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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Clássicos da Cinemateca - Chinatown (1974)


"Forget it, Jake, it's Chinatown."
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Jack Nicholson dá vida a J.J. Gittes em Chinatown (1974).
Em 1968, o diretor franco-polonês Roman Polanski realizou seu primeiro filme hollywoodiano, a obra-prima do suspense e terror O Bebê de Rosemary. Em agosto de 1969, sua esposa, a atriz Sharon Tate, foi assassinada brutalmente, em Los Angeles, por membros da Família Manson. Quatro anos após a tragédia, Polanski retornou a Los Angeles para dirigir seu segundo e último filme em solo norte-americano, Chinatown, considerado uma de suas obras mais importantes. O cineasta se viu impedido de voltar a trabalhar nos Estados Unidos devido a uma acusação de assédio sexual contra uma adolescente de 13 anos, que teria ocorrido em 1977, também em Los Angeles.
Chinatown combina romance, intriga policial e tragédia de forma magistral. Na Los Angeles dos anos 30, J.J. Gittes (Jack Nicholson), um detetive particular especializado em casos de adultério, é procurado por uma mulher (Diane Ladd), que se identifica como Evelyn Mulwray e pede que seu marido Hollis seja investigado por conta de uma provável traição. Hollis Mulwray (Darrell Zwerling) era o engenheiro chefe do departamento de água e energia da cidade. Após o detetive fotografar o seu alvo com uma jovem misteriosa e o caso se tornar público, Gittes descobre que não foi procurado pela verdadeira Mrs. Mulwray (Faye Dunaway) e, sim, por uma impostora. Logo depois, Mr. Mulwray é encontrado morto. A partir de então, o protagonista se vê em meio a uma intriga que envolve assassinato, corrupção e incesto.
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John Huston e Jack Nicholson em cena do filme.
A trama do filme é parcialmente inspirada no rompimento da barragem de St. Francis em Los Angeles em 1928, trágico acidente que matou aproximadamente 450 pessoas, um dos maiores desastres da história da cidade. Diz-se que o personagem Hollis Mulwray é, por sua vez, inspirado em William Mulholland, engenheiro que idealizou a construção. No filme, Mulwray se opõe à contrução de uma nova barragem por razões de segurança, uma vez que a anterior entrou em colapso, resultando na morte de centenas de pessoas, uma referência à catástrofe de 1928. O nome do vilão do filme também nos remete à inundação: Noah (vivido por John Huston) seria uma referência a Noé, personagem bíblico que enfrentou o dilúvio.
Chinatown foi concebido como a primeira parte de uma trilogia sobre a corrupção no desenvolvimento de Los Angeles. A série seria protagonizada pelo detetive particular Jake Gittes, criado especialmente para Jack Nicholson. O segundo filme, A Chave do Enigma (The Two Jakes), foi realizado em 1990. O próprio Nicholson dirigiu essa continuação, filme em que Gittes deve desvendar um enigma envolvendo uma companhia de gás. O longa-metragem, no entanto, não repetiu o sucesso de seu predecessor e foi um fracasso de bilheteria e crítica, o que desestimulou a realização do último volume da trilogia, que se chamaria Cloverleaf.
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Roman Polanski e Jack Nicholson nos bastidores do filme.
Chinatown é geralmente descrito como um filme neo-noir. O termo “filme noir” é de origem francesa e remonta aos anos 1930. O cinema noir se desenvolveu sobretudo nos Estados Unidos e teve seu auge e apogeu nos anos 40 e 50, com filmes como O Falcão Maltês (1941),Laura (1944), Pacto de Sangue (1944) e A Marca da Maldade (1958). Ainda que contestado, o termo neo-noir é usado para se referir a filmes pós-anos 60, que incorporam  elementos do cinema noir de forma modernizada e/ou estilizada, se apropriando de diferentes temas e utilizando novas técnicas e tecnologias. Chinatown compartilha muitas características do gênero: a intriga gira em torno de um crime ou um conjunto de crimes; encontram-se personagens típicos, como o investigador, o policial, a femme fatale, o bandido, entre outros; a narrativa é dominada por personagens dúbios, sombrios e por um clima de suspeita, perigo, mistério e pessimismo; e a ação se passa sobretudo durante a noite.
Chinatown foi indicado a 11 Oscars, tendo levado uma única estatueta, a de Melhor Roteiro Original. O roteiro, de autoria de Robert Towne, é celebrado por muitos especialistas, como um dos melhores de todos os tempos. O roteirista tinha Jack Nicholson em mente quando criou o icônico personagem de Jake Gittes. Quando Roman Polanski embarcou no projeto, Towne já havia dedicado um longo período na escritura do roteiro que, originalmente, tinha mais de 180 páginas. Polanski tomou conhecimento do script através do próprio Nicholson, com quem o diretor ansiava trabalhar. O produtor Robert Evans aprovava a ideia de que um diretor europeu assumisse a direção do longa-metragem, já que acreditava que uma visão de fora conferiria um ar mais cínico e sombrio à produção. 
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Faye Dunaway foi indicada pela segunda vez ao Oscar por sua atuação em Chinatown.
Por ter perdido, alguns anos antes, sua esposa, de maneira brutal, também em Los Angeles, Polanski estava inicialmente relutante em se ligar ao projeto. Posteriormente, o diretor afirmou que o final sombrio do filme se deve muito ao seu próprio desespero após o assassinato de Sharon Tate. Esse final foi, inclusive, um dos motivos de maior debate entre o diretor e o roteirista. Robert Towne pretendia dar um final feliz à narrativa. No entanto, durante a pré-produção e filmagens, Towne e Polanski discutiram longamente sobre essa questão, já que o cineasta defendia um final trágico para a história. 
Para Polanski, o fim em que os bons triunfariam e os maus seriam punidos prejudicaria a originalidade da história. O diretor acabou por ganhar a discussão e sua vontade prevaleceu. Polanski imaginava um desfecho em que grande parte do elenco estivesse em cena, como ocorre normalmente nas óperas. O final foi escrito em dois dias, com o auxílio de Jack Nicholson para os diálogos. O cineasta também fez construir o cenário do bairro chinês para a sequência, já que não concordava com o fato de que o filme, apesar do título, não retratasse o bairro (no script original, nenhuma cena se passava efetivamente em Chinatown). Vinte e cinco anos após o lançamento do filme, Towne deu o braço a torcer e declarou que o cineasta estava certo quanto à escolha do final. 
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Jack Nicholson tinha 36 anos e Faye Dunaway 32 na época das filmagens.
No entanto, não foi somente a decisão sobre o final da história que causou atrito entre o roteirista e o diretor. Roman Polanski teria exigido que Towne reescrevesse todo o script, o que teria provocado acaloradas discussões. Com a intervenção de Polanski, parte dos personagens foi suprimida e a ação foi simplificada. A narração em off do personagem Jake Gittes, presente no script, foi eliminada por Polanski para que o público tivesse acesso às pistas e informações à medida que o protagonista as conhecesse.
Seguindo a tradição das tramas de detetive do escritor Raymond Chandler, Polanski filmou a história sob a perspectiva do protagonista. O diretor afirmou, na edição de dezembro de 1974 da revista L’Express, que sua primeira missão no projeto consistiu justamente em fazer com que a narrativa adotasse a perspectiva de Gittes, o que conferiu à mesma uma atmosfera similar à das obras de Chandler ou Dashiel Hammett, escritas em primeira pessoa. Segundo Polanski, o espectador deveria ter a impressão de viver as aventuras do detetive particular, ao lado deste, como se fosse uma testemunha invisível de tudo o que se passasse com o herói. No filme, Polanski não abandona jamais seu protagonista e posiciona, constantemente, a câmera por detrás dos ombros de Gittes, redobrando a impressão de que o espectador é um observador quase indiscreto.
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Segundo boatos, a relação de Faye Dunaway e Roman Polanski era bastante complicada.
Além do celebrado roteiro e da direção primorosa, Chinatown é reconhecido também pelas inesquecíveis performances de seu trio de atores principais: Jack Nicholson, Faye Dunaway e John Huston (os dois primeiros indicados ao Oscar). Huston, que talvez seja mais conhecido como o diretor das obras-primas O Falcão Maltês (1941) e O Tesouro de Sierra Madre (1948), interpreta um dos vilões mais odiosos do cinema em Chinatown. Seu Noah Cross está em 16° na lista dos melhores vilões do cinema do American Film Institute. Uma curiosidade é o fato de que Nicholson havia iniciado, na época, seu longo relacionamento com Angelica Huston, filha do colega John Huston. Diz-se que Nicholson se sentia bastante desconfortável com a situação. Ironicamente, em uma das cenas do filme, o personagem de Huston pergunta a Gittes se ele está dormindo com sua filha.
O próprio Roman Polanski faz uma participação importante no filme. O diretor, que provou, em diversas ocasiões, ser também um bom ator, é o capanga que corta o nariz de Gittes na trama, numa das cenas mais célebres do filme. Para a realização dessa cena, foi fabricada uma faca especial, cujo manuseio era extremamente delicado. 
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Roman Polanski em frente às câmeras, como o bandido que corta o nariz de Jack Nicholson. Assista à cena.
Outro destaque do filme é sua memorável trilha sonora. Chamado em cima da hora, após a dispensa de Philip Lambro, compositor originalmente designado para o projeto, Jerry Goldsmith teve pouco mais de uma semana para gravar a música do filme. O grande Jerry Goldsmith é normalmente apontado como um dos compositores mais influentes e importantes da história da sétima arte. A trilha de Chinatown é um de seus trabalhos mais conhecidos. Ela foi indicada ao Oscar e é vista como uma das melhores trilhas sonoras do cinema, ocupando o nono lugar em votação realizada pelo American Film Institute.
Além das 11 indicações ao Oscar e da estatueta de Melhor Roteiro Original, Chinatown foi premiado no Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme (Drama), Melhor Direção, Melhor Ator (Drama) e Melhor Roteiro. O filme também ganhou três prêmios BAFTA (roteiro, direção e ator). A frase "Forget it, Jake, it's Chinatown!” está entre as 100 melhores frases do cinema noranking do American Film Institute. A mesma instituição incluiu o  filme em 19° lugar na sua lista de melhores filmes americanos de todos os tempos e em segundo na de melhores filmes de mistério. Peça essencial da bela filmografia de Roman Polanski, Chinatown é uma obra-prima indispensável em qualquer Cinemateca.
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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Faca na Água - 1962

Título Original: Nóz w wodzie
Lançamento: 1962
País: Polônia
Direção: Roman Polanski
Atores: Leon Niemczyk, Jolanta Umecka e Zygmunt Malanowicz
Gênero: Drama/ Thriller
Duração: 94 min


Leon Niemczyk, Jolanta Umecka e Zygmunt Malanowicz protagonizam Faca na Água
O cineasta franco-polonês Roman Polanski iniciou sua trajetória artística como ator em 1953. Em 1955, ele dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem Rower. Sete anos depois, o cineasta viria a dirigir seu primeiro longa-metragem: Faca na Água (1962). Esse primeiro longa, o único da carreira de Roman Polanski produzido na Polônia, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tendo na ocasião a concorrência pesada de 8 1/2 (1963), obra-prima de Federico Fellini que acabou ficando com a estatueta. Faca na Água não se destaca apenas por ter sido o primeiro filme polonês indicado ao Oscar, mas também por ser um dos primeiros filmes poloneses, pós-Segunda Guerra, que não tem a guerra como tema principal ou pano de fundo. Faca na Água é a prova do talento e genialidade do diretor que, aos 29 anos, realizou um de seus filmes mais instigantes e sedutores.  

Faca na Água nos apresenta, em sua bela e estranha sequência de abertura, um casal a bordo de um carro. Logo, eles se deparam com um jovem moço que, ao atravessar a estrada, quase é atropelado. A esse moço é oferecida uma carona. Quando marido e mulher finalmente chegam a seu destino, um deck à beira de um grande lago, eles convidam o jovem para participar de um passeio de barco. A partir de então, um triângulo amoroso é formado. O filme é centrado em algumas horas na vida de três personagens e se passa quase totalmente no pequeno barco de Andrzej (Leon Niemczyk), quarentão casado com a jovem e bela Krystyna (Jolanta Umecka). Na pele do jovem desconhecido, cujo nome não nos é revelado, temos o galã Zygmunt Malanowicz. O papel foi disputado pelo próprio Roman Polanski, que acabou sendo descartado por não ser considerado atraente o bastante. Apesar de perder o papel, Polanski acabou por dublar o personagem posteriormente, já que a grave voz de Malanowicz era considerada forte e madura demais para o papel.

Já em seu primeiro longa-metragem, Polanski nos revela seu interesse pelas neuroses humanas e sua preferência por narrativas que se desenvolvem em espaços restritos, algo que pode ser verificado na sua famosa trilogia do apartamento, da qual Repulsa ao Sexo (1965) faz parte. Outra característica que não passa despercebida na narrativa é a sua crescente tensão sexual. A questão do sexo e da sexualidade ocupa também um lugar de destaque na filmografia do diretor franco-polonês. Escrito por Jerzy Skolimowski, Jakub Goldberg e Roman Polanski, Faca na Água é um drama e um thriller psicológico extremamente ousado e inteligente. 

Sem dúvida, um dos grandes atrativos do filme é a dimensão psicológica da narrativa. Andrzej é um homem competitivo, extremamente habilidoso e experiente. Apesar de ser forte e viril, o personagem se sente visivelmente ameaçado pelo jovem desconhecido, o que nos revela uma provável insegurança. O quarentão busca, de diversas formas, exibir sua masculinidade e virilidade, com a intenção de provar sua superioridade ao "concorrente". O "garoto" não fica para trás e responde às provocações de Andrzej com jovialidade, vigor e falta de jeito. Uma eletrizante, tensa e velada guerra fálica (simbolizada pela própria onipresença do imponente mastro do barco) é instaurada entre os dois personagens. Por vezes, Andrzej demonstra um interesse quase paternal pelo rapaz, interesse este que é confrontado com o seu desejo de sobrepujá-lo e destruí-lo. O jovem, por sua vez, parece admirar a desenvoltura e as habilidades do homem mais velho, ansiando em ser um pouco como ele. Em meio a essa guerra psicológica, está Krystyna, alvo do desejo do jovem desconhecido. A bela parece viver um momento de insatisfação em seu casamento. A moça, que encarna como ninguém a sensualidade feminina, acaba por se sentir atraída pelo rapaz. 

O filme não teria metade de seu irresistível charme se não fosse pela elegância da direção de Polanski, que capricha em enquadramentos maravilhosos. Cada quadro do filme parece contar uma história e é impressionante a maneira com a qual o diretor cria uma tensão no interior de diversos quadros, utilizando magistralmente a profundidade de campo. Assim, ele brinca com a questão do triângulo amoroso, colocando os personagens em posições estratégicas na tela, cheias de significado. Outro trunfo da narrativa é a forma com a qual a faca (referida no título) é manipulada durante a narrativa e como o roteiro brinca com as expectativas do espectador com relação a ela. O filme conta ainda com uma fotografia deslumbrante em preto-e-branco de Jerzy Lipman. Esteticamente impecável, o filme é também beneficiado pelas ótimas performances do trio de atores, com destaque para o assustador Leon Niemczyk e para a sensibilidade de Zygmunt Malanowicz.

Faca na Água não é um dos filmes mais conhecidos do mestre Roman Polanski. O primeiro longa-metragem de Roman Polanski é também sua primeira obra-brima, um filme que merece ser (re)descoberto. 


Veja mais fotos do filme:





Assista ao trailer:






sexta-feira, 29 de junho de 2012

Repulsa ao Sexo - 1965

Título Original: Repulsion 
Lançamento: 1965
País: Reino Unido 
Direção: Roman Polanski
Atores: Catherine DeneuveIan Hendry e John Fraser
Duração: 105
Gênero: Drama/ Thriller


Repulsa ao Sexo (1965) é o segundo longa-metragem da carreira do cineasta franco-polonês Roman Polanski. O filme é o primeiro volume da famosa "trilogia do apartamento", da qual também fazem parte O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976). Repulsa ao Sexo foi filmado no Reino Unido, sendo o primeiro filme em inglês do diretor, que viria a filmar também na França e nos Estados Unidos. O cineasta, que realizou apenas um longa-metragem em seu país, Polônia, teve uma vida marcada por traumas e problemas judiciais. Em 1969, sua esposa, a atriz Sharon Tate, foi brutalmente assassinada por membros da família Manson. Em 1977, o diretor foi acusado de abuso sexual contra uma adolescente de 13 anos, não podendo mais retornar aos Estados Unidos, onde fez dois de seus maiores clássicos: O Bebê de Rosemary e Chinatown (1974).

Repulsa ao Sexo apresenta uma forte influência do surrealismo, principalmente de obras do espanhol Luis Buñuel. O filme, que combina drama psicológico, terror e thriller de maneira magistral, conta a história de Carol (Catherine Deneuve), uma jovem belga que vive com a irmã num pequeno apartamento em Londres, onde trabalha como manicure. Apesar de atrair a atenção de muitos homens, entre eles, do apaixonado Collin (John Fraser), a bela moça parece ter aversão ao sexo masculino. Quando a irmã mais velha (Yvonne Furneaux) viaja com o namorado (Ian Hendry) e deixa Carol sozinha no apartamento, a sanidade desta começa a se desestabilizar e estranhos eventos acontecem. A exuberante atriz francesa Catherine Deneuve tinha apenas 22 anos quando deu vida a uma das personagens mais importantes de sua carreira.


Muitas das narrativas de Polanski são construídas sob uma atmosfera sombria, incerta e angustiante. O tema da paranoia é também relevante em sua filmografia, podendo ser verificado em alguns de seus filmes, como O Inquilino e o próprio Repulsa ao Sexo. Polanski sempre revelou um imenso fascínio pelas neuroses humanas. O roteiro de Repulsa ao Sexo foi escrito pelo diretor em parceria com Gérard Brach. Um dos maiores atrativos do filme é a construção da personagem central, uma figura que impressiona por sua fragilidade, seu ar alienado e perdido e, ao mesmo tempo, pela sua alta periculosidade. Polanski não se preocupa em dar justificativas sobre o comportamento de sua protagonista, que pode ter origem em algum trauma de infância, como um possível estupro. Uma coisa, no entanto, parece ser certa: qualquer que seja a origem precisa dos traumas da personagem, ela está relacionada ao sexo e à sexualidade.

Polanski retrata brilhantemente a vida psicológica da personagem, recriando suas alucinações e transformando os medos dela em imagens, através de belas sequências de inspiração expressionista e surrealista.  A intensa vida interior de Carol se contrapõe à sua personalidade aparentemente insípida e retraída. O filme nos permite ainda supor que a aversão da personagem ao gênero masculino e ao sexo é  fruto de um desejo mal resolvido, reprimido e que lhe causa pavor. A existência de um convento ao lado do prédio da protagonista e mesmo sua vestimenta (ela está quase sempre vestida de branco) parecem simbolizar a pureza da virginal personagem. Carol é confrontada ao apelo do sexo pela presença do namorado da irmã em casa, pelos ruídos de sexo durante a noite e pelo assédio de um pretendente. O coelho na trama, por sua vez, é quase uma metáfora da própria fragilidade da personagem, que se sente coagida pelos seus predadores. 


Repulsa ao Sexo é abrilhantado por uma sedutora fotografia em preto e branco, belíssimos enquadramentos e uma elegância ímpar na direção. Além de ser esteticamente primoroso, o filme conta com uma atuação impressionante da belíssima Catherine Deneuve, cuja composição em nada se assemelha às femmes fatales que interpretaria posteriormente. Deneuve expõe, de maneira eficiente, o desconforto, a alienação, a dificuldade de se comunicar da personagem. É interessante observar que, na foto de família, presente no apartamento, Carol se diferencia dos outros familiares. Ela aparece ainda criança, com um olhar perdido e em segundo plano. Esse já é um indício do caráter isolado e "especial" da personagem. É importante salientar também que Polanski cria uma personagem sexualmente atraente, que se recusa a ser um objeto sexual.

Angustiante e instigante, Repulsa ao Sexo é uma das primeiras obras-primas da belíssima filmografia de Roman Polanski. Esse thriller com toques de terror, é um clássico que explora as dimensões tortuosas da psicologia humana. 



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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Carnage (Deus da Carnificina) - 2011

Título original: Carnage
Lançamento: 2011
País: França, Alemanha, Polônia, Espanha
Atores: Jodie FosterKate Winslet,Christoph Waltz e John C. Reilly
Diretor: Roman Polanski
Duração: 79 min
Gênero: Comédia/ Drama

Dois casais à beira de um ataque de nervos

Um filme baseado em uma peça de teatro. Quatro personagens, dois casais. Indivíduos que revelam, pouco a pouco, suas verdadeiras faces e suas respectivas neuroses. Casamentos disfuncionais. Uma visita regada a whisky, verdades indigestas e vômito. Poderíamos estar falando de Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), mas a obra em questão é Carnage, adaptação de Roman Polanski para a bem-sucedida peça Deus da Carnificina, da escritora francesa Yasmina Reza. Assim como ocorre no clássico de Mike Nichols, o huis clos de Carnage é o palco encontrado para exorcismo de vários demônios, lugar onde são desferidas diversas acusações e fraquezas são expostas. 

Assim que foi anunciada a adaptação da peça, criou-se grande expectativa com o projeto não só pelo ácido texto de Reza, mas pela possibilidade do nascimento de um novo clássico. O engajamento do mestre Roman Polanski à filmagem e o casting de um quarteto de atores, que somam juntos nada menos que 4 Oscar's e 12 indicações ao prêmio, elevou ainda mais a expectativa de um grande filme. Deve-se ainda destacar o sucesso das montagens da peça em Zurique, Londres e nos Estados Unidos. A adaptação da Broadway foi indicada a vários Tony's e a ótima Marcia Gay Harden foi premiada como Melhor Atriz. Com um elenco completamente diferente das montagens no teatro, o texto de Reza agora está imortalizado, quase sem nenhuma alteração, também no cinema. 

Eis como podemos resumir a história de Carnage: Após uma discussão, Zachary, 11 anos, atacou o coleguinha Ethan, da mesma idade, com um pedaço de pau, quebrando dois dentes do garoto. Os pais do agressor, Alan (Christoph Waltz) e Nancy (Kate Winslet), vão à casa dos pais do agredido, Penélope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), para, então, discutirem os procedimentos a se tomar depois deste evento. A visita, que se inicia com ares de diplomacia e cordialidade, vai sendo estendida até o momento em que as verdades começam a serem ditas e o falso clima de harmonia desaparece. 

Ótima cena de Carnage
Para começar, é interessante observar a importância do que é dito e do que não é dito na história e, principalmente, quem fala. O espectador não tem acesso, em nenhum momento, às vozes dos personagens diretamente envolvidos no acontecimento motriz do filme. Além das duas crianças não estarem presentes na ocasião do encontro dos pais, elas não revelam para os mesmos o que motivou a agressão e qual o contexto do confronto. Tanto os quatro personagens principais, quanto o público, continuarão às escuras até o final da projeção. De acordo com Penélope, Ethan relutou até mesmo a denunciar Zachary. Existe, portanto, uma forma de cumplicidade infantil que não é respeitada pelos pais, compreensivelmente ansiosos para tudo compreender e punir. Desde o início da trama, fica claro que a história não gira em torno das crianças e sim dos adultos, que muitas vezes se comportam como crianças. Mas existe outro tipo de não-dito na história que nada tem a ver com os meninos, trata-se da animosidade que se cria entre os quatro personagens, as verdadeiras impressões, o caos que cada um esconde. Esse não-dito se torna, eventualmente, dito. 

Podemos afirmar que Yasmina Reza trabalha através de estereótipos, construindo e desconstruindo os mesmos. Seus personagens, não fogem muito, no entanto, de tipos. Podemos delinear aqueles responsáveis pela ação e aqueles que têm uma postura passiva. Neste sentido, a peça/filme pode ser considerada até mesmo feminista. São as duas mulheres que fazem a história acontecer, sendo autoras dos principais gestos. São elas que estimulam o conflito e que parecem realmente se importar com o assunto. Se por um lado, podemos falar em feminismo, por outro podemos também falar em um machismo gritante, já que o estereótipo da mulher encrenqueira, insatisfeita e reclamona também é mantido. 

Penélope (Jodie Foster) é louca por livros de arte.
Comecemos falando de Penélope. Trata-se, em minha opinião, da personagem mais interessante do filme. É ela a instância que não consegue se calar, a parte mais incomodada com a agressão. Ela deixa escapar, por diversas vezes, o quão abominável ela considera o gesto de Ethan (já na primeira cena ela diz  que a criança estava "armada"). Combativa, intelectual, culta, engajada com o mundo, a personagem é a iniciadora do conflito. Penélope é a encarnação da consciência do mundo. No entanto, ao tentar fazer as coisas certas e  ao não ser levada a sério, ela se perde em sua própria histeria. 

Nancy (Kate Winslet) é louca pela sua bolsa e pelo seu estojo de maquiagem.
Nancy é o oposto de Penélope, sendo a encarnação da burguesa bem-sucedida, com cada fio de cabelo  no lugar, postura elegante e contida (pelo menos a princípio). Logo no início, Penélope sentencia: a mãe de Zachary é uma "fake". A falta de autenticidade inicial da moça só consegue ser quebrada a partir do momento em que ela vomita, exibindo sua fragilidade e pondo literalmente para fora toda a frustração e irritação que ela estava armazenando até então. O vômito é o momento de catarse da personagem (e, sem dúvida, uma das grandes cenas do filme). Nancy também se revela combativa e o fato de um hamster ter sido abandonado na rua, lhe causa a maior indignação. 

Alan (Christoph Waltz) não vive sem seu celular.
Alan é a figura do homem de negócios de sucesso, estratégico, insensível e completamente tomado pela sua vida profissional. Sua visão cínica e irônica sobre as coisas, faz dele o personagem mais engraçado (a persona de Waltz cai como uma luva ao papel). O personagem é diminuído à condição de criança quando seu brinquedinho, digo, seu celular, entra em pane. Por fim, Michael é o homem-banana, que se deixa governar tanto pela mãe, quanto pela esposa. Fraco, sem grandes ambições, grandes opiniões, Michael se deixa levar ora por Penélope, ora por Alan. 

Michael (John C. Reilly) é especialista em artefatos domésticos.

E onde entra Roman Polanski em tudo isso? Como um grande diretor manifesta sua habilidade em um filme tão apegado a suas origens teatrais e que se passa em um só lugar? A tarefa de se adaptar uma peça teatral é sempre arriscada, já que o objetivo é realizar-se um filme e não um teatro filmado. Polanski, sabendo disso, nos presenteia com mais uma grande direção. A maneira com a qual ele cria uma narrativa circular, em que a cena de abertura dialoga com a final, a decupagem do filme, a criação de um ambiente claustrofóbico e a direção dos atores são fenomenais. E por falar em atores, nós temos sem dúvida um dos melhores trabalhos de elenco deste ano que passou. Talvez John C. Reilly brilhe menos, mas acredito que seja mais em função de seu personagem. Foster, Winslet e Waltz tem momentos espetaculares e poderiam, sem dúvida, terem sido mais lembrados nesta temporada de premiações (que ainda não acabou). 

Quem esperar por um novo Quem tem medo de Virginia Woolf?, talvez vá se decepcionar um pouco com Carnage. O clássico de Mike Nichols, este sim, é uma carnificina impiedosa e um mergulho intenso na alma humana. Carnage é, no máximo, uma carnificina light, cômica e leve. Não consegue também ir muito fundo em seus personagens, nos oferecendo um mar de infinitas possibilidades. Ao fim dos parcos 79 minutos de projeção, ficamos querendo mais. Mesmo assim, é um filme divertido e, ao contrário de muitos, faz até pensar. 





segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tess - 1979

Título original: Tess
País: Inglaterra/ França
Lançamento: 1979
Diretor: Roman Polanski
Atores: Nastassja KinskiPeter Firth,  Leigh Lawson
Gênero: Drama




Roman Polanski e a origem do filme

Roman Polanski, cineasta polonês, nascido na França, estreou no cinema como ator, função que nunca abandonou por completo. Ele dirigiu seu primeiro longa-metragem aos 29 anos, em 1962. Seu primeiro filme, A Faca na água, já revelava o quão promissor ele era e lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar, por Melhor Filme Estrangeiro. Em 1979, quando lançou Tess, ele já possuía grande prestígio e alguns clássicos no currículo, filmes que se tornaram, quase instantaneamente, cults, tais como Repulsa ao Sexo (1965), A Dança dos Vampiros (1967), O Bebê de Rosemary (1968) e Chinatown (1974).

Em 1969, a esposa de Roman Polanski, a belíssima atriz Sharon Tate, foi assassinada por seguidores do líder fanático Charles Manson. Ela estava grávida de oito meses. Pouco tempo antes de morrer, Tate havia dado para o marido uma cópia de Tess of the d'Urbervilles, romance de Thomas Hardy,. A atriz acreditava que a obra poderia render um grande filme. Ela interpretaria o papel principal. Dez anos depois, o diretor finalmente realizou o projeto. O filme se inicia com a simples e singela dedicatória “Para Sharon”. Como substituta de Tate, Polanski escalou a atriz Nastassja Kinski, com quem matinha uma relação amorosa desde 1976. Ela tinha apenas 16 anos quando eles se conheceram. Em 1978, o cineasta foi acusado de violentar uma menina de 13 anos. Em Tess, a protagonista, também adolescente, é estuprada por um homem mais velho. Material para uma análise psicanalítica é que não falta na vida e obra de Polanski.

O romance

O romance de Thomas Hardy, publicado em 1891, teve uma recepção mista na época de sua aparição, sendo visto, por muitos, como ultrajante, uma vez que desafiava os valores morais de seu tempo. A obra é hoje considerada um dos grandes textos da literatura inglesa e um dos melhores trabalhos de seu autor. Parte do êxito do romance é sua fascinante protagonista, Tess. Nastassja Kinski, atriz alemã, filha do grande ator Klaus Kinski, tinha apenas 18 anos quando encarnou a personagem nas telonas. Ela foi considerada uma das grandes revelações do cinema em 1979, chamando atenção também pela sua beleza.

Tess é a história de uma adolescente, de aproximadamente 16 anos, que vê sua vida tomar um rumo completamente inesperado a partir de uma revelação feita pelo pároco do lugarejo onde mora. Tal indivíduo, que havia estudado a árvore genealógica das famílias locais, revela ao pai beberrão de Tess, que sua família, os Durbeyfield, são, na verdade, uma ramificação de um nobre e antigo clã, os D’Urberville. Essa descoberta vem como um choque para os Dubeyfield que, vivendo numa quase miséria, tentam tirar alguma vantagem desse parentesco nobre. A mãe de Tess a envia, então, à casa de uns prováveis parentes, que portavam o nome de D’Urberville, para pedir ajuda financeira. Tratava-se de uma família rica, que habitava há alguns quilômetros do vilarejo. Chegando à mansão dos D’Urberville, Tess se depara com Alec, filho da matriarca. Ele se encanta com a garota e propõe que ela trabalhe na propriedade. Após várias tentativas frustradas de seduzi-la, ele a estupra, aproveitando-se de um momento de fraqueza da jovem. Após algumas semanas vivendo como amante de Alec, Tess decide ir embora da mansão para tentar recomeçar sua vida. Ela estava grávida. A má reputação, originada do fato de ter perdido a virgindade antes do casamento, a perseguirá, mesmo depois de encontrar o grande amor, Angel. 

Um filme épico?

Tess, o filme, apresenta evidentes características do gênero épico. Para começar, o enredo é centrado numa personagem elevada, pelas suas qualidades morais, à condição de heroína. O filme acompanha a trajetória dessa heroína, que é também uma jornada de autoconhecimento, aprendizado e iniciação. Essa trajetória é marcada por sofrimentos, encontros, desafios e dificuldades que devem ser superadas. Além disso, Tess é uma grandiosa e monumental obra cinematográfica. Não por acaso, o filme de Polanski me fez lembrar E o vento levou (1939).

Tess D’Urberville

Assim como no clássico de 1939, temos uma protagonista feminina que atravessa uma verdadeira via crucis ao longo da história. O que me fez ligar os dois filmes e as duas personagens é o fato de Tess e Scarlett O’Hara serem praticamente o oposto simétrico uma da outra, ambas sendo exemplos de superação e vivendo mais ou menos na mesma época: uma na Inglaterra, a outra nos Estados Unidos. Enquanto a primeira é uma heroína tradicional, uma mulher de alma pura, romântica, de valores inabaláveis e de conduta admirável, a segunda é a grande anti-heroína, manipuladora, pragmática, ardilosa, avant-garde e egoísta. As razões que nos fazem amar Scarlett são as mesmas que nos fazem, muitas vezes, ter certo distanciamento por Tess. Tess opta pelo caminho mais difícil, ela escolhe sofrer. Analisando, no entanto, a personagem com um pouco mais de cuidado, percebemos que ela é muito mais complexa do que aparenta.

Tess abraça intensamente a tragédia, como exemplifica bem o final da trama. Podemos supor que inconscientemente ela busque o sofrimento. Será ela uma suicida em potencial? Se, a princípio, ela parece ser uma mulher forte e decidida, por fim, podemos constatar sua fraqueza e vulnerabilidade. Por mais que ela tente se impor, ela acaba sempre cedendo àqueles que a feriram. Ela cede ao manter um breve caso com Alec; ao aceitá-lo de volta, após o abandono de Angel; e ao voltar para Angel quando ele lhe pede perdão.

Tess é uma personagem claramente melancólica, tipicamente romântica. Sensível, introspectiva e amante da natureza, ela encontra em Angel (Peter Firth) seu par perfeito. O rapaz, que também sofre de certa melancolia romântica, é rebelde, sorumbático, despreza a burguesia e tem interesse por música e literatura. Ele tem espírito de poeta. Não por acaso os personagens se apaixonam um pelo outro. O amor que nasce entre os dois é tão lindo, quanto idealizado. Quando a dura realidade vem afrontá-los, a ilusão se desmancha.

A protagonista pode ser também analisada sob outro ângulo. Ela pode ser vista como uma personagem mística. É muito intrigante a relação dela com a natureza, com Deus, com rituais religiosos e com o paganismo (refiro-me aqui à cena em que ela deita no altar de um antigo templo pagão, como prestes a ser sacrificada). Assim, é possível estudar a maneira com a qual a personagem é associada ora à figura da santa, ora à da mártir religiosa (como Joana D’Arc), ora à da deusa.

O nome

O filme não deixa de ser também um interessante retrato histórico-social da época vitoriana. A hipocrisia social, a situação da mulher, a diferença entre classes e a transformação da sociedade são retratados pelo filme. O nome, marca de status social, é mostrado pela trama como uma simples mercadoria. Até os “mal-nascidos”, membros da ascendente burguesia ligada à indústria, podem adquirir um nome nobre. O que chama a atenção na história é a transformação que um detalhe, a princípio tão insignificante, traz para a vida de Tess. A associação de Tess ao nome D’Urberville é marco inicial da desgraça na vida da protagonista. Como em Romeu e Julieta, o nome sela o destino funesto dos personagens. A importância do novo nome é explicitada no título da obra original que é Tess de D’Urberville e não Tess Durbeyfield ou, simplesmente, Tess.

O filme: a direção de Polanski, Ingrid Bergman e James Dean e a influência da pintura

A minúcia da direção Roman Polanski se deixa transparecer na maneira com a qual ele revela cada detalhe; ao nos apresentar Tess sempre como um personagem a parte dos demais; ao introduzir Alec em cena de forma inesperada, como se ele fosse um predador; ao retardar ao máximo a descoberta do rosto de Angel... O filme encanta tanto nos planos gerais, que mostra as belas paisagens inglesas, as pradarias, os campos de centeio, quanto nos lindos closes sobre o rosto da estonteante Nastassja Kinski. Apesar de não ser perito no assunto, vejo uma imensa influência da pintura na fotografia do filme. Os planos são tão bem construídos que muitas vezes nos remetem a telas clássicas. Não só a utilização das cores nos remete à pintura, mas também a escolha dos temas recorrentes, como a vida do camponês, o trabalho dos agricultores, o campo de centeio, cenas mitológicas (ver fotos abaixo). Detalhe curioso: o diretor de fotografia inicial do filme Geoffrey Unsworth morreu no início das filmagens, deixando, no entanto, muitas cenas prontas. Ele foi substituído por Ghislain Cloquet. É possível, por isso, reconhecer dois momentos diferentes da fotografia. A magistral fotografia do longa-metragem, por sinal, foi premiada com o Oscar, assim como a direção de arte e o figurino do filme, igualmente fantásticos. A bela trilha sonora de Philippe Sarde é essencial para o filme. 

Natassja Kinski me lembra a maravilhosa Ingrid Bergman em Tess. Este é o maior elogio que posso lhe fazer. A atuação da jovem é impressionante, apesar da falta de experiência da atriz na época. Ela está em 90% das cenas do filme e, de certa forma, ela é o filme. Talvez a atriz nunca tenha conseguido superar essa performance tão icônica. Já Peter Firth me lembra James Dean. Além de uma semelhança física (será que ninguém nunca fez essa associação?), parece que Firth se inspirou nos personagens do ator de Juventude Transviada para compor Angel. É inevitável não reconhecer a amargura e angustia de James Dean na atuação de Firth. Fechando o triângulo amoroso, temos Leigh Lawson que confere ambigüidade a Alec. Nunca sabemos ao certo o quão mau ele é, ou o quanto ele realmente gosta de Tess, o que o torna extremamente interessante e perigoso.

Tess é um belíssimo filme que nos oferece diversas possibilidades de análise. É impossível esgotar em apenas um post tudo o que o longa pode nos suscitar. Infelizmente, esta obra de Polanski é pouco lembrada, em comparação a outros clássicos mais populares do diretor. O cineasta, que lançará, este ano, seu trigésimo filme, Carnage (2011), é um dos grandes diretores vivos do cinema e em Tess ele nos comprova isso a cada cena.  

Tess: o retrato de uma camponesa

Uma das cenas antológicas do filme: Alec oferece morango a Tess. 

A bela fotografia do filme nos faz lembras obras clássicas de Monet, por exemplo.


Os camponeses - cena do filme

O almoço dos camponeses - cena do filme

A dança das virgens - cena do filme

A descoberta do amor - uma das cenas mais românticas do filme