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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Clássicos da Cinemateca - O Desprezo

Camille: Você gosta do meu rosto? Da minha boca? Dos meus olhos? Do meu nariz? Das minhas orelhas? / Paul: Sim, de tudo. / Camille: Então você me ama totalmente. / Paul: Te amo totalmente, ternamente, tragicamente… 
 
Prokosch: O que você pensa de mim? Camille: Entre no seu Alfa, Romeu! Veremos isso depois!
Em 1960, Jean-Luc Godard fez tremer as bases da sétima arte com sua mais célebre obra-prima, O Acossado. O rebelde do cinema francês, grande expoente da nouvelle vague, lançou três anos depois O Desprezo, seu sexto longa-metragem de ficção, que foi realizado com um grande orçamento (algo incomum para os filmes do diretor) e filmado em CinemaScope. Baseado no romance Il Disprezzo, do escritor italiano Alberto Moravia, o filme é protagonizado por Brigitte Bardot, uma das maiores estrelas do cinema mundial nos anos 60, cuja beleza fazia fremir corações do mundo inteiro. O filme ainda conta com o excelente ator francês Michel Picolli e o inconfundível Jack Palance, galã americano de westerns e premiado com Oscar em 1991. Um dos maiores luxos a que se dá Godard é o de escalar Fritz Lang, brilhante cineasta de origem austríaca, para interpretar a si mesmo no filme. Com tantos bons ingredientes, a receita só poderia dar certo! 
 
Camille: É isso. Não te amo mais. Não há nada que explicar. Não te amo mais.
Sabe-se, no entanto, que o controle criativo não esteve totalmente nas mãos de Godard e que os produtores americanos exigiram a inclusão de cenas de nudez de Bardot para garantir o sucesso de bilheteria do filme nos Estados Unidos. Segundo Raoul Coutard, diretor de fotografia de O Desprezo, após enviarem a cópia já finalizada do filme ao produtor Sam Levine, a resposta foi: “Não, não, não, não está bom, eu quero ver a bunda de Bardot.” Diversos planos fetichistas mostrando os atributos da atriz foram então incluídos para atenderem a ânsia voyerista do produtor e do público masculino em geral. Godard e Alain Levent (substituto de Coutard, que já estava em outro projeto) conseguiram incluir tais planos de uma maneira orgânica e instigante. O sex symbol Bardot alcançara fama internacional com o clássico E Deus Criou a Mulher (1956), dirigido por Roger Vadin, seu marido na época.
Ícone absoluto da moda nos anos 60, alvo da adoração da imprensa e do público (a “Bardot mania”), celebridade preferida dos paparazzis, Brigitte Bardot (ou BB, como era também conhecida) era considerada uma das mulheres mais livres e fascinantes do mundo. Tendo encerrado sua carreira prematuramente, aos 40 anos, a atriz/cantora/modelo ganhou destaque posteriormente pelo seu ativismo na defesa dos animais. Infelizmente, após sua aposentadoria, sua imagem foi manchada por condutas racistas e homofóbicas, o que a fez responder a alguns processos e ganhar a antipatia de muitos franceses. Alguns críticos, como o francês Jean-Louis Bory, acreditam que a performance da atriz em O Desprezo corresponde ao ápice da sua carreira.
 
Paul: Não te cai bem falar palavrões. Camille: Ah é? Não me cai bem? Então escuta: Trou du cul, putain, merde, nom de Dieu, piège à cons, saloperie, bordel. E aí? Ainda acha que não combina comigo?
Em O Desprezo, Paul (Michel Piccoli) é um escritor contratado pelo produtor Jerry Prokosch (Jack Palance) para aprimorar e terminar o roteiro de um filme que está sendo dirigido por Fritz Lang (o próprio) na Itália. Trata-se da adaptação da Odisséia, de Homero. Quando Prokosch é apresentado à bela Camille (Brigitte Bardot), esposa do roteirista, ele convida o casal para ir a sua mansão, mas sugere que Camille vá no seu carro e que Paul vá de táxi. Apesar de Camille querer acompanhar o marido, este insiste que ela vá com o produtor. A partir de então, o casamento de Camille e Paul começa a desmoronar e o relacionamento dos dois personagens se degrada progressivamente. A parte central do filme, que focaliza a discussão do casal durante mais de 30 minutos, culmina com Camille revelando todo seu desprezo pelo marido. Segundo Godard, o filme é “a história de náufragos do mundo ocidental que um dia chegaram a uma misteriosa ilha, cujo mistério é a inexorável falta de mistério”. 
 
Paul: Depois do jantar, veremos um filme. Isso me dará ideias. Camille: Use suas próprias ideias ao invés de roubá-las dos outros.
Existe uma dimensão metalinguística explícita em O Desprezo. Na sequência de abertura do filme, os créditos são falados por um narrador off, enquanto uma câmera avança sobre os trilhos para, no final, se virar atrevidamente para o público. O Desprezo mostra paralelamente um filme em construção e um casamento em destruição. Definir esse clássico é, no entanto, uma tarefa complicada: trata-se de um filme sobre um filme? Um filme sobre o fim de um relacionamento? Um filme sobre o cinema? Um filme sobre a arte em geral? Trata-se uma sátira sobre a produção cinematográfica? O Desprezo é provavelmente tudo isso e mais um pouco.
Godard não somente exibe os bastidores de um filme, como ele brinca com as convenções cinematográficas e, por vezes, as subverte. Podemos constatar esse temperamento audacioso e experimental do cineasta na já citada sequência de abertura, mas também na célebre cena dos amantes na cama, em que ele utiliza o filtro vermelho, branco e azul (cores preponderantes em todo filme) mudando sucessivamente a cor da imagem. Podemos citar também um dos diálogos mais importantes do filme em que Camille revela já não amar Paul. Nessa cena, o diretor opta por movimentos panorâmicos laterais da câmera ao invés de utilizar o convencional campo-contracampo. 
 
Camille: Te desprezo. Isso é na verdade o que sinto por você. Por isso não te amo mais. Te desprezo. E sinto repugnância quando me toca.
A habilidade e engenhosidadede Godard podem ser constatadas no brilhante uso das cores, principalmente do vermelho, branco, azul e amarelo, e no uso do espaço. Toda a discussão de Camille e Paul no apartamento é brilhantemente coreografada em termos de utilização do cenário e de movimentação dos personagens. É nesse labirinto fechado de cômodos que se dará a degradação do relacionamento. O apartamento é extremamente importante na trama. Ele é o símbolo do casamento. Não é por acaso que o fim da relação parece coincidir com a saída de Camille do apartamento após a discussão. É já do lado de fora que a personagem pronuncia sua declaração de desprezo para o marido.
Não é somente o preciosismo de Godard que impressiona, mas também o maravilhoso roteiro escrito por ele. Muitos dos diálogos são antológicos, extremamente afiados. É impressionante também a quantidade de referências que faz o cineasta a grandes nomes da arte, esbanjando uma enorme erudição. Godard cita Dante, Bertold Brecht, Corneille, André Bazin e, é claro, Homero, para dizer só alguns. Através de seus personagens, Godard exprime discursos filosóficos, existencialistas e também discursos sobre o cinema. E o que falar da presença iluminada de Fritz Lang, que encarna praticamente a figura do sábio no filme? É igualmente genial o fato de que a fatalidade e o destino, fundamentais na epopeia de Homero, se reflitam no desfecho da trama do casal. De certa forma, O Desprezo é uma coleção de saberes, de citações e de referências eruditas. 
É igualmente interessante apontar que quatro idiomas são falados no filme (o francês, o inglês, o alemão e o italiano), o que faz do mesmo uma verdadeira Torre de Babel. É interessante que Godard ponha à prova a comunicação dos personagens através dessa multiplicidade de idiomas, já que no relacionamento o não-dito e a dificuldade de se expressar são também desafios para a comunicação do casal.
Instigante, inteligente, desafiador, O Desprezo é certamente uma das maiores obras-primas produzidas pela nouvelle vague e pelo ousado Jean-Luc Godard!
 
Paul: Eu gosto muito de CinemaScope. Fritz Lang: Oh, isso não foi feito para pessoas, só para serpentes e funerais.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Clássicos da Cinemateca - O Ano passado em Marienbad

… através dos corredores, destes salões, destas galerias, desta construção de um outro século, este hotel imenso e luxuoso, barroco, lúgubre, onde corredores intermináveis seguem outros corredores silenciosos, desertos, encrustados de ornamentações sombrias, frias feitas de cortiço, reboco, gesso, mármore, espelhos negros, pinturas escuras, colunas…

Você é como uma sombra esperando que eu me aproxime.
“Ame-o ou odei-o”. A recepção de O Ano Passado em Marienbad parece se dividir entre esses dois extremos. Alguns de seus detratores o definem como sendo incompreensível, pretensioso, afetado, artificial e bobo. O filme do francês Alain Resnais foi inclusive incluído na lista de piores filmes de todos os tempos, produzida por Harry Medved, Randy Dreyfuss e Michael Medved, no livro The Fifty Worst Films of All Time (And How They Got That Way), de 1978. Na época do lançamento do longa-metragem, Pauline Kael se mocou do que ela chamou de “filme experimental high-fashion, um trabalho de neve no palácio de gelo… de volta à festa não-divertida para não-pessoas”.
Em compensação, esse controverso clássico do cinema francês é frenquentemente citado como um dos filmes mais influentes do pós-guerra, uma obra-prima inventiva e original que causou grande impressão e impacto em cineastas como Stanley Kubrick, David Lynch, Agnès Varda, Jacques Rivette, Marguerite Duras e Peter Greenaway. Este último chegou a afirmar, inclusive, que ofilme de Resnais foi a maior influência na sua carreira. Ainda hoje, O Ano Passado em Marienbad não é uma unanimidade e gera discussões. Ninguém pode negar, no entanto, o caráter instigante e desconcertante desse filme-enigma.

Você nunca aparentou estar esperando por mim, mas nos reencontrávamos em cada curva, atrás de cada arbusto, ao pé de cada estátua, perto de cada lago. Como se ninguém tivesse estado naquele jardim, só eu e você.
O Ano Passado em Marienbad é fruto de uma colaboração inspirada entre o grande escritor francês Alain Robbe-Grillet, ícone do nouveau roman, e o diretor Alain Resnais. Vale lembrar que Resnais já havia feito uma parceria do mesmo tipo com Marguerite Duras, também associada ao movimento do nouveau roman, no célebre Hiroshima mon Amour (1959). Tanto Robbe-Grillet quanto Duras tinham uma relação íntima com o cinema. Ambos tiveram uma produtiva carreira também como diretores e suas filmografias parecem um prolongamento de seus romances.
As obras associadas ao nouveau roman desafiam a percepção do leitor/espectador, evitando que este se apegue a um ponto definido e racional de significado. Geralmente a trama parece não ir a lugar algum ou girar em círculos. Nelas, a noção de “verdade” é relativa e instável e a narração é permeada de vazios, rupturas, buracos, revelando uma dissociação entre o universo da narração e a realidade tangível. A estética do nouveau roman é extremamente visível emMarienbad em diversos aspectos: nas figuras de repetição presentes no filme (podemos citar o mantra entoado pelo narrador na sequência de abertura ou as repetições de fala, de movimentos de câmera, de situações etc.), nos procedimentos de fragmentação e de quebra de continuidade (a mixagem de som, os diálogos “recortados” dos personagens; a alternância por vezes abrupta de voz off e in; a imobilização dos personagens em determinados momentos; a montagem que opera uma mudança repentina de cenário durante um diálogo ou monólogo tido como único etc.).

Você estava com medo. Você estava com medo, você sempre teve medo, mas eu amei seu medo naquela noite.
O Ano Passado em Marienbad se passa em um luxuoso palácio/spa/hotel. Nele, três personagens se destacam. Eles não são nomeados no filme e, no roteiro publicado posteriormente, eles são identicados apenas por letras. Assim, vemos uma bela mulher “A” (Delphine Seyrig) que vagueia pelo castelo, o narrador-personagem “X” (Giorgio Albertazzi), que a persegue e insiste que eles se encontraram no ano anterior, e “M” (Sacha Pitoëff), o suposto marido/amante de “A”, um jogador inveterado. Uma relação de gato e rato se instaura entre “X” e “A”. Ele tenta convecê-la de que ela havia lhe pedido um ano para poderem fugir juntos. No entanto, a moça parece não se lembrar de que o conhece, nem da promessa feita.
Ao longo do filme, “A” tenta resistir e escapar, sem muita convicção, do assédio desse homem misterioso e insistente que não cessa de relatar o que os dois teriam vivido juntos em Marienbad. No filme, é impossível distinguir o que é verdade e o que é mentira, o que é invenção e o que é lembrança, o que é fruto da ficção e o que é fruto da memória. E não é só isso. Por vezes, não se pode dizer se o que é mostrado na imagem corresponde ao passado ou ao presente dos personagens ou ainda se o que vemos é, na verdade, a reconstituição operada pela imaginação/memória dos mesmos. É difícil também determinar as relações causais entre cada sequência e, por vezes, também sua cronologia. Essa completa indeterminação é a essência do filme. O espectador é convocado para viver um enigma, um quebra-cabeças irresolúvel.

Eu te observei, te deixando se debater um pouco. Eu te amei. Eu te amei. Havia algo nos teus olhos… Você era… viva.
Ainda que Marienbad seja um enigma sem solução, ele incita várias interpretações e questionamentos. É possível, por exemplo, ver no filme a reconstituição da atmosfera de um sonho ou de diversos sonhos recorrentes e interligados. Há uma dimensão onírica inegável no filme de Resnais. É possível também cogitar a hipótese de que o filme represente a tentativa de compreender/desvendar um trauma, ou um acontecimento traumático, e que “X”, agindo como um terapeuta, tenta fazer com que “A” tome consciência de uma experiência reprimida pelo seu inconsciente. Há ainda quem interprete o universo retratado pelo filme como sendo o limbo em que diversas almas ou fantasmas habitam. De fato, corpos impassíveis que vagam sem destino em um ambiente circunscrito e sombrio pode nos fazer pensar na imagem do limbo. 
Certamente, a estrutura narrativa e a estética de Marienbad dá margem a diversas interpretações. É interessante constatar também que “X”, o narrador do filme, age como autor ou mesmo como diretor. Ele conta a história de “A” para ela mesma. Ao construir uma narração ele se torna, de uma certa forma, o alter ego do cineasta. É também inevitável aproximar o filme à dinâmica de um jogo, como aquele jogado por “M” diversas vezes ao longo da trama. “M” é imbatível no jogo. Diversos personagens ao seu redor criam teorias para desvendar o segredo do mesmo, mas tudo é inútil porque “M” sempre vence. O jogo de “M” funciona como uma metáfora do próprio filme e de sua narrativa. Muito se pode dizer sobreMarienbad, de nada adiantará, afinal ele continuará um mistério.

Você me pediu para deixar-lhe por um ano inteiro talvez para me testar, talvez para me cansar, ou para que você pudesse me esquecer. Mas o tempo nada significa. Eu venho agora te encontrar.
O Ano Passado em Marienbad não somente é intelectualmente instigante como é visualmente arrebatador. Tudo é deliberado, nada é por acaso. Impressiona o apuro na composição dos quadros (as imagens que se refletem nos espelhos, a simetria dos objetos, a posição dos personagens etc.) e todas as escolhas artísticas efetuadas pelo diretor. A começar pelo cenário escolhido: o filme se passa num elegante palácio, grandioso, ricamente decorado, com pinturas, imensos espelhos e grandes jardins à la française. Três locações foram utilizadas para realizar o filme: os castelos de Schleissheim, Nymphenburg e Amalienburg, na Alemanha. A direção de arte é primorosa, assim como a belíssima fotografia em preto-e-branco. E o que dizer do belíssimo figurino? Sem dúvida, ele exerce um papel fundamental na composição da personagem de Delphine Seyrig, que a exemplo do que faz em India Song, surge como a própria encarnação da beleza. O visual da atriz foi inspirado no de Louise Brooks, musa do cinema mudo. O ator italiano Giorgio Albertazzi brilha no papel de “M” e Sacha Pitoëff é uma presença estranha e intrigante na tela.
Muito se falou e muito ainda se falará sobre O Ano Passado em Marienbad. Assim são as grandes obras de arte. É interessante e revelador o que os próprios autores falaram sobre esse filme. Para Robbe-Grillet, “todo o filme, na verdade, é a história de uma persuasão: ele [o filme] lida com uma realidade que o herói cria a partir da sua própria visão, a partir das suas próprias palavras”. Já Resnais afirmou: “Para mim, o filme é uma tentativa, muito crua e primitiva, de se aproximar da complexidade do pensamento e dos seus mecanismos”.
O terreno da mansão era um tipo de jardim à francesa sem árvores, flores, ou qualquer tipo de vegetação. Pedregulhos, pedras, mármore, a linha reta… superfícies sem mistério. Parecia, num primeiro olhar, impossível de se perder naquele lugar. Num primeiro olhar. Entre os caminhos retilíneos, entre as estátuas de gestos imóveis e as estruturas de granito, onde você estava, agora, se perdendo para sempre, na noite tranquila, sozinha comigo.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Clássicos da Cinemateca - India Song

“Eu vim à India por causa de India Song. Essa música me dá vontade de amar.”

Eu te amo… até não mais poder enxergar… escutar… morrer.
Dois dias de uma história de amor que se passa em plena monção de verão na Índia dos anos 30. Várias vozes sem rostos falam entre si sobre o que se passou com Anne Marie Stretter durante esses dois dias. Ao redor dessa mulher magnífica, esposa do embaixador da França, gravitam vários homens, dentre eles o vice-cônsul da França em Lahore, o enigmático Michael Richardson e um jovem adido da embaixada. Durante uma recepção na embaixada da França, o vice-cônsul gritará aos quatro ventos o amor que ele sente por Anne Marie Stretter.
Muitos poderão dizer que nada se passa em India Song (1975), obra-prima de Marguerite Duras. No entanto, em meio a tantas vozes, tanto silêncio, TUDO acontece.

Nós não temos nada a dizer um ao outro. Nós somos o mesmo. As histórias de amor, você viva com os outros. Nós não precisamos disso.
No interior da mansão, os brancos se reúnem para amar. Do lado de fora, a lepra, a miséria, a peste assolam a região. Ao longe ou de maneira invasiva, ouve-se os gritos e o canto de uma mulher enlouquecida, uma mendiga de Laos. Uma confusão de vozes sugere vários amores passados, presentes, vividos, vários fragmentos de vida, lembranças. Os personagens andam ritmados, coreografados, dentro de uma mansão quase fantasmagórica, quase abandonada. A simetria está em tudo, na disposição dos personagens, nos objetos, tudo é meticulosamente pensado, refletido, dirigido. Tudo tem seu tempo; a lentidão dos acontecimentos preenche de significados cada gesto. 

Diríamos que ela é prisioneira de um tipo de sofrimento. Ninguém sabe exatamente o que se passa atrás desses muros. O que ela faz.
Os personagens não cessam de se movimentar dentro do espaço reduzido de um salão. Trata-se de uma valsa, de um balé de corpos. Eles dançam juntos e à distância, em um movimento constante de aproximação e distanciamento. Todos estão de passagem nesse lugar. São pessoas exiladas, despatriadas, perdidas na Ásia onde todos os amores acontecem. Dentro da mansão, parece que todos os lugares, reais e imaginários, se concentram: o Ganges, Laos, Calcutá, Lahore, Veneza. O poder de evocação da palavra é incrível. No centro do salão, um imenso espelho multiplica os personagens. O espelho reflete o amor que é duplo, dividido, partilhado. O amor de uma mulher adúltera. 

Você sabe, quase nada é possível na Índia. É o que podemos dizer. Não é nem doloroso, nem agradável viver na Índia. Nem fácil. Nem difícil. Não é nada. Você vê? Não é nada.
Em India Song, o som se dissocia da imagem. Os personagens falam em silêncio. Eles parecem ausentes, distraídos enquanto ouvem as vozes (dentre elas, a voz da própria Duras, inconfundível para quem a conhece). A imagem não é a simples tradução do que dizem as vozes sem rostos. As duas dimensões, o som e a imagem, se refletem para contar uma história. O balé de vozes, os corpos em movimento se combinam com a alternância entre os planos fixos e as panorâmicas laterais, circulares e os travellings. A câmera dança como os personagens, que não cessam de procurar algo com os olhos, de se olharem. Marguerite Duras faz um cinema de procura. Ela tenta apreender o mistério do amor. A dor de amar é liberada no grito arrasador do vice-cônsul, o clímax do filme. 
Como Vênus, a deusa do amor, a atriz Delphine Seyrig dá vida à Anne Marie Stretter. Ela posa para a câmera, ela é a musa de Duras. Em alguns planos, tudo se imobiliza e parece que estamos diante de pinturas. Há também algo de ritualístico, de místico, nessa história de amor que conta Duras. A natureza, o “verde”, a belíssima música de Carlos d’Alessio, a melodia de "India Song" preenchem o filme. No final, Anne Marie Stretter nos escapa de vez nos confins do salão. Ela é a prefiguração da morte, da ausência. India Song, escrito e dirigido por uma das artistas mais fascinantes do século 20, é uma obra-prima difícil, quase inacessível, incomum. Se a escrita de Duras se revela por vezes cinematográfica em seus romances, seu cinema tem algo de literário e, definitivamente, poético.
Marguerite Duras (1914-1996)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Hiroshima mon amour


“Você não viu nada em Hiroshima. Nada.”
Divulgação
“Eu vi as pessoas caminharem. As pessoas passam pensativas pelas fotos, as reconstituições, na falta de outra coisa. E explicações, na falta de outra coisa.”
No dia 6 de agosto de 1945, a cidade japonesa de Hiroshima foi alvo de um ataque nuclear que resultou em cerca de 140 mil mortos. Quatorze anos depois, o cineasta francês Alain Resnais lançava o filme franco-japonês Hiroshima mon amour, um poema cinematográfico de amor e de morte que lança a questão: como falar de Hiroshima depois da bomba atômica? Como representar tamanha dor e tamanho absurdo? A princípio, Resnais pretendia fazer um documentário sobre os acontecimentos trágicos de agosto de 1945. No entanto, o cineasta decidiu incluir elementos de ficção ao seu projeto e designou a escrita do roteiro e dos diálogos do filme a ninguém menos que Marguerite Duras.
Alain Resnais é um dos mais célebres cineastas franceses, tendo sido um dos responsáveis por lançar um olhar novo sobre a forma de se fazer cinema nos 50 e 60. Contrariando formas narrativas tradicionais, explorando de uma maneira particular e moderna o potencial da linguagem cinematográfica, Resnais construiu uma filmografia impressionante. Dentre suas obras mais conhecidas, encontram-se Noite e Nevoeiro (1955), O Ano Passado em Marienbad(1961), Amores Parisienses (1997) e o recente Medos Privados em Lugares Públicos (2007). O diretor nonagenário acabou de lançar seu último longa-metragem, Vous n'avez encore rien vu (2012).
Divulgação
“Senti calor na Praça da Paz. Dez mil graus na Praça da Paz. Eu sei. A temperatura do sol na Praça da Paz”.
Desde sua primeira projeção oficial, na edição de 1959 do Festival de Cannes, Hiroshima mon amour foi apresentado como o fruto de uma colaboração estreita entre Resnais e Marguerite Duras, um dos maiores ícones da literatura francesa do século 20. Além de romancista consagrada, dramaturga e roteirista, ela dirigiu 15 longas-metragens, dentre eles o cult India Song (1975). Marguerite Duras chegou a ser indicada ao Oscar em 1961 pelo roteiro deHiroshima mon amour. Pouco tempo após o seu lançamento, o filme teve seu script publicado em livro, o que prova a força poética do texto de Duras. No entanto, mesmo que o roteiro do filme possa ser lido separadamente, o texto de Duras encontra nas belas imagens de Resnais um eco e uma ressonância responsáveis por fazer, dessa obra-prima, um exemplar único na história da sétima arte.
Hiroshima mon amour se passa em 1957 na cidade que dá nome ao título. Em Hiroshima, uma atriz francesa (da qual nunca saberemos o nome) participa de um filme que fala justamente sobre a paz. No dia que antecede sua partida, ela encontra um arquiteto japonês (cujo nome também não é revelado) com quem ela tem uma intensa aventura amorosa. Esse encontro provoca uma série de reflexões sobre os acontecimentos da História que culminaram no bombardeamento em Hiroshima e Nagasaki, assim como os acontecimentos que marcaram a história pessoal da atriz, incluindo seu passado amoroso. O filme opõe e estabelece uma relação poética entre uma tragédia pessoal a uma catástrofe coletiva.
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“Hiroshima. Esse é o seu nome.” “Sim, esse é o meu nome. Seu nome é Ne-vers. Nevers na França.”
A questão da memória e do esquecimento é um dos elementos centrais do filme. A relação amorosa estabelecida em Hiroshima permite a reconstituição de um trauma do passado da jovem atriz, um episódio esquecido que remonta à época em que ela vivia em Nevers, pequena cidade francesa. O apelo à memória faz com que a personagem reviva e redescubra o que se passou em Nevers, como se os elementos esquecidos e reprimidos de seu passado e os fragmentos de sua história viessem à tona em sua consciência. Resnais e Duras traçam assim um paralelo entre o destino trágico de um indivíduo e o horror coletivo das vítimas da bomba atômica.
Após Auschwitz e Hiroshima, muitos artistas viram como necessária a invenção de novas formas artísticas. Hiroshima mon amour se interroga sobre a possibilidade de filmar aquilo que é irrepresentável e dizer aquilo que é indizível. As figuras de repetição presentes no texto de Duras, as elipses narrativas, a montagem baseada em associações e analogias e a representação de imagens mentais participam dessa tentativa de apreender o impossível. Não por acaso os críticos da célebre revista Cahiers du Cinéma chegaram a afirmar que Hiroshima mon amour é um filme sem precedentes na história do cinema, enfatizando sua modernidade.
Assista à célebre sequência de abertura do filme: 
Hiroshima mon amour é um filme que apresenta uma dupla dimensão: uma dimensão íntima e uma dimensão histórica. Essas duas dimensões se sobrepõem através da evocação à memória, ao passado, ao esquecimento e ao trauma. Alain Resnais e Marguerite Duras fazem um filme sobre Hiroshima a partir da premissa de que é impossível se fazer um filme sobre Hiroshima. E nessa tentativa de captar algo que testemunho nenhum pode comunicar, que está na essência do sentimento da perda e do trágico, eles realizam uma obra-prima única, de um lirismo incomparável.
Para o privilégio dos amantes do cinema, Emmanuelle Riva, a protagonista de Hiroshima mon amour, nos oferece, mais de 50 anos depois do seu grande papel, outro trabalho maravilhoso. Aos 85 anos, ela estrela o incrível Amor (2012), filme de Michael Haneke, ganhador da Palma de  Ouro em Cannes.
Divulgação
“Assim como essa ilusão existe no amor, a ilusão de poder nunca esquecer… Eu tive, diante de Hiroshima, a ilusão de jamais esquecer, como no amor.”

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Edith Piaf e sua cinebiografia (Piaf - Um hino ao amor)

Título original: La Môme
Lançamento: 2007
País: França, República Tcheca, Inglaterra
Direção: Olivier Dahan
Atores: Marion Cotillard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Emmanuelle Seigner.
Duração: 140 min
Gênero: Biografia/ Drama



Edith Piaf, ou Edith Giovanna Gassion, nasceu em 19 de dezembro de 1915, em Belleville, quartier popular de Paris. Sua mãe cantava em cafés e seu pai, ex-ator de teatro, era acrobata de rua. A pequena Edith foi abandonada pelos pais ainda bebê, ficando por 18 meses na casa da avó, em um ambiente de extrema insalubridade. Depois da temporada com a avó, a criança foi deixada pelo pai em um prostíbulo onde a mãe trabalhava. Aos três anos, Edith ficou cega devido a uma doença chamada queratite. Ela recuperou a visão aos sete anos. Após retornar da Primeira Guerra Mundial, o pai buscou a menina e a levou para viver com ele. Eles passaram a se apresentar em circos itinerantes e em ruas de toda a França. Aos 18 anos, Piaf teve uma filha que faleceu, aos dois anos, de meningite. 

A partir dos 14 anos, Edith começou a cantar nas ruas. Ela recebeu o apelido de “la môme Piaf” (“pardalzinho”, em francês coloquial) aos 20 anos por Louis Leplée, seu primeiro mentor, dono do cabaret Le Gerny's. Ele a descobriu cantando na rua. A partir de então, o sucesso de Piaf foi meteórico. Ela se tornou a cantora francesa mais famosa dentro e fora da França. No final, dos anos 40, ela fez uma temporada de shows nos Estados Unidos, onde conheceu Marcel Cerdan, famoso pugilista, por quem se apaixonou perdidamente. Ele morreu em um acidente de avião em 1949, deixando-a completamente arrasada.  Piaf tinha poliartrite aguda e tornou-se dependente de morfina. Ela morreu aos 47 anos, em 1963, devido aos excessos, à dependência química e ao sofrimento. 

O drama Piaf - Um hino ao amor relata os principais acontecimentos da vida da cantora. Este é o filme mais conhecido de Olivier Dahan, que também assinou o roteiro do filme, junto com Isabelle Sobelman. O cineasta francês de 44 anos optou por não adotar uma cronologia convencional, realizando vários saltos no tempo. Essa estrutura adotada pelo diretor talvez seja o único ponto fraco do filme, já que ela confere à narrativa um tom confuso e, por vezes, caótico. Assim, algumas questões vêem, eventualmente, à mente do espectador: “Isso aconteceu quando exatamente na vida da protagonista?” ou “Passaram-se meses, dias ou anos?” O filme também deixa algumas pontas soltas com relação a alguns personagens importantes, como Simone (Sylvie Testud) e Louis Léplée (Gérard Depardieu). 

As qualidades do longa parecem, no entanto, superar suas falhas. A bela fotografia de Tetsuo Nagata pontua muito bem, através das cores, as fases da vida da protagonista. Nagata adota tons frios no início e no fim da vida da cantora e tons quentes e cores vibrantes no auge de seu sucesso. O trabalho de maquiagem também é fantástico, conseguindo transformar a bela atriz Marion Cotillard em várias Piaf’s: a jovem e pobre; a bela e rica; e a doente e decadente. E o que dizer da deliciosa trilha sonora, recheada de músicas de Piaf, assim como de outras famosas canções francesas? A direção de Dahan também nos presenteia com belos momentos. O mais bonito deles é o plano sequência que mostra a protagonista descobrindo a morte do amante, Marcel. A sequência termina com uma bela transição para o palco, linda metáfora da superação da dor através da arte. 

Marion Cotillard é o grande trunfo do filme. A performance da atriz é, sem dúvida, uma das melhores e mais impactantes da última década. Sua composição é extremamente minuciosa. Ela parece, por exemplo, se diminuir para ficar com os 1.42m de Piaf. Impressiona também o fato da atriz retratar tão bem as diversas fases da vida de Edith Piaf: a insegurança da juventude, a confiança que veio do sucesso, o efeito das perdas, a dependência química e todos os altos e baixos da vida da cantora. 

Piaf – Um hino ao amor ganhou o Oscar de Melhor Atriz e Melhor Maquiagem. O filme francês é um impactante drama biográfico, essencial para quem admira a inigualável cantora francesa, mas também para quem quer ver uma bela produção, com uma atuação inesquecível de sua protagonista. 

Assista ao trailer:


sábado, 9 de julho de 2011

Homens e Deuses - 2010

Título original: Des Hommes et des Dieux
Lançamento: 2010 
País: França
Direção: Xavier Beauvois
Atores: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach.
Duração: 122 min
Gênero: Drama

"Deixe passar o homem livre!"


Cena de Homens e Deuses, que conta com a bela fotografia de Caroline Champetier

Homens e Deuses foi o filme selecionado pela França para disputar o Oscar de 2010. Curiosamente, o filme não conseguiu ficar entre os cinco finalistas, mesmo tendo todos os atributos que a Academia costuma apreciar. Ele foi premiado, no entanto, com o grande prêmio do júri em Cannes e ganhou três prêmios Cézar. O filme de Xavier Beauvois se passa em 1996 e conta a história verídica de oito monges franceses, residentes em um monastério de uma pequena vila na Argélia, que vêm sua rotina perturbada pela ação de terroristas. O grupo radicalista promoveu diversos atos bárbaros contra a população local. Formado por fundamentalistas islâmicos, tal grupo não hesitava em promover assassinatos daqueles que se opunham a eles. 

O roteiro, escrito por Etienne Comar e Xavier Beauvois, adota a perspectiva dos monges, pessoas não envolvidas politicamente no conflito. Por isso, os terroristas não são mostrados como monstros, apesar das barbaridades que cometem. Um deles é inclusive capaz de um ato de extrema civilidade e respeito em determinado momento da trama. O exército oficial também não é visto com simpatia, apesar de oferecerem, a princípio, proteção aos monges. O filme não é panfletário, nem se propõe a eleger mocinhos e bandidos, afinal a questão é muito mais complexa do que se pode imaginar. Como um dos personagens afirma, a situação da Argélia é, em grande parte, consequência de uma colonização violenta, que deixou uma herança de ódio e intolerância.

O filme acompanha o cotidiano dos monges, assemelhando-se, muitas vezes, a um documentário e a um big brother do monastério. O longa presenteia o espectador com belíssimos planos de  paisagens do Marrocos (onde foi filmado), mas também mostra a intimidade, os ritos e os pequenos detalhes da rotina dos religiosos. A espiritualidade dos monges é explorada em sequências contemplativas que poderiam ser enfadonhas, mas que se revelam emocionantes. Um grande êxito do longa encontra-se justamente no olhar minucioso com o qual revela a fé dos protagonistas em pequenos e grandes gestos do dia-a-dia deles. Outro mérito da produção é a maneira com a qual a relação entre monges é construída. É comovente o carinho com o qual os religiosos, a maioria idosos, se tratam e a devoção que eles têm pela missão de servir a Deus.

O filme acerta ao mostrar que os monges também têm suas dúvidas e momentos de fraqueza. Os personagens se mostram dignos de admiração por passarem por um processo de superação do medo. É com muita delicadeza e sensibilidade que os personagens são encarnados por seus respectivos intérpretes. Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin, Loïc Pichon, Xavier Maly e Jean-Marie Frin têm performances que se complementam, em um trabalho de elenco sensacional. Algumas cenas são particularmente marcantes pela força da atuação dos atores, como a da última votação e a fantástica cena em que os monges ouvem o "Lago dos cisnes". Esta cena emocionante e magistralmente dirigida mostra a transformação das expressões dos personagens e carrega, de certa forma, um tom premonitório. 

Contando ainda com uma fotografia belíssima, Homens e Deuses é um filme emocionante e uma bela homenagem a homens que foram exemplos de fé e perseverança. O filme francês é o retrato da fé verdadeira e da prática dessa fé, independente de rótulos religiosos.

Assista ao trailer:






quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os nomes do amor - 2010

Título original: Le Nom des Gens 
País: França   Ano: 2010
Direção: Michel Leclerc
Atores:Jacques Gamblin, Sara Forestier, Zinedine Soualem, Carole Franck.
Duração: 100 min
Gênero: Comédia


A talentosa Sara Forestier salvando caranguejos em cena de Os nomes do amor

Francesa, pai argelino, grandes olhos azuis e um belo corpo (sempre à mostra). Também esquerdista, não depila as axilas, fala muito, foi violentada quando criança e se descreve como uma "puta política". Ela se chama Bahia Benmahmoud e todo mundo pergunta se o seu primeiro nome é brasileiro. A personagem principal de Os nomes do amor é, por si só, uma obra-prima irresistível.

Devo confessar que, quando a sessão de Os nomes do amor terminou, me deu uma vontade louca de sair indicando-o para mais e mais pessoas, talvez por ter me ressentido do fato de que tantos filmes medíocres são vistos por milhões, enquanto este delicioso filme está fadado a ser visto por poucos, pelo menos em território brasileiro. Talvez o espírito subversivo e questionador da protagonista tenha surtido algum efeito em mim. Fato é que a comédia romântica de Michel Leclerc é um dos meus filmes favoritos do ano.

Os nomes do amor (tradução piegas para o que deveria ser Os nomes das pessoas) conta a história de um homem de origem judia, Arthur Marthin, e uma jovem mulher de origem mulçumana, Bahia Benmahmoud, que se encontram e passam a ter uma história de amor inusitada. Bahia leva ao pé da letra o ditado "faça amor, não faça guerra". Ela leva para cama homens cujo ideal político se diferencie do seu para tentar mudar a mentalidade dos mesmos. E o mais interessante é que normalmente ela consegue. Arthur Marthin é um biólogo que estuda a morte de aves e que não é, particularmente, politizado. Ele vive uma vida aparentemente sem graça, até encontrar Bahia.

Não é por acaso que o filme é intitulado, em francês, de Os nomes das pessoas já que os nomes são extremamente simbólicos na trama. Nomes são uma forma de identidade e cada um carrega em si uma história e pode, até mesmo, ser um elemento que gere discriminação. Assim, os nomes dos  protagonistas nos dizem muito sobre eles. Arthur Martin, nome muito comum na França, indica um sujeito comum, que tem uma vida também comum. Ele, no entanto, poderia ter outro nome, um nome judeu que lhe foi negado no momento do registro, uma tentativa de esquecimento. Seus avós maternos foram mortos no campo de concentração. Bahia, ao contrário, teve sua origem marcada em seu nome e se tornou uma ativista em prol dos direitos não só dos mulçumanos, mas de todas as minorias discriminadas. Bahia é uma rebelde com muitas causas.

Os nomes do amor tem como uma das maiores qualidades o fato de lidar, de forma bem humorada e com um olhar crítico, com temas espinhosos para os franceses, como o racismo. Os direitos dos estrangeiros residentes no país, a xenofobia latente e o preconceito são questões bastante delicadas no país. Paris, por exemplo, onde se passa a história do filme, abriga pessoas de todos os lugares do mundo. O filme toca em um assunto que é, portanto, bastante pertinente e atual no país, ainda mais se levarmos em conta polêmicas recentes como a proibição do véu total (que cobre todo o corpo) para mulheres mulçumanas. O filme também não se exime de falar da Guerra da Argélia e da Segunda Guerra Mundial e de suas consequências para as gerações que se seguiram, os filhos daqueles que foram exterminados. O filme se permite ainda falar da política mais atual (uma das melhores cenas do filme envolve a eleição do atual presidente Nicolas Sarkozy).

Os nomes do amor é uma comédia que consegue ser hilária ao tratar de assuntos muitos sérios (ora, a protagonista, por exemplo, foi violentada quando criança por seu professor de piano). Leclerc acerta ao apostar em alguns recursos que encontramos em filmes de Woody Allen, principalmente se pensarmos em Noivo neurótico, noiva nervosa (1977), como a introdução do sujeito adulto no flashback da infância, os depoimentos para a câmera, a introdução de uma figura real na história fictícia (no caso, o político Lionel Jospin) e outros. Leclerc, que também é um dos roteiristas, investe em um humor rápido, por vezes ácido e sem algum pudor. 

O filme também é bem-sucedido ao construir uma bela história de amor. Mesmo recorrendo aqui e ali a clichês romanescos, como os opostos que se atraem e os famosos mal-entendidos, o filme conseguirá agradar e emocionar os corações sedentos de romantismo. O sucesso do filme, neste aspecto, se deve muito aos dois atores principais: Jacques Gamblin e Sara Forestier.

Sara Forestier, jovem atriz de 24 anos, tem uma  performance absolutamente fenomenal na pele de Bahia. Ela encarna a personagem com um desprendimento e uma falta de pudor maravilhosos e a naturalidade com que ela fala os maiores absurdos é cativante. O filme é dela do início ao fim e ela faz com que nos apaixonemos por sua desavergonhada personagem. A atriz levou merecidamente o prêmio  Cézar (Oscar Francês) de melhor atriz este ano. Jacques Gamblin também faz um ótimo trabalho, principalmente por conseguir expressar tão bem o encantamento do seu personagem por Bahia. O filme conta ainda com os ótimos trabalhos de Michèle Moretti, Jacques Boudet, Carole Franck e Zinedine Soualem.

Os nomes do amor emociona, nos faz rir e ainda dar grandes suspiros. A inteligência e sensibilidade de seu roteiro me faz lembrar outra jóia do cinema francês, O fabuloso destino de Amélie Poulin (2001). O longa, que também fez parte do Festival Varilux de Cinema Francês, é imperdível!

Trailer do filme:



terça-feira, 21 de junho de 2011

Potiche - 2010

Título Original: Potiche
Gênero: Comédia
Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon, Jean-Pierre Grédy, Pierre Barillet
Produtores: Eric Altmeyer, Genevieve Lemal, Nicolas Altmeyer
Elenco: Catherine Deneuve , Gérard Depardieu, Fabrice Luchini, Karin Viard, Judith Godrèche, Jérémie Renier, Évelyne Dandry, Sergi López , Bruno Lochet , Elodie Frégé
País de Origem: França
Duração: 103 minutos

Catherine Deneuve e Judith Godréche em cena de Potiche

O Festival Varilux de Cinema Francês traz a 22 cidades brasileiras uma programação imperdível de filmes contemporâneos do cinema de língua francesa. Para conferir a programação, basta entrar no site do festival (http://www.festivalcinefrances.com/). Dentre as produções que serão exibidas, está a comédia Potiche - Esposa troféu, do badalado diretor François Ozon. Depois da parceria no divertido 8 mulheres, ele reencontra a eterna diva Catherine Deneuve, em um filme que é feito para a atriz brilhar. 

"Potiche", que literalmente denomina um tipo de vaso decorado chinês ou japonês, é uma expressão popular usada para caracterizar homens ou mulheres-bibelôs, pessoas que podem até ter alguma posição honorífica, mas que não têm nenhum poder efetivo, sendo usadas, muitas vezes, apenas como um tipo de adorno. É o caso da protagonista do novo filme de Ozon. Suzanne Pujol (Catherine Deneuve) é casada com o diretor de uma fábrica de guarda-chuvas, que é a maior empregadora de uma pequena cidade francesa. A potiche se vê obrigada a assumir o controle da fábrica, quando seu marido se envolve em um sério conflito com o sindicato de trabalhadores local. Ela logo toma gosto pelo poder, causando uma série de conflitos na família. 

Como afirmei no primeiro parágrafo, o filme é feito para Catherine Deneuve e não é de se espantar, por exemplo, que a fábrica comandada pela personagem no filme seja de guarda-chuvas, já que um dos trabalhos mais famosos da atriz é no cultuado musical francês Os guarda-chuvas do amor (1964); uma homenagem sutil e divertida. O filme também promove o reencontro da estrela com outro grande astro francês, Gérard Depardieu com quem ela trabalhou em O último metrô (1980), de Truffaut. Deneuve, com sua elegância e beleza habituais, canta, dança e exibe um carisma encantador em Potiche.

A comédia farsesca de Ozon é ambientada no final dos anos 70. A produção de arte e o figurino inspiradíssimos brincam com o estilo e  a moda deste período. Elementos do filme, como o cabelo à la Farrah Fawcett da filha da protagonista e a dança na discoteca que muito lembra Os embalos de sábado a noite, são referências divertidas à década retratada. Ozon opta também por usar uma palheta de cores variada, criando um filme bem colorido e alegre. 

A trama, que aborda a questão dos direitos das mulheres e da submissão destas diante do poder masculino, não se leva, no entanto, muito a sério. Mesmo que tenha um leve toque subversivo e crítico, a abordagem é, sobretudo, cômica. Em um momento de consagração da protagonista, por exemplo, ela não hesita em agir como uma Evita de cabaré. É exatamente por conseguir surpreender o espectador, indo em direção ao melodrama e fazendo reviravoltas ousadas, que o filme  mostra-se tão divertido. Um momento-chave, nesse sentido, é quando a protagonista revela seu passado sexual.

Contando também com um elenco afiadíssimo, Potiche - Esposa troféu é um filme leve, divertido e que lhe deixará com um sorriso no rosto por muito tempo após sessão. 

Trailer do filme:

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A história de Adèle H. - 1975


Título original: L'Histoire d'Adèle H.
Lançamento: 1975
País: França
Direção: François Truffaut
Atores: Isabelle Adjani, Bruce Robinson, Sylvia Marriott, Cecil De Sausmarez.
Duração: 97 min
Gênero: Drama


Victor Hugo foi o autor mais celebrado da França, provavelmente um dos escritores mais populares de todos os tempos. Ícone não só literário, ele foi uma figura importante também pela sua ativa participação política no conturbado cenário francês do século XIX. Morto em 1885, seu funeral teve a presença de aproximadamente dois milhões de pessoas.

A história de Adèle H., filme francês de 1975, conta a história de Adèle Hugo, filha do escritor de Os miseráveis. A filha de Victor Hugo tornou-se uma personagem mítica de seu tempo. Seus diários foram descobertos posteriormente e revelaram ao mundo a história de um amor obsessivo. Adèle nasceu em 1830 e morreu em 1915, aos 85 anos. Durante o período de exílio de sua família na Ilha de Guernsey, motivado pela ascensão de Napoleão III ao poder, Adèle é seduzida por Albert Pinson, um oficial inglês. Em 1863, ela atravessa o Atlântico até Nova Escócia (EUA) atrás do grande amor da sua vida. O oficial, no entanto, não quer nada com ela. Ela faz de tudo para conquistá-lo, se humilha, pede dinheiro emprestado ao pai, persegue Albert, mas tudo em vão. Ela acaba ficando louca e passa o resto da sua vida (1872 – 1915) em um manicômio.

O filme é dirigido pelo grande cineasta e crítico francês, François Truffaut, que escolheu como protagonista de seu filme, uma atriz iniciante na época, a belíssima Isabelle Adjani. Adèle Hugo deve ter ficado bastante lisonjeada com a escolha de sua intérprete. Aos 19 anos, a atriz francesa seduziu o mundo com sua beleza e com seu talento, em uma performance intensa e emocionante.

Existem rumores que afirmam que Truffaut estava completamente obcecado pela jovem atriz. Anedotas a parte, o filme é dela. Uma atuação a ser apreciada cena a cena. Adèle H. é uma personagem completamente romanesca que busca o ideal, o sonho. São maravilhosas as cenas em que ela se entrega a escrita alucinante e poética de seu diário ou livro, como o chamava. Adèle H. é uma personagem hiperbólica, que manifesta um amor sem limites.

A direção de Truffaut é sublime. Em alguns momentos, parece que estamos diante de uma pintura, tamanha a perfeição da composição dos quadros, da direção de arte e da fotografia. A história de Adèle H. não só é uma ótima oportunidade de ver mais um grande filme de Truffaut e de ver Isabelle Adjani (indicada ao Oscar de Melhor Atriz) em um dos seus grandes papéis no cinema, mas também de conhecer a história verídica de uma mulher que perdeu toda a paz e sanidade por conta de um grande amor. 


Trailer do filme: