sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Os Melhores Filmes Sobre Esportes

Embalado pelo espírito olímpico, o Clube do Filme buscou na história do cinema algumas obras inspiradas no universo esportivo.

Confira a nossa seleção (em ordem cronológica):

1 - Ídolo, Amante e Herói The Pride of the Yankees (1942) 
Dirigido porSam Wood 
Esporte: Beisebol

2 - Desafio à CorrupçãoThe Hustler (1961) 
Dirigido porRobert Rossen 
Esporte: Sinuca

3 - Os Corredores da MontanhaDownhill Racer (1969) 
Dirigido porMichael Ritchie 
Esporte: Futebol Americano

4 - Golpe BaixoThe Longest Yard (1974) 
Dirigido porRobert Aldrich 
Esporte: Futebol Americano

5 - Garotos em Ponto de Bala / The Bad News Bears (1976) 
Dirigido porMichael Ritchie 
Esporte: Beisebol

6 - Rocky - O Lutador / Rocky  (1976) 
Dirigido porJohn G. Avildsen 
Esporte: Boxe 

7 - Slap Shot (1977) 
Dirigido porGeorge Roy Hill 
Esporte: Hockey

8 - O Céu Pode EsperarHeaven Can Wait (1978) 
Dirigido porWarren BeattyBuck Henry 
Esporte: Futebol Americano 

9 - O VencedorBreaking Away (1979) 
Dirigido porPeter Yates 
Esporte: Ciclismo 

10 - Clube dos PilantrasCaddyshack (1980) 
Dirigido por: Harold Ramis 
Esporte: Golf
11 - Touro Indomável / Raging Bull (1980) 
Dirigido por: Martin Scorsese
Esporte: Boxe

12 - Carruagens de FogoChariots of Fire (1981) 
Dirigido porHugh Hudson 
Esporte: Atletismo

13 - Karate Kid - A Hora da Verdade The Karate Kid (1984) 
Dirigido por: John G. Avildsen
Esporte: Karatê
14 - Um Homem Fora de SérieThe Natural (1984) 
Dirigido porBarry Levinson 
Esporte: Beisebol

15 - Momentos DecisivosHoosiers (1986) 
Dirigido porDavid Anspaugh 
Esporte: Basquete

16 - Fora do Jogo / Eight Men Out (1988) 
Dirigido porJohn Sayles 
Esporte: Beisebol

17 - Sorte no AmorBull Durham (1988) 
Dirigido porRon Shelton 
Esporte: Beisebol

18 - Campo dos SonhosField of Dreams (1989) 
Dirigido porPhil Alden Robinson 
Esporte: Beisebol

19 - Uma Equipe Muito EspecialA League of Their Own (1992) 
Dirigido porPenny Marshall 
Esporte: Beisebol

20 - Jamaica Abaixo de ZeroCool Runnings (1993) 
Dirigido porJon Turteltaub 
Esporte: Bobsled
21 - Rudy / Rudy (1993) 
Dirigido porDavid Anspaugh 
Esporte: Futebol Americano 



22 - Jerry Maguire - A Grande Virada / Jerry Maguire (1996) 
Dirigido porCameron Crowe 
Esporte: Futebol Americano

23 - O Jogo da Paixão / Tin Cup (1996) 
Dirigido porRon Shelton 
Esporte: Golf

24 - Duelo de TitãsRemember the Titans (2000) 
Dirigido porBoaz Yakin 
Esporte: Futebol Americano


25 - Driblando o Destino / Bend It Like Beckham (2002) 
Dirigido porGurinder Chadha 
Esporte: Futebol 

26 - Desafio no Gelo / Miracle (2004) 
Dirigido porGavin O'Connor  
Esporte: Hockey

27 - Menina de Ouro / Million Dollar Baby (2004) 
Dirigido porClint Eastwood 
Esporte: Boxe

28 - Wimbledom - O Jogo do Amor /  Wimbledon (2004) 
Dirigido porRichard Loncraine 
Esporte: Tênis

29 - Ponto Final - Match Point / Match Point (2005)
Dirigido por: Woody Allen
Esporte: Tênis

30 - O Lutador / The Wrestler (2008)
Dirigido porDarren Aronofsky
Esporte: Luta livre

31 - O Vencedor The Fighter (2010) 
Dirigido porDavid O. Russell 
Esporte: Boxe

32 - O Homem Que Mudou o Jogo Moneyball (2011) 
Dirigido porBennett Miller
Esporte: Beisebol

33 - Guerreiro / Warrior (2011)
Dirigido porGavin O'Connor
Esporte: Boxe


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Clássicos da Cinemateca - Casablanca (1942)


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Humphrey Bogart e Ingrid Bergman
Em 26 de novembro de 1942, Casablanca estreava em Nova York. O longa-metragem foi lançado em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que ainda estava longe de ter um fim. A première do filme foi antecipada devido a um fato histórico. Alguns dias antes, em 8 de novembro de 1842, as tropas aliadas (que se opunham à Alemanha de Hitler) invadiram a cidade marroquina de Casablanca que, até então, estava sob a regência da França de Vichy, de influência nazista. A publicidade vinda dessa invasão foi um dos fatores que contribuíram para a ótima bilheteria que o longa-metragem teve nos Estados Unidos.   
Devido à guerra, o filme demorou a ser exibido na Europa. Na Itália, ele estreou em 1946, na França, em 1947, na Áustria, em 1948, e na Alemanha Ocidental, apenas em 1952, em uma versão com cortes. Na Alemanha Oriental, Casablanca estreou diretamente na televisão, somente em 1983! Os brasileiros, por sua vez, puderam conferir o longa-metragem menos de um mês após sua estreia nos Estados Unidos, em 7 de dezembro de 1942. O filme foi produzido por Hal B. Wallis, importante nome do estúdio Warner Bros. As filmagens deCasablanca duraram menos de três meses (o início das filmagens já havia sido adiado em mais de um mês) e foram feitas quase inteiramente em estúdio. Casablanca foi quase todo filmado em sequência, ou seja, seguindo os acontecimentos da trama, o que é bastante raro. Isso se explica pelo fato de que apenas parte do roteiro estava pronto no início das filmagens.
Casablanca conta a história de Rick Blaine, um americano amargo e cínico que vive e trabalha em Casablanca, onde tem um badalado café. Rick’s Café é frequentado tanto por nazistas, funcionários franceses, quanto por refugiados e criminosos. Um belo dia, Ilsa Lund, o grande amor do passado de Rick, aparece em seu bar ao lado do marido, Victor Laszlo, herói da resistência tcheca. O reencontro dos ex-amantes reacende o amor entre eles. O filme foi indicado a oito Oscars e levou três estatuetas: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. 
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Mesmo tendo grande química nas telas e tendo interpretado um dos casais mais célebres do cinema, os atores não voltaram a trabalhar juntos.
Em 2006, o Sindicato de Roteiristas dos Estados Unidos elegeu o roteiro do filme como o melhor de todos os tempos. Ironicamente, o roteiro foi terminado a duras penas, somente durante as filmagens. Muitas vezes, mudanças eram realizadas no próprio set, pouco antes das cenas serem rodadas. Escrito por pelo menos quatro roteiristas (dos quais apenas Howard Koch e os gêmeos Julius e Philip Epstein foram creditados), o filme é a adaptação da peça Everybody Comes to Rick's, escrita por Murray Burnett e Joan Alison no final dos anos 30. É curioso acrescentar que a peça não havia sido produzida e que ela só estreou nos palcos numa montagem recente, em 1991, em Londres. A origem da trama de Casablanca é inclusive desconhecida por muitos. Em uma entrevista nos anos 70, Ingrid Bergman, estrela do filme, afirmou desconhecer que o filme tenha sido baseado numa peça. 
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Dooley Wilson era um dos poucos membros do elenco 
que de fato conheciam a cidade de Casablanca.
A recepção de Casablanca na época de seu lançamento foi extremamente positiva, com excelentes críticas que elogiavam, sobretudo, a maneira com a qual o filme combinava humor, melodrama, romance e História. Ainda que seja considerado um dos maiores filmes de todos os tempos e que esteja em praticamente todas as listas feitas nesse sentido, o longa tem alguns surpreendentes detratores. Pauline Kael afirmou que Casablanca não chega a ser um grande filme e que é o romantismo presente nele que o faz particularmente atraente. Jonathan Rosenbaum, outro crítico americano, disse que Casablanca é um filme feito às pressas e que é qualitativamente inferior a Uma Aventura na Martinica (1944), que seria umspin-off do clássico de 1942. O filme de 1944 foi dirigido por Howard Hawks e também foi estrelado por Humphrey Bogart.
