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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Clássicos da Cinemateca - Uma Rua Chamada Pecado (1951) - PARTE 2


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O elenco da versão fílmica: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden.
O elenco de Uma Rua Chamada Pecado é o mesmo que Kazan dirigiu na Broadway, com exceção de Vivien Leigh. A atriz britânica já havia interpretado Blanche Dubois em Londres, em 1949, em uma montagem dirigida por seu marido, Laurence Olivier. Na Broadway, a personagem foi interpretada por Jessica Tandy. Tandy é lembrada, sobretudo, pelos seus últimos trabalhos no cinema, com destaque para Conduzindo Miss Daisy (1989) e Tomates Verdes Fritos (1991). Ao contrário de Leigh, ela jamais foi uma estrela de cinema. Jack Warner e o produtor Charles K. Feldman sentiam a necessidade de ter um nome de peso encabeçando o elenco; alguém que atraísse uma boa bilheteria. Antes de ser oferecido a Leigh, o personagem foi proposto a sua colega de E o Vento Levou (1939), Olivia de Havilland, mas as exigências da atriz impossibilitaram as negociações. Em uma entrevista, o ator Karl Malden afirmou que foi justamente a inclusão de Leigh no elenco que possibilitou que ele e os outros atores (desconhecidos do grande público até então) participassem do filme.
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Tennessee Williams e Elia Kazan.
Uma das coisas que inquietava Kazan com relação à peça era que o público se identificava muito mais com o personagem de Stanley do que com Blanche, ou seja, os espectadores amavam mais o carrasco do que a vítima. Isso ocorria, em grande parte, por causa do extraordinário desempenho de Marlon Brando, que parecia ofuscar Tandy. Em sua autobiografia, o diretor manifesta sua preocupação:
“A peça estava se transformando em um show de Marlon Brando. Eu evitava tocar no problema, porque eu não conhecia uma solução. Eu não poderia deixar que os atores percebessem minha inquietação. O que eu poderia dizer a Brando? Para ele ser menos bom? E a Jessie [Jessica Tandy]? Para ser melhor? Não, eu corria o risco de obter um resultado destrutivo, ainda mais para Jesssica”.
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Cena da peça na Broadway. Em primeiro plano, Jessica Tandy. Ao fundo, Marlon Brando e Kim Hunter.
Com essas questões o atormentando, Kazan recorreu a Tennessee Williams para saber o que, de fato, o público deveria sentir com relação aos dois protagonistas. O dramaturgo afirmou, então, que o público deveria sentir compaixão e piedade por Blanche, compreendendo o drama da personagem. Williams acrescentou que Stanley não deveria ser, no entanto, mostrado como um monstro. Para o autor, não é uma pessoa (Stanley) que destrói Blanche e, sim, uma “coisa”, a incompreensão:
“Stanley não vê Blanche como um ser à deriva, desesperado [...]. Uma pessoa jamais vê as outras como elas realmente são; julgamos o outro sob a luz dos nossos próprios defeitos”.
Quando finalmente aceitou dirigir Uma Rua Chamada Pecado no cinema, Kazan viu que esta era a oportunidade de explorar o personagem de Blanche, algo que ele sentia que faltara à peça. No filme, por exemplo, Blanche é a primeira personagem que vemos surgir em cena, algo que não ocorria nos palcos. Focalizar Blanche e seu universo era o desafio que animava Kazan ao trabalhar novamente com o mesmo texto. A substituição de Tandy também lhe pareceu, eventualmente, interessante, ainda que ele nutrisse grande afeição pela atriz:
“Para ser bastante franco, hoje, com um distanciamento, não tenho certeza de que, eu mesmo, não queria uma atriz diferente para o papel de Blanche. A peça tendo perdido o frescor para mim, eu tinha necessidade de um eletrochoque para me colocar nos trilhos”.
Sem dúvida, a chegada de Leigh foi um choque e tanto para o diretor.
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Vivien Leigh recebeu seu primeiro Oscar em 1940, por E o Vento Levou.
Leigh teve um percurso interessante no cinema. Após protagonizar E o Vento Levou (1939), um dos filmes mais populares de todos os tempos, e conquistar, merecidamente, fama mundial, a atriz optou por se dedicar ao teatro na Inglaterra, ao invés de permanecer sob os holofotes de Hollywood. Doze anos separam E o Vento Levou de Uma Rua Chamada Pecado. Nesse meio tempo, Leigh fez somente quatro filmes, apenas um deles em Hollywood. Mesmo não sendo uma figura recorrente nas telonas, o público americano jamais a esqueceu. Em 1969, o crítico Andrew Sarris comentou esse fenômeno. Segundo ele, a escalação da atriz como Scarlett O’Hara, no clássico de 1939, é um dos fatores responsáveis pelo imenso sucesso do filme e que Leigh “vive em nossas mentes e lembranças como uma força dinâmica, ao invés de uma presença estática”. Uma das ironias apontadas por muitos é que os dois grandes personagens da carreira da atriz no cinema são southern belles (belas do sul norte-americano), sendo que a atriz era britânica. 
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Vivien Leigh como Scarlett e como Blanche.
A sombra de Scarlett O’Hara traz uma densidade ainda maior à Blanche Dubois. Além das duas personagens interpretadas por Leigh serem sulistas, Belle Rêve (fazenda de Blanche) evoca Tara (propriedade de Scarlett). Blanche parece refletir a imagem de uma Scarlett decadente, que carrega as marcas da desilusão e do tempo. Florence Colombani, escritora, crítica de cinema e cineasta, afirma, em sua obra Elia Kazan: Une Amérique du chaos (2004),que "explorando a memória inconsciente do espectador, Kazan dá uma espessura dramática excepcional a seu filme". Ela acrescenta: “a lenta queda de Blanche e seu calvário se tornam ainda mais pungentes, pois são o calvário e a queda de alguém que o público ama e conhece”. O trágico fim de Blanche é, portanto, ainda mais dilacerante já que nossa memória afetiva guarda a imagem da altiva e exuberante Scarlett. 
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Elia Kazan dirigindo Vivien Leigh e Kim Hunter.
A relação de Leigh e Kazan foi bastante complicada durante as filmagens de Uma Rua Chamada Pecado. O principal motivo de conflito entre a atriz e o diretor era a resistência da primeira às orientações do segundo. Leigh questionava sucessivamente as escolhas do diretor, comparando a direção de Kazan àquela de Laurence Olivier. Alguns fatores contribuíram para um mal-estar nos sets: a atriz era a única estrangeira, a única integrante do elenco que não havia participado da montagem na Broadway e que não tinha, portanto, familiaridade com os colegas. Além disso, Leigh não era adepta do Método (conjunto de técnicas de atuação associadas ao Actor’s Studio), o que fazia dela uma completa estranha no ninho. Reza a lenda que o diretor, percebendo o deslocamento da atriz, utilizou-o para acentuar o deslocamento de sua personagem na trama. Com o passar do tempo, Leigh e Kazan encontraram uma maneira de conviver, mas a animosidade continuou. Em sua autobiografia, Kazan morde e assopra ao falar da atriz:
“Ela [Vivien Leigh] tinha um pequeno talento, mas sua determinação de ser a melhor era incomparável. Ela andaria sobre cacos de vidro se isso fosse necessário para melhorar sua atuação”.
Dificilmente um reconheceria no outro o grande talento que, de fato, tinham, já que cada um possuía experiências e valores bem distintos no que tangia a formação artística: Leigh era filha do teatro clássico e Kazan foi um dos precursores do Método nos Estados Unidos.
O contraste entre teatralidade de Leigh e o realismo privilegiado por seus colegas é um dos pontos fortes do filme. Marlon Brando chegou a afirmar que a atuação da atriz britânica era superior àquela de sua ex-colega Jessica Tandy, algo que Kazan jamais admitiu. Leigh consegue transmitir magistralmente a inadequação de sua personagem ao mundo real e toda a complexidade do universo mental da protagonista. Blanche Dubois é um ser tão frágil que, muitas vezes, parece se revestir de uma personagem e de uma ilusão para poder enfrentar a vida e as pessoas a sua volta, como se fosse uma atriz em um palco. Por essa razão, às vezes, seus gestos e voz parecem tão artificiais. Quando ela se vê abatida pelo real, vemos a transformação e a desfiguração de Leigh. 
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Vivien Leigh tinha 36 anos quando interpretou Blanche.
Pauline Kael, em sua famosa crítica, afirmou que Leigh nos oferece uma dessas raras performances que verdadeiramente evocam piedade e terror e que ninguém, após Lilian Gish, nos primórdios do cinema, transmitiu tamanha vulnerabilidade e fragilidade feminina como Leigh o fez em Uma Rua Chamada Pecado. A atriz nos faz testemunhar a jornada de uma mulher em direção à loucura, nos revelando uma alma atormentada por ilusões e massacrada pela realidade. O trágico fim de Blanche encontra eco na vida pessoal da atriz. Posteriormente, a atriz teve dificuldades de se distinguir de Blanche. Alexander Walker, autor da biografia de Leigh, conta um episódio revelador da vida da atriz, que sofria de depressão e de transtorno bipolar. Em uma de suas crises, anos após Uma Rua, ela foi interpelada por uma enfermeira que disse para acalmá-la: “Eu te reconheço, você é Scarlett O’Hara”, ao que ela retrucou, furiosa: “Eu não sou Scarlett O’Hara, sou Blanche Dubois!”
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Marlon Brando e Vivien Leigh fumando no set de filmagem.
Como bem disse Pauline Kael, Uma Rua Chamada Pecado veicula o encontro de duas das maiores atuações vistas no cinema. Contrapondo-se brilhantemente a Leigh, o Stanley Kowalski de Brando é uma força da natureza. Em seu segundo filme, o ator opera uma revolução na forma de se atuar no cinema. Nenhum ator que o precedeu mostrou tamanha brutalidade, sensualidade, sex appeal e realismo em cena. Há algo de extremamente animalesco e fascinante na performance de Brando, algo que nos faz sentir repulsa pelo personagem, sem, no entanto, deixarmos de nos sentir atraídos por ele.
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Uma Rua Chamada Pecado foi o segundo filme de Marlon Brando. Ele tinha 27 anos quando o filme foi lançado.
Kazan manteve um rico diário sobre Uma Rua Chamada Pecado. Suas anotações revelam diversas reflexões interessantes sobre o seu trabalho. Talvez seja dele a melhor definição para o filme/peça:
 
“Esta obra é uma tragédia poética. Nós somos testemunhas da decadência final de uma pessoa de valor que, em um dado momento de sua vida, tem um grande potencial e que, mesmo em seu declínio, possui qualidades que superam aquelas dos ‘sãos’ e rudes que a destroem”.

O filme de Kazan é sem dúvida uma obra-prima, resultado de encontros insólitos e de um conjunto de golpes de sorte: o filme poderia não ter saído do papel se não fosse graças a Jack Warner; Kazan poderia não ter dirigido o filme se não fosse pela intervenção de Tennesse Williams; o filme poderia ter sido fatalmente amputado por causa da censura; Leigh poderia não ter participado, caso Olivia de Havilland tivesse aceitado o papel; etc, etc, etc. O filme, ainda nos dias de hoje, se revela um ousado retrato do combate entre a ilusão e a realidade, entre a sanidade e a loucura e entre o desejo e a morte.

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Em 2007, o American Film Institute classificou o filme em 47º lugar na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos. 


TEXTO DE MINHA AUTORIA, PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 28/03/2012 NA COLUNA CINEMATECA, DO SITE CINEMA EM CENA. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Clássicos da Cinemateca - Uma Rua Chamada Pecado (1951) - PARTE 1


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“Disseram-me que eu tomasse um bonde chamado Desejo, depois passasse para outro chamado Cemitério...” 
A vida de Blanche Dubois é marcada pela morte, pelo desejo e pela tragédia. Allan, marido de Blanche, se suicidou ainda muito jovem, deixando-a dilacerada pela culpa e pela solidão. Após perder todas as propriedades da família e ser demitida da escola onde trabalhava, por ter se envolvido com um aluno adolescente, Blanche só tem uma opção: hospedar-se por algum tempo na casa de sua irmã, Stella, e de seu cunhado, Stanley Kowalski, em Nova Orleans, Estados Unidos. Sua estadia, no entanto, perturbará a harmonia do apaixonado casal. Por um breve momento, Blanche vê a chance de encontrar sua salvação através do amor, mais eis que seu passado maculado e o ódio de Stanley entram em seu caminho. Essa é uma maneira de resumir a trama de Uma Rua Chamada Pecado (1951). Existem outras. O filme é centrado em dois opostos. Blanche é uma representante do antigo sul americano, agrícola e rural, Stanley é um membro da classe industrial, legítimo fruto da cidade grande. Ela representa um mundo que está desaparecendo, ele a modernidade. Ela depende da bondade de estranhos, ele faz a sua própria sorte. Ela é presa, ele é predador. Ela é frágil, ele a destrói. Pauline Kael, crítica americana, afirmou que, em Uma Rua Chamada Pecado, encontramos duas das maiores atuações do cinema. Ela se referia a Vivien Leigh e Marlon Brando, intérpretes de Blanche e Stanley.
