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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Clássicos da Cinemateca - A Filha de Ryan

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A Filha de Ryan foi mal recebido pela crítica, mas foi um sucesso de bilheteria, tendo arrecadado cerca de 31 milhões de dólares.

Um fracasso monumental. Este foi o consenso após o lançamento de A Filha de Ryan, em 1970. Chuvas de críticas tombaram sobre David Lean, em seu projeto mais pessoal, mais querido. Pauline Kael, uma das críticas mais renomadas dos Estados Unidos, liderou os ataques ao diretor britânico. Um filme grandioso demais, épico demais, para um tema tão corriqueiro: um simples adultério. Os mesmos críticos que rechaçaram o filme de Lean, louvaram no mesmo ano, Love Story, melodrama açucarado que se tornou refêrencia de bom filme na década de 70. No comments, dirá ironicamente o compositor Maurice Jarre, em uma entrevista, a respeito desse fenômeno inusitado.
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Marlon Brando chegou a aceitar o papel do Major Doryan, mas foi obrigado a abandonar o projeto devido às filmagens de outra produção. Peter O’Toole e Richard Harris foram considerados, mas o papel ficou com Christopher Jones, pouco conhecido na época. David Lean se arrependeu da escolha.
Desnorteado e decepcionado com tantas críticas, David Lean ficou 14 anos sem dirigir outro filme para o cinema. O diretor, que emplacou imensos sucessos consecutivos desdeDesencanto (1945), aparentemente não estava mais na moda. O cinema ficou pequeno de repente. O sensacional, o épico, o grandioso passaram a ser características pouco apreciadas. David Lean never gets leaner, mocavam os críticos. A Filha de Ryan é, ainda hoje, um filme pouco conhecido de David Lean, mas seu status evoluiu com o tempo. Poucos críticos ousariam dizer, hoje em dia, que se trata de uma obra menor do diretor. Ao contrário, alguns especialistas apontam que este é o filme em que os elementos da filmografia de Lean encontram seu ápice técnico e formal. Incompreendido na época de seu lançamento, o filme é visto hoje como uma obra-prima (fenômeno bastante recorrente na história do cinema). 
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A Filha de Ryan foi o penúltimo filme de David Lean. Seu filme seguinte foi Uma Passagem para a Índia (1984).
Não é segredo que o adultério é um dos temas preferidos de David Lean, basta pensarmos em Dr. Jivago (1965), Desencanto (1945), A História de uma mulher (1949) e, claro, A Filha de Ryan. Não é difícil encontrar um paralelo entre esse tema recorrente da filmografia do cineasta e sua vida pessoal, afinal ele foi um homem de muitas mulheres e de muitos affairs. Robert Bolt, o roteirista do filme (e parceiro habitual de Lean desde Lawrence da Arábia), se inspirou numa das histórias de adultério mais famosas da literatura, o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. No entanto, existe uma diferença essencial entre as duas obras. Sob Emma Bovary pesava a ironia mordaz de Flaubert. Lean, por sua vez, se identifica com Rose Ryan e não faz dela um personagem ridículo. Ela é verdadeiramente uma heroína romântica. O cinema de Lean não é um cinema da derrisão, da ironia, da paródia.
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A Filha de Ryan foi indicado aos Oscars de Melhor Atriz (Sarah Miles) e Melhor Som (Gordon McCallum, John Bramall) e ganhou os de Melhor Fotografia (Freddie Young) e Melhor Ator Coadjuvante (John Mills).
Um paradoxo alimenta o cinema de Lean: apesar de extremamente romântico, o cineasta tinha dificuldade em representar as emoções em seus filmes. Assim, suas principais obras combinam romantismo e certa frieza no tratamento do pathos. Este é definitivamente um dos grandes charmes de sua filmografia. O gênero épico vai de encontro ao temperamento romântico do cineasta. Assim, A Filha de Ryan, uma aventura sentimental de uma mulher adúltera, ganha contornos grandiosos. O filme se passa num pequeno vilarejo irlandês. Rose Ryan (Sarah Miles), filha de um dono de bar, assídua leitora de romances (como Madame Bovary), é apaixonada pelo professor Charles Shaughnessy (Robert Mitchum), um homem mais velho e viúvo. Eles se casam, mas a vida de casada não corresponde ao imaginário romântico da personagem. Frustrada, a moça vive uma vida sem emoções até a chegada de um major inglês, Randolph Doryan (Christopher Jones), traumatizado de guerra. Os dois personagens se apaixonam perdidamente e iniciam um tórrido caso de amor.
