quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Clássicos da Cinemateca - Ernst Lubitsch e "Ser ou não Ser" (1942)


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É dificil falar de comédia no cinema norte-americano sem mencionar Ernst Lubitsch. O cineasta alemão emigrou em 1922 para os Estados Unidos, onde se firmou como um dos primeiros grandes mestres da comédia em Hollywood. Dono de um estilo único, Lubitsch se notabilizou por abordar assuntos sérios e ancorados na realidade de sua época de uma maneira bem-humorada e sofisticada. A elegância, o olhar crítico, a sagacidade e a malícia refinada do diretor são marcas desse estilo que ficou conhecido pela expressão “the Lubitsch Touch” (o Toque Lubitsch).
Grandes nomes do cinema norte-americano, como Billy Wilder, Howard Hawks e William Wyler, reverenciaram o talento de Lubitsch e destacaram o legado que ele deixou para o cinema. Lubitsch era, por sinal, um dos diretores favoritos de Billy Wilder. Reza a lenda que após a morte do ídolo, Wilder pregou uma placa na porta de seu escritório com a pergunta:“How would Lubitsch do it?” (Como Lubitsch faria isso?).
Assista ao vídeo em que Billy Wilder fala do Toque Lubitsch.
A fase alemã de Lubitsch conta com vários sucessos, entre dramas e comédias. Alguns dos primeiros filmes do diretor alcançaram fama internacional, como Carmen (1918), Madame du Barry (1919), A Princesa das Ostras (1919) e Amores de Faraó (1922). No final dos anos 1910, o nome do cineasta ficou conhecido na Europa e posteriormente nos Estados Unidos. A atriz Mary Pickford foi a responsável por levar Lubitsch para Hollywood, onde ele veio a dirigir os seus filmes mais famosos, dentre os quais se destacam: Ladrão de Alcova (1932), Ninotchka(1939), A Loja da Esquina (1940), Ser ou Não Ser (1942) e O Diabo Disse Não (1943).
O diretor trabalhou com algumas das maiores estrelas da Era de Ouro de Hollywood. Além de Mary Pickford, Lubitsch dirigiu James Stweart, Miriam Hopkins, Melvyn Douglas, Gary Cooper, Claudette Colbert, Gene Tierney, Maurice Chevalier, Carole Lombard e Greta Garbo. A única parceria de Lubitsch e Garbo é antológica. Em Ninotcka (clássico co-escrito por Wilder) o diretor alemão dirigiu Garbo em um raro momento cômico da estrela no cinema. A bela atriz era conhecida por seus papéis dramáticos e por sua personalidade reservada e misteriosa. O estúdio MGM promoveu o filme com a frase “Garbo ri!”
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Pôster do filme Ser ou Não Ser.
Ser ou Não Ser (1942) é tido como uma das maiores obras-primas de Lubitsch. A história se passa em plena Segunda Guerra Mundial, na Polônia, durante a ocupação nazista. O filme focaliza uma trupe de atores, liderados por Joseph Tura (Jack Benny) e sua esposa Maria (Carole Lombard), que se infiltram na Gestapo para salvar membros da resistência polonesa. O brilhante roteiro foi escrito por Edwin Justus Mayer, com o auxílio de Lubitsch, a partir da história original de Melchior Lengyel.
Ser ou Não Ser é, ao lado de O Grande Ditador (1940), um dos filmes mais contudentes contra o nazismo a serem lançados durante a Segunda Guerra Mundial. Essa sátira mordaz e inteligente é uma forma de Lubitsch (judeu alemão) sensibilizar os americanos sobre os horrores da guerra através do riso, provando que a comédia tem o poder de atingir as pessoas e de comunicar os problemas do mundo. A beleza do filme, no entanto, não se reduz a uma mensagem política. A obra-prima de Lubitsch é a combinação magistral de diversos elementos, sendo ao mesmo tempo uma divertida guerra de sexos, em que são mostrados os dilemas de um casal em crise, um tratado sobre os bastidores do teatro (daí a referência do título à famosa frase shakespeareana) e uma declaração antibélica. Talvez a lição mais bela do filme seja a de que a ficção e a arte podem salvar o mundo. E é como uma alegoria do poder da arte que o filme se revela universal e atemporal.
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Carole Lombard e Jack Benny em cena do filme.
Jack Benny tem a melhor performance de sua carreira na pele do vaidoso ator Joseph Tura e a bela Carole Lombard está magnífica como Maria Tura. Lombard, que era casada com o galã Clark Gable na época, chegou a afirmar que trabalhar em Ser ou Não Ser foi uma das experiências mais felizes da sua vida profissional. Infelizmente, a atriz veio a falecer em um acidente de avião antes mesmo do lançamento do filme. Ela tinha apenas 33 anos e voltava de uma viagem que tinha como objetivo a arrecadação de fundos para o auxílio às tropas norte-americanas. O ótimo elenco do Ser ou Não Ser também conta com Robert Stack, Felix Bressart, Lionel Atwill, Stanley Ridges e Sig Ruman.
Ser ou Não Ser não foi bem recebido inicialmente pela crítica e por parte do público. Muitos consideraram o filme de mau gosto. Não é de se espantar. Na época de seu lançamento, Pearl Habor havia sido atacado, as tropas alemãs devastavam a Europa e a estrela do filme havia morrido em uma missão patriótica. Com o tempo, no entanto, a comédia foi alçada à condição de clássico absoluto da sétima arte. Ser ou Não Ser foi eleito uma das melhores comédias de todos os tempos pela revista Premiere e pelo Instituto Americano de Cinema (AFI). A obra-prima de Lubitsch é uma comédia engenhosa, complexa, que vai da sátira ao humor negro de uma maneira sublime. O clássico de 1942 é um dos maiores legados de um dos primeiros mestres do humor do cinema hollywoodiano.
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Anúncio de Ninotchka, clássico de Lubitsch.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Clássicos da Cinemateca - Sinfonia de Paris (1951)


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Leslie Caron e Gene Kelly estrelaram o musical Sinfonia de Paris (1951).
O musical é um dos gêneros mais antigos e tradicionais do cinema hollywoodiano. Assim que o cinema começou a falar, ele começou também a cantar e a dançar. Não por acaso, o anúncio publicitário de Melodia da Broadway (1929), primeiro filme americano integralmente falado, dizia: "All Talking! All Singing! All Dancing!" (Todo Falado! Todo Cantado! Todo Dançado!). Dentre os musicais mais célebres da Hollywood Clássica estão Cantando na Chuva (1952), A Noviça Rebelde (1965), Amor Sublime Amor (1961), Mary Poppins (1964), O Mágico de Oz (1939), dentre outros. Falaremos nesta edição sobre Sinfonia de Paris (1951), importante musical de Vincent Minelli, premiado com o Oscar de Melhor Filme em 1952.
O clássico de 1951 foi inspirado em An American in Paris,  composição orquestral de George Gershwim, criada em 1928. À melodia de Gershwim foram acrescentadas letras de Ira Gershwin (irmão do compositor) e contribuições adicionais de Saul Chaplin, o diretor musical do filme. O roteiro ficou sob a responsabilidade de Alan Jay Lerner, que tem no currículo outros musicais, como o premiadíssimo Minha Bela Dama (1964) e Camelot (1967). A direção do longa-metragem caiu nas mãos de Vicent Minelli, um dos diretores que mais contribuíram para o gênero musical, tendo dirigido obras-primas como Agora Seremos Felizes (1944), O Pirata (1948) e A Roda da Fortuna (1953).
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I Got Rhythm - assista - clique aqui
Sinfonia de Paris conta a história de Jerry Mulligan (Gene Kelly), veterano americano da Segunda Guerra Mundial que tenta ganhar a vida em Paris como pintor. Sob a aura romântica da cidade das luzes, Jerry se apaixona por Lise (Leslie Caron), uma jovem francesa já comprometida com Henri (Georges Guétary). Ainda que corresponda aos sentimentos de Jerry, Lise sente que tem uma dívida de gratidão com Henri, que a havia protegido durante a guerra, o que a impede de ficar com o seu verdadeiro amor. O musical conta uma singela história de amor sob o formato de um grande espetáculo e ao som de belas canções como  "I Got Rhythm", "I'll Build A Stairway to Paradise", " 'S Wonderful”  e "Our Love is Here to Stay".
Apesar de se passar na capital francesa, Sinfonia de Paris foi filmado quase inteiramente nos estúdios da MGM, na Califórnia. Cerca de 44 cenários foram construídos para o longa-metragem. Estima-se que os custos da produção ultrapassaram os 2 milhões de dólares. Não foi fácil convencer os chefões da MGM a investir em uma produção dessa grandeza. Diz-se que Gene Kelly, astro do filme, teve que exibir o belíssimo clássico britânico Os Sapatinhos Vermelhos (1948) para convencê-los a bancar um filme de dança.
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'S Wonderful - assista - clique aqui 
Gene Kelly é, por sinal, o grande nome deste clássico. Além de estar diretamente envolvido na produção do musical, o galã atuou, coreografou os números musicais e ainda dirigiu algumas cenas do filme. Na época, Vincent Minelli (pai de Liza Minelli) estava se separando de sua mulher, a atriz Judy Garland, o que exigia muito do tempo e da atenção do diretor. No mesmo ano em que Sinfonia de Paris foi escolhido como o Melhor Filme no Oscar, Gene Kelly ganhou uma estatueta honorária da Academia (seu único Oscar) “pela sua versatilidade como ator, cantor, diretor e dançarino e, principalmente, pelas suas brilhantes realizações na arte da coreografia no cinema”. Em 1952, um ano após o lançamento de Sinfonia de Paris, Gene Kelly dirigiu, ao lado de Stanley Donen, aquele que é considerado o maior musical de todos os tempos, Cantando na Chuva (1952). Gene Kelly dirigiu, ao todo, dez longas-metragens de ficção e um documentário para o cinema.
Como se atuar, cantar, dirigir e coreografar não fossem o bastante, Gene Kelly foi o responsável pela descoberta da protagonista de Sinfonia de Paris, lançando a atriz francesa Leslie Caron ao estrelato. A princípio, o filme seria protagonizado pela bela Cyd Charisse (uma das parceiras habituais de Kelly em cena), mas a atriz/dançarina acabou por descobrir que estava grávida. Kelly, então, passou a insistir que o principal papel feminino do filme fosse dado a uma legítima francesa. Ele se lembrou de uma promissora bailarina que muito o havia impressionado no ano anterior em um espetáculo de balé em Paris. Kelly foi então à procura da jovem Leslie Caron, que tinha apenas 19 anos na época. Sinfonia de Paris foi a grande estreia da atriz nas telonas. Caron estrelou diversas produções americanas, tendo sido indicada duas vezes ao Oscar, por Lili (1953) e por A Mulher que Pecou (1962). Por seu último trabalho, em 2006, a atriz, que hoje tem 81 anos, foi premiada com um Emmy, maior prêmio da televisão americana.
DivulgaçãoOur Love is Here to Stay - assista 
Sinfonia de Paris foi um imenso sucesso de público e de crítica. Um dos maiores trunfos do clássico é sua aclamada sequência final de balé, que conta com aproximadamente 17 minutos de dança. Esta sequência custou meio milhão de dólares e levou um mês para ser filmada, tendo quase sido cortada devido ao atraso que ela gerou na produção. Gene Kelly e Vincent Minelli insistiram para que a sequência fosse mantida, defendendo a ideia de que o filme não seria eficiente sem ela. Eles estavam certos. O número musical continua a impressionar ainda hoje. Para a sequência, a renomada figurinista Irene Sharaff idealizou diferentes cenários baseados nas obras de famosos pintores impressionistas, como Raoul DufyMaurice Utrillo,Henri RousseauVan Gogh e Toulouse-Lautrec. As gigantescas telas levaram seis semanas para serem terminadas, com o auxílio de 30 pintores. Cada ato do número final de dança foi realizado com palheta de cores, figurinos e coreografias diferentes.
Na época do lançamento de Sinfonia de Paris, a MGM promoveu o filme, dizendo que esse se tratava do “maior entretenimento de dança jamais visto na tela do cinema”. Ainda que pareça exagerada, a declaração provavelmente não está longe de ser verdade. Sinfonia de Paris é acima de tudo um grande espetáculo. Não é de todo incompreensível que alguns críticos contemporâneos torçam o nariz para esse clássico ou mesmo o considerem superestimado. O conteúdo do filme pode, sim, parecer insípido ou cheio de clichês. Afinal, até mesmo a história de amor do filme está a serviço do espetáculo. Sinfonia de Paris provavelmente não é o melhor filme de Minelli e talvez não tenha envelhecido tão bem como Cantando na Chuva, mas é, ainda assim, uma obra-prima vibrante de criatividade, onde tudo é cor, som e movimento. O filme foi ganhador de seis Oscars (Melhor Filme, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia à Cores, Melhor Roteiro, Melhor Trilha Sonora e Melhor Figurino).
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Ballet – An American in Paris - assista

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Clássicos da Cinemateca - Rebecca, A Mulher Inesquecível (1940)


“A noite passada sonhei que voltava a Manderley. Pareceu-me estar junto do portão de ferro e, por um instante, não pude entrar porque o caminho me estava barrado. Depois, como todos aqules que sonham, vi-me subitamente dotada de poderes sobrenaturais e passei como um espírito pela barreira diante de mim. A entrada serpenteava a minha frente, sinuosa e curva como sempre fora, mas ao avançar percebi que estava diferente. A natureza impusera-se de novo e, pouco a pouco, à sua maneira firme, insidiosa, apoderara-se da entrada com dedos compridos, tenazes. E assim, ora para leste ora para oeste, serpenteava o pobre caminho que em tempos fora a nossa entrada. E, finalmente, lá estava Manderley, Manderley, misteriosa e silente como sempre havia sido, brilhando no luar do meu sonho.”
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Judith Anderson e Joan Fontaine protagonizaram cenas inesquecíves em Rebecca.
O ano de 1940 foi decisivo na vida do diretor inglês Alfred Hitchcock. O cineasta, que contava com uma carreira bem-sucedida na sua terra natal, mudou-se para Hollywood, onde veio a se consolidar de vez como um dos maiores mestres da sétima arte. Apesar do sucesso que alguns de seus filmes ingleses fizeram nos Estados Unidos, os estúdios norte-americanos hesitavam em contratá-lo, devido ao receio de que o diretor não conseguiria se enquadrar ao “estilo” hollywoodiano. O primeiro trabalho de Hitchcock nos Estados Unidos veio através de um convite de David O. Selznick, visionário produtor americano, responsável por grandes sucessos como E o Vento Levou (1939).
Alfred Hitchcock assinou um contrato de sete anos com Selznick. O primeiro filme do diretor em Hollywood contaria a história de Titanic, mas o projeto acabou afundando (com o perdão do trocadilho) muito antes de virar realidade. Foi então que o produtor escalou Hitchcock para dirigir uma adaptação do romance Rebecca, escrito por Daphne du Maurier e publicado em 1938. Essa não foi a única vez que o cineasta adaptou uma obra da autora inglesa. A Estalagem Maldita (1939) e Os Pássaros (1963) também são baseados em trabalhos da escritora. 
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David O. Selznick e Alfred Hitchcock 
Rebecca – A Mulher Inesquecível é normalmente rotulado como o primeiro filme norte-americano de Hitchcock, mas existem aqueles que defendem que esse seja, na verdade, o último filme britânico do cineasta já que, esteticamente, o filme estaria mais próximo da primeira fase da carreira do diretor. Além disso, a história de Rebecca se passa na Inglaterra, é adaptada de uma obra inglesa e protagonizada por um dos maiores ícones do cinema britânico, Laurence Olivier. Primeiro ou último, o mais importante é perceber como o clássico de 1940 marcou a filmografia de Hitchcock, servindo como um verdadeiro divisor de águas.
François Truffaut, importante cineasta e crítico francês, chegou a apontar, na série de entrevistas realizadas com Hitchcock, que Rebecca contribuiu para um aperfeiçoamento do  estilo hitchcockiano, por não se tratar de um thriller convencional e, sim, um drama que focaliza os conflitos internos e os transtornos emocionais dos personagens. Os filmes seguintes de Hitchcock foram enriquecidos por um maior investimento na psicologia dos personagens, em tramas mais densas e com maior profundidade dramática.
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A bela trilha sonora de Rebecca é de autoria do grande Fraz Waxman. Ouça um trecho.
Ainda que tenha marcas da genialidade de Hitchcock e seja uma obra essencial de sua filmografia, Rebecca é comumente apontado como um dos filmes “menos hitchcockianos” do cineasta. O clássico não apresenta, por exemplo, o típico humor hitchcockiano, encontrado nas obras mais famosas do diretor, revelando-se assim um dos filmes mais sombrios e sérios de sua carreira.
Deve-se levar em conta que David O. Selznick também estava por trás da obra e que Hitchcock teve que lidar com as intervenções do produtor, conhecido por ser extremamente controlador e por atormentar seus diretores. Por essa razão, tudo indica que Hitchcock teve menos voz ativa e desfrutou de menos liberdade na realização de Rebecca do que em outras produções.
Uma célebre anedota conta o que Hitchcock teve que fazer para assegurar que o desfecho do filme fosse como ele queria e não pudesse ser alterado por Selznick. O produtor queria que na última cena de Rebecca, a fumaça sobre Manderley em chamas formasse a letra “R”. Hitchcock não concordava com a ideia e substituiu a famigerada fumaça em “R” por outra imagem mais sutil. Para que Selznick não pudesse reeditar a cena posteriormente, Hitchcock usou um método de edição na própria câmera. Hitchcock foi um dos poucos diretores que conseguiram driblar, ainda que parcialmente, o excessivo controle de Selznick.
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Laurence Olivier foi indicado pela 2a vez consecutiva ao Oscar de Melhor Ator por Rebecca.
Em Rebecca – A Mulher Inesquecível, uma jovem de origem humilde (Joan Fontaine) se apaixona por Maxim de Winter (Laurence Olivier), um sedutor aristocrata, com quem se casa pouco tempo depois. A bela moça muda-se para Manderley, gigantesca propriedade do marido, que é comandada por Mrs. Danvers (Judith Anderson), uma rígida governanta. Já instalada na imponente mansão, a nova Mrs. de Winter passa a ser confrontada à lembrança da primeira mulher de Maxim, Rebecca, que falecera alguns anos antes. Rebecca fora admirada por toda a alta sociedade, sendo idolatrada por Mrs. Danvers. A governanta passa a atormentar a vida da nova patroa, enchendo sua cabeça de dúvidas, temores e fazendo-a se sentir indigna do posto de nova Mrs. de Winter. Em meio a essa guerra psicológica, segredos são desvendados.
Rebecca – A Mulher Inesquecível poderia ser descrito como uma história de assombração. Esteticamente o filme nutre uma aura fantasmagórica e mágica. Já nos créditos iniciais, temos imagens oníricas, nebulosas, em que chama a atenção a estética expressionista, dominada pelo contraste entre as cores preto e branco. A ecolha da fotografia, por sinal, foi uma das exigências de Hitchcock, que acreditava que essas cores eram mais adequadas para realçar a dimensão sombria da história.  A primeira cena do filme, uma bela ilustração de um sonho, nos revela uma Manderley mágica, lembrando-nos dos castelos amaldiçoados dos contos de fadas.
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No romance, Mrs. Danvers é uma mulher mais velha.
O medo é um dos elementos mais importantes da narrativa, o que faz com que ela se aproxime ainda mais dos contos de fadas e das histórias de fantasmas. No filme, uma mulher morta continua a interferir no mundo dos vivos, não de maneira sobrenatural, mas através de sua lembrança e de seu legado. Deve-se salientar que, ao contrário de Rebecca, a nova esposa de Maxim não tem seu nome revelado em nenhum momento da trama, o que faz com que já exista uma relação de desigualdade entre as duas mulheres. Uma competição injusta, silenciosa se instala entre a falecida  e sua sucessora, muito mais frágil e menos exuberante. Ironicamente, Rebecca é inesquecível até mesmo para a nova Mrs. de Winter que não chegou a conhecê-la. A onipresença da personagem epônima na mansão de Manderley é representada pela asustadora Mrs. Danvers.
A antológica personagem de Mrs. Danvers, interpretada brilhantemente por Judith Anderson, é, antes de tudo, uma presença ameaçadora na tela. A vilã não é jamais vista se movendo ou entrando nos aposentos, ela surge inesperadamente, surpreendendo sistematicamente a protagonista. A  relação de Mrs. Danvers e da nova Mrs. de Winter é de carrasco e vítima. A dinâmica dessa relação doentia é um dos maiores trunfos do filme. A perversidade fria e calculada de Mrs. Danvers é fruto de uma idolatria sem limites pela antiga dona de casa, um amor com toques homoeróticos, manifestado, por exemplo, pelo seu fetichismo com os objetos de Rebecca. 
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Assim como no romance, o primeiro nome de Mrs. de Winter não é jamais revelado.
Mrs. de Winter não é subjugada apenas pela perversidade de Mrs. Danvers, mas também pela própria mansão, um espaço suntuoso e gigantesco que parece oprimir a personagem. A majestosidade do cenário é, portanto, fundamental para que tenhamos a impressão de que a protagonista está sempre coagida, numa luta constante com o espaço a sua volta. Hitchcock chegou a afirmar que a casa era uma das personagens mais importantes do filme. O produtor David. O Selznick procurou pelos Estados Unidos uma locação que pudesse representar Manderley, mas não conseguiu encontrar nenhuma que lhe agradasse. Então, decidiu-se construir uma magnífica maquete, utilizada para representar o exterior da mansão. 
Muitas atrizes foram consideradas para o papel de Mrs. de Winter. David O. Selznick queria Olivia de Havilland no papel, mas ela acabou deixando o caminho aberto para a irmã mais nova, Joan Fontaine, que era pouco conhecida na época e que também estava na disputa pelo papel. Vivien Leigh, que havia conseguido o papel mais disputado em Hollywood em E o Vento Levou (1939), não conseguiu repetir a proeza em Rebecca,  mesmo com os esforços de Laurence Olivier, seu futuro marido. O papel acabou indo para Joan Fontaine, que transmitiu magistralmente o caráter frágil, desajeitado e impressionável de sua personagem. Reza a lenda que Olivier tratava muito mal a colega nos bastidores, por essa ter “roubado” o papel de sua namorada e que Hitchcock teria se aproveitado da situação dizendo à moça que ninguém da equipe gostava dela, para que a atriz pudesse se sentir ainda mais desconfortável e transmitisse esse sentimento de “estranha no ninho” para a personagem.
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Ao contrário do que ocorre no romance, o passado de Mrs. Danvers não é revelado.
Rebecca – A Mulher Inesquecível foi o primeiro filme de Hitchcock realizado nos Estados Unidos e o único de sua carreira que levou o Oscar de Melhor Filme, num ano de concorrentes de peso como As Vinhas da IraNúpcias de Escândalo e O Grande Ditador. O filme ainda foi premiado com o Oscar de Melhor Fotografia (Preto e Branco) e Hitchcock recebeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Diretor. O clássico ainda foi indicado a outras nove estatuetas (Melhor Ator - Laurence Olivier , Melhor Atriz - Joan Fontaine, Melhor Atriz Coadjuvante - Judith Anderson, Melhor Direção de Arte, Melhores Efeitos Especiais, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro). Como disse François Truffaut, Rebecca – A Mulher Inesquecível continua a ser um filme moderno e sólido décadas depois de seu lançamento.
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George Barnes ganhou o Oscar pela ótima fotografia de Rebecca.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Clássicos da Cinemateca - Levada da Breca (1938)