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"Não quero realismo. Eu quero magia.”
O título nacional de Uma Rua Chamada Pecado é a versão escolhida pelos distribuidores brasileiros para Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire), título original do filme e da peça que o inspirou. A palavra “pecado” faz, obviamente, referência à moral cristã, às ideias de transgressão e culpa.  No entanto, a peça de Tennessee Williams e o filme de Elia Kazan não focalizam o pecado e, sim, o “brutal desejo”.  A substituição dos nomes no Brasil exemplifica muito bem o tipo de dificuldades que o longa-metragem impôs à censura americana. O script do filme teve que sofrer diversas alterações. Duas delas extremamente importantes: no cinema, a homossexualidade do marido de Blanche Dubois foi substituída por uma fraqueza de caráter, uma alma poética e uma dificuldade de enfrentar a vida real. A atriz britânica Vivien Leigh chegou a apontar o absurdo da mudança quando leu, pela primeira vez, a cena modificada, dizendo: “Eu devo culpá-lo por ele ser um poeta?” Na peça, Blanche surpreendia seu marido na cama com outro homem, o que o levou, humilhado e envergonhado, a se suicidar. Outra alteração drástica na transposição da peça para o cinema é o final da história. Na peça, Stella não se separa de Stanley Kowalski, escolhendo não acreditar na acusação de estupro feita por sua irmã, Blanche. No filme, ela jura nunca mais voltar para o marido. O final hollywoodiano é, portanto, moralizador: o mal deve ser punido.
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“Sim, eu tive muitos encontros com estranhos.”
O infame Código Hays, que regulamentava a censura nas produções norte-americanas, esteve em vigor de 1930 até 1968, se enfraquecendo após os anos 50. Alguns produtores, como Darryl F. Zanuck, chegaram a desistir da realização de Uma Rua Chamada Pecado, pois já anteviam graves problemas com a censura.  O poderoso Jack Warner, no entanto, assumiu a responsabilidade de fazer o filme virar realidade a despeito de seu conteúdo “desafiador”. Tudo relativo ao script deveria ser submetido a um comitê que analisava o que era aceitável ou não. Kazan tentou maquiar ao máximo alguns aspectos do roteiro submetido, tentando burlar a censura. Ele sabia que se determinados cortes fossem feitos, a história perderia completamente a sua essência. Quando, finalmente, todas as mudanças no script foram negociadas, o filme rodado e aprovado pelo Código Hays, um novo problema surgiu à tona.
A famosa cena da escada.
A Legião da Decência, criada em 1933 por fiéis católicos, ameaçou dar o status “C” (de “condenado”) ao filme, ou seja, a obra seria desaconselhada aos católicos e, provavelmente, muitos cinemas se recusariam sequer a passá-lo. Muito dinheiro já havia sido investido no filme e Jack Warner teve que se comprometer a fazer alterações de última hora. Tais mudanças ocorreram sem o consentimento e a supervisão de Elia Kazan e consistiam basicamente na decupagem de algumas cenas. Muitos momentos considerados provocativos ou inaceitáveis foram retirados. A famosa cena na escada sofreu muitas alterações: Alex North, compositor do filme, teve que criar um novo tema musical, substituindo sua partitura original, considerada muito sensual e “carnal”. Além disso, a cena foi montada de maneira diferente. Os closes sobre o rosto de Stella (Kim Hunter) foram retirados, pois eles revelavam sua expressão tomada pelo desejo. Muitos outros cortes dessa natureza foram feitos e o filme pôde estrear nos cinemas com o status “B” (objecionável em partes). Posteriormente, foram achados os negativos originais do filme e, hoje, temos a sorte de poder assistir ao clássico da maneira como ele foi concebido por Elia Kazan, com cerca de quatro minutos a mais de duração do que a versão lançada nos cinemas em 1951.