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A atriz Sarah Miles era casada com o roteirista Robert Bolt. Eles se divorciaram em 1975.
O cenário espetacular de A Filha de Ryan contribui ao caráter épico do filme. Lean explora a beleza e a diversidade das paisagens irlandesas, as belas falésias, as praias, os rochedos e os campos. O cineasta demonstra um fascínio pelo sublime da natureza. O nascer do sol dos créditos iniciais confere uma dimensão cósmica à narrativa. Na sequência de abertura, a silhueta esguia de Rose Ryan aparece em meio à imensidão de uma paisagem de tirar o fôlego. A beleza da composição e das cores nos faz pensar em quadros de Monet, como Mulher com guarda-chuva e Passeio sobre o monte em Pourville. A sequência de abertura mostra a magnificência da paisagem em oposição ao indívido, pequeno e frágil. A comunhão com a natureza é também explorada em uma das cenas mais belas do filme (e da carreira de Lean), aquela em que Rose e o soldado fazem amor em um bosque. Nesta cena, os elementos da natureza são cúmplices dos amantes. A natureza é dotada de vida própria e ela parece se animar. A associação do ato sexual e a natureza não é somente de ordem metafórica, mas também mágica. A cena corresponde ao momento em que David Lean explora de maneira mais radical na sua filmografia a relação entre a sensualidade e a paisagem. 
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Robert Bolt escreveu o papel do padre Collins para Alec Guinness, que recusou o convite. O papel ficou com Trevor Howard. O ator trabalhou em três filmes de Lean. Ele protagonizou a obra-prima Desencanto.
A Filha de Ryan contém outros momentos antológicos. Na cena do primeiro encontro de Rose e o soldado, a atração sexual faz com que os personagens se sintam desconectados do resto do mundo, algo que é acentuado pela iluminação. Outro belíssimo momento do filme é aquele em que o marido compreende que Rose o trai através de pegadas na areia. A sequência do resgate de armas pelos habitantes do vilarejo em meio à tempestade é extremamente realista e brilhantemente dirigida por Lean. Por fim, a cena em que a população se revolta contra Rose é definitivamente uma das mais fortes e violentas do filme.
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Alguns críticos atacaram a duração do filme (206 minutos) e o seu ritmo lento. 
A incrível fotografia de Freddie Young contribui para que o filme seja visualmente arrebatador. E o que dizer da bela trilha sonora de Maurice Jarre? O compositor francês afirmou certa vez ser este o seu trabalho favorito. Além de ser tecnicamente brilhante, o filme conta com um grande elenco. Sarah Miles, indicada ao Oscar por sua performance, confere complexidade a sua personagem, uma heroína romântica confrontada ao mundo real. O grande Robert Mitchum oferece uma atuação delicada e sensível como o marido traído. Os veteranos Trevor Howard e Leo McKern brilham em cada cena e John Mills, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, dá um verdadeiro show como Michael, o “bobo” do vilarejo. 
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O ator Christopher Jones foi dublado no filme por Julian Hollaway. David Lean não achou que a voz do ator fosse adequada para o personagem.
Em A Filha de Ryan, David Lean dá dimensões épicas a uma história de amor. Trata-se de um dos filmes mais bonitos do cineasta britânico e o menos conhecido da segunda fase da carreira do diretor. Esta obra-prima merece ser vista e revista!

quarta-feira, 6 de março de 2013

Clássicos da Cinemateca: O mestre Lean e o Dr. Jivago


“Can you play the balalaika?” 
DivulgaçãoDr. Jivago é o 14º filme de David Lean. O cineasta britânico dirigiu 16 longas-metragens. Ele foi premiado com o Oscar de Melhor Diretor em duas ocasiões, por Lawrence da Arábia (1962) e por A Ponte do Rio Kwai (1957). 
Quarenta e dois anos separam o primeiro filme de David Lean, Nosso Barco, Nossa Alma(1942), do seu último projeto, Passagem para a Índia (1984). Sua carreira no cinema começou, no entanto, muito antes de seu primeiro filme, no final dos anos 20. Durante toda a década seguinte, ele trabalhou como montador. É dele, por exemplo, a montagem do filmePigmaleão (1938), clássico do cinema britânico. Lean nos legou uma filmografia impressionante. Ela contém grandes clássicos como Oliver Twist (1948), Grandes Esperanças(1946), Quando o Coração Floresce (1955) e obras-primas como Desencanto (1945), Lawrence da Arábia (1962), A Ponte do Rio Kwai (1957) e A Filha de Ryan (1970). Dr. Jivago foi o maior sucesso comercial da carreira do diretor, um dos filmes de maior bilheteria da história do cinema americano e um dos produtos mais rentáveis do estúdio MGM. Ainda que tenha recedido críticas mistas na época de seu lançamento, o clássico de 1965 tem hoje um lugar de destaque na filmografia de Lean, sendo um dos filmes mais populares do diretor. 
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Dr. Jivago
 ganhou cinco Oscars em 1966. Na mesma cerimônia, Julie Christie ganhou o Oscar de Melhor Atriz, mas por outro filme: Darling, a que Amou Demais. Em Dr. Jivago, ela interpreta Lara.
David Lean é constantemente apontado como o maior cineasta britânico de todos os tempos (ao lado de Alfred Hitchcock), tendo sido aclamado por diretores como Steven Spielberg e Stanley Kubrick. Ele ocupa a nona posição na lista de melhores diretores da história do cinema da revista Sight & Sound. publicada em 2002. Apesar de ser muitas vezes associado a grandes produções e filmes épicos, David Lean tem uma filmografia bastante diversificada e foi por muito tempo visto como um diretor intimista. Esse aspecto de sua filmografia pode ser conferido no belíssimo Desencanto. Especialistas costumam dividir sua obra em dois períodos: a fase britânica, de 1942 a 1955; e, a partir de 1957, a fase dos filmes-espetáculos, em colaboração com Hollywood. David Lean é um cineasta sentimental e romântico. Seu cinema é caracterizado por um imenso lirismo e, ao mesmo tempo, uma certa frieza, um antissentimentalismo. Essa combinação de características é um dos charmes e encantos dos filmes do cineasta.
DivulgaçãoDavid Lean dirigiu 11 atores indicados ao Oscar, dentre eles Omar Sharif (direita) e Alec Guinness (esquerda), que ganhou por A Ponte do Rio Kwai (1957). Guinness era o ator favorito de Lean. Os dois trabalharam juntos em seis filmes.
A partir de Quando o Coração Floresce, protagonizado por Katharine Hepburn, o cinema de Lean começa a mudar. Esse clássico marca o início de uma nova fase da filmografia do diretor. Foi a primeira vez que Lean filmou fora do Reino Unido, em Veneza. O cinema de Lean se torna um cinema do exterior, do exótico, das grandes paisagens. A Ponte do rio Kwai é o primeiro de uma série de filmes monumentais que dariam ao diretor a reputação de mestre do cinema épico. A partir de então, a duração dos filmes do cineasta ficou cada vez maior. Para se ter uma ideia, Desencanto (1938) tem 1h26 de duração e Lawrence de Arábia (1965), 3h36. A Filha de Ryan foi um de seus projetos mais ambiciosos e um dos mais queridos ao diretor. Após o fracasso do filme e uma série de críticas negativas, Lean ficou 14 anos sem dirigir outro longa-metragem. Em 1984, ele lançou o seu último filme, o bem sucedido Passagem para Índia.
DivulgaçãoCom a ajuda da maquiagem, Omar Sharif, que é egípcio, interpreta o personagem-título, que é russo. O filho do ator, Tarek Sharif, interpreta o personagem quando criança. Tarek fez apenas mais um filme depois de Dr. Jivago.
David Lean adaptou diversos romances para o cinema, dois de Charles Dickens: Grandes Esperanças e Oliver Twist. Dr. Jivago é a adaptação do romance homônimo de Boris Pasternak, um grande best-seller que deu ao escritor russo o prêmio Nobel de literatura em 1958. A obra de Pasternak tem como pano de fundo os acontecimentos políticos que marcaram a primeira metade do século 20 na Rússia, dentre eles, a Revolução de 1917. Muitos críticos condenaram a opção feita por Lean de dar mais importância à história de amor de Yuri Jivago e Lara que aos fatos históricos. Tal escolha é compreensível, se considerarmos que o filme foi lançado em plena Guerra Fria.
DivulgaçãoGeraldine Chaplin, filha de Charlie Chaplin, interpreta Tonya. Dr. Jivago foi o primeiro filme em língua inglesa da atriz. Dizem que David Lean queria Audrey Hepburn no papel, mas que ele mudou de ideia depois de ver a audição de Geraldine.
Dr. Jivago acompanha os encontros e desencontros de Lara e o médico/poeta Yuri Jivago e a tumultuada história de amor desses dois personagens. Na época de seu lançamento, muitos torceram o nariz para o caráter romântico e sentimental. Essa característica, aliada às mais de três horas de duração do filme, parecem repelir alguns espectadores ainda hoje. Motivo de repulsa para uns, motivo de idolatria para outros. A triste história de amor de Lara e Yuri é contada com um refinamento estético único, que faz do filme um belo espetáculo.
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A famosa trilha sonora de Dr. Jivago é de autoria de Maurice Jarre, que havia trabalhado com Lean pela primeira vez em Lawrence da Arábia (1962). O compositor francês ganhou o Oscar pelos dois trabalhos e ganharia um terceiro por outro filme de Lean, Passagem para a Índia(1984).
A maestria da direção de Lean é comprovada já no início do filme, na belíssima cena do funeral da mãe do pequeno Yuri, uma experiência estranha e misteriosa para o menino. Nesse momento, vemos o nascimento do poeta, a atenção difusa da criança para os pequenos acontecimentos ao seu redor. A partir da utilização de planos subjetivos, de uma brilhante montagem e da música, Lean nos apresenta esse despertar do olhar do poeta. Esse é apenas um dos grandes momentos de Dr. Jivago. Ao longo do filme, o espectador atento e curioso pode se deliciar com o refinamento formal da obra, com as metáforas visuais, com os símbolos etc. 
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O roteiro de Dr. Jivago foi escrito por Robert Bolt, outro parceiro habitual de David Lean. Bolt ganhou o Oscar de Melhor Roteiro por Dr. Jivago. A parceria de Lean, Bolt e Jarre é uma das mais bem sucedidas do cinema.
Uma das qualidades do filme é o seu ótimo elenco. Lean reuniu grandes atores britânicos, já veteranos, como Alec Guinness e Ralph Richardson, e atores que representavam a nouvelle vague do cinema britânico como Rita Tushingham, Julie Christie e Tom Courtenay. O resultado não poderia ser melhor. Destaque deve ser dado à beleza e ao talento de Julie Christie, à sensibilidade de Omar Sharif, à força de Rod Steiger, à versatilidade de Guinness e ao carisma de Geraldine Chaplin. Extremamente perfeccionista, David Lean gostava de tirar o melhor dos seus atores. Dizem que para fazer a cena em que Yuri Jivago presenciava o massacre de inúmeros civis, Lean pediu a Omar Sharif que a interpretasse como se ele estivesse tendo um orgasmo, para que o seu olhar tivesse a intensidade que o diretor queria. Lean era o diretor do olhar.
Além do ótimo elenco, da direção primorosa, Dr. Jivago conta com uma belíssima fotografia e com uma trilha sonora inesquecível, que se tornou um imenso sucesso. O tema de Lara é um dos grandes ícones musicais do cinema. Dr. Jivago pode dividir opiniões, mas é sem dúvida um espetáculo e a prova viva do talento do seu diretor.
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Ouça um trecho da trilha do filme - clique aqui