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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

50% - 2011

Título original: 50/50
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Jonathan Levine
Atores: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Bryce Dallas Howard.
Duração: 100 min
Gênero: Comédia dramática

"Você vai ficar bem. As pessoas se curam. Famosos se curam. Lance Armstrong pega câncer o tempo todo. E ele está bem."

Ótima cena de 50%
O que os filmes a seguir tem em comum? Laços de Ternura (1983), Love Story (1970), Um amor para recordar (2002), O tempo que resta (2005), Lado a Lado (1998), Le bruit des glaçons (2010), Minha vida sem mim (2003), Uma lição de vida (2001), Uma prova de amor (2009), Minha Vida (1993), As Invasões bárbaras (2003). Você não deve ter demorado a responder: todos eles falam sobre câncer. A famigerada doença e a turbulência que ela provoca na vida de sua vítima já foram retratadas de diversas maneiras no cinema: do melodrama açucarado (Laços de Ternura, Love Story, etc) à comédia de humor negro (Le bruit des glaçons). Na televisão americana, dois ótimos seriados também abordam o tema: a série de ação Breaking Bad (2008-2011) e a comédia dramática The Big C (2010-2011). 

Sem dúvida, há algo de criativamente instigador no câncer. Talvez tantos filmes sejam feitos sobre ele (muitas vezes, mal ousamos pronunciar seu nome) para podermos lidar melhor com uma doença que pode surpreender qualquer pessoa a qualquer instante. O câncer nos faz enfrentar a morte (tanto a nossa quanto a de uma pessoa querida) de uma maneira impiedosa, contra nossa vontade. Mesmo diante dos piores filmes sobre o tema, somos, muitas vezes, tocados por todo sofrimento e exigência de readaptação que a doença traz consigo. Muitos romances e dramas são feitos sobre o assunto. Mas, afinal, como realizar uma comédia sobre o perigo e o medo da morte? As Invasões Bárbaras, Ruído do gelo e a série The Big C mostram diferentes possibilidades. A essa lista podemos acrescentar o novíssimo 50% (2011). 

Em 50%, Adam (Joseph Gordon-Levitt) é um jovem rapaz de 27 anos que leva uma vida saudável e regrada, ao lado de sua namorada Rachael (Bryce Dallas Howard).  O rapaz trabalha numa rádio em Seattle ao lado de seu melhor amigo Kyle (Seth Rogen). Após sentir dores na região lombar, ele procura um médico e é diagnosticado com um tumor maligno na coluna. Após uma pesquisa na internet, ele descobre que tem 50% de chance de sobreviver à doença. O filme é baseado na própria experiência de Will Reiser, roteirista do longa-metragem, e Seth Rogen. Reiser é um sobrevivente de um câncer e contou com o apoio do amigo Rogen durante todo o processo do tratamento. 

O primeiro acerto de 50% é o de tentar fugir dos extremos, não investindo nem no melodrama, nem numa abordagem fria. O roteiro do filme, mesmo que previsível e formulaico, em alguns momentos, exibe uma visão que revela a sinceridade tocante de alguém que já vivenciou o drama da doença. Sendo assim, o longa não minimiza o sofrimento de se estar com câncer, mas também não faz dele uma tragédia. Acompanhamos, ao longo do filme, a evolução da maneira com a qual o protagonista lida com sua nova realidade, as etapas da sua aceitação. O roteiro de Reiser opta por mostrar de forma realista como Adam digere a notícia, não optando pelo batido "vou virar minha vida de cabeça para baixo". 

Outra qualidade do filme é saber diluir a comédia no drama, nos presenteando com momentos emocionantes (como o do colapso nervoso de Adam) e algumas tiradas engraçadíssimas. Mesmo que o trabalho do jovem diretor Jonathan Levine não seja notável (o filme parece, por vezes, carecer de ritmo), ele demonstra sensibilidade ao retratar o universo ligeiramente melancólico de Adam.

Opondo-se à complexidade do protagonista, temos personagens que se revelam extremamente unidimensionais como Rachael (Bryce Dallas Howard) e Diane (Anjelica Huston) A primeira é a namorada egocêntrica e egoísta (e Bryce Dallas Howard vem se especializando em fazer bitches, vide sua personagem em Vidas Cruzadas) e a segunda é o estereótipo da mãe possessiva e eternamente descontente. Além disso, o mal de Alzheimer de Richard (Serge Houde), pai de Adam, não convence em nenhum momento, culpa não só do ator, mas também do roteiro que não sabe o que fazer com o personagem, acrescentando-o talvez para justificar o comportamento estressado de Diane ou adicionar drama à vida familiar do protagonista. Ao final, o roteiro se lembra de criar um laço afetivo entre Richard e o filho, pouco verossímil, já que o coitado do pai fora ignorado até então. 

Enquanto Seth Rogen parece interpretar muito bem ele mesmo (não pelo fato de o personagem ser inspirado no ator, mas porque suas atuações são todas iguais), Joseph Gordon-Levitt interpreta um homem comum, cujo charme é ser um homem comum. A performance de Levitt é fundamental para que compremos toda a ideia do filme e ele faz um belíssimo trabalho, conseguindo transmitir ao espectador a frustração, tristeza e desespero de seu personagem. Por fim, a jovem atriz Anna Kendrick, indicada ao Oscar recentemente por Amor Sem Escalas (2009), empresta seu carisma a Katherine, psicóloga de Adam. Katherine é, com certeza, uma das piores terapeutas que o cinema já viu. Por mais que seja pouco verossímil que uma profissional, mesmo que iniciante, seja tão incompetente, a relação da personagem e de Adam é conduzida de maneira delicada pelo filme, fazendo-nos acreditar num possível romance. 