"Não é que eu não goste de você, Susan, porque, afinal de contas, em momentos tranquilos, sou estranhamente atraído por você; mas, enfim, não existiram momentos tranquilos!”
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Cary Grant e Katharine Hepburn estrelam Levada da Breca (1938).
 
Nesta edição, a Cinemateca celebra um grande clássico e um gênero quase esquecido. Falaremos sobre Levada da Breca (Bringing Up Baby, 1938), grande representante da Comédia Maluca (ou Screwball Comedy), um gênero tipicamente hollywoodiano, muito popular nas décadas de 1930 e 40. A Comédia Maluca combina farsa, pastelão e diálogos espirituosos. Os filmes pertencentes a esse gênero geralmente focalizam uma batalha de sexos, na qual os protagonistas tentam ludibriar ou enganar o outro. Além de gags visuais, a Comédia Maluca apresenta um ritmo acelerado, com diálogos rápidos, sofisticados e tiradas certeiras. O termo “maluca” parece exprimir o comportamento errático e excêntrico dos personagens, que flertam, muitas vezes, com a loucura e o ridículo.
Outros elementos geralmente encontrados na Comédia Maluca são: grande tensão sexual entre os protagonistas, por vezes disfarçada em animosidade e troca de farpas; confusões e mal-entendidos; lutas de classes; trocas de identidades; inversões de papéis; situações absurdas e/ou embaraçosas. Muitos dos elementos  típicos da Comédia Maluca podem ser encontrados nas comédias românticas dos dias de hoje. 
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Grant tinha 34 anos e Hepburn tinha 30 anos na época do lançamento do filme.
Costuma-se apontar Suprema Conquista (1934), de Howard Hawks, e Aconteceu Naquela Noite (1934), de Frank Capra, como as primeiras “comédias malucas” do cinema. Outros clássicos do gênero são: Irene, A Teimosa (1936), Cupido é Moleque Teimoso (1937), Jejum de Amor (1940), Bola de Fogo (1941) e Ser ou Não Ser (1942). Hawks talvez seja o diretor que mais tenha contribuído para o gênero. É dele um dos filmes que melhor representam o caráter inovador da Comédia Maluca, Levada da Breca (1938). 
Hawks (1896-1977) é um dos cineastas  mais importantes e versáteis da Era de Ouro de Hollywood. Ele atuou como  produtor, diretor e roteirista, tendo iniciado sua carreira ainda no cinema mudo. Dono de uma filmografia impressionante, Hawks foi um dos diretores mais influentes de sua época. Ainda assim, não usufruiu da mesma fama e reconhecimento de alguns de seus contemporâneos, como os grandes John Ford e Billy Wilder. Hawks foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor apenas uma vez por Sargento York (1941), tendo levado um prêmio honorário pela carreira  em 1975. 
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Hawks dirige Cary Grant e Katharine Hepburn em cena do filme.
Curiosamente, foi na França que o trabalho do cineasta foi mais apreciado e aclamado. Hawks era um dos diretores favoritos dos renonados críticos franceses da revista Cahiers du Cinéma,que fizeram dele um verdadeiro ícone do cinema americano. Hawks se enveredou por diferentes gêneros  cinematográficos durante sua carreira, tendo realizado comédias, dramas, filmes de gângster, westerns, filmes noir, entre outros. Dentre suas principais obras estão:Scarface – A Vergonha de Uma Nação (1932), Paraíso Infernal (1939), Jejum de Amor (1940),Uma Aventura na Martinica (1944), À Beira do Abismo (1946), Rio Vermelho (1948), Os Homens Preferem As Loiras (1953), Rio Bravo (1959) e, é claro, Levada da Breca (1938).
Levada da Breca já foi citado diversas vezes como uma das comédias mais engraçadas de todos os tempos. Desastre absoluto de bilheteria na época de seu lançamento, o filme foi ao longo dos anos alçado à categoria de obra-prima. Considerado por alguns especialistas como o filme definitivo da Comédia Maluca, Levada da Breca conta a história de David Huxley (Grant), um desajeitado paleontólogo que vê sua vida virar de cabeça para baixo, assim que conhece Susan Vance (Hepburn), uma insana e espevitada milionária. Para obter uma generosa doação, o certinho paleontólogo tem que lidar com as excentricidades da ricaça (que se revela obcecada por ele­) e com o novo animal de estimação da moça, um leopardo brasileiro chamado Baby. 
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A cena em que David se veste com o robe de Susan é uma das mais famosas do filme.
O longa-metragem foi roteirizado por Dudley Nichols e Hagar Wilde, a partir de um texto escrito por Wilde e publicado na Collier's Magazine. O filme combina humor farsesco, situações absurdas, romantismo, grandes atuações e ação de tirar o fôlego. O filme é protagonizado por duas das maiores estrelas da Hollywood Clássica: Cary Grant e  Katharine Hepburn. Esse foi o segundo de quatro filmes estrelados pela dupla. Outra parceria bastante conhecida do casal foi na premiada comédia Núpcias de Escândalo (1940).
O personagem de Cary Grant em Levada da Breca foi inspirado na persona de Harold Lloyd, famoso comediante do cinema mudo (os óculos do personagem são, inclusive, referência ao ator). No entanto, muito do sucesso do personagem vem do talento e do carisma de seu intérprete. Grant, por sinal, demonstrou ter, ao longo de sua carreira, grande facilidade para encarnar papéis cômicos e não teve nenhum problema para encontrar o tom de seu personagem em Levada da Breca. O mesmo não aconteceu com Hepburn, que tinha menos experiência que o galã em comédias. 
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Levada da Breca
 foi ignorado por todas as premiações em 1938.
Katharine Hepburn, premiada quatro vezes com o Oscar e apontada como uma das melhores atrizes de todos os tempos, teve dificuldade em acertar o timing cômico da personagem. Hawks teve que treinar a atriz, com o auxílio de outros profissionais, incluindo Walter Catlett, colega de cena de Hepburn no filme. Esforço recompensado. A impagável performance de Hepburn e a química dos protagonistas são dois dos maiores trunfos do filme.
Existe uma série de anedotas sobre o clássico. Dizem, por exemplo, que a famosa cena do restaurante, em que o vestido de Hepburn é rasgado, foi inspirada em algo que teria acontecido realmente com Cary Grant. Ao ver que uma mulher havia rasgado o vestido em um teatro, o ator teria se comportado como seu personagem ao tentar cobrir a moça. Grant teria contado a história ao diretor, que a adorou e a incluiu na trama. Outra anedota diz respeito à relação dos atores com o leopardo nos sets de filmagem. Enquanto Hepburn se mostrava extremamente à vontade e destemida com o animal, Grant tinha pavor da fera. Foi necessário o uso de dublê em cenas em que seu personagem precisava fazer contato com o leopardo.
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O leopardo usado no filme chamava-se Nissa na vida real.
Outra curiosidade diz respeito ao uso da palavra “gay” no filme. Acredita-se que foi em Levada da Breca que o termo “gay” foi usado pela primeira vez no cinema (não pornográfico) com o sentido que conhecemos atualmente (referindo-se à homossexualidade), em oposição ao seu sentido original, “alegre”. Tal uso se deu na cena em que o personagem de Cary Grant veste um robe de Susan e ao ser perguntado a razão, diz: "Because I just went gay all of a sudden!" (Porque eu acabei de ficar gay de repente!).
O fracasso de bilheteria de Levada da Breca foi decisivo para que Katharine Hepburn entrasse para a infame lista dos atores chamados de “veneno de bilheteria” (box-office poison). A culpa do insucesso do filme junto ao público recaiu sobre os ombros da atriz, já que muitos afirmavam que a rejeição do público a Hepburn teria sido o motivo da  má arrecadação do filme. O motivo dessa alegação tem origem no fato de que, desde 1935, a atriz estrelara uma série de filmes que foram mal de bilheteria. Além disso, ela tinha uma péssima relação com a imprensa.
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No filme diversos efeitos visuais e “truques” são usados para aproximar os atores do leopardo.
Levada da Breca foi o último filme de Katharine Hepburn para o estúdio RKO. Depois que o longa-metragem foi retirado precocemente das salas de cinema, devido ao seu fraco desempenho, a RKO ofereceu a Hepburn um papel em um filme B, de baixo orçamento. Hepburn, então, corajosamente, rompeu seu contrato com o estúdio e se tornou independente. Seu próximo projeto seria outro filme com Cary Grant, Férias (1938), pela Columbia Pictures, que também não foi muito bem de bilheteria. A redenção de Hepburn viria com Núpcias de Escândalo (1940), grande sucesso comercial.
Levada da Breca aparece na lista de melhores filmes de todos os tempos da Total Film Magazine, da Sight & Sound e do American Film Institute. A Entertainment Weekly incluiu o clássico na sua lista dos filmes mais engraçados de todos os tempos. A Premiere Magazine elegeu a performance de Cary Grant como uma das melhores do cinema e Susan Vance como uma das maiores personagens da sétima arte. Setenta e quatro anos não foram capazes de fazer com que Levada da Breca se tornasse menos engraçado e arrebatador, ao contrário, o filme continua sendo uma aula de como fazer rir.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Clássicos da Cinemateca - O Mensageiro do Diabo (1955)


Ah, little lad, you're staring at my fingers. Would you like me to tell you the little story of right-hand/left-hand?”
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Robert Mitchum dá vida a Harry Powell, um dos maiores vilões do cinema americano.
Na época de seu lançamento, O Mensageiro do Diabo (1955) foi considerado um fracasso de bilheteria, tendo sido também ignorado pela crítica. O recebimento do filme foi tão decepcionante e frustrante para o seu realizador, o brilhante ator inglês Charles Laughton, que o mesmo nunca mais dirigiu outro longa-metragem. Revisto e redescoberto ao longo dos anos, o thriller de 1955 é, hoje, tido como uma obra-prima essencial da sétima arte e há mais de cinco décadas impressiona audiências do mundo inteiro. 
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Charles Laughton dirigindo Robert Mitchum.
Ambientado na West Virginia, nos Estados Unidos dos anos 30, o filme se passa às margens do Rio Ohio. Em uma penitenciária, o detento Harry Powell (Robert Mitchum) descobre que Ben Harper (Peter Graves), um homem condenado à morte, escondeu 10 mil dólares em alguma parte de sua casa. Powell é um assustador serial killer que se diz reverendo e pregador. Após a execução do colega e a obtenção da sua liberdade, Powell vai em busca da pequena fortuna deixada por Harper, encontrando a viúva, Willa (Shelley Winters), e seus dois filhos, John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce). O vilão seduz Willa, casando-se com ela pouco tempo depois. Pôr as mãos no dinheiro será, no entanto, bem complicado graças às duas crianças (guardiãs do dinheiro) e ao auxílio de Rachel (Lilian Gish), uma senhora determinada e religiosa. Dominado por uma aura de pesadelo, O Mensageiro do Mal é uma fábula sombria e estilizada que é centrada na luta do bem conta o mal e que focaliza os medos presentes no imaginário infantil.  
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A bela fotografia de Stanley Cortez é um dos pontos fortes do filme.
O longa-metragem é baseado no romance The Night of The Hunter, de Davis Grubb, publicado em 1953. O romance é, por sua vez, inspirado na história de Harry Powers, criminoso responsável pela morte de duas viúvas e três crianças. Powers foi enforcado em 1932. A adaptação da história ficou por conta de James Agee. Por muito tempo, acreditou-se que Laughton teria reescrito todo o roteiro de Agee por considerá-lo inadequado. Tais suspeitas foram levantadas muito em função do que afirmou o ator Robert Mitchum em sua autobiografia. Recentemente, provou-se que o roteiro utilizado por Laughton fora exatamente aquele escrito por Agee.
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O Mensageiro do Diabo
 não foi indicado a nenhum prêmio.
Ainda que seja aclamado por muitos como uma das maiores obras-primas do cinema, o clássico de 1955, por vezes, parece não usufruir do mesmo reconhecimento e atenção que outros “colegas mais famosos”. Talvez esse fenômeno se explique pelo fato de que grandes filmes são geralmente associados a grandes diretores. Charles Laughton só realizou um filme, ainda que tenha uma participação não creditada em O Homem da Torre Eiffel (1949). A esse fator, soma-se a dificuldade de se categorizar o filme, que se distingue completamente das produções dos anos 40 e 50, ao fugir do realismo e investir em um universo fantástico, estranho e sombrio.
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A tomada do corpo debaixo d’água foi uma das mais trabalhosas do filme.
Esteticamente, O Mensageiro do Diabo é herdeiro do expressionismo alemão. Charles Laughton aposta em alguns elementos que caracterizaram essa escola, optando por enquadramentos pouco usuais. Ele utiliza as sombras com uma maestria e expressividade únicas, investindo em estranhos ângulos e perspectivas e fazendo uso de cenários, por vezes, pouco realistas. Visualmente arrebatador, o longa-metragem é beneficiado pelo trabalho de Stanley Cortez, diretor de fotografia que havia trabalhado anteriormente com Orson Welles em outro clássico, Soberba (1942), pelo qual foi indicado ao Oscar. Sobre o fato de ter trabalhado nos dois filmes, Cortez brincava que só era chamado para fazer coisas estranhas. Ele chegou a declarar também que, dentre os diretores com quem trabalhou, Welles e Laughton eram os únicos que de fato compreendiam e sabiam usar a luz.
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A bela trilha sonora do filme é de autoria de Walter Schumann.
Filmado em preto e branco, O Mensageiro do Diabo contém um conjunto de imagens inesquecíveis, cujo lirismo continuam a impressionar. Uma das mais lembradas é aquela em que o corpo de um personagem da trama é revelado no fundo do rio. É icônica também a cena em que a figura de Robert Mitchum é iluminada por uma lâmpada na rua, gerando sombras no quarto das crianças. A sequência que mostra a fuga noturna das crianças pelo rio, sob a perspectiva de “gigantes” elementos da natureza, como sapos e teias de aranha, reflete também a genialidade de Charles Laughton e o belo trabalho de Stanley Cortez. 
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Robert Mitchum não era uma personalidade muito querida fora das telas.
Charles Laughton (1899-1962) brilhou como ator em mais de 50 filmes. Dentre os seus trabalhos mais célebres estão O Sinal da Cruz (1932), Os Amores de Henrique VIII (1933)pelo qual ele ganhou o Oscar de Melhor Ator, O Grande Motim (1935), O Corcunda de Notre Dame(1939), Testemunha de Acusação (1957) e Spartacus (1960). A excepcional carreira de Laughton como ator de cinema, teatro e televisão talvez ofusque sua única incursão como cineasta. Laughton chegou a afirmar que preferia dirigir no teatro, já que existe sempre a possibilidade de mudança e melhoria. A cada espetáculo de uma peça, algo pode ser ajustado. Já no cinema, uma vez finalizado o filme, nada pode ser feito. Também por essa razão, Laughton não se aventurou de novo por trás das câmeras.
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Mitchum foi indicado uma única vez ao Oscar, como coadjuvante, pelo filme Story of G.I. Joe (1945).
Um dos grandes trunfos de O Mensageiro do Diabo é o seu elenco, encabeçado pelo soberbo Robert Mitchum. O galã, por vezes subestimado, foi um dos maiores atores da Era de Ouro de Hollywood, tendo se destacado sobretudo no gênero do filme noir. Mitchum empresta seu charme e sua imponente voz grave ao assutador Harry Powell, um de seus melhores papéis. O ator chegou a assumir que O Mensageiro do Diabo era o seu trabalho favorito e que Laughton foi aquele que melhor o dirigiu. Ao lado de Mitchum, temos a duas vezes oscarizada Shelley Winters que confere certa histeria e desequilíbrio à trágica Willa. Tanto os jovens Billy Chapin e Sally Jane Bruce quanto a veterana e legendária Lilian Gish brilham como os grandes heróis da trama. 
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Lilian Gish é uma das atrizes mais longevas de Hollywood. Ela trabalhou até os 93 anos.
O Mensageiro do Diabo há quase 60 anos sustenta o título de um dos filmes mais sombrios e assustadores que Hollywood já produziu. Essa obra-prima inusitada ocupou o segundo lugar na lista feita pela prestigiada revista francesa Cahiers du Cinéma dos 100 mais belos filmes do cinema. O clássico de 1955 ainda é citado em listas similares da revista Empire e do AFI (American Film Institute). A importância, a relevância artística e o legado de O Mensageiro do Diabo para o cinema são incomensuráveis.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Clássicos da Cinemateca - O Que Terá Acontecido a Baby Jane?


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Inimigas na vida real, Bette Davis e Joan Crawford estrelam O Que Terá Acontecido a Baby Jane?
Nesta edição da Cinemateca, falaremos sobre mais um clássico que, a exemplo de Sob o Domínio do Mal e O Milagre de Anne Sullivan, completa 50 anos em 2012. Trata-se de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962), thriller psicológico com toques de terror cujo imenso sucesso contribuiu para a criação de um subgênero muito popular nos anos 60. O “psycho-biddy”, expressão pela qual tal subgênero do terror ficou conhecido, se caracterizava por retratar mulheres mais velhas atravessando surtos psicóticos ou em perigo iminente, sob a ameaça de algum mal. O fênomeno do “psycho-biddy” se deve bastante ao desejo e à necessidade de grandes atrizes de continuar a trabalhar após uma certa idade. Tais atrizes que brilharam no auge de suas carreiras como mocinhas não tinham a mesma facilidade de encontrar bons papéis depois dos 40, algo que ocorre ainda hoje. Grandes estrelas da Era de Ouro de Hollywood tiveram, em tais filmes de suspense/terror, seus derradeiros papéis de protagonistas. 
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Joan Crawford tinha 57 anos e Bette Davis 54 na época do lançamento do filme.
O Que Terá Acontecido a Baby Jane? lançou moda e fez escola. A ele se seguiram obras comoCom a Maldade na Alma (1964), Almas Mortas (1964), A Dama Enjaulada (1964), Fanatismo Macabro (1965), Nas Garras Do Ódio (1965), Espetáculo de Sangue (1967), A Mansão dos Desaparecidos (1969) e Obsessão Sinistra (1971). A febre do “psycho-biddy” explica por que tais filmes de títulos sugestivos foram estrelados por grandes damas do cinema hollywoodiano, como Tallulah Bankhead, Olivia de Havilland, Shelley Winters, Bette Davis e Joan Crawford. As duas últimas, protagonistas de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?,tiveram suas carreiras revitalizadas justamente após o clássico de 1962. O sucesso do filme renovou o interesse do público por ambas as atrizes que outrora foram as maiores estrelas de Hollywood. A partir de então, Davis e Crawford se tornaran rainhas do terror/suspense e apareceram em diversos filmes desse gênero.
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Bette Davis recebeu sua décima e última indicação ao Oscar por O Que Terá Acontecido a Baby Jane?
Produzido e dirigido por Robert Aldrich e baseado no romance de mesmo nome de Henry Farrell, O Que Terá Acontecido a Baby Jane? tem como um de seus maiores trunfos o fato de conseguir realizar o que parecia inimaginável até então: reunir num mesmo set de filmagem duas inimigas mortais e assumidas, Bette Davis e Joan Crawford. A rivalidade entre as duas atrizes é a mais célebre do cinema clássico. O fato de representarem no longa-metragem personagens que se odeiam não poderia deixar de atrair ainda mais a atenção e a curiosidade do público e da mídia. O sucesso de crítica e de bilheteria do filme fez com que Aldrich propusesse a escalação das duas atrizes para um novo projeto. Davis e Crawford seriam primas em Com a Maldade na Alma (1964), filme também baseado numa obra de Henry Farrell. No entanto, o diretor não conseguiu repetir a proeza de 1962. A versão oficial diz que Joan Crawford teve que abandonar o projeto por conta de prolemas de saúde. Entretanto, existem boatos de que Davis teria conseguido o afastamento da rival, que foi posteriormente substituída por Olivia de Havilland, amiga de Davis. O filme de 1964 também foi um grande sucesso, tendo sido indicado a sete Oscars.
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A bela fotografia de Ernest Haller é um dos pontos fortes do clássico.
Competitivas, vaidosas, talentosas e temperamentais, Davis e Crawford provavelmente tinham muito mais em comum do que gostariam de admitir. Crawford, três anos mais velha que a colega, iniciou a carreira em 1925, ainda no cinema mudo. Davis estreou nas telonas seis anos mais tarde. No currículo, ambas têm diversos trabalhos consagrados. Crawford brilhou em Grande Hotel (1932), Almas em Suplício (1945), Precipícios D’Alma (1952) e Johnny Guitar(1954). Davis está soberba em Escravos do Desejo (1934), Jezebel (1938), Pérfida (1941) e A Malvada (1950), para citar apenas alguns títulos. Davis foi indicada dez vezes ao Oscar, tendo levado a estatueta em duas ocasiões. Crawford foi indicada três vezes, tendo sido premiada uma vez. As vidas pessoal e profissional das duas atrizes foram marcadas por sucessos, tropeços e escândalos. Uma coincidência impressiona: as filhas das duas escreveram livros nada lisongeiros sobre suas respectivas mães, retratando a crueldade das mesmas e as dificuldades de relacionamento em casa. O livro de Christina Crawford, Mamãezinha Querida, foi transposto para o cinema em 1981, com Faye Dunaway no papel de Crawford.
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Blanche (Joan Crawford) descobrindo o prato especial preparado por Jane (Davis).
Em O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, Bette Davis é Baby Jane Hudson, antiga estrela mirim de vaudeville que, ao crescer, tem que lidar com o declínio de sua carreira e o consequente ostracismo. Joan Crawford, por sua vez, dá vida a Blanche Hudson. Blanche, ao contrário da irmã Jane, era um patinho feio quando criança e sofria com o menosprezo da mãe e da irmã famosa. Depois de crescida, a moça deu a volta por cima e se tornou uma estrela de Hollywood. Após um misterioso acidente de carro, Blanche fica paralítica e se afasta do show business, permanecendo sob os “cuidados” de Jane, cada vez mais desequilibrada. Normalmente apontado como o melhor “psycho-biddy” já realizado, O Que Terá Acontecido a Baby Jane? contém um série de momentos memoráveis e, por vezes, grotescos e assustadores, como a cena em que Jane serve um prato “pra lá de especial” para a irmã inválida, outra em que Blanche sai da cadeira de rodas para tentar pedir socorro e mesmo o impactante final à beira-mar. Por fim, o que dizer da inesquecível e bizarra cena em que Bette Davis canta I've Written a Letter to Daddy”(assista ao vídeo)
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As duas versões de Baby Jane, interpretadas por Julie Allred e Bette Davis.
Várias histórias giram em torno dos bastidores do filme. Dizem, por exemplo, que Bette Davis pediu para que fosse instalada uma máquina de Coca-Cola no set, para provocar Crawford que fazia, na época, parte do conselho de diretores da concorrente Pepsi. Outra anedota, talvez um pouco fantasiosa, diz que durante uma das cenas de violência, Davis chuta Crawford na cabeça, o que  resultou em um ferimento que necessitou de pontos. Em retaliação, Crawford teria colocado pesos em seus bolsos para dificultar a vida de Davis na cena que esta fosse arrastá-la pelo chão.
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Bette Davis canta e dança em O Que Terá Acontecido a Baby Jane?
Bette Davis foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo seu trabalho em O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, enquanto Joan Crawford foi esnobada pela premiação. Obviamente, Crawford não ficou nada feliz com isso, ainda mais porque Davis tinha a chance de se tornar a atriz mais premiada da história do Oscar naquele ano. Crawford, então, contatou as outras indicadas na categoria, se oferecendo para receber a estueta caso elas não pudessem comparecer à cerimônia. Efetivamente, Anne Bancroft não pôde estar presente na premiação e acabou se sagrando vitoriosa por O Milagre de Anne Sullivan. Como combinado, Crawford foi receber o Oscar no lugar de Bancroft e reza a lenda que ela fez questão de passar por Davis e dizer: “Com licença, eu tenho um Oscar para receber.”
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A maquiagem extremamente carregada é uma das marcas da caracterização de Davis.
Apesar de não figurar no panteão dos grandes diretores, pelo menos para o grande público, Robert Aldrich teve uma carreira bastante interessante, tendo se revelado particularmente habilidoso e versátil no cinema de gênero. Em seu currículo, encontramos o western, com Vera Cruz (1954); o filme noir, com A Morte num Beijo (Kiss Me Deadly, 1955); o filme de guerra, com Os Doze Condenados (1967); a comédia de ação, com Golpe Baixo (1974); e o filme policial com Crime e Paixão (Hustle, 1975). O Que Terá Acontecido a Baby Jane? é um dos filmes mais conhecidos da filmografia de Aldrich. Nele, o cineasta combina o assustador, o grotesco, o humor negro, o melodrama e o suspense de forma magistral, realçando o pathose a violência presentes na relação tortuosa de duas irmãs, alimentada pela inveja, pela dependência e pela mágoa. 
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A cena final é uma das mais emocionantes do filme.
O Que Terá Acontecido a Baby Jane? é um espetáculo inusitado, onde brilham Bette Davis com sua performance deliciosamente caricatural e Joan Crawford surpreendentemente comedida e sensível. O clássico de 1962 é considerado o último grande trabalho de Joan Crawford, que veio a falecer em 1977. Os últimos anos de sua carreira foram marcadas por bombas. Bette Davis viveu bem mais tempo e realizou pelo menos mais um belo filme, As Baleias de Agosto (1987). O Que Terá Acontecido a Baby Jane? nos oferece a oportunidade de assistir a dois dos maiores ícones do cinema clássico se degladiando em cena. Mas o filme não se resume a isso, sendo capaz de causar impacto e estranhamento ainda hoje. O filme foi indicado a cinco Oscars (Melhor Atriz – Bette Davis, Melhor Ator Coadjuvante – Victor Buono, Melhor Fotografia e Melhor Som), tendo levado o prêmio de Melhor Figurino (Preto e Branco).

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Clássicos da Cinemateca - Sob o Domínio do Mal (1962)


Why don't you pass the time by playing a little solitaire?
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Angela Lansbury e Laurence Harvey são mãe e filho em Sob o Domínio do Mal (1962).
Há quase 50 anos, no dia 24 de outubro de 1962, estreava em território americano um dosthrillers políticos mais impactantes da história do cinema hollywoodiano. The Manchurian Candidate ("O Candidato da Manchúria"), que ganhou no Brasil o eloquente título Sob o Domínio do Mal, é o quinto longa-metragem realizado por John Frankenheimer. Em 2004, o diretor Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes) realizou um remake estrelado por Meryl Streep e Denzel Washington.
The Manchurian Candidate é a adaptação do romance de mesmo nome do escritor americano Richard Condon, publicado em 1959. O roteiro do longa-metragem foi escrito por um dos produtores do filme, o famoso dramaturgo George Axelroy, autor de várias peças de sucesso na Broadway e responsável pela adaptação do clássico Bonequinha de Luxo (1961). Sob o Domínio do Mal se passa em plena Guerra Fria e retrata brilhantemente a atmosfera de tensão, paranoia e medo que caracterizou esse período.
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Lansbury tinha 36 anos quando fez o filme, três a mais que Laurence Harvey que interpretou seu filho.
O longa-metragem fala de conspiração internacional, assassinato, comunismo, macarthismo e intriga política em uma época em que tais questões eram consideradas bastante delicadas. Deve-se enfatizar também que, em 1962, a Guerra Fria estava longe de ter um fim. Sob o Domínio do Mal foi proibido em diversos países que faziam parte da chamada Cortina de Ferro, como Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia e Bulgária e até mesmo de alguns países considerados neutros, como Finlândia e Suécia. Na maioria desses países, o filme só foi lançado em 1993, após o colapso da União Soviética.
A obra-prima de Frankenheimer de certa forma antecipa a obsessão do povo americano por teorias conspiratórias nos anos 60 e 70. Devido ao temor extremo do crescimento do comunismo dentro dos Estados Unidos, várias dessas teorias, por vezes, pouco verossímeis, eram levadas bastante a sério. O Instituto Pavlov, mencionado no filme, é uma referência ao famoso fisiologista russo Ivan Pavlov, ganhador do prêmio Nobel em 1904. Pavlov estudou o papel do condicionamento na psicologia do comportamento. O condicionamento clássico, desenvolvido pelo fisiologista, explica a associação de um estímulo a outro. O trabalho e as pesquisas de Pavlov sem dúvida serviram de fonte de inspiração para o autor Richard Condon criar a “lavagem cerebral” retratada em sua obra.
 
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Frank Sinatra dizia que sua melhor performance vinha sempre no primeiro take.
Sob o Domínio do Mal contém influências de vários gêneros como o terror, o melodrama, o filme de guerra e a ficção científica. O thriller é centrado na figura do Sargento Raymond Shaw (Laurence Harvey), um herói americano da Guerra da Coreia, capturado com alguns de seus comandados por um grupo de comunistas (soviéticos e chineses) e programado para ser uma máquina de matar, um assassino sem culpa e sem lembranças de seus crimes. Os eventos que ocorreram no centro de condicionamento comunista foram apagados da memória dos soldados e, ao retornarem aos Estados Unidos, cada um segue o seu caminho. O Sargento Shaw, agora um “agente” comunista infiltrado, é premiado com uma medalha de honra e recepcionado por sua controladora e possessiva mãe, Mrs. Eleanor Iselin (Angela Lansbury). O Major Ben Marco (Frank Sinatra), um dos capturados ao lado do sargento, começa a desconfiar que algo está errado quando passa a ter um recorrente e perturbador pesadelo. A partir de então, ele passa a investigar Shaw.
Um dos mitos que giram em torno do filme diz respeito a sua retirada dos cinemas e seu subsequente “desaparecimento” midiático após o assassinato do presidente americano John F. Kennedy, em novembro de 1963. Muitos acreditam que o filme tenha de alguma forma inspirado o crime e que Lee Harvey Oswald, assassino de JFK, a exemplo do protagonista do filme de Frankenheimer, tenha sido “condicionado” ou passado por algum tipo de lavagem cerebral. A existência de uma relação entre o assassinato do presidente e os acontecimentos do filme provavelmente nunca será comprovada, mas a associação do longa-metragem à tragédia de 1963 faz com que a obra ganhe contornos ainda mais perturbadores e sombrios.
 
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O ator Laurence Harvey nasceu na Lituânia.
Contrariamente ao que se acredita, o filme não foi tirado completamente de circulação após 1963, tendo sido exibido na televisão americana em quatro ocasiões até 1975, o que não deixa de ser um número estranhamente pequeno para um filme lançado naquela época. Ao que tudo indica, houve certo descaso na distribuição do filme, cujos direitos pertenciam a Frank Sinatra.
Sob o Domínio do Mal é considerado a grande obra-prima de um dos maiores diretores hollywoodianos da metade do século 20, John Frankenheimer. Ainda que pouco lembrado e celebrado, o cineasta foi uma das mentes criativas mais inovadoras e importantes da televisão e do cinema americanos. Frankenheimer teve uma prolífica e bem sucedida carreira na televisão norte-americana. Ele dirigiu mais de 140 episódios de diversos seriados como Studio One (1948) e Playhouse 90 (1956). Essa última foi uma série de grande sucesso, inicialmente  transmitida ao vivo, o que exigia uma habilidade única do diretor. Um dos episódios mais célebres é The Comedian, estrelado por Michey Rooney.
 
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John Frankenheimer é famoso por seus enquadramentos peculiares.
As séries ao vivo eram comuns na TV americana dos anos 50 e se assemelhavam a peças filmadas. Frankenheimer revolucionou a maneira de se fazer televisão ao desvinculá-la da linguagem teatral, introduzindo uma multiplicidade de câmeras e uma maior movimentação das mesmas, utilizando close-ups e realizando um trabalho refinado e rápido de edição. É notória a importância da televisão na obra cinematográfica de Frankenheimer. Em muitos de seus filmes, a televisão cumpre um papel importante como difusora de notícias de interesse público e modeladora de opiniões.
Famoso pelo uso de enquadramentos e ângulos pouco usuais (algo que pode ser apreciado em Sob o Domínio do Mal), John Frankenheimer se notabilizou sobretudo por filmes de ação, suspense e espionagem. Dentre suas obras mais conhecidas e elogiadas estão: O Homem de Alcatraz (1962), Sete Dias de Maio (1964), O Trem (1965), O Segundo Rosto (1966), Grand Prix(1966), The Iceman Cometh (1973) Operação França 2 (1975), Domingo Negro (1977) e Ronin(1998). A filmografia de Frankenheimer conta também com alguns tropeços, dos quais A Ilha do Dr. Moreau (1996) merece destaque. A década de 80 é normalmente vista como um período “negro” de sua carreira. Ainda que Frankenheimer tenha sido um cineasta essencial dos anos 60 e 70, ele nunca foi indicado ao Oscar.
 
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John Frankenheimer (1930-2002) teve uma sólida carreira tanto no cinema, quanto na televisão.
Sob o Domínio do Mal contém alguns dos momentos mais célebres da filmografia de Frankenheimer, como a impactante sequência inicial do sonho e a cena final de inspiração hitchcockiana, em que Shaw deve assassinar um líder político. O filme conta ainda com um elenco estelar, liderado pelo astro britânico Laurence Harvey (brilhante como o alienado e complexado Raymond Shaw) e Frank Sinatra. A estrela de Psicose (1960), Janet Leigh, faz uma pequena e eficiente participação como o interesse amoroso de Sinatra. Os atores protagonizam uma das cenas mais bizarras do filme. Nela, vemos uma estranha conversa “codificada” entre o Major Marco (Sinatra) e Eugenie Rose (Leigh), a bordo de um trem, que nos permite acreditar que a moça possa ser também uma agente, apesar da narrativa não se enveredar por esse caminho.
Não há como não mencionar a performance assustadora e inesquecível de Angela Lansbury, como a monstruosa e manipuladora Mrs. Iselin, considerada uma das maiores vilãs do cinema. Lansbury foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel. Se no romance de Condon a relação de Mrs. Iselin com seu filho é claramente incestuosa, no filme de Frankenheimer, o incesto é mostrado de maneira mais sutil e representado pelo beijo que a mãe dá no filho já no final da trama.
 
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Mrs. Iselin está na lista dos maiores vilões do cinema feita pelo American Film Institute.
Além de ser importante sob o ponto de vista histórico, por refletir muitas das ideologias, crenças e medos da Guerra Fria, Sob o Domínio do Mal representa o melhor do estilo de John Frankenheimer, um diretor que teve uma influência ímpar principalmente no cinema de ação/suspense e espionagem. Esse grande clássico merece ser bastante celebrado no ano em que completa seu cinquentenário.