segunda-feira, 30 de julho de 2012

Clássicos da Cinemateca - Uma Rua Chamada Pecado (1951) - PARTE 2


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O elenco da versão fílmica: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden.
O elenco de Uma Rua Chamada Pecado é o mesmo que Kazan dirigiu na Broadway, com exceção de Vivien Leigh. A atriz britânica já havia interpretado Blanche Dubois em Londres, em 1949, em uma montagem dirigida por seu marido, Laurence Olivier. Na Broadway, a personagem foi interpretada por Jessica Tandy. Tandy é lembrada, sobretudo, pelos seus últimos trabalhos no cinema, com destaque para Conduzindo Miss Daisy (1989) e Tomates Verdes Fritos (1991). Ao contrário de Leigh, ela jamais foi uma estrela de cinema. Jack Warner e o produtor Charles K. Feldman sentiam a necessidade de ter um nome de peso encabeçando o elenco; alguém que atraísse uma boa bilheteria. Antes de ser oferecido a Leigh, o personagem foi proposto a sua colega de E o Vento Levou (1939), Olivia de Havilland, mas as exigências da atriz impossibilitaram as negociações. Em uma entrevista, o ator Karl Malden afirmou que foi justamente a inclusão de Leigh no elenco que possibilitou que ele e os outros atores (desconhecidos do grande público até então) participassem do filme.
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Tennessee Williams e Elia Kazan.
Uma das coisas que inquietava Kazan com relação à peça era que o público se identificava muito mais com o personagem de Stanley do que com Blanche, ou seja, os espectadores amavam mais o carrasco do que a vítima. Isso ocorria, em grande parte, por causa do extraordinário desempenho de Marlon Brando, que parecia ofuscar Tandy. Em sua autobiografia, o diretor manifesta sua preocupação:
“A peça estava se transformando em um show de Marlon Brando. Eu evitava tocar no problema, porque eu não conhecia uma solução. Eu não poderia deixar que os atores percebessem minha inquietação. O que eu poderia dizer a Brando? Para ele ser menos bom? E a Jessie [Jessica Tandy]? Para ser melhor? Não, eu corria o risco de obter um resultado destrutivo, ainda mais para Jesssica”.
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Cena da peça na Broadway. Em primeiro plano, Jessica Tandy. Ao fundo, Marlon Brando e Kim Hunter.
Com essas questões o atormentando, Kazan recorreu a Tennessee Williams para saber o que, de fato, o público deveria sentir com relação aos dois protagonistas. O dramaturgo afirmou, então, que o público deveria sentir compaixão e piedade por Blanche, compreendendo o drama da personagem. Williams acrescentou que Stanley não deveria ser, no entanto, mostrado como um monstro. Para o autor, não é uma pessoa (Stanley) que destrói Blanche e, sim, uma “coisa”, a incompreensão:
“Stanley não vê Blanche como um ser à deriva, desesperado [...]. Uma pessoa jamais vê as outras como elas realmente são; julgamos o outro sob a luz dos nossos próprios defeitos”.
Quando finalmente aceitou dirigir Uma Rua Chamada Pecado no cinema, Kazan viu que esta era a oportunidade de explorar o personagem de Blanche, algo que ele sentia que faltara à peça. No filme, por exemplo, Blanche é a primeira personagem que vemos surgir em cena, algo que não ocorria nos palcos. Focalizar Blanche e seu universo era o desafio que animava Kazan ao trabalhar novamente com o mesmo texto. A substituição de Tandy também lhe pareceu, eventualmente, interessante, ainda que ele nutrisse grande afeição pela atriz:
“Para ser bastante franco, hoje, com um distanciamento, não tenho certeza de que, eu mesmo, não queria uma atriz diferente para o papel de Blanche. A peça tendo perdido o frescor para mim, eu tinha necessidade de um eletrochoque para me colocar nos trilhos”.
Sem dúvida, a chegada de Leigh foi um choque e tanto para o diretor.
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Vivien Leigh recebeu seu primeiro Oscar em 1940, por E o Vento Levou.
Leigh teve um percurso interessante no cinema. Após protagonizar E o Vento Levou (1939), um dos filmes mais populares de todos os tempos, e conquistar, merecidamente, fama mundial, a atriz optou por se dedicar ao teatro na Inglaterra, ao invés de permanecer sob os holofotes de Hollywood. Doze anos separam E o Vento Levou de Uma Rua Chamada Pecado. Nesse meio tempo, Leigh fez somente quatro filmes, apenas um deles em Hollywood. Mesmo não sendo uma figura recorrente nas telonas, o público americano jamais a esqueceu. Em 1969, o crítico Andrew Sarris comentou esse fenômeno. Segundo ele, a escalação da atriz como Scarlett O’Hara, no clássico de 1939, é um dos fatores responsáveis pelo imenso sucesso do filme e que Leigh vive em nossas mentes e lembranças como uma força dinâmica, ao invés de uma presença estática”. Uma das ironias apontadas por muitos é que os dois grandes personagens da carreira da atriz no cinema são southern belles (belas do sul norte-americano), sendo que a atriz era britânica. 
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Vivien Leigh como Scarlett e como Blanche.
A sombra de Scarlett O’Hara traz uma densidade ainda maior à Blanche Dubois. Além das duas personagens interpretadas por Leigh serem sulistas, Belle Rêve (fazenda de Blanche) evoca Tara (propriedade de Scarlett). Blanche parece refletir a imagem de uma Scarlett decadente, que carrega as marcas da desilusão e do tempo. Florence Colombani, escritora, crítica de cinema e cineasta, afirma, em sua obra Elia Kazan: Une Amérique du chaos (2004),que "explorando a memória inconsciente do espectador, Kazan dá uma espessura dramática excepcional a seu filme". Ela acrescenta“a lenta queda de Blanche e seu calvário se tornam ainda mais pungentes, pois são o calvário e a queda de alguém que o público ama e conhece”. O trágico fim de Blanche é, portanto, ainda mais dilacerante já que nossa memória afetiva guarda a imagem da altiva e exuberante Scarlett. 
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Elia Kazan dirigindo Vivien Leigh e Kim Hunter.
A relação de Leigh e Kazan foi bastante complicada durante as filmagens de Uma Rua Chamada Pecado. O principal motivo de conflito entre a atriz e o diretor era a resistência da primeira às orientações do segundo. Leigh questionava sucessivamente as escolhas do diretor, comparando a direção de Kazan àquela de Laurence Olivier. Alguns fatores contribuíram para um mal-estar nos sets: a atriz era a única estrangeira, a única integrante do elenco que não havia participado da montagem na Broadway e que não tinha, portanto, familiaridade com os colegas. Além disso, Leigh não era adepta do Método (conjunto de técnicas de atuação associadas ao Actor’s Studio), o que fazia dela uma completa estranha no ninho. Reza a lenda que o diretor, percebendo o deslocamento da atriz, utilizou-o para acentuar o deslocamento de sua personagem na trama. Com o passar do tempo, Leigh e Kazan encontraram uma maneira de conviver, mas a animosidade continuou. Em sua autobiografia, Kazan morde e assopra ao falar da atriz:
“Ela [Vivien Leigh] tinha um pequeno talento, mas sua determinação de ser a melhor era incomparável. Ela andaria sobre cacos de vidro se isso fosse necessário para melhorar sua atuação”.
Dificilmente um reconheceria no outro o grande talento que, de fato, tinham, já que cada um possuía experiências e valores bem distintos no que tangia a formação artística: Leigh era filha do teatro clássico e Kazan foi um dos precursores do Método nos Estados Unidos.
O contraste entre teatralidade de Leigh e o realismo privilegiado por seus colegas é um dos pontos fortes do filme. Marlon Brando chegou a afirmar que a atuação da atriz britânica era superior àquela de sua ex-colega Jessica Tandy, algo que Kazan jamais admitiu. Leigh consegue transmitir magistralmente a inadequação de sua personagem ao mundo real e toda a complexidade do universo mental da protagonista. Blanche Dubois é um ser tão frágil que, muitas vezes, parece se revestir de uma personagem e de uma ilusão para poder enfrentar a vida e as pessoas a sua volta, como se fosse uma atriz em um palco. Por essa razão, às vezes, seus gestos e voz parecem tão artificiais. Quando ela se vê abatida pelo real, vemos a transformação e a desfiguração de Leigh. 
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Vivien Leigh tinha 36 anos quando interpretou Blanche.
Pauline Kael, em sua famosa crítica, afirmou que Leigh nos oferece uma dessas raras performances que verdadeiramente evocam piedade e terror e que ninguém, após Lilian Gish, nos primórdios do cinema, transmitiu tamanha vulnerabilidade e fragilidade feminina como Leigh o fez em Uma Rua Chamada Pecado. A atriz nos faz testemunhar a jornada de uma mulher em direção à loucura, nos revelando uma alma atormentada por ilusões e massacrada pela realidade. O trágico fim de Blanche encontra eco na vida pessoal da atriz. Posteriormente, a atriz teve dificuldades de se distinguir de Blanche. Alexander Walker, autor da biografia de Leigh, conta um episódio revelador da vida da atriz, que sofria de depressão e de transtorno bipolar. Em uma de suas crises, anos após Uma Rua, ela foi interpelada por uma enfermeira que disse para acalmá-la: Eu te reconheço, você é Scarlett O’Hara, ao que ela retrucou, furiosa: Eu não sou Scarlett O’Hara, sou Blanche Dubois!
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Marlon Brando e Vivien Leigh fumando no set de filmagem.
Como bem disse Pauline Kael, Uma Rua Chamada Pecado veicula o encontro de duas das maiores atuações vistas no cinema. Contrapondo-se brilhantemente a Leigh, o Stanley Kowalski de Brando é uma força da natureza. Em seu segundo filme, o ator opera uma revolução na forma de se atuar no cinema. Nenhum ator que o precedeu mostrou tamanha brutalidade, sensualidade, sex appeal e realismo em cena. Há algo de extremamente animalesco e fascinante na performance de Brando, algo que nos faz sentir repulsa pelo personagem, sem, no entanto, deixarmos de nos sentir atraídos por ele.
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Uma Rua Chamada Pecado foi o segundo filme de Marlon Brando. Ele tinha 27 anos quando o filme foi lançado.
Kazan manteve um rico diário sobre Uma Rua Chamada Pecado. Suas anotações revelam diversas reflexões interessantes sobre o seu trabalho. Talvez seja dele a melhor definição para o filme/peça:
 
“Esta obra é uma tragédia poética. Nós somos testemunhas da decadência final de uma pessoa de valor que, em um dado momento de sua vida, tem um grande potencial e que, mesmo em seu declínio, possui qualidades que superam aquelas dos ‘sãos’ e rudes que a destroem”.

O filme de Kazan é sem dúvida uma obra-prima, resultado de encontros insólitos e de um conjunto de golpes de sorte: o filme poderia não ter saído do papel se não fosse graças a Jack Warner; Kazan poderia não ter dirigido o filme se não fosse pela intervenção de Tennesse Williams; o filme poderia ter sido fatalmente amputado por causa da censura; Leigh poderia não ter participado, caso Olivia de Havilland tivesse aceitado o papel; etc, etc, etc. O filme, ainda nos dias de hoje, se revela um ousado retrato do combate entre a ilusão e a realidade, entre a sanidade e a loucura e entre o desejo e a morte.

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Em 2007, o American Film Institute classificou o filme em 47º lugar na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos. 


TEXTO DE MINHA AUTORIA, PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 28/03/2012 NA COLUNA CINEMATECA, DO SITE CINEMA EM CENA. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Clássicos da Cinemateca - Uma Rua Chamada Pecado (1951) - PARTE 1


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Disseram-me que eu tomasse um bonde chamado Desejo, depois passasse para outro chamado Cemitério...” 
A vida de Blanche Dubois é marcada pela morte, pelo desejo e pela tragédia. Allan, marido de Blanche, se suicidou ainda muito jovem, deixando-a dilacerada pela culpa e pela solidão. Após perder todas as propriedades da família e ser demitida da escola onde trabalhava, por ter se envolvido com um aluno adolescente, Blanche só tem uma opção: hospedar-se por algum tempo na casa de sua irmã, Stella, e de seu cunhado, Stanley Kowalski, em Nova Orleans, Estados Unidos. Sua estadia, no entanto, perturbará a harmonia do apaixonado casal. Por um breve momento, Blanche vê a chance de encontrar sua salvação através do amor, mais eis que seu passado maculado e o ódio de Stanley entram em seu caminho. Essa é uma maneira de resumir a trama de Uma Rua Chamada Pecado (1951). Existem outras. O filme é centrado em dois opostos. Blanche é uma representante do antigo sul americano, agrícola e rural, Stanley é um membro da classe industrial, legítimo fruto da cidade grande. Ela representa um mundo que está desaparecendo, ele a modernidade. Ela depende da bondade de estranhos, ele faz a sua própria sorte. Ela é presa, ele é predador. Ela é frágil, ele a destrói. Pauline Kael, crítica americana, afirmou que, em Uma Rua Chamada Pecado, encontramos duas das maiores atuações do cinema. Ela se referia a Vivien Leigh e Marlon Brando, intérpretes de Blanche e Stanley.
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"Não quero realismo. Eu quero magia.”
O título nacional de Uma Rua Chamada Pecado é a versão escolhida pelos distribuidores brasileiros para Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire), título original do filme e da peça que o inspirou. A palavra “pecado” faz, obviamente, referência à moral cristã, às ideias de transgressão e culpa.  No entanto, a peça de Tennessee Williams e o filme de Elia Kazan não focalizam o pecado e, sim, o “brutal desejo”.  A substituição dos nomes no Brasil exemplifica muito bem o tipo de dificuldades que o longa-metragem impôs à censura americana. O script do filme teve que sofrer diversas alterações. Duas delas extremamente importantes: no cinema, a homossexualidade do marido de Blanche Dubois foi substituída por uma fraqueza de caráter, uma alma poética e uma dificuldade de enfrentar a vida real. A atriz britânica Vivien Leigh chegou a apontar o absurdo da mudança quando leu, pela primeira vez, a cena modificada, dizendo: “Eu devo culpá-lo por ele ser um poeta?” Na peça, Blanche surpreendia seu marido na cama com outro homem, o que o levou, humilhado e envergonhado, a se suicidar. Outra alteração drástica na transposição da peça para o cinema é o final da história. Na peça, Stella não se separa de Stanley Kowalski, escolhendo não acreditar na acusação de estupro feita por sua irmã, Blanche. No filme, ela jura nunca mais voltar para o marido. O final hollywoodiano é, portanto, moralizador: o mal deve ser punido.
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“Sim, eu tive muitos encontros com estranhos.”
O infame Código Hays, que regulamentava a censura nas produções norte-americanas, esteve em vigor de 1930 até 1968, se enfraquecendo após os anos 50. Alguns produtores, como Darryl F. Zanuck, chegaram a desistir da realização de Uma Rua Chamada Pecado, pois já anteviam graves problemas com a censura.  O poderoso Jack Warner, no entanto, assumiu a responsabilidade de fazer o filme virar realidade a despeito de seu conteúdo “desafiador”. Tudo relativo ao script deveria ser submetido a um comitê que analisava o que era aceitável ou não. Kazan tentou maquiar ao máximo alguns aspectos do roteiro submetido, tentando burlar a censura. Ele sabia que se determinados cortes fossem feitos, a história perderia completamente a sua essência. Quando, finalmente, todas as mudanças no script foram negociadas, o filme rodado e aprovado pelo Código Hays, um novo problema surgiu à tona.
A famosa cena da escada.
A Legião da Decência, criada em 1933 por fiéis católicos, ameaçou dar o status “C” (de “condenado”) ao filme, ou seja, a obra seria desaconselhada aos católicos e, provavelmente, muitos cinemas se recusariam sequer a passá-lo. Muito dinheiro já havia sido investido no filme e Jack Warner teve que se comprometer a fazer alterações de última hora. Tais mudanças ocorreram sem o consentimento e a supervisão de Elia Kazan e consistiam basicamente na decupagem de algumas cenas. Muitos momentos considerados provocativos ou inaceitáveis foram retirados. A famosa cena na escada sofreu muitas alterações: Alex North, compositor do filme, teve que criar um novo tema musical, substituindo sua partitura original, considerada muito sensual e “carnal”. Além disso, a cena foi montada de maneira diferente. Os closes sobre o rosto de Stella (Kim Hunter) foram retirados, pois eles revelavam sua expressão tomada pelo desejo. Muitos outros cortes dessa natureza foram feitos e o filme pôde estrear nos cinemas com o status “B” (objecionável em partes). Posteriormente, foram achados os negativos originais do filme e, hoje, temos a sorte de poder assistir ao clássico da maneira como ele foi concebido por Elia Kazan, com cerca de quatro minutos a mais de duração do que a versão lançada nos cinemas em 1951.
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"E eu sou o rei aqui dentro, é bom que não se esqueçam disso.
Nem a interferência da censura conseguiu retirar tudo que Uma Rua Chamada Pecado tinha de provocativo, audacioso e inovador. Na época de seu lançamento, o filme representou um verdadeiro choque. Primeiramente, por contar a história de personagens ambíguos, indivíduos movidos pela paixão e pela libido, escravos de pulsões irresistíveis e contraditórias. O próprio conteúdo da trama era polêmico, uma vez que fazia menção a alguns assuntos tabus, como o estupro e a pedofilia. Por fim, o filme chocou ao apresentar um Marlon Brando extremamente sensual e viril (o corpo masculino jamais havia sido mostrado daquela maneira). 
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“Pensando bem, talvez não fosse mau... interferir com você...” 
Mesmo sendo considerado, por muitos, escandaloso, o filme foi bem recebido pela crítica. Vivien Leigh levou a Volpi Cup de Melhor Atriz no Festival de Veneza e também o BAFTA. O filme ainda foi indicado a três Globos de Ouro e lembrado por outras associações de críticos dos Estados Unidos. Uma Rua Chamada Pecado foi indicado a 12 Oscars, tendo levado quatro estatuetas: Melhor Atriz (Vivien Leigh), Melhor Ator Coadjuvante (Karl Malden), Melhor Atriz Coadjuvante (Kim Hunter) e Melhor Direção de Arte em Preto e Branco (Richard Day e George James Hopkins). Até hoje, este é, ao lado de Rede de Intrigas (1976), o único filme premiado pela Academia em três categorias de atuação. Por justiça, deveria ter sido premiado nas quatro, uma vez que o indicado Marlon Brando, que ofereceu uma atuação revolucionária, acabou perdendo para Humphrey Bogart, premiado muito mais pela carreira do que por sua performance em Uma Aventura na África (1951). 
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“O charme de uma mulher é 50% ilusão.”
Tennessee Williams (1911-1983), autor da peça Uma Rua Chamada Pecado, é um dos dramaturgos norte-americanos mais importantes e influentes do século 20. Ele é superado apenas por William Shakespeare, em termos de adaptação para o cinema. Outras peças famosas do autor, transpostas para as telonas, são: Gata em Teto de Zinco Quente (1958), De Repente, no Último Verão (1959), A Rosa Tatuada (1955) e Doce Pássaro da Juventude (1962).Além de Elia Kazan, outros grandes diretores adaptaram peças de Williams para o cinema. Podemos citar: Sidney Pollack, Sidney Lumet, Joseph L. Mankiewicz e Richard Brooks.  Assumidamente homossexual, em uma época em que poucos o eram, Williams tinha preferência por assuntos considerados tabus. Em suas peças, ele abordava a sexualidade, a loucura, o alcoolismo, a morte, a dificuldade de comunicação etc. Seus personagens são seres perturbados, imperfeitos, desajustados, marcados pelo trauma, pela dor e em busca da redenção. 
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“Você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe.”
Tennessee Williams e Elia Kazan nutriram uma longa amizade, marcada pelo respeito e pela admiração mútua. Kazan (1909-2003) dirigiu diversas peças de Williams no teatro, incluindoUma Rua Chamada Pecado, que estreou na Broadway em 1947. O diretor, grego de nascimento, não queria, de maneira alguma, se incumbir da adaptação fílmica. Ele acreditava que já havia alcançado tudo o que podia com a peça no teatro. Foi através da insistência de Williams que ele aceitou dirigir o longa-metragem. O cineasta tem um recorde bastante curioso: ao longo de sua carreira, ele dirigiu 21 atuações indicadas ao Oscar! 
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“Hey, Stella!”
O roteiro de Uma Rua Chamada Pecado ficou sob a responsabilidade do próprio Tennessee Williams e de Oscar Saul. Com exceção das mudanças exigidas pela censura, muito pouco do texto original foi alterado. Um dos aspectos mais elogiados e lembrados do filme é a sua trilha sonora, um dos elementos responsáveis por conferir uma aura de sensualidade à trama. Para a música do filme, Elia Kazan apostou em Alex North, um compositor pouco experiente até então. North compôs uma trilha sonora fortemente influenciada pelo jazz, uma inovação para a época. A trilha de North para Uma Rua Chamada Pecado é considerada uma das mais bonitas e influentes de todos os tempos. 
Ouça um trecho da trilha composta por Alex North..
Em sua autobiografia, Elia Kazan: Uma Vida, o diretor fala sobre sua experiência em dirigir a peça e o filme.  A leitura dessas passagens é interessante, pois revela algumas das reflexões de Kazan sobre sua maneira de trabalhar e suas dificuldades e desafios, tanto nos palcos, como, posteriormente, no cinema. Na próxima edição de nossa coluna, abordaremos algumas dessas passagens. Falaremos também sobre os bastidores de filmagem de Uma Rua Chamada Pecado, sobre a transposição da peça para o cinema, sobre a importância dos dois atores principais, sobre a difícil relação entre Vivien Leigh e Elia Kazan e sobre o trabalho do diretor. Não perca! 
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“Você está falando sobre desejo, um brutal desejo...”

Outras frases de Uma Rua Chamada Pecado:
- "Sempre dependi da bondade de estranhos”
- “E nunca mais houve outra luz em minha vida que fosse mais forte que esta pobre luz de vela. . .”
- “Às vezes... Deus surge. . . tão depressa.”
- “Não posso suportar a luz crua de uma lâmpada, assim como não posso suportar uma observação rude ou uma ação vulgar.”
- “Uma linha pode ser direita, uma rua. Mas o coração de um ser humano?”
- “Uma cega conduzindo uma cega...”
- “Flores para los muertos. Flores. Flores”.
- “Há tanta... tanta confusão no mundo...”
TEXTO DE MINHA AUTORIA, PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 14/03/2012 NA COLUNA CINEMATECA DO SITE CINEMA EM CENA. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Dos gibis às telonas: Os melhores filmes adaptados de histórias em quadrinhos

Desde os anos 40, histórias em quadrinhos são transpostas para o cinema. No entanto, foi somente a partir do final dos anos 70 que tais adaptações passaram a se tornar mais frequentes, se transformando em uma verdadeira febre nos últimos 10 anos. No post de hoje, relembramos alguns filmes notáveis baseados no universo dos quadrinhos e elegemos as melhores adaptações.

Veja a nossa lista:

25 - Superman 2 (1980)


Dirigido porRichard Lester e Richard Donner (não creditado)
Baseado em: aventuras do Superman, icônico personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, cuja primeira aparição data de 1938, na primeira edição da revista Action Comics

24 - Batman: O Retorno (1992)


Dirigido porTim Burton
Baseado em: aventuras de Batman, célebre herói criado por Bob Kane e Bill Finger, em 1939.

23 - MIB - Homens de Preto (1997)


Dirigido porBarry Sonnenfeld
Baseado em: The Men in Black (1990, 1991, 1997), série escrita por Lowell Cunningham e ilustrada por Sandy Carruthers.

22 - Homem-Aranha (2002)


Dirigido porSam Raimi
Baseado em: aventuras do Homem-Aranha, personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko, cuja primeira aparição data de 1962. 

21 - Os Vingadores (2012)


Dirigido porJoss Whedon
Baseado emThe Avengers, série criada por Stan Lee e Jack Kirby, cuja primeira aparição data de 1963.


20 - X-Men: O Filme (2000)


Dirigido por: Bryan Singer
Baseado em: personagens da série X-Men, time de super-heróis criado por Stan Lee e Jack Kirby, cuja primeira aparição data de 1963.

19 -  As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne (2011)


Dirigido porSteven Spielberg
Baseado em Les Aventures de Tintin (1929-1976), série criada por Georges Remi (Hergé). O roteiro do filme se baseou em três histórias em particular:  O Caranguejo das Tenazes de Ouro (1941), O Segredo do Unicórnio (1943) e O Tesouro de Rackham (1944).

18 - O Corvo (1994)


Dirigido porAlex Proyas
Baseado em: The Crow (1989), série criada por James O'Barr.

17 - Homem-Aranha 2 (2004)


Dirigido porSam Raimi 
Baseado em: aventuras do Homem-Aranha, personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko, cuja primeira aparição data de 1962. 

16 - X-Men 2 (2003)


Dirigido porBryan Singer
Baseado em: aventuras de personagens da série X-Men, time de super-heróis criado por Stan Lee e Jack Kirby, cuja primeira aparição data de 1963.

15 -  Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010)



Dirigido por:  Edgar Wright
Baseado em: Scott Pilgrin (2004-2010), série escrita e ilustrada por  Bryan Lee O'Malley.

14 - Mundo Cão/Ghost World (2001)



Dirigido porTerry Zwigoff
Baseado em: Ghost World (1993-1997), série em quadrinhos escrita e ilustrada por Daniel Clowes.

13 - Marcas da Violência (2005)


Dirigido porDavid Cronenberg
Baseado em: A History of Violence (1997), romance em quadrinhos escrito por John Wagner e ilustrada por Vince Locke.

12 - Anti-Herói Americano (2003)


Dirigido por: Shari Springer Berman e Robert Pulcini
Baseado em: American Splendor (1976-2008), série autobiográfica escrita por Harvey Pekar. 

11 - 300 (2006)


Dirigido porZack Snyder
Baseado em: 300 (1998), série escrita e ilustrada por Frank Miller.

10 - X-Men: Primeira Classe (2011)


Dirigido porMatthew Vaughn
Baseado em: aventuras dos personagens da série X-Men, time de super-heróis criado por Stan Lee e Jack Kirby, cuja primeira aparição data de 1963.

9 - Estrada para a Perdição (2002)


Dirigido porSam Mendes
Baseado emRoad to Perdition (1998), série escrita por Max Allan Collins e ilustrada por  Richard Piers Rayner.

8 - Kick-Ass - Quebrando Tudo (2010)


Dirigido porMatthew Vaughn
Baseado em: Kick-Ass (2008-2010), série escrita por Mark Millar e ilustrada por John Romita, Jr.

7 - O Homem de Ferro (2008)


Dirigido porJon Favreau
Baseado em: aventuras do Iron Man, super-herói criado por Stan Lee, Larry Lieber, Don Heck, Jack Kirby e que teve sua primeira aparição em 1963. 

6 - Sin City (2005)


Dirigido porFrank Miller e Robert Rodriguez
Baseado em: Sin City (1991-2000), série criada por Frank Miller, mais especificamente em três histórias The Hard Goodbye (1991-1992), The Big Fat Kill (1994-1995) e That Yellow Bastard (1996). 

5 - Batman Begins (2005)


Dirigido por: Christopher Nolan
Baseado emThe Man Who Falls (1989), Batman: Year One (1987) e na série Batman: The Long Halloween (1966).

4 - Superman (1978)


Dirigido porRichard Donner
Baseado em: aventuras do Superman, icônico personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, cuja primeira aparição data de 1938 na primeira edição da revista Action Comics

3 - Persépolis (2007)


Dirigido porVincent Paronnaud  e Marjane Satrapi 
Baseado em: Persépolis (2000), série em quadrinhos em quatro volumes escrita por Marjane Satrapi. 

2 - Oldboy (2003)


Dirigido porPark Chan-wook
Baseado em: Oldboy (1996-1998), série em mangá escrita por Garon Tsuchiya e ilustrada por Nobuaki Minegishi.

1 - O Cavaleiro das Trevas (2008)


Dirigido por: Christopher Nolan
Baseado emBatman - The Long Halloween (1966), criada por Jeph Loeb e Tim Sale. Batman foi criado por Bob Kane e Bill Finger, em 1939. 

Menções honrosas:

Dick Tracy (1990)

Dirigido porWarren Beatty
Baseado em: Dick Tracy (1931-1977), série criada por Chester Gould.

Hellboy (2004)


Dirigido porGuillermo del Toro
Baseado emHellboy: Seed of Destruction (1994), série em quatro volumes, criada e ilustrada por Mike Mignola. 

Asterix e Obelix contra César (1999)



Dirigido porClaude Zidi
Baseado em: Astérix, série criada em 1959, escrita por René Goscinny e ilustrada por Albert Uderzo.


E você? É fã de histórias em quadrinhos? Qual adaptação é a sua favorita?



terça-feira, 17 de julho de 2012

Clássicos da Cinemateca - Nos Rastros do Western...


No dia 1º de dezembro de 1903, estreava nos Estados Unidos aquele que é considerado o primeiro filme narrativo pertencente ao gênero western. Trata-se do importante clássico O Grande Roubo do Trem, curta-metragem de 11 minutos dirigido, produzido e escrito por Edwin S. Porter. Há, no entanto, registros de filmes anteriores, produzidos por volta 1889, ainda mais curtos, que já faziam referência ao “cenário western”. O surgimento do western remonta, portanto, aos primórdios do cinema, momento em que a sétima arte dava seus primeiros passos, construindo sua própria linguagem. O western é um gênero norte-americano por excelência, ainda que diretores não ianques o tenham praticado com maestria. Os filmes dewestern, de faroeste ou de cowboy, como também são conhecidos, retratam o período do expansionismo territorial norte-americano na segunda metade do século 19, a famosa conquista do oeste (west, em inglês, o que explica o nome).
O Grande Roubo do Trem (1903)
O avanço dos brancos recém-chegados em direção à costa oeste americana não poderia deixar de esbarrar nos primeiros moradores daquelas terras. Os indígenas não apenas levaram a pior na vida real como também nas telas do cinema, onde eram pintados como vilões (salvo exceções). O combate entre os novos e velhos habitantes da América, a construção de uma nova civilização, o desejo de enriquecimento e o universo sem leis são elementos que encontramos facilmente na maioria dos filmes de cowboy. O western tradicional ainda possibilitou a criação de vários subgêneros ou variantes, como o Western Spaghetti (filmes de Sergio Leone, como Três Homens em Conflito - 1966); o Western Contemporâneo (O Indomado - 1963); o Western Noir (Pursued - 1947), o Western Pós-apocalíptico (O Mensageiro - 1997); o Western Sci-Fi (Outland-1981), entre outros.
A era de ouro do western corresponde, aproximadamente, ao que chamamos de Era de Ouro de Hollywood, indo dos anos 30 ao final dos anos 50. Mesmo sendo um gênero pouco praticado atualmente, ainda encontramos produções fortemente inspiradas na estética dowestern clássico, como a animação Rango (2011), de Gore Verbinski, e Cowboys e Aliens(2011), de Jon Favreau.
John Ford se firmou como um dos cineastas mais representativos do western, sendo, muito provavelmente, aquele que mais contribuiu artisticamente para o gênero. O diretor americano teve uma longa e prolífica carreira. Em quase 60 anos de profissão, ele realizou 146 filmes, entre longas-metragens, curtas e documentários. Mesmo 39 anos após a sua morte, Ford ainda é detentor de um recorde: é o maior ganhador do Oscar de Melhor Diretor, tendo levado quatro estatuetas.
A importância de Ford para o cinema é incomensurável. Reza a lenda que quando Orson Welles foi perguntado quais eram os seus três diretores favoritos, ele respondeu: "John Ford, John Ford e John Ford”. Muitos outros grandes cineastas também afirmaram ter Ford como mestre e ídolo, entre eles: Akira Kurosawa, Sergio Leone, Clint Eastwood, Martin Scorsese, Steven Spielberg, Jean-Luc Godard e François Truffaut.
O escritor e especialista do cinema clássico, Pierre Berthomieu, tentou definir em uma frase o estilo do diretor: “O cinema de John Ford é habitado por gigantes e atravessado pelos tormentos da eternidade”¹. Não apenas os heróis fordianos são dotados de grandiosidade. O cineasta sempre manifestou sua preferência pelo cinema épico e pela imensidão das paisagens: “Prefiro os dramas filmados em exteriores. No palco, a voz sozinha exprime grande parte do drama, o que é impossível no cinema. No entanto, temos o que falta ao teatro: os planos gerais que mostram uma tropa de gados, os picos das montanhas, as quedas d’água monumentais ou uma multidão gigantesca de homens e mulheres”².
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John Wayne e John Ford – Foto de 1971
Nas artes cênicas, John Wayne é o equivalente de Ford para o universo do western. Os dois Johns, grandes amigos na vida real, formaram uma dupla imbatível no cinema e trabalharam mais de 20 vezes juntos. Foi após atuar na obra-prima de Ford, No Tempo das Diligências(1939), que a carreira de Wayne decolou. Logo ele se tornou uma estrela, um dos atores mais populares de Hollywood e uma figura essencial dos filmes de faroeste. A voz grave, os 1.93m de altura, a imponência e o jeito austero e conservador eram as marcas registradas do ator dentro e fora das telas. Wayne participou de mais de 170 filmes, ganhou um Oscar (porBravura Indômita – 1969) e foi eleito a quinta maior estrela do cinema de todos os tempos na votação realizada pela revista Entertainment Weekly e a quarta na lista feita pela Premiere Magazine. Uma das parcerias mais elogiadas de Ford e Wayne ocorreu no grande clássicoRastros de Ódio (1956).
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Paisagem de Monument Valley
Uma das assinaturas de Ford era filmar as cenas externas de seus filmes em Monument Valley, região localizada no planalto do Colorado, no norte do Arizona, estado americano.Rastros de Ódio não fugiu à regra. O início do filme é antológico. Os créditos iniciais do longa-metragem são acompanhados da canção “Lorena”, que se tornou um hino para os soldados confederados durante a Guerra Civil. Os créditos terminam e a tela escurece. Das trevas, da tela negra, surge uma porta que se abre para o iluminado deserto, para a paisagem de Monument Valley. Uma mulher sai para receber um homem cuja identidade não nos é revelada imediatamente. A tela negra se mistura ao interior da casa, como se fosse um portal. O gesto da porta que se abre não é apenas a metáfora do começo da narrativa, como o símbolo da criação e um convite para a ficção. Há algo de ritualístico neste início de filme, algo que nos remete à abertura de um espetáculo. O início e o fim de Rastros de Ódio dialogam entre si. Se na abertura do filme a porta se abre para recebermos Wayne, ao final, ela se fecha após sua partida. É interessante observar que o protagonista é um indivíduo que pertence ao exterior iluminado, ao deserto e à aventura, e não à sombra e à tranquilidade.
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Famosa cena de abertura de Rastros de Ódio
Em Rastros de Ódio, Wayne é Ethan Edwards. O ator confidenciou que este era o seu personagem favorito, dentre os mais de 100 que interpretou. Ethan é um veterano da Guerra Civil Americana e, alguns anos após a guerra, retorna à casa do irmão. Ele é recebido também pela sua cunhada, por quem nutre uma paixão correspondida, e pelos seus três sobrinhos. Certo dia, um grupo de índios liderados pelo cruel Scar (Henry Brandon) prepara uma armadilha, conseguindo matar toda a família de Ethan, com exceção de sua sobrinha mais nova, Debbie, que é raptada pelo bando de assassinos. Após a tragédia, Ethan e um agregado da família, Martin Pawley (Jeffrey Hunter), que tem sangue indígena, saem em busca da garota. Debbie é interpretada pela irmãs Lana (aos 10 anos) e Natalie Wood (aos 15 anos). Como sabemos, a bela Natalie viraria uma estrela de Hollywood nos anos seguintes.
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Natalie Wood em cena de Rastros de Ódio
O romance entre Ethan e sua cunhada Martha (Dorothy Jordan) é insinuado pelos olhares dos atores e pela delicadeza de suas atuações. A possibilidade (nunca saberemos ao certo) de que Debbie seja, de fato, filha de Ethan, faz com que sua busca adquira um caráter ainda mais dramático. Ethan é um personagem sombrio, violento e misterioso. Há algo também de sedutor e fascinante no protagonista, uma inesperada doçura que escapa em determinados momentos. Uma das características de Ethan é o seu bordão irônico: “That'll be the day” (Vai chegar o dia). A origem do ódio e desprezo que o personagem sente pelos índios, mais especificamente pelos Comanches, é mostrada por um detalhe no filme. A lápide de uma sepultura revela que a mãe de Ethan foi assassinada por um Comanche.
O filme explora também a relação de Ethan com o jovem Martin, uma ligação que vai se assemelhando gradualmente à de pai e filho. Ao contrário de Ethan, Martin é uma figura mais leve, mais próxima da comédia. O namoro do rapaz com a jovem Laurie (Vera Miles) é tratado pelo diretor sob o viés da comédia romântica. Apesar da natureza sombria do enredo, o filme apresenta vários alívios cômicos.
A grandiosidade do filme e a exuberância das cores de Rastros de Ódio, que foi filmado emscope, fazem dele um espetáculo ainda mais poderoso. A obra-prima de Ford é hoje vista por muitos como sendo um dos mais significativos e influentes filmes de faroeste. Em Rastros de Ódio, Ford ainda presta uma homenagem ao ator Harry Carey, que se destacou no cinema mudo e que trabalhou algumas vezes com o diretor. Além de escalar a mulher e o filho do falecido ator para o elenco, Ford ainda filma Wayne fazendo a pose característica de Carey, na última cena do filme.  
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Cena final de Rastros de Ódio – Homenagem a Harry Carey
Rastros de Ódio, que é adaptação do romance de Alan Le May, foi eleito o maior filme dewestern de todos os tempos pela American Film Institute, além de figurar em 12º na lista dos melhores filmes de todos os tempos da mesma instituição. Nele, temos reunidos alguns dos elementos mais importantes da filmografia de Ford: a busca pela redenção, a grandiosidade das paisagens, a luta do bem contra o mal e o poder dilacerador da culpa. Rastros de Ódio é owestern em toda a sua grandeza.
TEXTO DE MINHA AUTORIA, PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 29/02/2012 NA COLUNA CINEMATECA DO SITE CINEMA EM CENA.