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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

Título Original: The Dark Knight Rises
Lançamento: 2012
País: EUA
Direção: Christopher Nolan
Atores: Christian Bale, Anne Hathaway, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Gary Oldman, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Michael Caine
Duração: 164 min
Gênero: Ação

As estrelas de  BatmanO Cavaleiro das Trevas Ressurge
Não por acaso, O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) se tornou o longa-metragem mais aguardado do ano. Após realizar O Cavaleiro das Trevas (2008), um dos filmes mais idolatrados dos últimos anos, apreciado tanto pelo público, quanto pela crítica, Nolan se estabeleceu como um dos jovens diretores mais importantes de Hollywood. No currículo do cineasta inglês de 42 anos, ainda é possível encontrar pérolas como Amnésia (2000), A Origem (2010) e Batman Begins (2005), primeiro filme da nova trilogia Batman. Responsável por dar uma dimensão muito mais sombria e densa à história do herói mascarado, Nolan se despede da franquia Batman em grande estilo, ainda que o capítulo final da trilogia se mostre falho em alguns aspectos e não supere seus antecessores. 

Roteirizado por Christopher e Jonathan Nolan (irmão mais novo do diretor), O Cavaleiro das Trevas Ressurge apresenta uma trama complexa, permeada por diversas intrigas e enriquecida por um grande número de personagens, alguns velhos rostos e outros "novatos". Um dos primeiros acertos dos irmãos Nolan é a decisão de iniciar o filme com uma sequência de tirar o fôlego, em que Bane (Tom Hardy), o grande vilão da história, nos é apresentado. Fugindo do didatismo, Christopher Nolan lança o espectador na ação desde o primeiro momento, nos instigando e provocando. A história se passa oito anos após a morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart), cuja responsabilidade recai sobre os ombros de Batman. Dent se transformou em um mártir e sua imagem é utilizada na criação de uma política anticrimes que mantém Gotham City em paz. No entanto, a tranquilidade da cidade é perturbada quando o monstruoso Bane se revela uma verdadeira ameaça. Bruce Wayne, que desde a morte de sua amada se manteve recluso, é obrigado a vestir novamente o uniforme do Homem-Morcego para defender Gotham. No caminho do herói, ainda aparecem a perigosa Selina Kyle (Anne Hathaway) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard). 

Christian Bale e Anne Hathaway em cena do filme.
A trajetória de Bruce Wayne é marcada por perdas e por superações. Nolan faz questão de mostrar um  herói ferido, machucado, envelhecido e humanizado. Ainda assim, o protagonista jamais deixa de ser admirável. O Homem-Morcego é vivido por Christian Bale com uma grande entrega, aliás, a mesma entrega que o ator costuma demonstrar na maioria de seus trabalhos. O ator se transforma fisicamente diante dos olhos do espectador, revelando a princípio um homem frágil e decadente, que aos poucos dá lugar ao exuberante e imponente herói com o qual estamos acostumados. 

Além de realizar cenas de ação espetaculares, como o esperado primeiro confronto entre Bane e Batman, Nolan cria sequências de suspense de arrepiar. Dentre elas, destaca-se a importante sequência que se passa em um estádio de futebol, em que o canto do hino nacional norte-americano serve para pontuar a tensão, manipulando as expectativas do público. Christopher Nolan ainda mostra sua maestria em construir narrativas cuja tensão vai se amplificando a medida em que a trama se desenrola, deixando o espectador cada vez mais inquieto e, por vezes, atônito. Os efeitos especiais são igualmente extraordinários, fazendo com que o apocalíptico ato final do filme seja ainda mais impressionante. Tecnicamente irretocável, o filme ainda conta com o trabalho genial de Wally Pfister, diretor de fotografia, que aposta em uma palheta de cores cinzenta e fria, conferindo uma aura triste e sombria à obra.

Não é difícil reconhecer que O Cavaleiro das Trevas Ressurge empalidece face ao seu antecessor de 2008. Além de não contar com um personagem tão impactante e carismático quanto o maravilhoso Coringa de Heath Ledger, o último longa da série não apresenta o mesmo pathos do anterior. Os protagonistas (e consequentemente o espectador) não atravessam uma jornada emocional que se compare àquela vivida em O Cavaleiro das Trevas. Em compensação, é um prazer rever Michael Caine, Morgan Freeman e Gary Oldman reprisarem muito bem seus personagens. Já o talentoso Joseph Gordon-Levitt  faz do policial Blake uma das figuras mais interessantes e simpáticas do longa-metragem. E o que dizer de Tom Hardy que, mesmo com uma máscara que encobre grande parte do seu rosto, consegue fazer de Bane um sujeito terrível e assustador? O trabalho vocal do ator é, por si só, impressionante. 

Christian Bale dá vida pela terceira vez ao herói mascarado. 
Infelizmente, chega a ser um pouco decepcionante o papel que a icônica Mulher-Gato, Selina Kyle, desempenha na trama. A bela Anne Hathaway consegue despertar nosso interesse como uma Mulher-Gato modernizada, mesmo tendo um sexy appeal menos evidente do que as versões interpretadas por Michelle Pfeiffer e Halle Berry. Assim, é uma pena que a Mulher-Gato de Hathaway não seja melhor desenvolvida pelo roteiro. Unidimensional, a personagem cumpre o papel de uma coadjuvante de luxo. Suas ações poderiam ser realizadas por qualquer outro personagem. Além disso, a química entre Selina e Bruce Wayne não chega a convencer em nenhum momento. Algo parecido ocorre com a personagem vivida pela atriz francesa Marion Cotillard. É difícil "comprar" o breve affair de Miranda e Bruce. Ademais, a personagem parece ser um peso morto na narrativa e mesmo a performance da atriz se revela pouco inspirada.

Christopher Nolan conseguiu inserir as aventuras do Batman num universo realista. Por isso, chega a incomodar algumas "forçações de barra" do roteiro. Soam pouco verossímeis algumas aparições do Homem-Morcego em momentos-chave do filme. Além disso, determinada reviravolta na trama parece digna de novela mexicana. O final escolhido para a trilogia também não me agrada. É interessante que o diretor deixe as portas abertas para uma possível continuação, que com certeza interessará ao estúdio, ainda que com outro diretor no comando. No entanto, seria mais interessante se Nolan optasse por conferir certa ambiguidade ao destino do protagonista, deixando cada espectador escolher no que quer acreditar.

A trilogia Batman comandada por Christopher Nolan provou ser uma das mais bem-sucedidas dos últimos anos. O diretor conseguiu criar uma obra adulta, madura e inteligente, fazendo jus ao icônico personagem dos quadrinhos. O terceiro capítulo é, no final das contas, o filme menos interessante da trilogia e, mesmo assim, um ótimo filme. 

Assista ao trailer:


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Faca na Água - 1962

Título Original: Nóz w wodzie
Lançamento: 1962
País: Polônia
Direção: Roman Polanski
Atores: Leon Niemczyk, Jolanta Umecka e Zygmunt Malanowicz
Gênero: Drama/ Thriller
Duração: 94 min


Leon Niemczyk, Jolanta Umecka e Zygmunt Malanowicz protagonizam Faca na Água
O cineasta franco-polonês Roman Polanski iniciou sua trajetória artística como ator em 1953. Em 1955, ele dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem Rower. Sete anos depois, o cineasta viria a dirigir seu primeiro longa-metragem: Faca na Água (1962). Esse primeiro longa, o único da carreira de Roman Polanski produzido na Polônia, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tendo na ocasião a concorrência pesada de 8 1/2 (1963), obra-prima de Federico Fellini que acabou ficando com a estatueta. Faca na Água não se destaca apenas por ter sido o primeiro filme polonês indicado ao Oscar, mas também por ser um dos primeiros filmes poloneses, pós-Segunda Guerra, que não tem a guerra como tema principal ou pano de fundo. Faca na Água é a prova do talento e genialidade do diretor que, aos 29 anos, realizou um de seus filmes mais instigantes e sedutores.  

Faca na Água nos apresenta, em sua bela e estranha sequência de abertura, um casal a bordo de um carro. Logo, eles se deparam com um jovem moço que, ao atravessar a estrada, quase é atropelado. A esse moço é oferecida uma carona. Quando marido e mulher finalmente chegam a seu destino, um deck à beira de um grande lago, eles convidam o jovem para participar de um passeio de barco. A partir de então, um triângulo amoroso é formado. O filme é centrado em algumas horas na vida de três personagens e se passa quase totalmente no pequeno barco de Andrzej (Leon Niemczyk), quarentão casado com a jovem e bela Krystyna (Jolanta Umecka). Na pele do jovem desconhecido, cujo nome não nos é revelado, temos o galã Zygmunt Malanowicz. O papel foi disputado pelo próprio Roman Polanski, que acabou sendo descartado por não ser considerado atraente o bastante. Apesar de perder o papel, Polanski acabou por dublar o personagem posteriormente, já que a grave voz de Malanowicz era considerada forte e madura demais para o papel.

Já em seu primeiro longa-metragem, Polanski nos revela seu interesse pelas neuroses humanas e sua preferência por narrativas que se desenvolvem em espaços restritos, algo que pode ser verificado na sua famosa trilogia do apartamento, da qual Repulsa ao Sexo (1965) faz parte. Outra característica que não passa despercebida na narrativa é a sua crescente tensão sexual. A questão do sexo e da sexualidade ocupa também um lugar de destaque na filmografia do diretor franco-polonês. Escrito por Jerzy Skolimowski, Jakub Goldberg e Roman Polanski, Faca na Água é um drama e um thriller psicológico extremamente ousado e inteligente. 

Sem dúvida, um dos grandes atrativos do filme é a dimensão psicológica da narrativa. Andrzej é um homem competitivo, extremamente habilidoso e experiente. Apesar de ser forte e viril, o personagem se sente visivelmente ameaçado pelo jovem desconhecido, o que nos revela uma provável insegurança. O quarentão busca, de diversas formas, exibir sua masculinidade e virilidade, com a intenção de provar sua superioridade ao "concorrente". O "garoto" não fica para trás e responde às provocações de Andrzej com jovialidade, vigor e falta de jeito. Uma eletrizante, tensa e velada guerra fálica (simbolizada pela própria onipresença do imponente mastro do barco) é instaurada entre os dois personagens. Por vezes, Andrzej demonstra um interesse quase paternal pelo rapaz, interesse este que é confrontado com o seu desejo de sobrepujá-lo e destruí-lo. O jovem, por sua vez, parece admirar a desenvoltura e as habilidades do homem mais velho, ansiando em ser um pouco como ele. Em meio a essa guerra psicológica, está Krystyna, alvo do desejo do jovem desconhecido. A bela parece viver um momento de insatisfação em seu casamento. A moça, que encarna como ninguém a sensualidade feminina, acaba por se sentir atraída pelo rapaz. 

O filme não teria metade de seu irresistível charme se não fosse pela elegância da direção de Polanski, que capricha em enquadramentos maravilhosos. Cada quadro do filme parece contar uma história e é impressionante a maneira com a qual o diretor cria uma tensão no interior de diversos quadros, utilizando magistralmente a profundidade de campo. Assim, ele brinca com a questão do triângulo amoroso, colocando os personagens em posições estratégicas na tela, cheias de significado. Outro trunfo da narrativa é a forma com a qual a faca (referida no título) é manipulada durante a narrativa e como o roteiro brinca com as expectativas do espectador com relação a ela. O filme conta ainda com uma fotografia deslumbrante em preto-e-branco de Jerzy Lipman. Esteticamente impecável, o filme é também beneficiado pelas ótimas performances do trio de atores, com destaque para o assustador Leon Niemczyk e para a sensibilidade de Zygmunt Malanowicz.

Faca na Água não é um dos filmes mais conhecidos do mestre Roman Polanski. O primeiro longa-metragem de Roman Polanski é também sua primeira obra-brima, um filme que merece ser (re)descoberto. 


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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Repulsa ao Sexo - 1965

Título Original: Repulsion 
Lançamento: 1965
País: Reino Unido 
Direção: Roman Polanski
Atores: Catherine DeneuveIan Hendry e John Fraser
Duração: 105
Gênero: Drama/ Thriller


Repulsa ao Sexo (1965) é o segundo longa-metragem da carreira do cineasta franco-polonês Roman Polanski. O filme é o primeiro volume da famosa "trilogia do apartamento", da qual também fazem parte O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976). Repulsa ao Sexo foi filmado no Reino Unido, sendo o primeiro filme em inglês do diretor, que viria a filmar também na França e nos Estados Unidos. O cineasta, que realizou apenas um longa-metragem em seu país, Polônia, teve uma vida marcada por traumas e problemas judiciais. Em 1969, sua esposa, a atriz Sharon Tate, foi brutalmente assassinada por membros da família Manson. Em 1977, o diretor foi acusado de abuso sexual contra uma adolescente de 13 anos, não podendo mais retornar aos Estados Unidos, onde fez dois de seus maiores clássicos: O Bebê de Rosemary e Chinatown (1974).

Repulsa ao Sexo apresenta uma forte influência do surrealismo, principalmente de obras do espanhol Luis Buñuel. O filme, que combina drama psicológico, terror e thriller de maneira magistral, conta a história de Carol (Catherine Deneuve), uma jovem belga que vive com a irmã num pequeno apartamento em Londres, onde trabalha como manicure. Apesar de atrair a atenção de muitos homens, entre eles, do apaixonado Collin (John Fraser), a bela moça parece ter aversão ao sexo masculino. Quando a irmã mais velha (Yvonne Furneaux) viaja com o namorado (Ian Hendry) e deixa Carol sozinha no apartamento, a sanidade desta começa a se desestabilizar e estranhos eventos acontecem. A exuberante atriz francesa Catherine Deneuve tinha apenas 22 anos quando deu vida a uma das personagens mais importantes de sua carreira.


Muitas das narrativas de Polanski são construídas sob uma atmosfera sombria, incerta e angustiante. O tema da paranoia é também relevante em sua filmografia, podendo ser verificado em alguns de seus filmes, como O Inquilino e o próprio Repulsa ao Sexo. Polanski sempre revelou um imenso fascínio pelas neuroses humanas. O roteiro de Repulsa ao Sexo foi escrito pelo diretor em parceria com Gérard Brach. Um dos maiores atrativos do filme é a construção da personagem central, uma figura que impressiona por sua fragilidade, seu ar alienado e perdido e, ao mesmo tempo, pela sua alta periculosidade. Polanski não se preocupa em dar justificativas sobre o comportamento de sua protagonista, que pode ter origem em algum trauma de infância, como um possível estupro. Uma coisa, no entanto, parece ser certa: qualquer que seja a origem precisa dos traumas da personagem, ela está relacionada ao sexo e à sexualidade.

Polanski retrata brilhantemente a vida psicológica da personagem, recriando suas alucinações e transformando os medos dela em imagens, através de belas sequências de inspiração expressionista e surrealista.  A intensa vida interior de Carol se contrapõe à sua personalidade aparentemente insípida e retraída. O filme nos permite ainda supor que a aversão da personagem ao gênero masculino e ao sexo é  fruto de um desejo mal resolvido, reprimido e que lhe causa pavor. A existência de um convento ao lado do prédio da protagonista e mesmo sua vestimenta (ela está quase sempre vestida de branco) parecem simbolizar a pureza da virginal personagem. Carol é confrontada ao apelo do sexo pela presença do namorado da irmã em casa, pelos ruídos de sexo durante a noite e pelo assédio de um pretendente. O coelho na trama, por sua vez, é quase uma metáfora da própria fragilidade da personagem, que se sente coagida pelos seus predadores. 


Repulsa ao Sexo é abrilhantado por uma sedutora fotografia em preto e branco, belíssimos enquadramentos e uma elegância ímpar na direção. Além de ser esteticamente primoroso, o filme conta com uma atuação impressionante da belíssima Catherine Deneuve, cuja composição em nada se assemelha às femmes fatales que interpretaria posteriormente. Deneuve expõe, de maneira eficiente, o desconforto, a alienação, a dificuldade de se comunicar da personagem. É interessante observar que, na foto de família, presente no apartamento, Carol se diferencia dos outros familiares. Ela aparece ainda criança, com um olhar perdido e em segundo plano. Esse já é um indício do caráter isolado e "especial" da personagem. É importante salientar também que Polanski cria uma personagem sexualmente atraente, que se recusa a ser um objeto sexual.

Angustiante e instigante, Repulsa ao Sexo é uma das primeiras obras-primas da belíssima filmografia de Roman Polanski. Esse thriller com toques de terror, é um clássico que explora as dimensões tortuosas da psicologia humana. 



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terça-feira, 19 de junho de 2012

4 meses, 3 semanas e 2 dias - 2007

Título Original: 4 luni, 3 saptamâni si 2 zile
Lançamento: 2007
País: Romênia 
Direção: Cristian Mungiu
Atores: Anamaria Marinca, Vlad Ivanov, Laura Vasiliu
Gênero: Drama
Duração: 113 min
Anamaria Marinca e Laura Vasiliu protagonizam 4 meses, 3 semanas e 2 dias.
Laureado com o prêmio de Melhor Roteiro na edição deste ano do Festival de Cannes pelo filme Além das Colinas (2012), o cineasta romeno Cristian Mungiu já havia dado o que falar 5 anos antes, quando o segundo longa-metragem de sua carreira4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), levou a Palma de Ouro no mesmo festival. O multipremiado filme de 2007 é ambientado na Romênia de 1987. O filme retrata uma Romênia comunista, ainda sob o poder do ditador Nicolae Ceauşescu, que viria a ser executado dois anos depois. 

4 meses tem como pano de fundo, uma Romênia cinzenta, triste e fria (salientada pela ótima fotografia), um país privado dos luxos e de certos confortos propiciados pelo capitalismo. Trata-se de um universo sombrio, em que determinados bens, produtos e marcas, só podem ser encontrados de maneira clandestina. O filme acompanha um dia na vida de Otilia (Anamaria Marinca) e Gabriela (Laura Vasiliu), duas grandes amigas que dividem um quarto numa república de estudantes. A história se inicia em media res, no fim de uma conversa entre as duas universitárias em que essas, provavelmente, tomam uma decisão que definirá o que farão a seguir, algo que permanece velado ao espectador até certo ponto da narrativa. Aos poucos, o espectador compreende que Otília está ajudando "Gabita", a melhor amiga, a planejar e realizar um aborto (o título do filme é uma referência ao tempo de gestação de Gabriela). É sobre os ombros de Otília que recai a responsabilidade de arranjar os últimos preparativos do procedimento, um grave crime no país. A moça deve encontrar um lugar seguro para a realização do aborto, contatar aquele que executará o procedimento e ainda lidar com problemas inesperados. Com pragmatismo e coragem, Otília chega a fazer sacrifícios para que tudo dê certo ao final. 

Mungiu confere uma dramaticidade extraordinária à narrativa, que é relativamente simples, circunscrita a algumas horas na vida das protagonistas. O diretor romeno faz uso de belos e longos planos-sequências, abre mão da trilha sonora e explora magistralmente os "tempos mortos da narrativa" não apenas para dar o máximo de realismo a cada cena, mas também para captar o impacto que cada decisão tem sobre os personagens, a reação dos mesmos diante de situações-limites e para dar a real dimensão do sofrimento que, por vezes, não pode ser expressado com palavras. Mungiu prova sua habilidade e talento ao criar momentos completamente angustiantes, contrapondo as preocupações e os conflitos internos da protagonista ao mundo a sua volta, que, por vezes, se revela inesperadamente inóspito e agressivo. 

Fugindo dos clichês e descartando as reviravoltas hollywoodianas, Mungiu concentra a força de seu longa-metragem no estudo psicológico de suas personagens e na dilatação da tensão no centro de uma trama relativamente simples, ancorada no quotidiano de pessoas reais, com problemas reais. Podemos perceber isso, em uma das cenas mais memoráveis do filme, um longo plano-sequência, em que Mungiu posiciona a protagonista no centro da tela, na extremidade de uma mesa de jantar, enquanto esta é rodeada de personagens que não cessam de falar, rir e se movimentar. Trata-se de um simples jantar na casa do namorado. Longe de servir como um parênteses na narrativa, um momento de descontração ou algo que desvie a atenção do conflito central da trama, tal  "acontecimento" é uma provação a mais que Otília deve enfrentar no seu dia. Ainda que a moça permaneça praticamente calada, o desconforto da personagem, sua agitação interior e a urgência que vem com a passagem do tempo, fazem com que a cena ganhe contornos dramáticos que contrastam com seu caráter aparentemente trivial. 

Mesmo que não explicite uma posição favorável ou contrária à prática do aborto, Mungiu mostra de forma contundente o que há de violento por trás da prática clandestina, tanto ao mostrar cruamente o procedimento, como na forte cena em que o feto em questão é exibido ao espectador. Sem ser panfletário, 4 meses reaviva a questão da interrupção da gravidez, sendo um dos filmes mais interessante a tratar do assunto. 

Além da direção primorosa, 4 meses conta com um grande trabalho de seus atores principais. Anamaria Marinca, uma das grandes revelações do cinema romeno, incorpora com intensidade e naturalidade sua personagem e confere verossimilhança ao drama de Otília, que não deixa de ser uma heroína moderna. A protagonista assume uma responsabilidade que não é sua e encara uma jornada difícil em nome da amizade. Ao final, a personagem é tão ou mais exigida que a verdadeira grávida. Já a atriz Laura Vasiliu se destaca ao dar vida à fragilíssima Gabriela, o contraponto de Otília, uma personagem que impressiona tanto pela sua voz suave, quanto pelo seu comportamento irresponsável e quase infantil. Por fim, Vlad Ivanov interpreta o cafajeste Sr. Bebe, um sujeito verdadeiramente monstruoso. Apesar de pequena, a participação do ator é marcante e sua performance é impressionante.

Cristian Mungiu é um dos maiores representantes do cinema romeno atual. 4 semanas, 3 semanas e 2 dias é uma obra-prima envolvente e impactante: um filme nó-na-garganta. É inevitável não nutrir altas expectativas para a nova obra de Mungiu, Além das Colinas, ainda sem estreia prevista no Brasil. 

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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cosmopolis - 2012

Título Original: Cosmopolis
Lançamento: 2012
País: Canadá
Direção: David Cronenberg
Atores: Robert PattinsonSamantha Morton, Jay Baruchel, Paul Giamatti, Sarah Gadon
Duração: 108 min
Gênero: Drama
Previsão de estreia no Brasil: 13 de julho

"Minha próstata é assimétrica!"

Cena de Cosmopolis
O diretor canadense David Cronenberg e o astro Robert Pattinson compareceram à première de Cosmopolis em Paris, ao som de centenas de fãs enlouquecidas do fenômeno teen que despontou na saga CrepúsculoCosmopolis, que já havia estreado em Cannes na semana passada, não vem recebendo críticas positivas. Ao contrário, as revistas The Guardian The Hollywood Reporter, por exemplo, se mostraram bastante avessas à nova empreitada de Cronenberg. O longa-metragem é uma adaptação do romance homônimo do escritor americano Don DeLillo, publicado em 2003. Cronenberg é também o responsável pela adaptação da história e assina sozinho o roteiro do filme. Na entrevista pré-projeção, o diretor brincou que o filme era muito engraçado e que as pessoas deveriam rir. Até a metade do filme, nenhuma risada foi ouvida na gigantesca sala Grand Rex. 

Cosmopolis conta um dia na vida de Eric Packer (Robert Pattinson). O multibilionário de 28 anos circula por Manhattan em sua limosine. Seu objetivo é simples: ir a um salão mudar o corte de cabelo. No entanto, várias pessoas cruzam o seu caminho. Tais encontros se dão quase sempre em sua limosine, cenário principal do filme. É nela que ele encontra sua consultora de arte (rápida participação de Juliette Binoche), sua consultora financeira (Samantha Morton), seu médico, seus assistentes, entre outros. O dia de Eric é perturbado pela confusão do mercado financeiro, pela visita do presidente americano, por protestos na rua, pela morte de um cantor de rap e por uma séria ameaça à vida do protagonista. Acompanhado sempre pelo seu chefe de segurança (Kevin Durand), o moço ainda tem que lidar com sua distante e evasiva noiva (Sarah Gadon) que se recusa a ir para a cama com ele. 

Cosmopolis é um filme centrado no diálogo, o que faz com que ele tenha uma forte "pegada" teatral. Na verdade, o sentido de diálogo deve ser nuançado nesse caso, já que muitas vezes os personagens se lançam a conversações sem sentido. Sem dúvida a questão da comunicação é posta à prova, afinal vemos diversos personagens verborrágicos que não conseguem comunicar uma informação com clareza ou com objetividade. Ao contrário, eles se envolvem em divagações pseudo-filosóficas, mercadológicas, existenciais, que conseguem ser paradoxalmente coerentes e absurdas. O filme é ambientado em um universo aparentemente apocalíptico, em que ratos são moedas e valem mais do que o euro. Ao mesmo tempo, existe algo extremamente atual no enredo e os protestos vistos na trama, nos lembram o recente movimento Occupy Wall Street

Sob sua aparente insanidade, o filme toca temas muito importantes como a disparidade social, o individualismo, a invasão da tecnologia em todos os âmbitos da vida humana, a insensibilidade do homem face à dor alheia, o poder do capitalismo, a erupção da violência no quotidiano, entre outros. O protagonista é um jovem que usa sua limosine como uma bolha que o protege do mundo, algo que sinaliza sua riqueza e que o separa dos simples mortais. Eric, acostumado a ter tudo o que quer, tenta comprar o que não pode ter como um monumento histórico. Atormentado pelas coisas que ele não pode controlar, como as altas e baixas do mercado financeiro, a morte de um ídolo, sua própria saúde, as vontades da noiva, o jovem começa a se confrontar com o vazio de sua existência e se lança a um caminho de autodestruição. 

Cronenberg utiliza reiteradamente a ferramenta do campo/contracampo, o que introduz dinamismo e certo desconforto às conversações. O diretor também aposta em uma profusão de planos fechados e closes (que reduzem a sensação de amplitude do ambiente), e esses recursos, aliados ao espaço estreito e limitado da limosine, conferem um caráter claustrofóbico à narrativa. O ritmo e o conceito do filme com certeza encontrarão espectadores bastante resistentes que, ansiosos pela ação, deixarão de apreciar o humor sutil e sagaz de cada fala. Cronenberg não mentiu, o filme, de fato, é engraçado. Mas não se engane, não é o tipo de humor que lhe fará dar gargalhadas. É um tipo de humor que faz você reconhecer a ironia fina e inteligente por trás de cada réplica, dita às vezes seriamente ou com grandiloquência. 

O elenco é encabeçado pelo onipresente Robert Pattinson que, sob a direção de Cronenberg, consegue esconder suas limitações e nos oferece, provavelmente, a melhor performance da sua carreira. Obviamente, a ligeira falta de expressão do ator cai como uma luva ao personagem, que tem algo de mecânico. Mas o ator também tem seus méritos e confere certa espessura dramática ao personagem. Em meio às diversas participações especiais vistas no filme, destacam-se a de Samantha Morton, que é sempre magnética e interessante em cena e um fenomenal Paul Giamatti, que dá vida e energia à trama, que tende a ser monocórdica. 

Não dá para se esperar um filme convencional de David Cronenberg. Cosmópolis é, no entanto, um dos filmes menos acessíveis e mais estranhos do diretor. Cronenberg afirmou, na entrevista dada antes da projeção, que não realizou o filme para ser um sucesso de bilheteria. E não será. Dificilmente ficamos indiferentes a Cosmópolis, ele é do tipo ame-o ou odeie-o. Pelo visto, mais odeie-o do que ame-o. Só para constar, eu adorei. 

A sessão especial de Cosmopolis aconteceu ontem, dia 30, no Grand Rex de Paris.

Assista ao trailer:


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Na Estrada - 2012

Título Original: On the road
Lançamento: 2012
País: EUA
Direção: Walter Salles
Atores: Garrett HedlundSam Riley, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Tom Sturridge
Duração: 137 min
Gênero: Drama
Previsão de estreia no Brasil: 13 de julho 

“As únicas pessoas que me interessam são os loucos, loucos por viver, loucos por falar, loucos para serem salvos, sedentos de tudo ao mesmo tempo..."


On the road, romance de Jack Kerouac publicado em 1957, é considerado uma das obras literárias norte-americanas mais importantes do século XX. O romance, de forte inspiração autobiográfica, conta as aventuras de um grupo de amigos (jovens intelectuais, poetas) que atravessaram o território estadunidense como forma de celebração à liberdade. On the road é o produto mais marcante da Geração Beat, formada por um grupo de escritores do pós-Segunda Guerra, cujos estilo de vida e expressão artística eram baseados na experimentação, no uso de drogas, na exploração da sexualidade, na religião oriental e na rejeição ao materialismo. Vários cineastas se interessaram na transposição do romance para as telonas, entre eles Francis Ford Coppola, que comprou o direito de adaptação do livro, mas acabou por incumbir o brasileiro Walter Salles para a realização do longa-metragem. Na Estrada foi exibido na mostra oficial do Festival de Cannes no último dia 23 e teve uma recepção morna da crítica especializada. 

Coube a Walter Salles a responsabilidade de adaptar uma obra que possui inúmeros fãs, bem como a tarefa de transportar para o cinema todo o furor e poeticidade de On the road. Roteirizado por Jose Rivera (que já havia trabalhado com Salles em Diários de Motocicleta), o filme acompanha as aventuras protagonizadas por Sal (Sam Riley), Dean Moriarty (Garrett Hedlund) e Marylou (Kristen Dunst), assim como a intensa relação estabelecida entre esses jovens. A maioria dos filmes "de estrada", ou road movies,  se caracterizam por mostrar não apenas uma viagem, como também o autoconhecimento, o amadurecimento e o aprendizado proporcionados por essa experiência. O road movie revela quase sempre uma busca de si mesmo. Duas das maiores obras da filmografia de Salles são road moviesCentral do Brasil (1998) e Diários de Motocicleta (2004). Bastante familiarizado com o gênero, o diretor realiza uma de suas obras mais ambiciosas, mas cujo resultado final tende a dividir os espectadores. 

Jose Rivera tinha a difícil missão de criar uma estrutura narrativa que conseguisse reagrupar de maneira harmoniosa as diversas aventuras retratadas no livro, uma multiplicidade de acontecimentos e episódios esparsados em um período de três anos (1947-1950). O filme apresenta uma estrutura episódica preponderante, ainda que a ordem cronológica seja, em grande parte, respeitada. A opção do roteirista de incluir na narrativa episódios menos relevantes dramaticamente como o affair de Sal e Terry (Alice Braga) e o encontro com Old Bull Lee (Viggo Mortensen), assim como a inclusão de outros personagens secundáriosconfere ao filme um caráter ainda mais fragmentado, dilata sua duração e tira o foco de uma linha narrativa única centrada nos dois protagonistas masculinos. Outra característica da trama é a ausência de um grande conflito unificador. Trata-se, sobretudo, de um diário de viagens, alimentado por um estudo de personagens. O que alguns críticos chamaram de "sem direção" é provavelmente fruto da combinação de tais elementos. É provável que um filme mais enxuto, que focalizasse sobretudo o triângulo amoroso central, fizesse mais sucesso com público e crítica. Em compensação, excluir alguns acontecimentos presentes no livro não seria mutilar a expêriencia contada pelo narrador-personagem? 

Walter Salles traduz em imagens a essência da obra de Kerouac: a celebração da juventude, do espírito livre, da amizade e da arte. O diretor capta com maestria a alma rebelde dos protagonistas, fazendo com que o espectador mergulhe num universo dominado por um lirismo contagiante. Salles reconstrói, com auxílio de uma direção de arte e figurino impecáveis, uma América dos anos 40/50 que pulsa ao som efervescente do jazz. Merecem elogios a belíssima e eficiente fotografia de Eric Gautier e a ótima trilha sonora do experiente compositor argentino Gustavo Santaolalla, que já havia trabalhado com Salles em Diários de Motocicleta e que tem na estante dois Oscar's, por O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Babel (2006). 

Na Estrada tem um grande elenco. Em meio a nomes mais famosos, Garret Hedlund revela-se a maior atração do filme. A atuação do ator de 27 anos é cheia de vigor, fúria e sensualidade. Hedlund confere  angústia e nervosismo existencial a seu personagem (Dean). O galã é mais conhecido pelo seu trabalho no mediano Tron - O Legado (2010). O inglês Sam Riley dá vida a Sal, narrador e personagem central do filme. Riley acaba sendo ofuscado por Hedlund não apenas devido à intensidade da atuação do colega, como pelo fato de Dean ser o personagem mais fascinante da trama, aquele que comanda a atenção do espectador e dos outros personagens. Kristen Stewart, ainda que tenha uma figura interessante na tela e protagonize cenas ousadas, definitivamente não convence como atriz. Sua xará, Kristen Dunst, ao contrário, prova, mais uma vez, o quanto se tornou uma atriz mais madura e interessante. Uma das melhores surpresas do longa fica por conta de Tom Sturridge, que vive o apaixonado Carlo e tem algumas das cenas mais tocantes do longa. Na Estrada conta ainda com as participações de luxo de Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi e Alice Braga.

Na Estrada não tem vocação para unanimidade. Muitos irão torcer o nariz para o filme, mas, definitivamente, o novo longa-metragem de Walter Salles encontrará fãs apaixonados. Por mais que reconheça que esse não é o melhor trabalho do diretor brasileiro, tendo a encarar o filme como um projeto bem-sucedido e, por vezes, inspirado. 


Assista ao trailer:




quarta-feira, 23 de maio de 2012

De rouille et d'os - 2012

Título Original: De rouille et d'os 
Lançamento: 2012
País: França
Diretor: Jacques Audiard
Atores: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Corinne Masiero, Bouli Lanners
Duração: 120 min
Gênero: Drama


Matthias Shoenaerts e Marion Cotillard protagonizam De rouille et d'os

O segundo filme da mostra competitiva a ser exibido no Festival de Cannes foi o francês De rouille et d'os ("Ferrugem e osso"). O longa-metragem foi realizado por Jacques Audiard, que, em 2009, chamou bastante atenção com o seu excelente Um profeta, drama criminal indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e ganhador do grande prêmio do júri em Cannes naquele ano. O diretor causou mais uma vez uma boa impressão no Festival. Seu novo filme agradou bastante aos críticos, sendo bem mais elogiado que Moonrise Kingdom (2012), filme que abriu a competição. De rouille et d'os é estrelado pela francesa Marion Cotillard e pelo belga Matthias Schoenaerts, ator que foi considerado uma das revelações do festival. Audiard escreveu o roteiro do longa ao lado de Thomas Bidegain, a partir do argumento de Craig Davidson. 

Em De rouille et d'os, Alain (Schoenaerts) se vê incumbido de cuidar do filho de cinco anos, mas passa sérias dificuldades. No entanto, ele tem a chance de recomeçar sua vida, no sul da França, com o auxílio da irmã. Trabalhando como segurança de uma boate, Alain encontra Stéphanie (Marion Cotillard), uma treinadora de orcas. Após um grave acidente durante uma apresentação com os animais, Stéphanie tem suas pernas amputadas. A moça volta a encontrar Alain e os dois iniciam uma inusitada relação. De rouille et d'os fala dos acidentes, das fatalidades e das coincidências capazes de transformar vidas. 

Um dos maiores acertos do filme é a sua abordagem realista do quotidiano, dos indivíduos e de seus dramas pessoais. O filme é completamente ancorado no real, no caos do dia-a-dia, no cinza da cidade, no que não é necessariamente bonito. Cada detalhe trivial da vida das pessoas é importante para termos a sensação de estarmos testemunhando um pedaço da vida de um ser verdadeiro, mortal, cheio de problemas e limitações. Em diversos momentos, Audiard se lança em uma empreitada que lembra à estética do documentário: câmera na mão, tremores, movimentos rápidos. Ao mesmo tempo, chega a ser fascinante a maneira com a qual o diretor insere momentos de extrema poeticidade em meio ao seu realismo urbano, como as belíssimas cenas em que Stéphanie faz os movimentos de comando das orcas ora em um  terraço, ora em frente a um aquário/tanque. 

Em um determinado momento da trama, Stéphanie pede a Alain um pouco de delicadeza. Este parece ser um dos motes principais do filme: como encontrar delicadeza e sensibilidade em um universo dominado pela brutalidade e pela violência? Audiard, por sinal, não tem medo de explorar o lado mais vil do ser humano e faz surgir, por exemplo, Stéphanie em cena já com o nariz sangrando em consequência de um soco que levou de um homem. Essa é a primeira aparição de Marion Cotillard e não é por acaso que o diretor faz a estrela do filme surgir em cena dessa maneira. Mas não é só isso. Audiard filma cada gesto de violência com extremo vigor, apostando em closes impactantes e em movimentos de câmera repentinos. Ao fazer de seu protagonista um lutador de vale-tudo, que participa de perigosas lutas clandestinas, o diretor mostra também o culto à violência e a pulsão autodestrutiva do personagem. 

O filme conta com um elenco afiado formado, em sua maioria, por atores franceses e belgas. Marion Cotillard confere autenticidade ao drama de sua personagem. Um exemplo disso é a cena da descoberta da perda das pernas no quarto do hospital, em que ela grita aos prantos e repetidamente "O que fizeram com minhas pernas?". Na mão de uma atriz menos talentosa, a cena poderia soar como um melodrama barato. A atriz ainda consegue comunicar, principalmente através do seu olhar e de suas expressões, os dilemas e as emoções de sua personagem, tais como: o desejo, o fascínio pela força e pela brutalidade de Alain, a depressão, etc. A atriz ainda dá dimensão à dor da personagem da forma mais delicada e simples possível. Uma lágrima furtiva parece dizer muito mais do que um diálogo. O efeito visual que faz desaparecer parte das pernas de Cotillard é extremamente bem realizado e confere verossimilhança à trama. O galã Mathias Schoenaerts interpreta um brutamontes que no fundo tem um bom coração. A jornada do grosseiro e insensível Alain é justamente a de descobrir o amor e a arte da delicadeza. A atuação do ator belga é magnética, forte e visceral. Tanto Shoenaerts como Cotillard se expõem bastante em cenas de sexo e de nu. É interessante que mesmo não apostando na glamourização dos corpos, Audiard consiga fazer de tais cenas algo extremamente bonito, sensual e natural. 

De rouille et d'os conta com a ótima trilha sonora do onipresente e prolífico Alexandre Desplat (que também trabalhou em Moonrise Kingdom). O filme ainda conta com um trabalho de montagem e edição de som  excelentes e uma bela fotografia, essencial para o tom documental do filme. Infelizmente, De rouille et d'os parece se perder justamente no seu ato final, no qual a resolução soa forçada e precipitada. A redenção de Alain parece ser fruto muito mais de um acidente do que do percurso do personagem durante o filme e de seu envolvimento com Stéphanie, o que é uma pena. 

O novo filme de Jacques Audiard proporciona que entremos na intimidade de dois personagens fortes e   fascinantes e que mergulhemos em seus caos particulares. De rouille et d'os mostra a erupção da violência no dia-a-dia e o nascimento do amor no lugar menos provável. Imperdível. 

Assista ao trailer:


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Moonrise Kingdom - 2012

Título Original: Moonrise Kingdom
Lançamento: 2012
País: Estados Unidos
Diretor: Wes Anderson
Atores: Jared GilmanKara Hayward, Bruce Willis, Bill Murray, Frances McDormand e Edward Norton
Duração: 94 min
Gênero: Aventura/ Romance/ Comédia

Kara Hayward e Jared Gilman em cena de Moonrise Kingdom
Moonrise Kingdom abriu a edição 2012 do Festival de Cannes, no último dia 16. Dirigido e roteirizado  (ao lado de Roman Coppola) pelo americano Wes Anderson, de 43 anos, o longa-metragem teve uma recepção sobretudo positiva da crítica especializada, ainda que não a tenha verdadeiramente entusiasmado. Anderson, que iniciou sua carreira em 1994, tem alguns títulos importantes no currículo, entre eles, o cult Os Excêntricos Tenembaums (2001) e a animação O Fantástico Sr. Raposo (2009). Ele foi indicado ao Oscar pelos dois filmes (Melhor Roteiro Original e Melhor Animação). 

Moonrise Kingdom conta a história de amor entre dois adolescentes considerados problemáticos. Sam (Jared Gilman) é um garoto órfão que foge do um acampamento de escoteiros para realizar uma aventura ao lado de sua namorada por correspondência, Susy (Kara Hayward). O sumiço dos dois adolescentes desperta a preocupação dos pais da garota, Mrs. e Mr. Bishop (Frances McDormand e Bill Murray), do xerife local, Captain Sharp (Bruce Willis) e do chefe dos escoteiros, Ward (Edward Norton). O filme explora com sensibilidade a descoberta do primeiro amor. 

A abertura do longa-metragem é, sem dúvida, um dos grandes momentos do filme. Nela, Anderson explora os cômodos de uma casa através de travellings em múltiplas direções. Inspirando-se no conceito da casa de bonecas, o diretor apresenta a realidade de uma família de uma forma extremamente estilizada e elegante. Ao que tudo indica, Anderson contou com o auxilio de miniaturas para os efeitos visuais. Já nesta sequência de abertura, o expectador é confrontado com uma direção de arte e figurino impecáveis, uma linda fotografia e uma trilha sonora inebriante. A fotografia por vezes adquire uma textura "antiga" e a abundância de cores é fascinante. A história se passa nos anos 60 e, ao que parece, Anderson se inspirou em alguns filmes da época, principalmente comédias e musicais, como Bye Bye Birdie (1963), para idealizar a estética do filme. 

Além de ser esteticamente impecável e encantador, o longa-metragem retrata o envolvimento entre os adolescentes protagonistas de uma maneira bastante delicada, revelando, ao mesmo tempo, a inocência e  a precocidade do casal. Infelizmente, o filme acaba ficando menos interessante e envolvente quando focaliza os outros personagens. Ainda que o elenco seja formado por grandes atores, fica a sensação de que a maioria deles é desperdiçada ou subaproveitada pelo roteiro. Por incrível que pareça, os fantásticos Bill Murray e Frances McDormand não brilham como poderíamos imaginar. Bruce Willis, por sua vez, surge mais inexpressivo do que de costume. Já Edward Norton não tem muito o que fazer com seu personagem. O filme ainda se dá ao luxo de contar com breves participações de Tilda Swinton, Harvey Keitel e Jason Schwartzman. É interessante observar que a história se beneficia sobretudo do carisma e da desenvoltura dos jovens e inexperientes atores Kara Hayward e Jared Gilman.

Sem dúvida, algum ingrediente faltou à receita de Moonrise Kingdom. Ainda assim, o filme não deixa de ter um charme particular e conta ainda com alguns momentos bastante inspirados e divertidos. Anderson não deixa de exibir seu humor peculiar e inusitado, presente em obras como Os excêntricos Tenembaums. A trilha sonora de Alexandre Desplat é uma obra-prima. A música, por sinal, é a alma do filme e ocupa um lugar de destaque na narrativa. Moonrise Kingdom é uma delicada fábula sobre primeiro amor e sobre a adolescência que merece ser vista e apreciada, ainda que não seja o melhor filme de seu diretor. 

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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Tiranossauro - 2011

Título Original: Tyrannosaur
País: Inglaterra
Lançamento: 2011
Direção: Paddy Considine
Atores: Peter Mullan, Olivia Colman, Eddie Marsan
Duração: 92 min
Gênero: Drama

"It's dog all together!"


Hannah e Joseph - o socorro pode vir do lugar mais inesperado. 


Um dos filmes que mais chamaram a atenção no cenário indie em 2011, foi o britânico Tiranossauro. O premiado longa-metragem é apenas o segundo filme como diretor de Paddy Considine e seu primeiro longa-metragem. Considine começou sua carreira como ator em 1999 e, desde então, esteve presente em mais de 20 filmes, dentre eles O Ultimato Bourne (2007) e Terra dos Sonhos (2004). Apesar do sucesso como realizador e de ter sido considerado uma das maiores revelações como tal, neste ano que passou, o muiti-talentoso inglês de 37 anos não pretende abdicar de sua consistente carreira como intérprete para se dedicar apenas à direção. Nos seus próximos projetos, já anunciados, ele prestará seus serviços como ator. Além de atuar e dirigir, Considine tem créditos de roteirista. É dele, inclusive, o roteiro de Tiranossauro. O filme foi lembrado em diversas premiações em 2011/2012, tendo levado prêmios no Sundance Film Festival, no BAFTA, no British Independent Film Awards e tendo sido indicado ao Independent Spirit Awards.  

Em Tiranossauro, Considine retoma os personagens principais do seu premiado curta-metragem de 16 minutos, Dog Altogether (2008). Joseph é um homem amargurado, violento, atormentado pela raiva e pela culpa. Levando uma vida sem sentido e sem paz, o cinquentão parece ver as coisas piorarem após matar o próprio cachorro em um acesso de raiva e ao ter que lidar com a doença terminal do seu melhor amigo. Muito do passado do protagonista resta obscuro, mas tudo nos leva a crer que a vida de Joseph foi marcada por inúmeros erros, sofrimentos e prováveis crimes. Certo dia, ele invade a butique de Hannah que, ao invés de expulsá-lo ou chamar a polícia, ora por ele. A vida de Hannah também é marcada pela dor. A moça sofre por não poder ter filhos e ainda tem que lidar com um marido sádico e desequilibrado. Os caminhos de Hannah e Joseph se cruzam e, a partir de então, uma relação inusitada se estabelece.

Peter Mullan interpreta um homem marcado pelo desespero e em busca de redenção.

Uma das maiores qualidades do cinema independente é a maneira com a qual as relações humanas são desvendadas e exploradas. Tais relações ocupam quase sempre o primeiro plano das narrativas, calcadas no quotidiano das pessoas, no que pode ocorrer de mais absurdo e chocante entre quatro paredes, numa comunidade ou no seio de uma família. É louvável o interesse dos cineastas independentes pelo ser humano, suas incongruências, seus monstros internos e sua beleza. Nada é mais devastador do que a dor e a miséria humana. Considine escreveu e realizou um longa-metragem pertubardor, por vezes revoltante, mas, sobretudo, humano. Joseph e Hannah, os personagens centrais, são pessoas à beira de um abismo, que se encontram para se salvarem mutuamente. 

Em certo momento, um amigo de Joseph diz "Somos todos cachorros" (It's dog all together - referência ao título do primeiro filme do diretor).  A figura do "cachorro" ocupa um lugar fundamental na narrativa. Não só os personagens levam uma "vida de cachorro", ou seja, uma vida infeliz, cheia de misérias, como se sentem tratados como cachorros pela vida, como animais, seres isentos de humanidade. O "sacríficio" dos dois cães na trama tem significados muito fortes. Considine sabe que pouca coisa é mais impactante para o espectador, principalmente para aquele proveniente do mundo ocidental, do que cenas de violência contra cachorros. O diretor/roteirista utiliza os sacrifícios para marcar as mudanças no protagonista. O primeiro assassinato é o estopim da derrocada do personagem, o segundo representa a morte do lado selvagem do personagem, um sacrifício necessário para que ele se reerga. Ambas as mortes são injustas, mas tem valores diferentes. Na primeira, Joseph fere quem o ama, assim como fazia com sua falecida mulher. A segunda é compreendida pelo personagem como uma atitude necessária, uma forma de combater a injustiça e o mal do mundo. Joseph carrega o luto pelas duas mortes.

Olivia Colman confere vulnerabilidade e profundidade a uma personagem trágica e encantadora.

Além do ótimo e sensível roteiro, Considine confere ao filme um tempo e um ritmo próprios, dando um peso necessário a cada descoberta, investindo nas reações dos personagens, nas trocas de olhares, nos não-ditos, nos silêncios. Merecem elogios também a bela trilha sonora de Barker e Baldwin, a fotografia de Erik Wilson (que confere um tom invernal e cinzento à história), a inteligente edição de som e a eficiente montagem. O filme ainda se beneficia muito das atuações de seu ótimo elenco, a começar pelo sensacional ator escocês Peter Mullan, com sua maravilhosa e profunda voz grave. A performance do ator impressiona pelo vigor, pela entrega, pela maneira com a qual ele retrata a jornada emocional de seu personagem. A atuação de Olivia Colman é uma pequena jóia. A atriz encarna com uma sensibilidade fora do comum sua personagem trágica e é difícil não se emocionar com sua performance. Eddie Marsan, por sua vez, surge assustador e sua participação é extraordinária.


Tiranossauro é um filme nó-na-garganta, uma obra arrasadora e envolvente. Sem dúvida, trata-se de um dos melhores longas independentes de 2011. 


Assista ao trailer: