venha comigo para minha terra natal.”
Contos da Lua Vaga (ou Contos da Lua Vaga Depois da Chuva, tradução aproximativa deUgetsu Monogatari) é a adaptação de duas histórias presentesUgetsu Monogatari) é a adaptação de duas histórias presentes no livro de mesmo nome, escrito por Ueda Akinari, autor japonês do século 18. Uma das intrigas do filme, no entanto, é inspirada no contoDécoré! (1883) de Guy de Maupassant, escritor francês. O filme se passa no século 16, em meio às guerras civis japonesas. Genjurô vive com a esposa Miyagi e seu filho pequeno à beira do lago Biwa, na província de Omi. Ele faz potes de cerâmica para vender na cidade grande. Com esperança de ficar rico, ele decide iniciar uma grande produção de potes. Nessa empreitada, Genjurô conta com a ajuda de Tobei, seu vizinho e irmão, um homem obcecado pela ideia de virar samurai.
Após o ataque de soldados ao vilarejo onde moram, Genjurô e sua família, assim como Tobei e sua esposa Ohama, resolvem partir com as mercadorias para outra cidade. Temendo a ação de piratas, Genjurô decide deixar sua mulher e filho para trás, acreditando que eles estarão mais seguros. Ele promete voltar em breve para buscá-los. No entanto, chegando à cidade, Genjurô acaba por conhecer uma elegante e misteriosa mulher, Lady Wasaka, que o faz esquecer sua família. Enquanto isso, Tobei faz de tudo para virar um samurai, deixando também de lado sua mulher. Abandonada, Ohama é estuprada por um grupo de soldados e, depois, é obrigada a se prostituir para sobreviver. Ao longo do filme, acompanhamos o destino dos quatro personagens principais. Será que Genjurô e Tobei reencontrarão suas esposas?
Divulgação
“Eu não morri. Eu estou ao seu lado. Seus delírios chegaram ao fim. Você é novamente seu verdadeiro ‘eu’ no lugar onde pertence. Seu trabalho está esperando…”
A popularidade de Contos da Lua Vaga no ocidente foi impressionante na época de seu lançamento e nos anos que se seguiram. O filme contribuiu enormemente para aumentar o interesse do público ocidental pelo cinema japonês. Tudo indica que o clássico de Mizoguchi tenha feito mais sucesso internacionalmente que dentro do Japão. Vários críticos e cineastas louvaram a direção do filme e ele é tido, ainda hoje, como uma das maiores joias do cinema japonês. O filme é, de fato, primoroso em inúmeros aspectos. A cena inicial e a cena final do longa-metragem são, por exemplo, belas rimas visuais. Contos da Lua Vaga começa e termina com a imagem do vilarejo, que nos é revelado através do mesmo tipo de movimento de câmera.
Outras sequências são inesquecíveis. Uma das mais famosas é aquela em que os personagens principais viajam de barco pelo lago Biwa, em meio à névoa. A belíssima fotografia e o canto mórbido de Ohama fazem com que essa cena ganhe contornos oníricos e inquietantes. A direção de Mizoguchi continua a nos impressionar ao longo do filme. É admirável, por exemplo, a maneira com que ele representa o estupro. Ao invés de mostrar o acontecimento em si, ele focaliza alguns elementos laterais, como os sapatos da personagem jogados na areia, do lado de fora da casa. Essa é uma maneira de representar indiretamente o horror que ocorre entre quatro paredes.
O diretor explora brilhantemente o jogo de luz e sombras para representar o universo de Lady Wasaka. É interessante observar como a iluminação participa da construção da personagem. Na maioria das vezes, ela tem uma brancura fantasmagórica. Em outros momentos, ela parece se misturar à escuridão e mesmo flutuar. Todo envolvimento de Genjurô e Lady Wasaka é, por sinal, tratado com uma sensibilidade impressionante. A perda de referência temporal e a impressão de um universo paralelo são resultado das escolhas formais do diretor. O preciosismo de Mizoguchi dá ao fantástico e ao sobrenatural uma dimensão estética impressionante.
Em Contos da Lua Vaga, Mizoguchi combina magistralmente realismo social e o sobrenatural. No filme, Miyagi e Ohama são vítimas da ambição e da imprudência de seus maridos. Ainda assim, são as personagens mais fortes. Se Mizoguchi explora o fantástico através da figura de Lady Wasaka, ele faz prova de um realismo impiedoso, tanto na cena em que Ohama tenta se defender dos soldados, quanto naquela em que Miyagi tenta proteger sozinha seu filho pequeno e impedir o roubo de seu último alimento.
O desfecho de Contos da Lua Vaga é de um lirismo inigualável: uma emocionante reflexão sobre a morte e sobre a pós-morte. A obra-prima de Mizoguchi é uma aula de cinema.
Divulgação

quinta-feira, 21 de março de 2013

Clássicos da Cinemateca - Era uma vez em Tóquio


Kyoko: A vida não é decepcionante?
Noriko [sorrindo]: Sim, ela é.
Divulgação
"Vamos voltar para casa."
Yasujirō Ozu nasceu em 12 de dezembro de 1903 e faleceu exatamente sessenta anos depois, em 12 de dezembro de 1963. O cineasta japonês morreu de câncer dois anos após o falecimento de sua mãe, com quem ele morou durante toda a sua vida. Na sepultura que ele divide com ela, está escrito apenas o símbolo mu, que significa “nada”. Ozu nunca se casou, nunca teve filhos. Seus grandes filmes, no entanto, falam sobre casamento, família e relacionamentos. O diretor nos legou mais de 50 filmes, dos quais 35 mudos. Foi depois da Segunda Guerra Mundial, que Ozu dirigiu seus filmes mais famosos, como Pai e Filha (1949), Crepúsculo em Tóquio (1957), Também Fomos Felizes (1951), Ervas Flutuantes (1959) e A Rotina Tem Seu Encanto (1962). Era uma Vez em Tóquio (1953) é visto como sua maior obra-prima. O filme é considerado por diversos especialistas como um dos melhores filmes de todos os tempos e aparece em quase todas as listas desse gênero: terceiro na lista da Sight and Sound (votos dos críticos), primeiro em outra lista da mesma revista (votos dos diretores), sétimo na lista da Total Film, para citar apenas algumas. 
Divulgação
“A Mãe me contou quão boa você foi pra ela quando ela ficou na sua casa. Ela me disse que foi a noite mais feliz que passou em Tóquio.”
Apesar de ser visto, hoje em dia, como um dos maiores diretores de todos os tempos, Ozu só foi efetivamente descoberto pelo mundo ocidental nos anos 60, quando seus filmes começaram a ter uma maior exibição fora da Ásia. Era uma Vez em Tóquio, por exemplo, só estreou nos Estados Unidos em 1964. Outros mestres do cinema japonês, contemporâneos de Ozu, como Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi, tiveram um reconhecimento mais imediato fora de seu país. Ozu é celebrado pelo seu estilo único: o uso rigoroso da câmera estática na altura dos olhos de uma pessoa sentada num tatami (ou um pouco abaixo); a quase ausência de movimentos de câmera; um gosto refinado pela composição do plano, pelos efeitos de simetria; e a utilização do campo-contracampo que viola a regra dos 180º (regra de posicionamento de câmera que segue um eixo imaginário de 180º). 
Divulgação
“Às vezes penso que não posso continuar sozinha para sempre. Em outras ocasiões, passo a noite acordada pensando no que acontecerá se tudo continuar assim. Os dias passam e as noites vêm, e nada acontece, e sinto um pouco de solidão. Meu coração parece esperar por algo.”
O estilo de Ozu é inconfundível e, de uma certa maneira, anti-hollywoodiano (sabe-se que o diretor não era um grande fã do cinema norte-americano). O cinema de Ozu é um cinema realista, ancorado no quotidiano, nos pequenos acontecimentos do dia-a-dia. O diretor raramente usa a voz off em seus filmes. Quando um personagem fala, o vemos em cena. Em momentos de diálogo entre dois personagens, muitas vezes, ele prefere mostrá-los de costas para tê-los no mesmo plano. O corte não é desperdiçado no cinema de Ozu. A montagem é precisa, nada é em vão. Para o espectador que não está familiarizado com o cinema de Ozu, talvez seu estilo cause um estranhamento inicial, mas, uma vez que você adere ao universo do cineasta, dificilmente deixará de apreciar a beleza da sua arte. Não há sentimentalismo no cinema de Ozu, nada que seja excessivo. Mesmo assim, seus filmes nos tocam profundamente. Era uma Vez em Tóquio talvez seja aquele em que o diretor mais se aproxime do melodrama (ainda que mantenha uma boa distância). Esse é um dos filmes mais sentimentais do diretor. 
Divulgação
“Ela não vai sobreviver… Então, este é o fim.”
Era uma Vez em Tóquio conta a história de um casal de idosos, Tomi e Shukichi (interpretados pelos maravilhosos Chieko Higashiyama e Chishu Ryu), que moram numa pequena cidade no Japão e que fazem uma longa viagem a Tóquio para visitarem seus dois filhos mais velhos, já casados. A estadia na capital japonesa, no entanto, não se dá como o casal esperava. Os filhos não têm tempo para passar com eles, já que estão muito envolvidos com suas próprias ocupações. Após alguns dias, Tomi e Shukichi são enviados para um centro termal em Atami, perto do mar. Essa é a alternativa encontrada pelos filhos mais velhos para não terem que se preocupar com os pais e evitarem maiores gastos. A estadia no spa, no entanto, é desgastante para o casal, devido aos outros hóspedes barulhentos. O casal decide, então, voltar para casa antes do previsto.
A única pessoa que se mostra gentil e acolhedora com os idosos durante a estadia em Tóquio é Noriko, viúva de um dos filhos do casal, morto na guerra. Noriko é interpretada pela encantadora Setsuko Hara, estrela do cinema japonês. O sorriso da personagem, um misto de bondade e dor, é apaixonante e de cortar o coração. Hara protagonizou outros filmes de Ozu, como Pai e Filha e Também Fomos Felizes. O ator Chishu Ryu é outro parceiro habitual de Ozu, presente em vários filmes do diretor.
Divulgação
“Mas que belo amanhecer. Temo que teremos mais um dia quente hoje.”
Era uma Vez em Tóquio é um filme que permanece, mesmo quando acaba. Ele nos habita por muito tempo. A obra-prima de Ozu nos faz refletir sobre a efemeridade da vida, sobre os relacionamentos, sobre o tempo que passa, sobre a morte. Esse clássico do cinema mundial é de fato universal e atemporal. 
Divulgação
“Ela era uma mulher de cabeça dura, mas se eu soubesse que as coisas ficariam assim, eu poderia ter sido um pouco melhor para ela”.