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"E eu sou o rei aqui dentro, é bom que não se esqueçam disso.”
Nem a interferência da censura conseguiu retirar tudo que Uma Rua Chamada Pecado tinha de provocativo, audacioso e inovador. Na época de seu lançamento, o filme representou um verdadeiro choque. Primeiramente, por contar a história de personagens ambíguos, indivíduos movidos pela paixão e pela libido, escravos de pulsões irresistíveis e contraditórias. O próprio conteúdo da trama era polêmico, uma vez que fazia menção a alguns assuntos tabus, como o estupro e a pedofilia. Por fim, o filme chocou ao apresentar um Marlon Brando extremamente sensual e viril (o corpo masculino jamais havia sido mostrado daquela maneira). 
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“Pensando bem, talvez não fosse mau... interferir com você...” 
Mesmo sendo considerado, por muitos, escandaloso, o filme foi bem recebido pela crítica. Vivien Leigh levou a Volpi Cup de Melhor Atriz no Festival de Veneza e também o BAFTA. O filme ainda foi indicado a três Globos de Ouro e lembrado por outras associações de críticos dos Estados Unidos. Uma Rua Chamada Pecado foi indicado a 12 Oscars, tendo levado quatro estatuetas: Melhor Atriz (Vivien Leigh), Melhor Ator Coadjuvante (Karl Malden), Melhor Atriz Coadjuvante (Kim Hunter) e Melhor Direção de Arte em Preto e Branco (Richard Day e George James Hopkins). Até hoje, este é, ao lado de Rede de Intrigas (1976), o único filme premiado pela Academia em três categorias de atuação. Por justiça, deveria ter sido premiado nas quatro, uma vez que o indicado Marlon Brando, que ofereceu uma atuação revolucionária, acabou perdendo para Humphrey Bogart, premiado muito mais pela carreira do que por sua performance em Uma Aventura na África (1951). 
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“O charme de uma mulher é 50% ilusão.”
Tennessee Williams (1911-1983), autor da peça Uma Rua Chamada Pecado, é um dos dramaturgos norte-americanos mais importantes e influentes do século 20. Ele é superado apenas por William Shakespeare, em termos de adaptação para o cinema. Outras peças famosas do autor, transpostas para as telonas, são: Gata em Teto de Zinco Quente (1958), De Repente, no Último Verão (1959), A Rosa Tatuada (1955) e Doce Pássaro da Juventude (1962).Além de Elia Kazan, outros grandes diretores adaptaram peças de Williams para o cinema. Podemos citar: Sidney Pollack, Sidney Lumet, Joseph L. Mankiewicz e Richard Brooks.  Assumidamente homossexual, em uma época em que poucos o eram, Williams tinha preferência por assuntos considerados tabus. Em suas peças, ele abordava a sexualidade, a loucura, o alcoolismo, a morte, a dificuldade de comunicação etc. Seus personagens são seres perturbados, imperfeitos, desajustados, marcados pelo trauma, pela dor e em busca da redenção. 
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“Você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe.”
Tennessee Williams e Elia Kazan nutriram uma longa amizade, marcada pelo respeito e pela admiração mútua. Kazan (1909-2003) dirigiu diversas peças de Williams no teatro, incluindoUma Rua Chamada Pecado, que estreou na Broadway em 1947. O diretor, grego de nascimento, não queria, de maneira alguma, se incumbir da adaptação fílmica. Ele acreditava que já havia alcançado tudo o que podia com a peça no teatro. Foi através da insistência de Williams que ele aceitou dirigir o longa-metragem. O cineasta tem um recorde bastante curioso: ao longo de sua carreira, ele dirigiu 21 atuações indicadas ao Oscar! 
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“Hey, Stella!”
O roteiro de Uma Rua Chamada Pecado ficou sob a responsabilidade do próprio Tennessee Williams e de Oscar Saul. Com exceção das mudanças exigidas pela censura, muito pouco do texto original foi alterado. Um dos aspectos mais elogiados e lembrados do filme é a sua trilha sonora, um dos elementos responsáveis por conferir uma aura de sensualidade à trama. Para a música do filme, Elia Kazan apostou em Alex North, um compositor pouco experiente até então. North compôs uma trilha sonora fortemente influenciada pelo jazz, uma inovação para a época. A trilha de North para Uma Rua Chamada Pecado é considerada uma das mais bonitas e influentes de todos os tempos. 
Ouça um trecho da trilha composta por Alex North..
Em sua autobiografia, Elia Kazan: Uma Vida, o diretor fala sobre sua experiência em dirigir a peça e o filme.  A leitura dessas passagens é interessante, pois revela algumas das reflexões de Kazan sobre sua maneira de trabalhar e suas dificuldades e desafios, tanto nos palcos, como, posteriormente, no cinema. Na próxima edição de nossa coluna, abordaremos algumas dessas passagens. Falaremos também sobre os bastidores de filmagem de Uma Rua Chamada Pecado, sobre a transposição da peça para o cinema, sobre a importância dos dois atores principais, sobre a difícil relação entre Vivien Leigh e Elia Kazan e sobre o trabalho do diretor. Não perca! 
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“Você está falando sobre desejo, um brutal desejo...”

Outras frases de Uma Rua Chamada Pecado:
- "Sempre dependi da bondade de estranhos”
- “E nunca mais houve outra luz em minha vida que fosse mais forte que esta pobre luz de vela. . .”
- “Às vezes... Deus surge. . . tão depressa.”
- “Não posso suportar a luz crua de uma lâmpada, assim como não posso suportar uma observação rude ou uma ação vulgar.”
- “Uma linha pode ser direita, uma rua. Mas o coração de um ser humano?”
- “Uma cega conduzindo uma cega...”
- “Flores para los muertos. Flores. Flores”.
- “Há tanta... tanta confusão no mundo...”
TEXTO DE MINHA AUTORIA, PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 14/03/2012 NA COLUNA CINEMATECA DO SITE CINEMA EM CENA. 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Clássicos da Cinemateca - E o Vento Levou... (1939)


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Quem nunca ouviu falar de E o Vento Levou? Ou citou, mesmo sem saber a origem, uma de suas frases célebres, como “Amanhã é um novo dia”? Quem não conhece o tema musical de Tara, composto pelo genial Max Steiner, nem que seja através do seriado Chaves? Pois bem, o épico romântico é um dos filmes mais amados, parodiados e citados da história. O que não significa que seja uma unanimidade. Alguns o comparam ao polêmico Nascimento de uma Nação (1915), de D.W. Griffith, pela maneira como a sociedade escravista é representada. Outros torcem o nariz para o caráter melodramático do filme, pelo que chamam de “quatro horas de novela mexicana”. Detratores à parte, E o Vento Levou sustenta o status de um dos filmes mais populares do cinema. No texto de estreia da coluna Cinemateca, dedicada aos clássicos, tentaremos desvendar os bastidores deste que é um dos maiores sucessos artísticos e comerciais de todos os tempos da indústria cinematográfica.
DivulgaçãoUma das perguntas mais interessantes a se fazer com relação a E o Vento Levou é: quem é o verdadeiro autor do longa-metragem? Normalmente, o diretor é aquele a quem atribuímos a autoria de um filme, seu fracasso ou seu sucesso. Com o nosso filme, isso não funcionaria. Para começar, E o Vento Levou foi assumido por três diretores (o oficial, Victor Fleming - foto - e os não creditados George Cukor e Sam Wood) e nenhum deles conseguiu ter liberdade suficiente para imprimir ao filme sua visão da história e seu estilo. Isso se explica pelo fato de o produtor David O. Selznick ser extremamente intervencionista.
Selznick é um dos maiores produtores da Hollywood Clássica. Controlador, amante das adaptações literárias e das produções grandiosas, o genro do poderoso Louis B. Mayer era o pesadelo de qualquer cineasta, já que sempre impunha a sua vontade. Selznick é, sem dúvida, o maior responsável pelo sucesso de E o Vento Levou. Ele comprou os direitos da adaptação do romance de Margaret Mitchell antes mesmo dele se tornar um best-seller e começou sua produção em 1936.
Seria, no entanto, injusto atribuir a autoria de E o Vento Levou somente a Selznick. William Cameron Menzies, renomado diretor de arte, é responsável pela concepção estética do filme, assim como pelo magistral uso das cores, com destaque para o característico vermelho saturado. Menzies foi contratado por Selznick para produzir o storyboard de cada tomada do filme. E o Vento Levou foi um dos primeiros longas a ter cada uma de suas sequências planejadas através do processo do storyboarding. Menzies foi importante também por ter dado unidade ao filme, que poderia ter sido uma bagunça devido à troca constante de diretores.
DivulgaçãoA partir do momento em que foi anunciada a adaptação cinematográfica do romance de Margaret Mitchell, houve uma participação massiva do povo americano no projeto, tamanha era a popularidade da história. Em uma pesquisa nacional realizada na época, Clark Gable (foto) foi escolhido como o favorito do público para encarnar o protagonista Rhett Butler. Gable, que declarou nunca ter terminado de ler o livro, estava receoso e relutante em interpretar o personagem. Além disso, o ator tinha contrato com a MGM e, de acordo com o studio system, ele não poderia fazer o filme, já que estava "preso" ao estúdio de Louis B. Mayer. Selznick, no entanto, negociou com o sogro e conseguiu com que Gable fosse emprestado, desde que em troca a MGM fosse encarregada pela distribuição do filme. Gable não tinha opção. Pressionado, ele aceitou ser o intérprete de Rhett Butler, mesmo temendo decepcionar o público.
A escolha dos coadjuvantes se deu com certa tranquilidade. Olivia de Havilland, uma das atrizes americanas mais populares da segunda metade dos anos 30, queria dar um novo rumo a sua carreira e deixar de lado os papéis que lhe deram fama nos filmes de capa e espada. Ela foi indicada pela irmã Joan Fontaine e aceitou rapidamente ser a intérprete de Melanie Wilkes. Para viver Ashley Wilkes, Selznick não queria outro que não Leslie Howard. Para participar do filme, o ator exigiu que Selznick produzisse seu próximo filme: Intermezzo – A Love Story (1939). Howard não gostava nem um pouco de seu personagem, nunca leu o livro, se achava velho para o papel e só se importava em decorar suas falas. Ele acreditava que E o Vento Levou era um filme de mulher.
DivulgaçãoMuito mais complicada e demorada foi a escolha da protagonista feminina, a (anti)heroína Scarlett O’Hara. Diversos nomes famosos foram cogitados, como o de Bette Davis. A atriz se mostrara extremamente interessada pelo papel, mas veio a recusá-lo, uma vez que seu empréstimo para o filme estava condicionado ao empréstimo de Errol Flynn como seu par romântico (e ela odiava mortalmente o ator). Paulette Goddard (foto à esquerda) foi a atriz que mais se aproximou de ser a escolhida de Selznick. O produtor havia gostado bastante do seu teste. Por temer a má repercussão do relacionamento de Goddard com Charles Chaplin, Selznick acabou por desistir dela.
DivulgaçãoMais de 1.400 atrizes se candidataram ao papel e mais de 400 testes foram realizados. Myron Selznick, irmão de David, estava trazendo para os Estados Unidos o ator inglês Laurence Olivier para seu primeiro filme americano. Olivier tinha um caso com Vivien Leigh (foto à direita), atriz desconhecida nos Estados Unidos. Como o casal não queria se separar, a vinda de Leigh tornava-se necessária. Myron teve, então, a ideia de indicar Leigh para o papel de Scarlett. Ao apresentar a atriz ao irmão, ele disse: “Eis sua Scarlett!” David Selznick já havia visto alguns filmes da atriz e não havia se impressionado. No entanto, ele ficou encantado com o teste da inglesa. Boa parte do público repercutiu negativamente a escolha de uma atriz não americana para o papel de Scarlett O’Hara. Hoje em dia, é quase impossível pensar em outra atriz na pele da personagem icônica.
DivulgaçãoMuitos problemas interferiram nas filmagens de E o Vento Levou. Selznick exigiu diversas mudanças no roteiro, que acabou sendo escrito a cinco mãos. Paginas do script chegavam a ser reescritas no mesmo dia de sua filmagem. Para a direção do longa-metragem, o produtor convidara o amigo George Cukor. Após algum tempo de filmagem, Selznick o afastou da produção, afirmando não estar gostando do resultado. Cukor, conhecido por saber retratar com sensibilidade o universo feminino, tinha uma ótima relação com Leigh e Havilland, mas não se dava bem com Gable. O ator sentia que o diretor dava muito mais atenção às mulheres. No lugar de Cukor, que era homossexual, Selznick colocou Victor Fleming, que tinha a fama de machista, e que era amigo de Gable. Leigh e Havilland odiavam o novo diretor. Após brigas homéricas com Leigh, Fleming se afastou. Sam Wood foi então chamado, mas Selznick não gostou nada do resultado, sendo obrigado a chamar Fleming de volta para dirigir o restante das principais cenas.
DivulgaçãoE o Vento Levou estreou nos Estados Unidos em 15 de dezembro de 1939. O filme ganhou oito Oscars (Melhor Filme, Direção, Roteiro, Atriz, Atriz Coadjuvante, Direção de Arte, Fotografia e Montagem) além de dois prêmios especiais pelos avanços técnicos promovidos pelo longa. O filme continua a ser o campeão absoluto de bilheteria em termos de número de espectadores (202 milhões de ingressos vendidos*), superando, neste quesito, o campeão de arrecadação, o filme Avatar (2009), de James Cameron (61 milhões de ingressos*). E o Vento Levou sustenta, portanto, há 72 anos, o status de filme mais visto de todos os tempos nos cinemas. Muito ainda pode ser dito sobre ele, mas este é apenas o primeiro texto da nossa coluna e, com certeza, o clássico produzido por David O. Selznick aparecerá por aqui outras vezes.
* Fonte: Box Office Mojo, 05/02/2010
TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA COLUNA CINEMATECA DE MINHA AUTORIA EM 11 DE JANEIRO DE 2012.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Uma rua chamada pecado - 1951

A peça de teatro do americano Tenessee Williams A streetcar named desire foi adaptada para o cinema pelo diretor Elia Kazan em 1951, com quase todos os mesmos atores que atuaram nos palcos americanos nos anos anteriores. A principal diferença é a substituição de Jéssica Tandy por Vivien Leigh, a estrela do maior filme americano já realizado até então, E o vento levou. A inglesa já tinha atuado na peça de Willams nos palcos londrinos sob a direção do maridão Lawrence Olivier. Rumores dizem que a substituição não foi muito apreciada pelos outros atores. 

Vivien Leigh era reconhecidamente uma atriz bem difícil de se trabalhar. Já em E o vento levou, ela teve inúmeros problemas com Victor Fleming. Sua personalidade forte, seus graves problemas psicológicos (diz-se que ela era bipolar e depressiva) tornaram-na uma atriz pouco querida pelos diretores. Após viver a heroína antipática (mas que eu adoro) Scarlett O'Hara e alcançar a glória em 1939, ela não se transformou numa estrela hollywoodiana como muitos poderiam prever. Ela se voltou para o teatro, ganhando até mesmo um Tony. Seu  segundo grande papel nos cinemas foi em Uma rua chamada pecado (nota-se que a tradução do título em português é bem insatisfatória, a troca de desejo por pecado tem o dedo da censura).

O filme, meu preferido do Kazan, não se resume à uma peça filmada, ele transborda sensualidade e estilo. A trilha sonora jazzada de Alex North, é quase erótica, uma das trilhas mais interessantes da história do cinema. A censura fez com que fosse tirada da peça a menção à homossexualidade do marido de Blanche, mas isso de maneira alguma compromete esse clássico do cinema. Todos os 4 atores principais do filme concorreram ao Oscar, os 4 mereciam, 3 ganharam. O único a não ganhar, Marlon Brando, é, ironicamente, o mais lembrado hoje ao se falar do filme. Kim Hunter e Karl Malden estão fantásticos em seus papéis de coadjuvantes. Marlon Brando inaugura um novo jeito de atuar, realista ao extremo. Sensual e bruto, seu Stanley Kowalski, é uma revolução no cinema. À sua composição realista se opõe o brilhantismo da teatralidade de Vivien Leigh, frágil e trágica como Blanche Dubois. O embate dessas duas atuações é um show a parte. Brando chegou a reconhecer que Leigh era melhor do que Tandy ao afirmar que a atriz era a própria Blanche.

Fato é que atriz e personagem tem muito em comum, ambas levadas à loucura... o que torna esse filme ainda mais instigante.

Cena mais famosa: 



Cena que eu mais gosto: (uma das)