Em um artigo de 1975, o grande semiólogo italiano Umberto Eco vai ainda mais longe e explica por que considera Casablanca um filme medíocre, esteticamente falando. Dentre os problemas apontados pelo estudioso, estão a fraca verossimilhança psicológica dos personagens e as reviravoltas que ocorrem sem razões plausíveis. Ele acrescenta que os defeitos do filme se devem à maneira com a qual o roteiro foi escrito, à medida que as filmagens avançavam, o que fez com que os roteiristas acumulassem todos os clichês de Hollywood.
O sucesso de Casablanca pode ser considerado como o resultado de uma combinação de golpes do destino ou acidentes de percurso. Além da questão do roteiro, alterado até o último minuto, algumas anedotas provam que o filme era destinado a ser um clássico. A canção "As Time Goes By", de Herman Hupfeld, escrita em 1931, era citada na peça Everybody Comes to Ricky’s. Max Steiner, o compositor da trilha sonora do filme, queria, no entanto, retirar a música e substituí-la por uma composição original. A substituição só não foi realizada por que Ingrid Bergman já havia cortado o cabelo bem curto para o filme Por Quem os Sinos Dobram?(1943), e não poderia, portanto, refazer as cenas. Para a nossa sorte, a canção não foi alterada e é considerada hoje uma das melhores músicas do cinema (segundo lugar em votação realizada pelo AFI).
"As Times Goes By" - clique para ouvir
Em um comunicado de imprensa durante a pré-produção do filme, a Warner Bros. havia anunciado que o ator Ronald Reagan (que se tornaria presidente americano quatro décadas depois) interpretaria Rick. Reagan, no entanto, teve que se apresentar ao exército para dar continuidade a seu serviço militar. Felizmente, o papel acabou ficando com Humphrey Bogart. A principio, Ingrid Bergman também não daria vida a Ilsa Lund e outras atrizes foram consideradas para o papel. Bergman tinha contrato exclusivo com o produtor David O. Selznick. Foi necessário enviar os irmãos Epstein para convencer o poderoso produtor a ceder Bergman para o projeto. Selznick se manteve inflexível, até que Julius desistiu e disse: “Quem se importa! (Casablanca) é uma porcaria como Algiers (filme de 1938) mesmo!” Foi quando Selznick concordou com o empréstimo da atriz.
Paul Heinred, que interpreta o marido de Ilsa, também foi emprestado por Selznick. O ator se viu obrigado a fazer o filme contra sua vontade. Dizem que Heinred temia interpretar um papel secundário, pois atrapalharia sua carreira de galã. Uma das falas mais famosas do filme também é resultado de um golpe do destino. "Here's looking at you, kid" teria sido improvisada por Bogart em uma das cenas do filme. Rumores, no entanto, dizem que ela foi inventada quando o ator assistia a Ingrid Bergman jogar poker com membros da equipe. Por fim, Michael Curtiz não era a primeira opção do produtor Hal B. Wallis para dirigir o filme. Wallis queria William Wyler, que teve que declinar pois estava envolvido em outros projetos.
É interessante constatar pelos depoimentos sobre o filme que a maioria dos envolvidos na produção de Casablanca não acreditava estar fazendo algo extraordinário e, sim, mais um filme dos mais de 100 lançados a cada ano em Hollywood na época. Surpreendendo a todos,Casablanca veio a se tornar um dos maiores sucessos comerciais de todos os tempos da Warner Bros.
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Claude Rains, Paul Heinred, Ingrid Bergman e Humphrey Bogart
Michael Curtiz, ou Manó Kertész Kaminer, nasceu na Hungria em 1886. O diretor fez cerca de 50 filmes na Europa até ser convidado por Jack Warner, em 1926, para trabalhar nos Estados Unidos, onde sua carreira se consolidou. Curtiz é um dos cineastas mais importantes e prolíficos da Era de Ouro de Hollywood. Sua filmografia é a síntese da natureza espetacular do cinema clássico. Nela, encontramos vários personagens típicos do folclore hollywoodiano: o pirata, o fora-da-lei, o boxeador, o gângster, o cowboy etc. Curtiz dirigiu do musical ao filme de terror, passando pelo melodrama, pelo filme de capa e espada, pelo filme noir, pelo bíblico, entre outros. Curtiz tem no currículo nada menos que 170 créditos como diretor! O cineasta trabalhou para a Warner até o início dos anos 50. Ele era considerado o “faz-tudo” dos produtores Jack Warner e Hal Wallis, mas sua extrema produtividade não diminuía a qualidade de suas obras. Curtiz é um dos grandes responsáveis pela criação do estilo Warner, ou seja, por ter dado ao estúdio uma identidade própria.
Casablanca é visto como um dos maiores filmes do diretor, mas ele dirigiu outros clássicos inesquecíveis como: As aventuras de Robin Hood (1938­), Alma em suplício (1945), O Gavião do Mar (1940), A Canção da Vitória (1942) e Natal branco (1954). Além de ser conhecido pela sua dificuldade com a língua inglesa, o que gerava diversas confusões nos sets de filmagem, Curtiz era famoso por sua personalidade forte, sua rigidez, seu espírito incansável e seu perfeccionismo. O diretor costumava ter uma relação bem difícil com os seus atores. Diz-se que, certa vez, ele ofendeu Bette Davis e ela se recusou a trabalhar com ele novamente. 
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Michael Curtiz
Curtiz não era o único estrangeiro nas filmagens de Casablanca. Podemos até mesmo dizer que os sets de filmagem eram uma verdadeira Torre de Babel. Para se ter uma ideia, dos atores creditados no filme apenas três eram nascidos nos Estados Unidos: Humphrey Bogart, Dooley Wilson e Joy Page. Ingrid Bergman era sueca, Paul Henreid era austríaco, Claude Rains era inglês, Madeleine LeBeau era francesa e Conrad Veidt era alemão. Este último, que interpreta o Major Strasser no filme, interpretou diversos vilões nazistas durante sua carreira em Hollywood. Na vida real, o ator era um ferrenho opositor do regime nazista, tendo sido obrigado a fugir da Alemanha em 1933, pois seu assassinato já havia sido encomendado. Aliás, muitos dos atores que interpretaram nazistas no filme eram de fato judeus alemães que haviam se exilado nos Estados Unidos. Na cena onde é cantada "La Marseillaise", houve uma real comoção nos sets, já que muitos dos figurantes também tinham escapado da perseguição política e não conseguiram deixar de se emocionar. 
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A estreia de Casablanca foi antecipada para aproveitar 
a publicidade da invasão dos aliados no norte da África.
Humphrey Bogart costumava dizer que Casablanca era a melhor obra de sua filmografia. Sem dúvida, o clássico de 1942 representou uma reviravolta em sua carreira. Até então, o ator era identificado a papéis de detetive ou de gângster. A partir de Casablanca, Bogart se transformou no arquétipo do herói romântico, aparentemente cínico e frio, mas que, no fundo, possui um bom coração. A maravilhosa Ingrid Bergman, por sua vez, que já havia chamado a atenção em Intermezzo (1936), faz de Ilsa uma de suas mais marcantes personagens. É interessante lembrar que até a filmagem da última cena, não se sabia ao certo com quem Ilsa terminaria: se com Rick ou com Victor Laszlo. A decisão sobre o final do filme foi uma das mais complicadas que os roteiristas tiveram que tomar. No início das filmagens, Bergman perguntou a Curtiz por quem sua personagem era apaixonada e ele respondeu para ela interpretar “entre os dois”, ou seja, para conferir certa ambiguidade aos sentimentos de Ilsa, justificando qualquer que fosse a decisão tomada para o final do filme.
Casablanca completa 70 anos em 2012. O filme, que é considerado por muitos o mais romântico da história do cinema, é também um dos mais amados de todos os tempos. Algumas obras parecem ser destinadas ao sucesso. Diversos fatores contribuíram para a fabricação desta obra-prima: desde a criação tumultuada do roteiro, até a escalação do ótimo elenco, passando pela grande direção de Michael Curtiz. Por muito pouco, Casablanca poderia ser um filme completamente diferente. Para nossa sorte, ao final, todos estavam no lugar certo, na hora certa. Até mesmo o espectador dos anos 2000 terá dificuldade em não se encantar pelo olhar apaixonado de Ingrid Bergman, ou admirar o humor ácido de Humphrey Bogart ou mesmo se emocionar ao ver a cena de "La Marseillaise". Casablanca é e continuará sendo uma das melhores histórias de amor e sacrifício já contadas no cinema. 
Algumas frases famosas de Casablanca:
"Tantos bares, em tantas cidades em todo o mundo, e ela tinha que entrar logo no meu."
- "Beije-me. Beije-me como se essa fosse a última vez."
- "Nós sempre teremos Paris."
- "Este é o começo de uma bela amizade."
Isso foi o barulho de um canhão ou o meu coração que deu um salto?"
- “Prendam os suspeitos de sempre!”
TEXTO DE MINHA AUTORIA, PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 11/04/2012 NA COLUNA CINEMATECA, DO SITE CINEMA EM CENA. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

Título Original: The Dark Knight Rises
Lançamento: 2012
País: EUA
Direção: Christopher Nolan
Atores: Christian Bale, Anne Hathaway, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Gary Oldman, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Michael Caine
Duração: 164 min
Gênero: Ação

As estrelas de  BatmanO Cavaleiro das Trevas Ressurge
Não por acaso, O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) se tornou o longa-metragem mais aguardado do ano. Após realizar O Cavaleiro das Trevas (2008), um dos filmes mais idolatrados dos últimos anos, apreciado tanto pelo público, quanto pela crítica, Nolan se estabeleceu como um dos jovens diretores mais importantes de Hollywood. No currículo do cineasta inglês de 42 anos, ainda é possível encontrar pérolas como Amnésia (2000), A Origem (2010) e Batman Begins (2005), primeiro filme da nova trilogia Batman. Responsável por dar uma dimensão muito mais sombria e densa à história do herói mascarado, Nolan se despede da franquia Batman em grande estilo, ainda que o capítulo final da trilogia se mostre falho em alguns aspectos e não supere seus antecessores. 

Roteirizado por Christopher e Jonathan Nolan (irmão mais novo do diretor), O Cavaleiro das Trevas Ressurge apresenta uma trama complexa, permeada por diversas intrigas e enriquecida por um grande número de personagens, alguns velhos rostos e outros "novatos". Um dos primeiros acertos dos irmãos Nolan é a decisão de iniciar o filme com uma sequência de tirar o fôlego, em que Bane (Tom Hardy), o grande vilão da história, nos é apresentado. Fugindo do didatismo, Christopher Nolan lança o espectador na ação desde o primeiro momento, nos instigando e provocando. A história se passa oito anos após a morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart), cuja responsabilidade recai sobre os ombros de Batman. Dent se transformou em um mártir e sua imagem é utilizada na criação de uma política anticrimes que mantém Gotham City em paz. No entanto, a tranquilidade da cidade é perturbada quando o monstruoso Bane se revela uma verdadeira ameaça. Bruce Wayne, que desde a morte de sua amada se manteve recluso, é obrigado a vestir novamente o uniforme do Homem-Morcego para defender Gotham. No caminho do herói, ainda aparecem a perigosa Selina Kyle (Anne Hathaway) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard). 

Christian Bale e Anne Hathaway em cena do filme.
A trajetória de Bruce Wayne é marcada por perdas e por superações. Nolan faz questão de mostrar um  herói ferido, machucado, envelhecido e humanizado. Ainda assim, o protagonista jamais deixa de ser admirável. O Homem-Morcego é vivido por Christian Bale com uma grande entrega, aliás, a mesma entrega que o ator costuma demonstrar na maioria de seus trabalhos. O ator se transforma fisicamente diante dos olhos do espectador, revelando a princípio um homem frágil e decadente, que aos poucos dá lugar ao exuberante e imponente herói com o qual estamos acostumados. 

Além de realizar cenas de ação espetaculares, como o esperado primeiro confronto entre Bane e Batman, Nolan cria sequências de suspense de arrepiar. Dentre elas, destaca-se a importante sequência que se passa em um estádio de futebol, em que o canto do hino nacional norte-americano serve para pontuar a tensão, manipulando as expectativas do público. Christopher Nolan ainda mostra sua maestria em construir narrativas cuja tensão vai se amplificando a medida em que a trama se desenrola, deixando o espectador cada vez mais inquieto e, por vezes, atônito. Os efeitos especiais são igualmente extraordinários, fazendo com que o apocalíptico ato final do filme seja ainda mais impressionante. Tecnicamente irretocável, o filme ainda conta com o trabalho genial de Wally Pfister, diretor de fotografia, que aposta em uma palheta de cores cinzenta e fria, conferindo uma aura triste e sombria à obra.

Não é difícil reconhecer que O Cavaleiro das Trevas Ressurge empalidece face ao seu antecessor de 2008. Além de não contar com um personagem tão impactante e carismático quanto o maravilhoso Coringa de Heath Ledger, o último longa da série não apresenta o mesmo pathos do anterior. Os protagonistas (e consequentemente o espectador) não atravessam uma jornada emocional que se compare àquela vivida em O Cavaleiro das Trevas. Em compensação, é um prazer rever Michael Caine, Morgan Freeman e Gary Oldman reprisarem muito bem seus personagens. Já o talentoso Joseph Gordon-Levitt  faz do policial Blake uma das figuras mais interessantes e simpáticas do longa-metragem. E o que dizer de Tom Hardy que, mesmo com uma máscara que encobre grande parte do seu rosto, consegue fazer de Bane um sujeito terrível e assustador? O trabalho vocal do ator é, por si só, impressionante. 

Christian Bale dá vida pela terceira vez ao herói mascarado. 
Infelizmente, chega a ser um pouco decepcionante o papel que a icônica Mulher-Gato, Selina Kyle, desempenha na trama. A bela Anne Hathaway consegue despertar nosso interesse como uma Mulher-Gato modernizada, mesmo tendo um sexy appeal menos evidente do que as versões interpretadas por Michelle Pfeiffer e Halle Berry. Assim, é uma pena que a Mulher-Gato de Hathaway não seja melhor desenvolvida pelo roteiro. Unidimensional, a personagem cumpre o papel de uma coadjuvante de luxo. Suas ações poderiam ser realizadas por qualquer outro personagem. Além disso, a química entre Selina e Bruce Wayne não chega a convencer em nenhum momento. Algo parecido ocorre com a personagem vivida pela atriz francesa Marion Cotillard. É difícil "comprar" o breve affair de Miranda e Bruce. Ademais, a personagem parece ser um peso morto na narrativa e mesmo a performance da atriz se revela pouco inspirada.

Christopher Nolan conseguiu inserir as aventuras do Batman num universo realista. Por isso, chega a incomodar algumas "forçações de barra" do roteiro. Soam pouco verossímeis algumas aparições do Homem-Morcego em momentos-chave do filme. Além disso, determinada reviravolta na trama parece digna de novela mexicana. O final escolhido para a trilogia também não me agrada. É interessante que o diretor deixe as portas abertas para uma possível continuação, que com certeza interessará ao estúdio, ainda que com outro diretor no comando. No entanto, seria mais interessante se Nolan optasse por conferir certa ambiguidade ao destino do protagonista, deixando cada espectador escolher no que quer acreditar.

A trilogia Batman comandada por Christopher Nolan provou ser uma das mais bem-sucedidas dos últimos anos. O diretor conseguiu criar uma obra adulta, madura e inteligente, fazendo jus ao icônico personagem dos quadrinhos. O terceiro capítulo é, no final das contas, o filme menos interessante da trilogia e, mesmo assim, um ótimo filme. 

Assista ao trailer:


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Clássicos da Cinemateca - Uma Rua Chamada Pecado (1951) - PARTE 2


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O elenco da versão fílmica: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden.
O elenco de Uma Rua Chamada Pecado é o mesmo que Kazan dirigiu na Broadway, com exceção de Vivien Leigh. A atriz britânica já havia interpretado Blanche Dubois em Londres, em 1949, em uma montagem dirigida por seu marido, Laurence Olivier. Na Broadway, a personagem foi interpretada por Jessica Tandy. Tandy é lembrada, sobretudo, pelos seus últimos trabalhos no cinema, com destaque para Conduzindo Miss Daisy (1989) e Tomates Verdes Fritos (1991). Ao contrário de Leigh, ela jamais foi uma estrela de cinema. Jack Warner e o produtor Charles K. Feldman sentiam a necessidade de ter um nome de peso encabeçando o elenco; alguém que atraísse uma boa bilheteria. Antes de ser oferecido a Leigh, o personagem foi proposto a sua colega de E o Vento Levou (1939), Olivia de Havilland, mas as exigências da atriz impossibilitaram as negociações. Em uma entrevista, o ator Karl Malden afirmou que foi justamente a inclusão de Leigh no elenco que possibilitou que ele e os outros atores (desconhecidos do grande público até então) participassem do filme.
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Tennessee Williams e Elia Kazan.
Uma das coisas que inquietava Kazan com relação à peça era que o público se identificava muito mais com o personagem de Stanley do que com Blanche, ou seja, os espectadores amavam mais o carrasco do que a vítima. Isso ocorria, em grande parte, por causa do extraordinário desempenho de Marlon Brando, que parecia ofuscar Tandy. Em sua autobiografia, o diretor manifesta sua preocupação:
“A peça estava se transformando em um show de Marlon Brando. Eu evitava tocar no problema, porque eu não conhecia uma solução. Eu não poderia deixar que os atores percebessem minha inquietação. O que eu poderia dizer a Brando? Para ele ser menos bom? E a Jessie [Jessica Tandy]? Para ser melhor? Não, eu corria o risco de obter um resultado destrutivo, ainda mais para Jesssica”.
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Cena da peça na Broadway. Em primeiro plano, Jessica Tandy. Ao fundo, Marlon Brando e Kim Hunter.
Com essas questões o atormentando, Kazan recorreu a Tennessee Williams para saber o que, de fato, o público deveria sentir com relação aos dois protagonistas. O dramaturgo afirmou, então, que o público deveria sentir compaixão e piedade por Blanche, compreendendo o drama da personagem. Williams acrescentou que Stanley não deveria ser, no entanto, mostrado como um monstro. Para o autor, não é uma pessoa (Stanley) que destrói Blanche e, sim, uma “coisa”, a incompreensão:
“Stanley não vê Blanche como um ser à deriva, desesperado [...]. Uma pessoa jamais vê as outras como elas realmente são; julgamos o outro sob a luz dos nossos próprios defeitos”.
Quando finalmente aceitou dirigir Uma Rua Chamada Pecado no cinema, Kazan viu que esta era a oportunidade de explorar o personagem de Blanche, algo que ele sentia que faltara à peça. No filme, por exemplo, Blanche é a primeira personagem que vemos surgir em cena, algo que não ocorria nos palcos. Focalizar Blanche e seu universo era o desafio que animava Kazan ao trabalhar novamente com o mesmo texto. A substituição de Tandy também lhe pareceu, eventualmente, interessante, ainda que ele nutrisse grande afeição pela atriz:
“Para ser bastante franco, hoje, com um distanciamento, não tenho certeza de que, eu mesmo, não queria uma atriz diferente para o papel de Blanche. A peça tendo perdido o frescor para mim, eu tinha necessidade de um eletrochoque para me colocar nos trilhos”.
Sem dúvida, a chegada de Leigh foi um choque e tanto para o diretor.
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Vivien Leigh recebeu seu primeiro Oscar em 1940, por E o Vento Levou.
Leigh teve um percurso interessante no cinema. Após protagonizar E o Vento Levou (1939), um dos filmes mais populares de todos os tempos, e conquistar, merecidamente, fama mundial, a atriz optou por se dedicar ao teatro na Inglaterra, ao invés de permanecer sob os holofotes de Hollywood. Doze anos separam E o Vento Levou de Uma Rua Chamada Pecado. Nesse meio tempo, Leigh fez somente quatro filmes, apenas um deles em Hollywood. Mesmo não sendo uma figura recorrente nas telonas, o público americano jamais a esqueceu. Em 1969, o crítico Andrew Sarris comentou esse fenômeno. Segundo ele, a escalação da atriz como Scarlett O’Hara, no clássico de 1939, é um dos fatores responsáveis pelo imenso sucesso do filme e que Leigh vive em nossas mentes e lembranças como uma força dinâmica, ao invés de uma presença estática”. Uma das ironias apontadas por muitos é que os dois grandes personagens da carreira da atriz no cinema são southern belles (belas do sul norte-americano), sendo que a atriz era britânica. 
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Vivien Leigh como Scarlett e como Blanche.
A sombra de Scarlett O’Hara traz uma densidade ainda maior à Blanche Dubois. Além das duas personagens interpretadas por Leigh serem sulistas, Belle Rêve (fazenda de Blanche) evoca Tara (propriedade de Scarlett). Blanche parece refletir a imagem de uma Scarlett decadente, que carrega as marcas da desilusão e do tempo. Florence Colombani, escritora, crítica de cinema e cineasta, afirma, em sua obra Elia Kazan: Une Amérique du chaos (2004),que "explorando a memória inconsciente do espectador, Kazan dá uma espessura dramática excepcional a seu filme". Ela acrescenta“a lenta queda de Blanche e seu calvário se tornam ainda mais pungentes, pois são o calvário e a queda de alguém que o público ama e conhece”. O trágico fim de Blanche é, portanto, ainda mais dilacerante já que nossa memória afetiva guarda a imagem da altiva e exuberante Scarlett. 
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Elia Kazan dirigindo Vivien Leigh e Kim Hunter.
A relação de Leigh e Kazan foi bastante complicada durante as filmagens de Uma Rua Chamada Pecado. O principal motivo de conflito entre a atriz e o diretor era a resistência da primeira às orientações do segundo. Leigh questionava sucessivamente as escolhas do diretor, comparando a direção de Kazan àquela de Laurence Olivier. Alguns fatores contribuíram para um mal-estar nos sets: a atriz era a única estrangeira, a única integrante do elenco que não havia participado da montagem na Broadway e que não tinha, portanto, familiaridade com os colegas. Além disso, Leigh não era adepta do Método (conjunto de técnicas de atuação associadas ao Actor’s Studio), o que fazia dela uma completa estranha no ninho. Reza a lenda que o diretor, percebendo o deslocamento da atriz, utilizou-o para acentuar o deslocamento de sua personagem na trama. Com o passar do tempo, Leigh e Kazan encontraram uma maneira de conviver, mas a animosidade continuou. Em sua autobiografia, Kazan morde e assopra ao falar da atriz:
“Ela [Vivien Leigh] tinha um pequeno talento, mas sua determinação de ser a melhor era incomparável. Ela andaria sobre cacos de vidro se isso fosse necessário para melhorar sua atuação”.
Dificilmente um reconheceria no outro o grande talento que, de fato, tinham, já que cada um possuía experiências e valores bem distintos no que tangia a formação artística: Leigh era filha do teatro clássico e Kazan foi um dos precursores do Método nos Estados Unidos.
O contraste entre teatralidade de Leigh e o realismo privilegiado por seus colegas é um dos pontos fortes do filme. Marlon Brando chegou a afirmar que a atuação da atriz britânica era superior àquela de sua ex-colega Jessica Tandy, algo que Kazan jamais admitiu. Leigh consegue transmitir magistralmente a inadequação de sua personagem ao mundo real e toda a complexidade do universo mental da protagonista. Blanche Dubois é um ser tão frágil que, muitas vezes, parece se revestir de uma personagem e de uma ilusão para poder enfrentar a vida e as pessoas a sua volta, como se fosse uma atriz em um palco. Por essa razão, às vezes, seus gestos e voz parecem tão artificiais. Quando ela se vê abatida pelo real, vemos a transformação e a desfiguração de Leigh. 
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Vivien Leigh tinha 36 anos quando interpretou Blanche.
Pauline Kael, em sua famosa crítica, afirmou que Leigh nos oferece uma dessas raras performances que verdadeiramente evocam piedade e terror e que ninguém, após Lilian Gish, nos primórdios do cinema, transmitiu tamanha vulnerabilidade e fragilidade feminina como Leigh o fez em Uma Rua Chamada Pecado. A atriz nos faz testemunhar a jornada de uma mulher em direção à loucura, nos revelando uma alma atormentada por ilusões e massacrada pela realidade. O trágico fim de Blanche encontra eco na vida pessoal da atriz. Posteriormente, a atriz teve dificuldades de se distinguir de Blanche. Alexander Walker, autor da biografia de Leigh, conta um episódio revelador da vida da atriz, que sofria de depressão e de transtorno bipolar. Em uma de suas crises, anos após Uma Rua, ela foi interpelada por uma enfermeira que disse para acalmá-la: Eu te reconheço, você é Scarlett O’Hara, ao que ela retrucou, furiosa: Eu não sou Scarlett O’Hara, sou Blanche Dubois!
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Marlon Brando e Vivien Leigh fumando no set de filmagem.
Como bem disse Pauline Kael, Uma Rua Chamada Pecado veicula o encontro de duas das maiores atuações vistas no cinema. Contrapondo-se brilhantemente a Leigh, o Stanley Kowalski de Brando é uma força da natureza. Em seu segundo filme, o ator opera uma revolução na forma de se atuar no cinema. Nenhum ator que o precedeu mostrou tamanha brutalidade, sensualidade, sex appeal e realismo em cena. Há algo de extremamente animalesco e fascinante na performance de Brando, algo que nos faz sentir repulsa pelo personagem, sem, no entanto, deixarmos de nos sentir atraídos por ele.
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Uma Rua Chamada Pecado foi o segundo filme de Marlon Brando. Ele tinha 27 anos quando o filme foi lançado.
Kazan manteve um rico diário sobre Uma Rua Chamada Pecado. Suas anotações revelam diversas reflexões interessantes sobre o seu trabalho. Talvez seja dele a melhor definição para o filme/peça:
 
“Esta obra é uma tragédia poética. Nós somos testemunhas da decadência final de uma pessoa de valor que, em um dado momento de sua vida, tem um grande potencial e que, mesmo em seu declínio, possui qualidades que superam aquelas dos ‘sãos’ e rudes que a destroem”.

O filme de Kazan é sem dúvida uma obra-prima, resultado de encontros insólitos e de um conjunto de golpes de sorte: o filme poderia não ter saído do papel se não fosse graças a Jack Warner; Kazan poderia não ter dirigido o filme se não fosse pela intervenção de Tennesse Williams; o filme poderia ter sido fatalmente amputado por causa da censura; Leigh poderia não ter participado, caso Olivia de Havilland tivesse aceitado o papel; etc, etc, etc. O filme, ainda nos dias de hoje, se revela um ousado retrato do combate entre a ilusão e a realidade, entre a sanidade e a loucura e entre o desejo e a morte.

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Em 2007, o American Film Institute classificou o filme em 47º lugar na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos. 


TEXTO DE MINHA AUTORIA, PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIA 28/03/2012 NA COLUNA CINEMATECA, DO SITE CINEMA EM CENA.