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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O cinema de Agnès Varda


É este o meu projeto: filmar minha mão, com minha outra mão. Entrar no horror. Acho isso extraordinário. Tenho a impressão que sou um animal. Pior: sou um animal que eu não conheço!”
Os Catadores e Eu (2000)
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Agnès Varda no início da carreira. 
Agnès Varda nasceu em Bruxelas, em 1928, mas foi na França que consolidou seu trabalho como cineasta. Em mais de 50 anos de carreira, Varda construiu um belo percurso cinematográfico e, aos 84 anos, é o maior expoente feminino do cinema francês. Sua formação inicial foi em Belas Artes, tendo estudado pintura na escola do Louvre. Seu primeiro trabalho foi como fotógrafa. Da pintura e da fotografia, Varda herdou o olhar de esteta e o gosto pela composição, que estarão presentes em toda a sua obra. Incansável e curiosa, Varda logo se interessou pelo cinema, já que a fotografia lhe parecia um tanto quanto “muda”. Tendo como mentor o diretor Alain Resnais, ela aprenderia rapidamente o métier.
A estreia de Agnès Varda no cinema não poderia ser melhor. Em 1955, ela lança La Pointe Courte, um belo longa-metragem que desafia os códigos da narração. Nesse filme, tido como precursor da Nouvelle Vague, Varda justapõe dois fios narrativos diferentes e sem relação entre si e, através da montagem, ela cria analogias entre esses dois universos distintos. Ainda jovem e inexperiente, Varda seria vista, para sua própria surpresa, como uma das grandes pioneiras da Nouvelle Vague, ainda que nunca tenha feito parte desse grupo. 
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Agnès Varda em Os Catadores e Eu (2000)
A partir do seu primeiro sucesso, Agnès Varda construiu uma carreira extremamente prolífica e eclética. Entre curtas e longas-metragens, ela realizou documentários por encomenda, comoO saisons, ô châteaux (1958), projetos mais pessoais, como os magníficos Os Catadores e Eu(2000) e As Praias de Agnès (2008), e filmes de ficção, como os clássicos As Duas Faces da Felicidade (1965) e Cléo das 5 às 7 (1962), sem nunca renunciar à sua liberdade criativa e sem jamais se curvar ao cinema comercial. Uma das características mais interessantes da filmografia de Agnès Varda é a maneira com que a cineasta alia a prática documentarista, com uma abordagem mais realista, e a prática ficcionalista. Assim, existe algo de documentário em seus filmes de ficção, como existe algo de construção ficcional em seus documentários.
Um dos filmes mais instigantes de Agnès Varda, que merecerá atenção especial nesta coluna, é Sem Teto Nem Lei (1985), longa-metragem de ficção. O script inicial do filme tinha duas páginas. Segundo a cineasta, a inspiração para o projeto veio do inverno e daqueles que estão expostos a ele, sem abrigo. O filme conta a história de Mona, uma jovem recém-saída da adolescência, que adota um estilo de vida nômade e que, com sua tenda, segue um caminho errante no sul da França, encontrando várias pessoas pelo caminho. Sem Teto Nem Lei é um verdadeiro mosaico de pontos de vista, com uma estrutura episódica, organizada a partir dos encontros feitos pela protagonista. A estrada é o cenário principal do filme e o habitat natural de Mona. Varda exibe paisagens de uma França não glamurizada, por vezes decadente e cinzenta.
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Sandrine Bonnaire como Mona, em Sem Teto Nem Lei (1985)
O filme se inicia já com a morte da protagonista e, através de um longo flashback, acompanhamos os últimos momentos da vida de Mona. O filme é organizado em torno dos testemunhos dados pelas pessoas que conheceram a personagem (o que o aproxima do documentário); de 12 belos travellings que atravessam a narração; e da ação propriamente dita. A heterogeneidade formal e a descontinuidade geram uma tensão na estrutura narrativa do filme, que foge do convencional.
Além de ser narrativamente e tecnicamente um filme curioso e instigante, Sem Teto Nem Lei é enriquecido pela presença de sua protagonista. Mona é uma figura completamente marginal, uma anti-heroína difícil, senão impossível de se definir. O filme parece responder à questão: como representar um personagem que se recusa a se revelar? Mona é uma figura sem lugar no mundo, trágica, arredia, enigmática, contraditória, antipática. Grande parte do charme dessa bela personagem está no seu caráter insondável. Varda parece criar um verdadeiro mito, uma figura da qual só podemos nos aproximar através do discurso dos outros. Na pele da fascinante Mona, temos a bela e talentosa atriz Sandrine Bonnaire.
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Agnès Varda, em cena de As Praias de Agnès (2008)
Sem Teto Nem Lei é apenas um exemplo do quão interessante e único é o cinema de Varda. Cada filme dessa cineasta é uma descoberta que mobiliza a inteligência e a sensibilidade do espectador. Agnès Varda é uma grande desbravadora do Outro. Esse Outro, por vezes, é ela mesma como podemos ver nos tocantes As Praias de Agnès e Os Catadores e Eu. O cinema de Varda, seja de documentário ou ficção, é um retrato sensível e, por vezes poético, do mundo real e de pessoas reais.
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Mulheres Diabólicas - 1995

Título original: La cérémonie
Lançamento: 1995
País: França
Diretor: Claude Chabrol
Atores: Isabelle HuppertSandrine Bonnaire, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Virginie Ledoyen
Gênero: Drama/Suspense


Sophie (Sandrine Bonnaire) e Jeanne (Isabelle Huppert) - Uma amizade funesta.


Em 12 de setembro de 2010, morreu Claude Chabrol aos 80 anos. Recém chegado a Paris, pude presenciar a grande comoção que a morte do cineasta provocou nos franceses, provando que talvez ele tenha sido o diretor mais popular dentre os gigantes da Nouvelle Vague. Assim como GodardTruffautRohmer e Rivette, Chabrol participou do movimento de renovação do cinema francês nos anos 50, sendo um dos grandes nomes da influente Nouvelle Vague. Em mais de 50 anos de carreira, o prolífico Chabrol dirigiu mais de 50 longas-metragens para o cinema, além de diversos trabalhos para a televisão e curtas-metragens. O cineasta se notabilizou por um gênero em particular: o suspense. Mulheres Diabólicas (1995) é considerado um de seus melhores trabalhos, ao lado de O Açougueiro (1970), A Mulher Infiel (1969) e Um Assunto de Mulheres (1988). O filme é também a terceira de sete parcerias do diretor com uma de suas atrizes favoritas, a talentosíssima e multipremiada Isabelle Huppert. 

Mulheres Diabólicas conta a história da jovem Sophie, que é contratada para trabalhar como empregada na mansão de uma família abastada, no interior da França. A dona da casa, Catherine Lelievre (Jacqueline Bisset), deposita grande confiança em Sophie e fica impressionada com a eficiência da jovem e com sua personalidade austera e reservada. A empregada, no entanto, guarda alguns segredos, como o fato de ser analfabeta. Rapidamente, Sophie faz amizade com Jeanne (Isabelle Huppert), moça espontânea e extrovertida, que trabalha no correio da pequena cidade e que não se dá nada bem com Georges Lelievre (Jean-Pierre Cassel), marido de Catherine. Jeanne e Sophie têm algo em comum, ambas foram consideradas suspeitas de assassinato no passado, mas eventualmente inocentadas por falta de provas.

A versão brasileira do título original (La Cérémonie - A Cerimônia) pode ser considerada um pequeno spoiler, uma vez que revela algo que é apenas insinuado durante grande parte do filme. Certamente, um dos grandes charmes da obra de Chabrol é o de construir uma aura estranha em torno das duas protagonistas sem, no entanto, revelar a verdade sobre elas. A banalidade do enredo se contrapõe à sensação de perigo iminente, o que faz do filme uma experiência deliciosamente instigante. A presença de Sophie é inquietante. Monossilábica, fria, estranha, a personagem parece não ser dotada de qualquer traquejo social, impondo uma distância a todos em sua volta, com exceção de Jeanne. É interessante perceber como Catherine tenta estabelecer uma relação afetuosa com a empregada através do contato físico, que é recebido com indiferença. Jeanne, por sua vez, parece o oposto de Sophie, falastrona, espaçosa, bisbilhoteira, ela carrega a energia extra que parece faltar na empregada. Um elemento quase sobrenatural parece atrair essas duas mulheres solitárias, que se tornam cúmplices e amigas. Intuitivamente, elas reconhecem, uma na outra, o mesmo potencial psicopata. Além disso, é possível também perceber um homoerotismo entre as duas personagens.  

A relação das duas protagonistas é construída de maneira magistral por Chabrol (que também é responsável pelo roteiro ao lado de Caroline Eliacheff). Jeanne insere o caos na vida de Sophie, que o aceita sem a mínima luta. Jeanne despreza as regras sociais. Nada a seduz mais que a transgressão. Além disso, ela nutre um misto de ódio, desprezo e inveja pela família Lelievre, perfeito modelo da feliz família burguesa. Tudo nos leva a crer que a aproximação de Jeanne a Sophie é arquitetada pela primeira, como uma maneira de se inserir na realidade dos Lelievre. Sophie se entrega à manipulação e, sem nenhuma resistência, entra no perigoso jogo da nova amiga. Ao longo da trama, as duas mulheres parecem se mimetizar, usando, inclusive, o mesmo penteado. Mas não se engane: Sophie nada tem de vítima ou inocente. É interessante perceber, por exemplo, que enquanto sua comparsa revela um pouco de seu passado, Sophie nada expõe de seu mistério, revelando-se, ao final, tão ou mais perigosa que Jeanne. 

Chabrol sempre revelou uma visão ácida da burguesia. Em Mulheres Diabólicas, ele faz uma pintura muito interessante da diferença de classes. Os Lelievre são figuras cheias de boas intenções, com uma rotina perfeita, uma casa deslumbrante e cujo programa de família é se reunir para ouvir ópera. A mansão em que vivem se contrasta com o modesto e diminuto apartamento de Jeanne, que é tomada por um sentimento de injustiça social latente. O espectador tende a se identificar com as protagonistas e não com a família, uma vez que o filme adota o ponto de vista das mulheres. O longa-metragem pode ser encarado como uma alegoria de uma "vingança social". 

O que seria de Mulheres Diabólicas sem seu ótimo elenco? Sandrine Bonnaire (que tem um rosto lindo e marcante) faz um trabalho impressionante. Uma atuação é magistral quando a personagem parece ter vida própria, se revelando maior que a ficção. A intensidade do olhar de Bonnaire e a precisão de sua interpretação fazem de Sophie uma personagem fascinante e assustadora. A performance contida da atriz se contrapõe maravilhosamente à exuberância de Isabelle Huppert, que nos oferece uma atuação cheia de vida e energia. Completando o elenco, temos a belíssima Jacqueline Bisset, que encarna com naturalidade e elegância a refinada Catherine, e o veterano Jean-Pierre Cassel, também excelente. 

Mulheres diabólicas ainda conta com a sombria trilha sonora de Matthieu Chabrol (filho do diretor) e com um final inesquecível, carregado de humor negro, ironia e um tom quase surrealista. Neste filme, Chabrol comprova ser um mestre do thriller, compondo uma narrativa instigante e inquietante. 

Assista ao trailer: