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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Clássicos da Cinemateca - A Felicidade Não Se Compra (1946)


“Lembre-se, George: nenhum homem é um fracasso quando tem amigos.”
“Você quer a lua? Eu te darei a lua! Eu vou laçá-la e dar para você.”
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Célebre cena final de A Felicidade Não se Compra 
A Felicidade Não se Compra (It’s a Wonderful Life) é certamente um dos filmes mais inspiradores da Era de Ouro de Hollywood. O longa-metragem de 1946 é a adaptação de The Greatest Gift, conto do escritor americano Philip Van Doren Stern, publicado em 1943. A Felicidade Não se Compra é considerada a maior obra-prima do diretor Frank Capra, responsável por outros clássicos inesquecíveis como Aconteceu Naquela Noite (1934), O Galante Mr. Deeds (1936), Do Mundo Nada se Leva (1938)  e A Mulher Faz o Homem (1939).
Frank Capra nasceu na Itália, mas se mudou aos seis anos para os Estados Unidos com os pais. Visto como um dos diretores mais importantes da Hollywood clássica, Capra acumulou prêmios, prestígio e honrarias em mais de 40 anos de carreira. A revista Entertainment Weekly o elegeu como o 9° maior cineasta de todos os tempos. Ele foi indicado seis vezes ao Oscar, tendo levado o prêmio de Melhor Diretor em três ocasiões (por Aconteceu Naquela Noite, O Galante Mr. Deeds e Do Mundo Nada se Leva). Capra dirigiu dez performances indicadas ao Oscar, dentre elas, duas das maiores atuações de James Stewart, em A Mulher Faz o Homeme A Felicidade Não se Compra. O diretor e o ator (que trabalharam juntos três vezes) revelaram, posteriormente, que o filme de 1946 é o favorito de suas carreiras.
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Frank Capra e James Stewart em um momento descontraído nos sets.
A estreia de A Felicidade Não se Compra nos cinemas foi ofuscada pelo grande sucesso de Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946), filme de William Wyler que havia estreado nos cinemas na semana anterior. O drama de Wyler é centrado na vida de ex-soldados que tentavam retornar às suas vidas normais após a Segunda Guerra Mundial. O fracasso de bilheteria de A Felicidade Não se Compra explica, de certa forma, seu insucesso na premiação do Oscar no ano seguinte, tendo perdido o grande prêmio para Os Melhores Anos de Nossas Vidas e tendo saído de mãos vazias da premiação, apesar das cinco indicações (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Montagem e Melhor Som). Ainda que o clássico de Wyler seja indiscutivelmente uma obra importante, A Felicidade Não se Compra “envelheceu” melhor e é, normalmente, visto como um filme maior, ocupando um lugar especial no coração de muitos cinéfilos.
A popularidade do filme de Capra aumentou exponencialmente com o passar dos anos, muito em função da televisão, onde costumava ser exibido com frequência, principalmente no período natalino. Ainda que o próprio Capra nunca tenha pensado no filme como uma fábula de Natal, A Felicidade Não se Compra veio a se tornar um dos maiores “filmes natalinos” de todos os tempos. A mensagem edificadora da história é um dos grandes trunfos desse clássico. 
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A cena do primeiro beijo é uma das mais românticas do filme. Assista aqui.
O filme conta a história de George Baily (James Stewart), um homem que passou grande parte da sua vida se compromentendo a ajudar os moradores da pequena cidade de Bedford Falls, a despeito de seu sonho de viajar e conhecer o mundo. O seu maior antagonista é o poderoso e maléfico Mr. Potter (Lionel Barrymore), que anseia ter o controle absoluto da cidade. Através de sua empresa de empréstimo e financiamento, George ajuda as pessoas de Bedford Falls a realizarem seus sonhos. Certo dia, o tio de George perde uma grande quantia da empresa, colocando-a em sério risco de falência. Ainda sob o risco de ser preso e receando deixar sua família na miséria, George chega a conclusão de que vale muito mais morto do que vivo, devido ao valor do seu de seguro de vida. Sem ter a quem recorrer, George pensa em se suicidar em plena véspera de Natal. Nesse momento, o anjo Clarence (Henry Travers) intervém para ajudar o protagonista.
Frank Capra é reconhecido por sua habilidade de realizar grandes obras a partir de histórias relativamente simples. Muitos de seus filmes são centrados em um protagonista masculino, um indivíduo de bom coração e de boas intenções, que tenta se impor em uma sociedade marcada pela corrupção e pela ambição. Capra é normalmente lembrado por seus “feel good movies”, obras marcadas pela idealização do homem e pela fé na humanidade. Os heróis de Frank Capra são homens comuns que simbolizam a alma nacional norte-americana. Tais heróis são construtores de uma América ideal onde reinam a justiça e a liberdade. As narrativas de Capra são também marcadas pelo sentimentalismo e pela ideia de que a coragem individual pode ser páreo ao mal coletivo e de que a integridade dos “pequenos” pode rivalizar com a iniquidade dos poderosos. 
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Lionel Barrymore interpreta um dos vilões mais desprezíveis do cinema clássico.
A Felicidade Não se Compra foi o único filme em que Capra acumulou as funções de diretor, produtor, financiador e co-roteirista (ao lado de Frances Goodrich e Albert Hackett). O custo de filmagens foi considerado extremamente alto para uma produção independente, batendo os 3 milhões de dólares. Para as filmagens, foi fabricado um dos maiores sets da história do cinema americano até então. Uma verdadeira cidade com mais de 75 prédios foi construída para representar a cidadezinha fictícia de Bedford Falls.
A Felicidade Não se Compra foi o primeiro filme de James Stewart após a Segunda Guerra. O ator, que teve uma proeminente carreira militar e que participou ativamente do conflito, ficou cinco anos sem atuar. O filme de 1946 foi, portanto, sua reestreia no cinema. Além de ser o seu personagem favorito, George Bailey é um dos personagens mais icônicos da carreira do ator, também conhecido por suas memoráveis parcerias com Alfred Hitchcock.
Ao lado de James Stewart, temos o grande Lionel Barrymore que encarna Mr. Potter, um dos vilões inesquecíveis do cinema clássico. O ator começou sua carreira no cinema mudo e chegou a trabalhar com o mestre D. W. Griffith. Mr. Potter é o seu mais célebre personagem em quase cinquenta anos de carreira.
Outro destaque do filme é a bela atriz Donna Reed, que interpreta sua primeira protagonista no cinema num papel inicialmente oferecido à estrela Ginger Rogers. Reed viria a ganhar o Oscar de coadjuvante, oito anos depois, por A Um Passo da Eternidade (1953).
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Donna Reed encarnou sua primeira protagonista em A Felicidade Não se Compra.
A obra-prima de Frank Capra é frequentemente citada em diversas listas produzidas por várias associações ligadas ao cinema. O American Film Institute o elegeu como o filme mais inspirador de todos os tempos. Em 2007, a mesma instituição o colocou em 20° lugar, na lista dos 100 melhores filmes americanos de todos os tempos. Mr. Potter foi escolhido com o 6° maior vilão e George Bailey, o 9° maior herói do cinema. A Premiere Magazine classificou a atuação de James Stewart como a 8a  melhor de todos os tempos. Além das cinco indicações ao Oscar, o filme levou o Globo de Ouro de Melhor Diretor em 1947.
A Felicidade Não se Compra é, ao lado de O Mágico de Oz (1939) e de De Ilusão Também se Vive (1947), um dos filmes de fantasia mais importantes do cinema clássico hollywoodiano. A encantadora fábula de Natal é uma celebração da amizade e do poder transformador de cada indivíduo no seio de sua comunidade. Algumas das cenas do filme permanecem impactantes na memória afetiva de muita gente. Como não se emocionar ao (re)ver a última cena do filme ao som da "Valsa da Despedida" (Auld Lang Sine)? Ouça.
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No filme, George Bailey (Stewart) tem a oportunidade de ver como seria o mundo se ele nunca tivesse existido.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Clássicos da Cinemateca - Um Corpo que Cai (1958)


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Começaremos a falar de Um Corpo que Cai, fazendo referência a alguns números interessantes. O filme é o 46º longa-metragem de Alfred Hitchcock, que tinha 58 anos quando o realizou. Um Corpo que Cai é a quarta e última parceria de Hitchcock com James Stewart, que contava com 50 anos quando interpretou Scottie Ferguson e era 26 anos mais velho que Kim Novak, seu par romântico no filme. Novak foi a segunda opção do diretor para o papel principal. A primeira escolha de Hitchcock era a atriz Vera Miles, que teve que declinar do convite em função de uma gravidez. O filme foi lançado em 1958, dois anos após a aposentadoria de Grace Kelly do cinema. A atriz era a loira favorita de Hitchcock, que a dirigiu em três filmes. Um Corpo que Cai foi filmado em menos de três meses, custou aproximadamente 2,5 milhões de dólares e arrecadou no fim de semana de estreia pouco mais de 10 mil dólares. Na época de seu lançamento, o filme teve uma bilheteria abaixo da esperada e obteve críticas mistas. Hitchcock não lidou muito bem com a recepção de sua obra e culpou Stewart pelo fracasso do filme nas bilheterias, afirmando que o ator era muito velho para o papel, não atraindo o público e não convencendo como o interesse amoroso de Novak. O tempo, no entanto, opera mágicas e hoje o filme forma, ao lado de Janela Indiscreta (1954)e Psicose (1960), a tríade das maiores obras-primas do cineasta. A atuação de Stewart no clássico é uma das mais icônicas de sua carreira.
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Foto dos bastidores do filme: Alfred Hitchcock e James Stewart.
Um Corpo que Cai impressiona já na sequência dos créditos iniciais, criada pelo designer gráfico Saul Bass (que colaborou com Hitchcock também em Intriga Internacional). Bass foi auxiliado por Jonh Whitney, cineasta experimental que faz a animação das Curvas de Lissajous (espirais mostradas na abertura). Segundo Bass, ele queria recriar a sensação de mal-estar associada à vertigem, justapondo a imagem dos olhos a outras imagens e às elipses: “Eu utilizei as Curvas de Lissajous, concebidas por um matemático francês do século 19 para exprimir certas fórmulas, pelas quais eu me apaixonei alguns anos antes. Pode-se dizer que elas me obcecavam há muito tempo. [...] Eu queria capturar a aura de amor e obsessão deste filme”.¹

A sequência dos créditos iniciais do filme foi criada por Saul Bass e John Whitney.
Um Corpo que Cai é a adaptação do romance D'Entre les Morts, dos escritores franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Ambientadoem San Francisco, o filme se inicia revelando a maneira traumática com a qual Scottie Ferguson (Stewart) foi confrontado pela primeira vez com sua acrofobia (medo de lugares altos). Em uma perseguição policial, a fobia do detetive acaba causando a morte de um colega. Pouco tempo depois, já aposentado, Scottie é contatado por um antigo conhecido que lhe dá a tarefa de investigar sua esposa Madeleine (Novak) que, ao que tudo indica, está possuída pelo espírito de uma antepassada. Scottie se apaixona perdidamente por Madeleine, mas sua acrofobia impede que ele a salve quando esta se joga da torre de um convento. O destino, no entanto, faz com que o protagonista se depare com Judy (Novak novamente), sósia de Madeleine, algum tempo depois.
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Primeira cena no filme: Scottie descobre o seu medo de altura.
Para representar a vertigem no filme, Hitchcock e seu cameraman Irmin Roberts criaram o famoso efeito zoom out and track in (também conhecido por travelling compensé ou contra zoom). Trata-se de um travelling adiante combinado a um zoom para trás, que dá a sensação de desarticulação no espaço. Através desse efeito, Hitchcock pode representar a sensação de atração e repulsão (medo) provocada pela vertigem. Tal procedimento passou a fazer parte da linguagem cinematográfica, sendo depois utilizada por outros diretores, como Steven Spielberg, em Tubarão (1975).
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Madeleine contemplando retrato de Carlotta. 
A espiral também está presente no penteado de Madeleine.
Um dos grandes charmes de Um Corpo que Cai é o fato de que ele desafia qualquer rótulo reducionista, sendo um amálgama de diferentes gêneros como o suspense, o romance e o melodrama. Poderíamos até mesmo transformar o filme em uma equação. Um Corpo que Cai = intriga policial + romance + indagação metafísica + história de fantasmas + x. O x seria a variável que liga harmoniosamente todos esses elementos, o toque genial de Hitchcock. Deixando um pouco de lado a matemática, podemos analisar a definição dada pelo próprio diretor ao seu filme. O mestre do suspense afirmou certa vez que o Um Corpo que Cai é a história de um necrófilo.
A definição provocativa de Hitchcock é extremamente pertinente, afinal Scottie, o protagonista, é um homem apaixonado por uma mulher “morta” que existe apenas como ideal. A cena em que ocorre a consumação do amor dos protagonistas é caracterizada por uma fantasmagórica luz verde que toma conta de toda a tela. A sexualidade de Judy perturba Scottie, que prefere o amor vindo das sepulturas. O protagonista insiste em transformar Judy na imagem da mulher morta. O amor necrófilo de Scottie por esta imagem revela o apego a uma ideia, um amor espiritual. O personagem de Stewart não consegue lidar também com sua própria natureza de ser humano encarnado. Sua vertigem o deixa inapto ao mundo físico opressor. O retorno de uma Kim Novak, muito mais encarnada, como Judy, é, para Scottie, violento e insuportável. É preciso desencarná-la e transformá-la em Madeleine.
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Scottie (James Stewart) se apaixona perdidamente por Madeleine (Kim Novak).
James Stewart era o ator que melhor encarnava o homem comum americano no cinema. Nos filmes de Hitchcock, Stewart vive indivíduos impotentes diante dos acontecimentos, homens cujas ações são limitadas por problemas físicos (a perna quebrada em Janela Indiscreta) ou psicológicos (a acrofobia em Um Corpo que Cai). O único salvamento realizado por Scottie na trama revela-se, posteriormente, um embuste. O personagem de Stewart é, portanto, marcado pela culpa e pela perda, o que faz de Scottie um dos personagens mais trágicos da filmografia de Hitchcock.
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Madeleine, Scottie e Judy: um triângulo amoroso insólito.
Mesmo que seu talento nunca tenha se sobressaído à sua beleza, em Um Corpo que Cai, Kim Novak consegue dar à loira Madeleine o caráter etéreo pedido pela personagem através de seu olhar sempre perdido, seu jeito vulnerável e sua falta de expressão. Já como a morena Judy, a atriz tem uma presença mais marcante e uma sensualidade exuberante. Recentemente, a atriz de 78 anos levantou uma polêmica, acusando o filme O Artista (2011) de plagiar um dos temas musicais de Um Corpo que Cai (1958), composto por Bernard Herrmann. O inesquecível tema de amor da obra de Hitchcock foi realmente utilizado no filme francês, indicado este ano  a dez Oscars. O uso, no entanto, é acusado nos créditos finais do filme, onde a peça é citada como música adicional. A música de Herrmann é, por sinal, uma das mais marcantes trilhas sonoras do cinema e eleita, em2005, a 12ª melhor trilha sonora de todos os tempos pelo American Film Institute. Ouça, a seguir:
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Psicodélica cena de sonho de Scottie, dirigida por Saul Bass.
É interessante notar que, mesmo após a resolução do mistério central, o filme continua tendo uma dimensão fantasmagórica, afinal Hitchcock não faz questão de tudo explicar ou explicitar. Por exemplo, em uma determinada cena, Scottie segue Madeleine até o hotel, sobe até o quarto e ela não está lá, desaparecendo misteriosamente. Em outra cena, Judy parece saber do sonho de Scottie sem que este a tenha contado. Esses mistérios (unidos a outros elementos como o uso da luz verde e a própria facilidade de Madeleine/Judy em sempre escapar das mãos de Scottie) dão à história um caráter ainda mais perturbador e intrigante.
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Kim Novak tinha 24 anos quando fez Um Corpo que Cai.
Abrimos nosso texto sobre Um Corpo que Cai, falando em números. Nada mais natural do que terminá-lo fazendo referência a outros. O filme concorreu a apenas dois Oscars (Melhor Direção de Arte e Melhor Som), não sendo premiado em nenhuma das duas categorias. É possível encontrar o título do longa em praticamente todas as listas de “melhores filmes de todos os tempos”, produzidas pelos mais diferentes veículos de comunicação e associações. Em suas respectivas listas, a revista Entertainment Weekly o classificou em 19º lugar, a Total Film em 2º, a francesa Positif também em 2º e o American Film Institute em 9º. Um Corpo que Cai também foi eleito o maior filme de mistério de todos os tempos na votação realizada pelo American Film Institute. A inesquecível obra-prima de Hitchcock é uma história de amor com ares de pesadelo. Nela, paixão e morte são duas faces da mesma moeda. 
¹ Saul Bass, in Dan Auiler, Vertigo. The Making of a Hitchcock Classic, New York,St. Martin’s Press, 1998. P. 155.
TEXTO DE MINHA AUTORIA PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 13/02/2012 NA COLUNA CINEMATECA , DO SITE CINEMA EM CENA. 

domingo, 30 de janeiro de 2011

Janela Indiscreta - 1954

Domingo, 14h10 em Paris e uma Cinemateca completamente lotada para ver Janela Indiscreta. A funcionária do cinema gritando com as pessoas: "Não deixem espaços, sentem um do lado do outro, porque a sala vai ter  ocupação máxima!". E, nisso, ela ia andando entre as fileiras de cadeiras e mandando as pessoas se juntarem: "Sem buracos! Sem buracos!". A quantidade de crianças presentes na sessão era impressionante, muitas inclusive bem novinhas 6, 7 anos. Comentei isso com a simpática senhora ao meu lado e ela falou: "Mas não se vê esse tanto de crianças em Psicose ou Os pássaros". Boa observação, se esses dois últimos podem ser bem assustadores para adultos, imagine para crianças?!

Eu guardava uma ótima lembrança do filme, que devo ter visto pela primeira vez há uns 5 anos. Neste filme, temos dois grandes parceiros de Hitchcock: James Stewart e Grace Kelly. Ele é um repórter fotográfico aventureiro que quebrou a perna em um de seus trabalhos e se vê obrigado a ficar engessado em seu apartamento cuja janela dá para vários outros apartamentos, o que lhe permite acompanhar a vida de seus vizinhos. Grace Kelly é Lisa, sua linda e elegante namorada que trabalha com moda e frequenta a elite novaiorquina. Ela quer casar, ele não quer. A princípio, ele chega a mostrar grande rejeição a ela (o que de certa forma é impressionante porque Grace Kelly está irresistível). 

Jeff (Stewart) passa a acompanhar os hábitos de seus vizinhos. Motivado talvez por sua curiosidade de réporter ele vai constatando o perfil de cada morador, muitos baseados em estereótipos: a bailarina sexy, a solteirona, o casal recém-casado, o pianista boêmio, o casal excêntrico, entre outros. Certa noite, ele observa alguns fatos estranhos em um apartamento, chegando à conclusão de que um homem matou sua esposa. 

Jeff é, assim como nós, um espectador e as janelas são como telas de cinema. Stewart encarna brilhantemente a figura do voyeur, mas Hitchcock faz com que o espectador também o seja. Ele dirige nosso olhar, ele nos instiga e, no decorrer do filme, também sentimos que estamos vendo o que não deveríamos, invadindo a privacidade daqueles personagens, mas também fascinados por eles.

Provavelmente seja o meu filme favorito de Hitchcock. Ele consegue ser um grande suspense, mas também é muito leve e engraçado o que de certa forma explica um público tão recheado de crianças e pré-adolescentes. Grace Kelly e James Stewart tem uma química excelente. A cena em que a atriz aparece pela primeira vez, a do primeiro beijo, é inesquecível. Ela surge como uma bela aparição, como em um sonho. Observe a mudança da velocidade no momento do beijo (talvez um dos mais belos do cinema):



A fantástica atriz Thelma Ritter faz o papel da enfermeira bem-humorada. Com o mesmo jeito atrevido que mostra em A malvada, ela é responsável por alguns bons risos durante a projeção. A enfermeira, Jeff e Lisa vão se envolver numa arriscada investigação. E é, a parttir desse momento, que Jeff vê o lado aventureiro da namorada, o que o faz se apaixonar pela moça.

Janela indiscreta é uma aula de cinema e diversão garantida!

Seguindo a tradição, mais um vídeo de um cameo (aparição) de Hitchcock, dessa vez em Janela Indiscreta:



Trailer do filme:

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um corpo que cai - 1958

Ao fim da sessão na Cinemateca, uma senhora falou com uma expressão realmente assustada: "Detesto essa música, ela é assustadora, sempre me fez mal!". Ela se referia à trilha sonora de Vertigo (traduzido em português pelo dramático título, mas não de tudo infeliz, Um corpo que cai). De fato, a fantástica trilha de Bernard Herrmann é um dos elementos que deixa o espectador tenso, completamente imerso numa história que a cada momento parece nos guiar para um precipício. Ver o filme de Hitchcock numa sala de cinema, com as condições de som adequadas me fez apreciar ainda mais essa trilha bela e "assustadora". Mas ao contrário da senhora, eu adorei cada acorde.

Um corpo que cai é um suspense com toques trágicos. Sua trama é sombria, séria, com toques de melancolia. O enredo fala de um detetive afastado da polícia por causa do seu grave problema com lugares altos (acrofobia). Após seu afastamento, ele é procurado por um ex-colega de universidade para seguir sua mulher que parece estar sob a influência de uma força espírital. James Stewart, o ator que melhor encarnou no cinema o homem comum, dá a vida ao detetive. Acredito que seja sua melhor interpretação em um filme de Hitchcock (ele esteve presente em vários filmes do diretor). Kim Novak é a loira platinada da vez, o objeto do desejo. Ela não é tão talentosa e bela quanto Grace Kelly, mas é eficiente e melhor que Tippi Hedren (loira que faz Os pássaros). Detalhe: a atriz só fala aos 45 minutos da produção.

Apesar de ter sido um fracasso de bilheteria em sua estréia, o filme é uma das maiores obras-primas do diretor... mestre na criação do suspense. O motivo da vertigem é evocado pela constante referência à formas circulares e de espirais, como na abertura dos créditos iniciais feita pelo famoso designer Saul Bass.

Assim como em Ladrão de Casaca, Hitchcock faz seu cameo. Mas desta vez sua aparição é bem mais discreta e não provoca riso como no filme de 1955.

Observe e o encontre em cena:



Cena do filme: (famosa sequência do pesadelo)


Trailer: