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terça-feira, 30 de julho de 2013

Clássicos da Cinemateca - Viagem à Itália

Percebi pela primeira vez que… somos como estranhos um para o outro. 
 
Diga! Eu quero ouvir você falar que me ama.
Grande fracasso de bilheteria, esnobado e ridicularizado no ano de seu lançamento, Viagem à Itália (1954), dirigido pelo cineasta italiano Roberto Rossellini, foi tido por boa parte dos críticos da época como uma aberração por focalizar a vida de um casal de classe média-alta (ainda por cima inglês), entediado, aborrecido e desocupado, em uma trama em que nada acontece e que não vai a lugar nenhum. "Quanto desperdício escalar Ingrid Bergman e George Sanders, duas estrelas consagradas, num filme como esse!" – pareciam exclamar os críticos em uníssono. Como já sabemos, na história do cinema, o mundo dá voltas. Viagem à Itália foi resgatado do limbo pelos críticos do Cahiers du Cinéma, que o alçaram à condição de obra-prima: “o primeiro filme moderno”. Tais críticos (ninguém menos que Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, François Truffaut e Claude Chabrol) iniciariam no final dos anos 50 o movimento da Nouvelle Vague, um dos mais importantes da história do cinema. Hoje, Viagem à Itália é visto como um marco cinematográfico, uma obra-prima essencial que influenciou toda uma geração de grandes cineastas. 

Eu queria que você descansasse. Não me passou pela cabeça que era tão chato para você ficar sozinho comigo.
Em Viagem à Itália, Katherine (Ingrid Bergman) e seu marido Alex (George Sanders) fazem uma viagem a Nápoles para acertar a venda de uma propriedade que um tio deixara de herança. Essa viagem de negócios (e de prazer, como acrescenta Katherine) acaba por revelar o desgaste da relação do casal. Ao sair da rotina doméstica, os dois personagens se veem diante do desafio de suportarem a companhia um do outro. A convivência revela-se cada vez mais difícil à medida que o filme avança. Ambos começam a questionar suas escolhas, seus sentimentos e a possibilidade de continuarem casados. O conflito de personalidades contribui para o distanciamento do casal. Se Alex é um homem extremamente cínico, crítico e seco, Katherine é uma mulher carente, romântica e frustrada. O maior problema do casal, no entanto, é a dificuldade que ambos têm de expressar seus reais sentimentos. Um jogo de forças, provocações e ciúmes se instaura entre eles, já que nenhum dos dois quer dar o braço a torcer e assumir seus medos e angústias.
 
Essa é a primeira vez que estamos verdadeiramente sozinhos desde que nos casamos.
É interessante como Rossellini estabelece uma relação entre o descobrimento de um território novo, de uma cultura diferente e a irrupção da crise no casamento dos protagonistas. A Itália é um ambiente completamente exótico (por vezes inóspito) para Alex e Katherine e a viagem os deixa claramente ansiosos e nervosos. O casal, habituado à ordem e à serenidade de sua rotina na capital inglesa, se vê repentinamente mergulhado no caos e na vivacidade do modo de vida italiano. Alex, um homem de negócios, que aparentemente vive para o trabalho, é obrigado a ficar à toa, o que é definitivamente angustiante para ele. Algo parecido ocorre com Katherine. Mais aberta à cultura local, ela tenta ocupar seu tempo com passeios turísticos, mas se vê atormentada pela solidão. Fora de seu habitat natural, os personagens se sentem vulneráveis. A descoberta de um novo mundo, o encontro com o Outro, provoca o olhar dos personagens para a sua própria individualidade e para o tipo de relação que eles consolidaram ao longo dos anos. O ócio e o tédio que eles experimentam durante a viagem contribuem para que eles se confrontem com certas questões que andavam adormecidas.
 
Após oito anos de casamento, parece que a gente não conhece nada um sobre o outro.
Rossellini confere um tom meditativo e misterioso a seu filme. O diretor foge da dramatização e do exagero, focalizando o crescente desconforto dos personagens e a dolorosa tomada de consciência do casal sobre a realidade de seu casamento. As manifestações culturais, a religião, as crenças locais são exploradas brilhantemente pelo cineasta. O choque cultural e a alteridade são fontes de estranhamento e reflexão para os personagens. A fertilidade das mulheres italianas faz com que Katherine questione sua decisão de não ter filhos. A exumação dos corpos, moldados em gesso, de um casal, em Pompeia, emociona e perturba os personagens e os fazem encarar o fato de que talvez não terminem juntos os seus dias. Os corpos dos amantes petrificados, vítimas do Vesúvio, é o próprio símbolo do amor. Trata-se de uma imagem terrivelmente comovente para Alex e Katherine, que se veem às vésperas de uma separação. Eles ainda se amam, obviamente, mas o orgulho e a dificuldade de comunicação os separam. 
 
Em casa tudo parece tão perfeito, mas agora que estamos longe, sozinhos…
A câmera de Rossellini permanece paciente ao longo de todo o filme, permitindo que os personagens se desenvolvam, valorizando assim cada gesto e cada pequeno acontecimento. Grande parte do filme foi feito a partir da improvisação. Dessa forma, Rossellini alcança um nível incrível de naturalismo no  filme. É importante salientar que Roberto Rossellini é um dos maiores ícones do neorrealismo italiano, movimento que se caracterizou por focalizar as dificuldades econômicas da Europa do pós-guerra, a pobreza, o conflito de classes, o quotidiano opressor das camadas mais pobres e a injustiça. O tema de Viagem à Itália se distancia, portanto, do neorrealismo italiano. No entanto, o que há de mais real que um casal que se descobre em crise? Sem dúvida, esse filme marca uma evolução na filmografia do diretor, que se afasta do neorrealismo estrito em direção a um cinema “moderno” e mais intimista e, por essa razão, Viagem a Itália é considerado um filme pioneiro. Há um pouco do filme de Rossellini em O Desprezo, de Godard, por exemplo, que também conta a história de um casal em crise. Não é por acaso que no filme do diretor francês aparecem pôsteres deViagem à Itália no cenário. Trata-se de uma homenagem e uma citação explícita. 
Viagem à Itália é protagonizado pelo inglês George Sanders e pela sueca Ingrid Bergman, com quem o diretor era casado na época. Os personagens se revelam, a princípio, bastante antipáticos. Sanders interpreta como ninguém o tipo arrogante, sarcástico e frio, algo que ele fez diversas vezes em sua carreira. Bergman é o coração do filme, uma vez que ela demonstra, com bastante sensibilidade, a instabilidade de sua personagem e a evolução de seus sentimentos. À medida que o filme avança, o espectador passa a se identificar com esses indivíduos extremamente humanos e falhos. 
Rossellini nos legou grandes obras-primas como Roma, Cidade Aberta (1945), Paisá (1946), Alemanha, Ano Zero (1947) e Stromboli (1950). Ainda que Viagem à Itália não seja o filme mais famoso do diretor, ele ocupa um lugar bastante especial na sua filmografia, sendo um dos filmes mais influentes de sua carreira.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Clássicos da Cinemateca - Sonata de Outono (1978)


“Eu te amava, mamãe, era uma questão de vida ou morte, mas eu não confiava nas tuas palavras. Elas não expressavam o que os teus olhos diziam. Você tem uma voz linda, mamãe. Quando eu era criança, eu a sentia no meu corpo todo. Mas eu sentia que você não falava de coração. Eu não conseguia entender suas palavras.” 
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“Eu a amava, mas você me achava repulsiva, burra e fracassada.”
Em 1978, o cineasta sueco Ingmar Bergman lançou um dos seus últimos filmes para o cinema, o premiado Sonata de Outono. Esta foi a única colaboração do diretor com a atriz Ingrid Bergman, também sueca, com quem não tinha nenhum parentesco apesar da homonimia. Ingmar é um dos maiores nomes do cinema mundial, com uma filmografia que não cessa de impressionar gerações sucessivas; Ingrid será para sempre lembrada como uma das maiores divas do cinema hollywoodiano, uma atriz sublime que tem também importantes trabalhos na Europa. O encontro desses dois ícones do cinema é abrilhantado pelo belíssimo texto de Ingmar Bergman e pela presença arrebatadora de Liv Ullmann.
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“Eu era uma boneca com que você brincava quando tinha tempo.”
Sonata de Outono focaliza o reencontro entre Charlotte Andergast (Ingrid Bergman), uma célebre pianista, e suas duas filhas, Eva (Liv Ullmann) e Helena (Lena Nyman). Após anos de separação, Charlotte decide fazer uma visita a sua filha mais velha, Eva, e ao genro Viktor (Halvar Björk). Para a surpresa da pianista, ela encontra a filha mais nova sob os cuidados de Eva. Helena, deficiente física e mental, havia sido internada pela mãe em uma instituição de onde foi resgatada por Eva. O encontro entre Eva e Charlotte trará à tona diversas mágoas do passado. Eva, ferida pela negligência e pela indiferença maternal, confrontará sua mãe, alvo do seu mais puro amor e também do seu rancor, em um longo e doloroso desabafo.
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“Você se trancava e trabalhava e ninguém podia atrapalhar. Eu ficava do lado de fora ouvindo. Quando parava para tomar café, ia ver se você existia mesmo.”
Sonata de Outono se passa em um espaço reduzido. A ação se concentra na casa de Eva e, em grande parte, em um cômodo desta casa. Ingmar Bergman enfatiza assim o caráter extremamente íntimo dessa história. O cineasta, com o auxílio de belos e recorrentes closes, parece penetrar as almas dessas duas mulheres, que se vêem repentinamente reféns do passado e reféns de sentimentos reprimidos por muito tempo. Gradualmente, invadimos a intimidade de Eva e Charlotte e descobrimos os fantasmas dessas personagens extremamente humanas.
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“Seu cheiro era gostoso, mas estranho. Você era uma estranha já de partida. Você nem me via.”
À medida que o filme avança, Ingmar Bergman parece retirar as camadas que encobriam a essência da relação entre mãe e filha, até então, baseada em não-ditos. Gradualmente, o filme se torna urgente, como se as frustrações, as mágoas, os sentimentos das personagens estivessem por muito tempo guardados, esperando a ocasião certa para eclodirem. E essa explosão emocional se dá em uma conversa noturna entre mãe e filha, duas mulheres que nunca estiveram tão vulneráveis e tão expostas uma à outra. O embate é uma (con)fusão de sentimentos, misturados com recriminações, justificativas, verdades indesejadas. A conversa/desabafo das duas mulheres é alimentada por lembranças do passado e, através dos flashbacks, Ingmar Bergman reconstitui a história de uma relação disfuncional. Filmados geralmente em planos gerais, tais flashbacks ilustram a distância que era a base da relação entre Eva e Charlotte. 
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“Você trazia livros pra mim, livros que eu não entendia. Eu lia, lia e lia, para depois discutirmos. Você falava e me dava um branco. Eu tinha medo que você fosse escancarar minha burrice.”
Em um momento de catarse, Eva manifesta todo o seu desajuste perante à figura materna. A personagem é tomada pelos ressentimentos da infância e da adolescência e se insurge contra a mãe, em um ato de coragem que dificilmente se repetirá. Ela se rebela assim contra o seu grande ídolo, manifestando os sentimentos contraditórios que a atormentam: o desejo de ser amada e o rancor profundo que continua a lhe torturar. Vivida magistralmente por Liv Ullmann (parceira habitual de Ingmar Bergman), Eva é uma personagem ferida pela indiferença materna. Seu desabafo é um pedido de explicação, um pedido de socorro a uma mãe auto-centrada e ausente. Ullmann expõe com sensibilidade toda a fragilidade de sua personagem, que também se culpabiliza por não poder despertar o amor e a admiração da mãe.
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“Eu não percebia que a odiava, pois achava que nós nos amávamos. Eu não podia odiá-la e meu ódio se tornou um medo insano.”
Charlotte é uma mulher exuberante, bem-sucedida profissionalmente, mas que não apresenta uma verdadeira vocação maternal. A personagem é confrontada de uma maneira definitiva por sua filha e deve assim encarar seus fracassos como mãe e os efeitos que sua escolhas tiveram sobre a vida da filha. A fantástica Ingrid Bergman humaniza de uma maneira exemplar essa personagem complexa, racional e fria. Charlotte é uma mulher que se recusou a se reduzir ao papel de mãe e que colocou seus interesses pessoais, seu trabalho, na frente da maternidade. Ela se vê de repente obrigada a encarar o seu papel de mãe, um papel que ela procurou evitar por toda a vida. Charlotte é uma mulher do mundo que se preocupa sobretudo com as aparências das coisas. No entanto, ela também demonstra suas razões e suas motivações de uma maneira tal que julgá-la se torna difícil. Ao fim do filme, é possível imaginar que muito pouco irá mudar na relação entre ela e suas filhas.
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“Quando eu não disser mais nada por vergonha… você poderá se explicar e eu ouvirei e entenderei como eu sempre fiz.”
A elegância e o preciosismo da direção de Bergman são sentidos na maneira com a qual o diretor compõe cada quadro, na maneira com que ele opõe as figuras das duas protagonistas, na forma com que a câmera se fixa nos rostos das duas mulheres, no uso da música de Chopin, na utilização do contraste e das cores outonais e nas escolhas da iluminação que permitem a criação de um ambiente sombrio, íntimo e melancólico. Sonata de Outonocomunica a cada instante, através dos silêncios, dos olhares, da música, das composições, das performances inspiradas de suas protagonistas, o drama da relação mais intensa e complexa que possa existir: a relação mãe e filho.
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“Você conseguiu me ferir para o resto da vida, assim como você está ferida.”
Sonata de Outono é uma brilhante obra-prima, um rico estudo de personagens que se torna mais interessante e instigante à cada visualização. É um filme universal e atemporal, que continua relevante e desafiador, assim como os maravilhosos Gritos e Sussuros (1972),Persona (1966), O Sétimo Selo (1957), Morangos Silvestres (1957), outros clássicos de Ingmar Bergman. 
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“Eu não me atrevia a ser eu mesma, nem quando estava sozinha, porque eu detestava tudo que era meu.”
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“Você me escravizou porque queria o meu amor e você quer o amor de todo mundo.”

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Clássicos da Cinemateca - Casablanca (1942)


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Humphrey Bogart e Ingrid Bergman
Em 26 de novembro de 1942, Casablanca estreava em Nova York. O longa-metragem foi lançado em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que ainda estava longe de ter um fim. A première do filme foi antecipada devido a um fato histórico. Alguns dias antes, em 8 de novembro de 1842, as tropas aliadas (que se opunham à Alemanha de Hitler) invadiram a cidade marroquina de Casablanca que, até então, estava sob a regência da França de Vichy, de influência nazista. A publicidade vinda dessa invasão foi um dos fatores que contribuíram para a ótima bilheteria que o longa-metragem teve nos Estados Unidos.   
Devido à guerra, o filme demorou a ser exibido na Europa. Na Itália, ele estreou em 1946, na França, em 1947, na Áustria, em 1948, e na Alemanha Ocidental, apenas em 1952, em uma versão com cortes. Na Alemanha Oriental, Casablanca estreou diretamente na televisão, somente em 1983! Os brasileiros, por sua vez, puderam conferir o longa-metragem menos de um mês após sua estreia nos Estados Unidos, em 7 de dezembro de 1942. O filme foi produzido por Hal B. Wallis, importante nome do estúdio Warner Bros. As filmagens deCasablanca duraram menos de três meses (o início das filmagens já havia sido adiado em mais de um mês) e foram feitas quase inteiramente em estúdio. Casablanca foi quase todo filmado em sequência, ou seja, seguindo os acontecimentos da trama, o que é bastante raro. Isso se explica pelo fato de que apenas parte do roteiro estava pronto no início das filmagens.
Casablanca conta a história de Rick Blaine, um americano amargo e cínico que vive e trabalha em Casablanca, onde tem um badalado café. Rick’s Café é frequentado tanto por nazistas, funcionários franceses, quanto por refugiados e criminosos. Um belo dia, Ilsa Lund, o grande amor do passado de Rick, aparece em seu bar ao lado do marido, Victor Laszlo, herói da resistência tcheca. O reencontro dos ex-amantes reacende o amor entre eles. O filme foi indicado a oito Oscars e levou três estatuetas: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. 
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Mesmo tendo grande química nas telas e tendo interpretado um dos casais mais célebres do cinema, os atores não voltaram a trabalhar juntos.
Em 2006, o Sindicato de Roteiristas dos Estados Unidos elegeu o roteiro do filme como o melhor de todos os tempos. Ironicamente, o roteiro foi terminado a duras penas, somente durante as filmagens. Muitas vezes, mudanças eram realizadas no próprio set, pouco antes das cenas serem rodadas. Escrito por pelo menos quatro roteiristas (dos quais apenas Howard Koch e os gêmeos Julius e Philip Epstein foram creditados), o filme é a adaptação da peça Everybody Comes to Rick's, escrita por Murray Burnett e Joan Alison no final dos anos 30. É curioso acrescentar que a peça não havia sido produzida e que ela só estreou nos palcos numa montagem recente, em 1991, em Londres. A origem da trama de Casablanca é inclusive desconhecida por muitos. Em uma entrevista nos anos 70, Ingrid Bergman, estrela do filme, afirmou desconhecer que o filme tenha sido baseado numa peça. 
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Dooley Wilson era um dos poucos membros do elenco 
que de fato conheciam a cidade de Casablanca.
A recepção de Casablanca na época de seu lançamento foi extremamente positiva, com excelentes críticas que elogiavam, sobretudo, a maneira com a qual o filme combinava humor, melodrama, romance e História. Ainda que seja considerado um dos maiores filmes de todos os tempos e que esteja em praticamente todas as listas feitas nesse sentido, o longa tem alguns surpreendentes detratores. Pauline Kael afirmou que Casablanca não chega a ser um grande filme e que é o romantismo presente nele que o faz particularmente atraente. Jonathan Rosenbaum, outro crítico americano, disse que Casablanca é um filme feito às pressas e que é qualitativamente inferior a Uma Aventura na Martinica (1944), que seria umspin-off do clássico de 1942. O filme de 1944 foi dirigido por Howard Hawks e também foi estrelado por Humphrey Bogart.
Em um artigo de 1975, o grande semiólogo italiano Umberto Eco vai ainda mais longe e explica por que considera Casablanca um filme medíocre, esteticamente falando. Dentre os problemas apontados pelo estudioso, estão a fraca verossimilhança psicológica dos personagens e as reviravoltas que ocorrem sem razões plausíveis. Ele acrescenta que os defeitos do filme se devem à maneira com a qual o roteiro foi escrito, à medida que as filmagens avançavam, o que fez com que os roteiristas acumulassem todos os clichês de Hollywood.
O sucesso de Casablanca pode ser considerado como o resultado de uma combinação de golpes do destino ou acidentes de percurso. Além da questão do roteiro, alterado até o último minuto, algumas anedotas provam que o filme era destinado a ser um clássico. A canção "As Time Goes By", de Herman Hupfeld, escrita em 1931, era citada na peça Everybody Comes to Ricky’s. Max Steiner, o compositor da trilha sonora do filme, queria, no entanto, retirar a música e substituí-la por uma composição original. A substituição só não foi realizada por que Ingrid Bergman já havia cortado o cabelo bem curto para o filme Por Quem os Sinos Dobram?(1943), e não poderia, portanto, refazer as cenas. Para a nossa sorte, a canção não foi alterada e é considerada hoje uma das melhores músicas do cinema (segundo lugar em votação realizada pelo AFI).
"As Times Goes By" - clique para ouvir
Em um comunicado de imprensa durante a pré-produção do filme, a Warner Bros. havia anunciado que o ator Ronald Reagan (que se tornaria presidente americano quatro décadas depois) interpretaria Rick. Reagan, no entanto, teve que se apresentar ao exército para dar continuidade a seu serviço militar. Felizmente, o papel acabou ficando com Humphrey Bogart. A principio, Ingrid Bergman também não daria vida a Ilsa Lund e outras atrizes foram consideradas para o papel. Bergman tinha contrato exclusivo com o produtor David O. Selznick. Foi necessário enviar os irmãos Epstein para convencer o poderoso produtor a ceder Bergman para o projeto. Selznick se manteve inflexível, até que Julius desistiu e disse: “Quem se importa! (Casablanca) é uma porcaria como Algiers (filme de 1938) mesmo!” Foi quando Selznick concordou com o empréstimo da atriz.
Paul Heinred, que interpreta o marido de Ilsa, também foi emprestado por Selznick. O ator se viu obrigado a fazer o filme contra sua vontade. Dizem que Heinred temia interpretar um papel secundário, pois atrapalharia sua carreira de galã. Uma das falas mais famosas do filme também é resultado de um golpe do destino. "Here's looking at you, kid" teria sido improvisada por Bogart em uma das cenas do filme. Rumores, no entanto, dizem que ela foi inventada quando o ator assistia a Ingrid Bergman jogar poker com membros da equipe. Por fim, Michael Curtiz não era a primeira opção do produtor Hal B. Wallis para dirigir o filme. Wallis queria William Wyler, que teve que declinar pois estava envolvido em outros projetos.
É interessante constatar pelos depoimentos sobre o filme que a maioria dos envolvidos na produção de Casablanca não acreditava estar fazendo algo extraordinário e, sim, mais um filme dos mais de 100 lançados a cada ano em Hollywood na época. Surpreendendo a todos,Casablanca veio a se tornar um dos maiores sucessos comerciais de todos os tempos da Warner Bros.
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Claude Rains, Paul Heinred, Ingrid Bergman e Humphrey Bogart
Michael Curtiz, ou Manó Kertész Kaminer, nasceu na Hungria em 1886. O diretor fez cerca de 50 filmes na Europa até ser convidado por Jack Warner, em 1926, para trabalhar nos Estados Unidos, onde sua carreira se consolidou. Curtiz é um dos cineastas mais importantes e prolíficos da Era de Ouro de Hollywood. Sua filmografia é a síntese da natureza espetacular do cinema clássico. Nela, encontramos vários personagens típicos do folclore hollywoodiano: o pirata, o fora-da-lei, o boxeador, o gângster, o cowboy etc. Curtiz dirigiu do musical ao filme de terror, passando pelo melodrama, pelo filme de capa e espada, pelo filme noir, pelo bíblico, entre outros. Curtiz tem no currículo nada menos que 170 créditos como diretor! O cineasta trabalhou para a Warner até o início dos anos 50. Ele era considerado o “faz-tudo” dos produtores Jack Warner e Hal Wallis, mas sua extrema produtividade não diminuía a qualidade de suas obras. Curtiz é um dos grandes responsáveis pela criação do estilo Warner, ou seja, por ter dado ao estúdio uma identidade própria.
Casablanca é visto como um dos maiores filmes do diretor, mas ele dirigiu outros clássicos inesquecíveis como: As aventuras de Robin Hood (1938­), Alma em suplício (1945), O Gavião do Mar (1940), A Canção da Vitória (1942) e Natal branco (1954). Além de ser conhecido pela sua dificuldade com a língua inglesa, o que gerava diversas confusões nos sets de filmagem, Curtiz era famoso por sua personalidade forte, sua rigidez, seu espírito incansável e seu perfeccionismo. O diretor costumava ter uma relação bem difícil com os seus atores. Diz-se que, certa vez, ele ofendeu Bette Davis e ela se recusou a trabalhar com ele novamente. 
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Michael Curtiz
Curtiz não era o único estrangeiro nas filmagens de Casablanca. Podemos até mesmo dizer que os sets de filmagem eram uma verdadeira Torre de Babel. Para se ter uma ideia, dos atores creditados no filme apenas três eram nascidos nos Estados Unidos: Humphrey Bogart, Dooley Wilson e Joy Page. Ingrid Bergman era sueca, Paul Henreid era austríaco, Claude Rains era inglês, Madeleine LeBeau era francesa e Conrad Veidt era alemão. Este último, que interpreta o Major Strasser no filme, interpretou diversos vilões nazistas durante sua carreira em Hollywood. Na vida real, o ator era um ferrenho opositor do regime nazista, tendo sido obrigado a fugir da Alemanha em 1933, pois seu assassinato já havia sido encomendado. Aliás, muitos dos atores que interpretaram nazistas no filme eram de fato judeus alemães que haviam se exilado nos Estados Unidos. Na cena onde é cantada "La Marseillaise", houve uma real comoção nos sets, já que muitos dos figurantes também tinham escapado da perseguição política e não conseguiram deixar de se emocionar. 
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A estreia de Casablanca foi antecipada para aproveitar 
a publicidade da invasão dos aliados no norte da África.
Humphrey Bogart costumava dizer que Casablanca era a melhor obra de sua filmografia. Sem dúvida, o clássico de 1942 representou uma reviravolta em sua carreira. Até então, o ator era identificado a papéis de detetive ou de gângster. A partir de Casablanca, Bogart se transformou no arquétipo do herói romântico, aparentemente cínico e frio, mas que, no fundo, possui um bom coração. A maravilhosa Ingrid Bergman, por sua vez, que já havia chamado a atenção em Intermezzo (1936), faz de Ilsa uma de suas mais marcantes personagens. É interessante lembrar que até a filmagem da última cena, não se sabia ao certo com quem Ilsa terminaria: se com Rick ou com Victor Laszlo. A decisão sobre o final do filme foi uma das mais complicadas que os roteiristas tiveram que tomar. No início das filmagens, Bergman perguntou a Curtiz por quem sua personagem era apaixonada e ele respondeu para ela interpretar “entre os dois”, ou seja, para conferir certa ambiguidade aos sentimentos de Ilsa, justificando qualquer que fosse a decisão tomada para o final do filme.
Casablanca completa 70 anos em 2012. O filme, que é considerado por muitos o mais romântico da história do cinema, é também um dos mais amados de todos os tempos. Algumas obras parecem ser destinadas ao sucesso. Diversos fatores contribuíram para a fabricação desta obra-prima: desde a criação tumultuada do roteiro, até a escalação do ótimo elenco, passando pela grande direção de Michael Curtiz. Por muito pouco, Casablanca poderia ser um filme completamente diferente. Para nossa sorte, ao final, todos estavam no lugar certo, na hora certa. Até mesmo o espectador dos anos 2000 terá dificuldade em não se encantar pelo olhar apaixonado de Ingrid Bergman, ou admirar o humor ácido de Humphrey Bogart ou mesmo se emocionar ao ver a cena de "La Marseillaise". Casablanca é e continuará sendo uma das melhores histórias de amor e sacrifício já contadas no cinema. 
Algumas frases famosas de Casablanca:
- "Tantos bares, em tantas cidades em todo o mundo, e ela tinha que entrar logo no meu."
- "Beije-me. Beije-me como se essa fosse a última vez."
- "Nós sempre teremos Paris."
- "Este é o começo de uma bela amizade."
- “Isso foi o barulho de um canhão ou o meu coração que deu um salto?"
- “Prendam os suspeitos de sempre!”
TEXTO DE MINHA AUTORIA, PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 11/04/2012 NA COLUNA CINEMATECA, DO SITE CINEMA EM CENA.