50% não é um grande filme e está longe de ser o melhor longa-metragem sobre o câncer. No entanto, esta boa comédia dramática conseguirá emocionar e arrancar algumas boas risadas de muita gente. Ao final, o filme se revela um retrato sensível da luta pela vida. 




segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Histórias Cruzadas (2011)

Título original: The Help
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Tate Taylor
Atores: Emma Stone, Viola Davis, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer.
Duração: 137 min
Gênero: Drama

Octavia Spencer e Viola Davis: destaques de Vidas Cruzadas

Histórias Cruzadas foi produzido com um orçamento de "apenas" 25 milhões de dólares. Desde o seu lançamento nos cinema americanos, no dia 14 de agosto, até hoje, o filme arrecadou mais de 173 milhões de dólares. Líder de bilheteria por várias semanas consecutivas nos Estados Unidos, o segundo longa-metragem de Tate Taylor já pode ser considerado como um dos maiores sucessos hollywoodianos do ano. A popularidade do filme vem fazendo com que ele seja apontado por muitos como um dos favoritos ao próximo Oscar.

O filme é escrito e dirigido por um ilustre desconhecido. Tate Taylor é um jovem galã, que coleciona vários trabalhos como ator, sendo o último deles no excelente Inverno da Alma (2010). Taylor já trabalhou como produtor, roteirista e, antes de Vidas Cruzadas, havia dirigido apenas um longa-metragem, a comédia pouco conhecida Pretty Ugly People (2008). Esta havia feito pouco mais de 6 mil dólares de bilheteria nos Estados Unidos. (Que evolução, Sr. Taylor!)

Histórias Cruzadas é a adaptação de um best-seller de Kathryn Stockett, chamado The Help. O romance é o livro de estreia da escritora e chegou a ser recusado por 60 editores antes de finalmente ser publicado em 2009. O nome do filme em inglês, o mesmo do romance, foi pessimamente traduzido para o português por um título que mais parece nome de novela. Ironicamente, o longa acaba fazendo jus ao título brasileiro. O filme conta a história de uma aspirante a escritora e jornalista, Eugenia "Skeeter" Phelan (Emma Stone), que, em meados dos anos 60, decide colher e publicar diversos depoimentos de empregadas negras da sua cidade natal, Jackson, capital do Mississipi. Ambientado no sudeste dos Estados Unidos, região onde a discriminação racial era uma realidade ainda mais evidente, o filme retrata o período em que a luta pelos direitos civis (cujo grande ícone é Martin Luther King) começou a ganhar força.

Consciente do forte potencial dramático e do apelo emocional da história, Taylor não se contém e usa e abusa de clichês e do melodrama para tentar fazer o espectador chorar. O que  definitivamente é desnecessário! A trajetória das mulheres negras que continuam sendo tratadas como escravas por suas hipócritas senhoras brancas, é, por si só, tocante. O tratamento que Taylor dá à história acaba esbarrando aqui e ali na pieguice e derrapa de vez na parte final do filme. Seu roteiro é falho também por não construir uma história coesa. A princípio, o espectador é induzido a crer que Aibileen (Viola Davis) é a personagem central do filme, mas logo vemos uma acumulação de tramas e personagens com as quais o roteiro não sabe lidar. 

O mau agenciamento das diferentes tramas e subtramas do filme acaba fazendo com que ele soe mais longo do que o necessário, com suas 2h20. Taylor demonstra também inexperiência no uso do flashback (que ele parece adotar sem muito critério), o que torna a estrutura do filme um pouco irregular. O diretor aparentemente se divide entre criar uma narrativa episódica ou uma trama linear e acaba não fazendo nenhuma coisa, nem outra. Além disso, a inclusão de um interesse amoroso para Skeeter (Emma Stone) revela-se completamente supérflua. O romance não convence e não precisaria constar no filme, mesmo que constasse na obra original.

Dito isso, é difícil não se deixar envolver pelo filme ou não se emocionar, pelo menos uma vez, durante a projeção de Histórias Cruzadas. Mesmo com claros problemas em sua narrativa, o filme torna-se adorável pela qualidade excepcional de seu elenco. Se Tate Taylor demonstra inexperiência em certos aspectos, ele se revela um ótimo diretor de atores. O filme é dominado por grandes atuações femininas. Viola Davis, que já havia arrasado com a penas uma cena em Dúvida, comprova seu imenso talento ao fazer de Aibileen uma personagem que carrega a dor no olhar e que parece chorar mesmo quando não está. Algumas cenas da atriz, como a sequência final, seriam suficientes para uma indicação ao Oscar. Octávia Spencer dá um show em cada cena que aparece, assumindo o papel mais cômico do longa. A jovem Emma Stone esbanja carisma e Bryce Dallas Howard está irreconhecível como a vilã do filme, em uma atuação impressionante. Jessica Chastain que já havia feito um ótimo trabalho em A árvore da vida (2011) prova sua versatilidade e é, sem dúvida, uma das maiores revelações de 2011. Já a veterana Allison Janney, vem se especializando em papéis de mãe e brilha em suas cenas. O filme ainda se dá ao luxo de usar a participação especial da maravilhosa Sissy Spacek.

Histórias Cruzadas
é uma comédia (melo)dramática que não deixa de ser adorável, mesmo com seus tropeços. Isso se deve aos personagens humanos e encantadores que povoam sua narrativa. Destacando-se ainda pela caprichada direção de arte e figurino, o filme é uma coleção de grandes performances, embalada por uma história emocionante.