
Cena de A Malvada.
As versões brasileiras de títulos de filmes estrangeiros são, muitas vezes, motivo de piada. No entanto, não podemos culpar a falta de criatividade das traduções que, eventualmente, conseguem ser mais poéticas e interessantes do que os títulos originais. Lembrando alguns exemplos de clássicos hollywoodianos, temos Ardida como Pimenta (para Calamity Jane - 1953), Assim Caminha a Humanidade (para Giant - 1956), A Primeira Noite de um Homem(para The Graduate - 1967), Da Terra Nascem os Homens (para The Big Country - 1958), Os Brutos Também Amam (para Shane - 1953), Crepúsculo dos Deuses (para Sunset Blvd.- 1950) e A Malvada (para All About Eve - 1950).
O caso de A Malvada é particularmente interessante. Além de ser obviamente diferente e talvez mais impactante do que o original, o título nacional parece induzir o espectador a um engano que tem tudo a ver com o espírito do filme. Explico: para o público de 1950, ano em que o longa-metragem foi lançado, a imagem de malvada estava muito mais associada à Bette Davis, intérprete de Margo Channing e estrela do filme, do que a Anne Baxter, que interpreta a verdadeira vilã, Eve Harrington. Joseph L. Mankiewicz, diretor e roteirista do clássico, também utiliza a mesma estratégia no filme! Mankiewicz retarda o quanto pode a confirmação do mau-caratismo de Eve, alimentando a dúvida sobre as protagonistas. Se até mesmo nos dias de hoje algumas pessoas se surpreendem, ao longo do filme, ao descobrirem que a malvada é de fato Eve, imagine nos anos 50?
Davis não fez apenas megeras ou vilãs no cinema, mas sempre mostrou um talento único para interpretá-las. Para se ter uma ideia da reputação que a atriz alcançou por conta de tais personagens, basta dizer que o filme protagonizado por ela em 1949, Beyond the Forest(Além da Floresta, em português), foi traduzido no Brasil como o esdrúxulo A Filha de Satanás. Até 1950, quando A Malvada estreou no cinema, a atriz já havia colecionado algumas megeras remarcáveis, como Mildred Rogers (em Escravos do Desejo - 1934) e Regina Giddens (emPérfida - 1941), além de mocinhas nada convencionais ou adocicadas, como Joyce Heath (emPerigosa – 1935) e Julie (em Jezebel - 1938).

As várias faces de Bette Davis.
No fim dos anos 40, já desvinculada da Warner Bros., Davis tentava dar um novo rumo a sua carreira que havia entrado em franca decadência. Muitos estavam convencidos da aposentadoria da atriz. Mas eis que, inesperadamente, surge a oportunidade de substituir Claudette Colbert no novo projeto de Mankiewicz. Ao ler o roteiro, Davis soube imediatamente que Margo Channing era a sua grande chance de dar a volta por cima. Ela filmou em apenas 16 dias, levou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes pelo papel e foi indicada pela nona vez ao Oscar. Os críticos que haviam sido tão duros com ela nos anos anteriores se renderam aos seus pés. A renomada crítica de cinema americana Pauline Kael não gostou da maneira com o qual Mankievics retratou o universo teatral, mas afirmou que a performance de Davis salvou o filme e que a atriz foi ao limite das reações e emoções de sua personagem, fazendo com que tudo ganhasse vida.
Joseph L. Mankiewicz (foto; irmão de Herman J. Mankiewicz, co-roteirista de Cidadão Kane) queria realizar um filme que abordasse a vida de uma atriz já madura. Quando leu o conto The Wisdom of Eve (1946), da escritora americana Mary Orr, o diretor encontrou o material perfeito para o seu projeto. The Wisdom of Eveé baseado em uma história real, mais precisamente no que ocorreu com a atriz austríaca Elisabeth Bergner e sua secretária em Viena. A despeito disso, muitos especularam que o filme era baseado, de fato, na vida da atriz Tallulah Bankhead, grande dama do teatro americano que trabalhou também no cinema. Bankhead chegou a afirmar que arrancaria cada “pelo do bigode de Bette Davis”, nada contente com uma suposta imitação. Tanto Mankiewicz, quanto Davis desmentiram veementemente que o filme fosse inspirado em Bankhead, mas a lenda persistiu.
A Malvada conta a história de Margo, uma bem-sucedida e temperamental atriz de teatro que tem sua vida vampirizada por uma ambiciosa aspirante à celebridade, Eve (referência à Eva bíblica do pecado original?). Davis descrevia sua personagem como “uma atriz envelhecendo e nada feliz com isso”. Sem dúvida, Margo é a personagem mais autobiográfica que Davis já interpretou no cinema. As duas partilham a mesma profissão, a mesma tenacidade, a língua ferina (veja as frases de Davis abaixo) e o temperamento difícil.
A primeira cena do filme se passa numa premiação, quando Eve (Baxter) está prestes a receber o prêmio de Melhor Atriz de teatro. Através de um longo flashback e da intervenção de diferentes narradores e pontos de vista (predominando a do cínico crítico teatral Addison DeWitt, interpretado por George Sanders), acompanhamos a maneira com a qual Eve conseguiu alcançar o sucesso e a fama tão desejados.
Eve (Baxter) agradece pelo prêmio de Melhor Atriz em cena do filme.
Por falar em prêmio de Melhor Atriz, Davis era a favorita ao Oscar em1951 (mesmo tendo como concorrente Gloria Swanson, por Crepúsculo dos Deuses). A ironia do destino é que ela foi atrapalhada justamente por Anne Baxter (sua antagonista no filme), que exigiu ser promovida como principal e, ao ser indicada na mesma categoria que a colega, provavelmente ocasionou a divisão de votos entre as duas, fazendo com que a estatueta fosse para a zebra Judy Holliday, por sua interpretação na ótima comédia Nascida Ontem (1950). A Malvadaentrou para a história da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas por possuir o recorde de indicações ao Oscar, 14 no total. Esse número só foi igualado por Titanic (1997).
10 pérolas de Bette Davis
1 - Tenho sido inflexível, raivosa, intratável, obsessiva, sem tato, inconstante e, por vezes, desagradável. Suponho que eu seja maior que a vida.
2 - Gary era um macho man, mas nenhum dos meus maridos foram jamais homens o suficiente para se tornarem o Sr. Bette Davis. [Sobre seu ex-marido Gary Merrill]
3 - Existiam melhores atuações nas festas de Hollywood do que jamais houve nas telas.
4 - Ela deve saber tudo sobre closes-ups! Meu Deus, ela estava lá quando eles foram inventados! [Sobre Lillian Gish]
5 - Não urinaria nela se ela estivesse pegando fogo. [Sobre Joan Crawford]
6 - Ela dormiu com todas as estrelas masculinas da MGM, com exceção de Lassie. [Sobre Joan Crawford]
7 - Você nunca deve falar coisas ruins sobre os mortos, apenas coisas boas. Joan Crawford morreu. Bom! [Sobre Joan Crawford]
8 - Joan sempre chora bastante, seus ductos lacrimais devem ser muito próximos de sua bexiga. [Sobre Joan Crawford]
9 - Quero morrer de salto alto, ainda em cena.
10 - Quando eu morrer, irão provavelmente leiloar meus cílios postiços.
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Histórias dos bastidores das filmagens de A Malvada, contam que Davis e Celeste Holm (que interpreta a melhor amiga de Margo na trama) se odiavam. Curiosamente, Davis tornou-se grande amiga de Baxter, sua rival no filme. Para a surpresa de muitos, Mankiewicz afirmou que Davis era uma das atrizes mais prestativas, profissionais e comprometidas com quem ele já havia trabalhado, a despeito dos boatos que diziam que ela era problemática nos sets. A Malvada também marcou a vida pessoal de Davis. Foi durante as filmagens que a estrela se apaixonou pelo seu futuro marido, o ator Garry Merrill, que interpreta seu par romântico na história.
A Malvada foi um imenso sucesso na época de seu lançamento e é considerado, por muitos, um dos melhores filmes já realizados sobre o mundo do teatro. No entanto, mais do que uma visão sobre o universo teatral, o longa de Mankiewicz é um retrato crítico e impiedoso doshow business. O filme é famoso também por seus diálogos afiados, pelas frases antológicas (leia abaixo) e pelo ótimo conjunto de atuações. Encabeçando o elenco, temos Davis que nos presenteia com a melhor atuação da sua carreira, numa performance cheia de fúria e intensidade. O maior mérito da atriz é o de humanizar a personagem, revelando também sua vulnerabilidade e seus defeitos. Sua interpretação se contrapõe perfeitamente com a da quase robótica e fria Baxter. Quem também brilha é a eterna coadjuvante Thelma Ritter, que está impagável na pele de Birdie (personagem escrita especialmente para ela). Sanders e Holm também estão excelentes. Esses cinco atores foram indicados ao Oscar, apenas Sanders ganhou. Ainda sobre a premiação, outro recorde obtido por A Malvada, que ainda não foi quebrado, é o de número de indicações (quatro) para atuações femininas em um mesmo filme. O clássico de 1950 também é lembrado por ser aquele que abriu as portas da fama para Marilyn Monroe. A rápida participação da atriz no filme não passou despercebida e, logo a seguir, sua carreira decolou em Hollywood.

Foto do elenco: Gary Merrill, Bette Davis, George Sanders, Anne Baxter, Hugh Marlowe e Celeste Holm.
O sucesso de A Malvada é tão grande e universal que inspirou até mesmo uma novela brasileira, Celebridade (2003/2004). O filme é o ponto máximo da carreira de Mankiewicz e de Davis e impressiona, até hoje, pelo seu humor ácido e pelo seu caráter atual, tocando em diversos temas que continuam pertinentes, como a inveja, a ambição, o desejo de fama a qualquer preço e a dificuldade de se encarar o envelhecimento e de se conciliar amor e carreira. O filme foi premiado com seis Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Figurino, Melhor Som e Melhor Roteiro), um Globo de Ouro (Melhor Roteiro) e ocupa o 28o lugar na lista dos 100 Melhores Filmes do Cinema produzida pelo American Film Institute (AFI).
Conheça ou relembre, abaixo, algumas falas célebres de A Malvada:
Margo Channing: Bill tem 32 anos. Ele parece ter 32 anos. Ele já parecia cinco anos atrás e ele continuará parecendo daqui a 20 anos. Eu odeio os homens.
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Margo Channing: Apertem os cintos, esta noite será turbulenta!
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Birdie: Tem uma mensagem do bartender. “Será que Miss Channing sabe que encomendou gin nacional por engano?”
Margo: A única coisa que encomendei por engano foram os convidados.
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Addisson DeWitt: Enquanto espera, leia minha coluna. Fará minutos passar como horas!
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Eve Harrington: Saia! (abrindo a porta)
Addisson DeWitt: Você é muito pequena para tamanho gesto!
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Karen Richards: Nada é para sempre no teatro. O que quer que esteja lá, se inflama, queima e depois desaparece.
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TEXTO DE MINHA AUTORIA PUBLICADO INICIALMENTE NA COLUNA CINEMATECA, DO SITE CINEMA EM CENA NO DIA 25/01/2012.

















Uma das perguntas mais interessantes a se fazer com relação a E o Vento Levou é: quem é o verdadeiro autor do longa-metragem? Normalmente, o diretor é aquele a quem atribuímos a autoria de um filme, seu fracasso ou seu sucesso. Com o nosso filme, isso não funcionaria. Para começar, E o Vento Levou foi assumido por três diretores (o oficial, Victor Fleming - foto - e os não creditados George Cukor e Sam Wood) e nenhum deles conseguiu ter liberdade suficiente para imprimir ao filme sua visão da história e seu estilo. Isso se explica pelo fato de o produtor David O. Selznick ser extremamente intervencionista.
A partir do momento em que foi anunciada a adaptação cinematográfica do romance de Margaret Mitchell, houve uma participação massiva do povo americano no projeto, tamanha era a popularidade da história. Em uma pesquisa nacional realizada na época, Clark Gable (foto) foi escolhido como o favorito do público para encarnar o protagonista Rhett Butler. Gable, que declarou nunca ter terminado de ler o livro, estava receoso e relutante em interpretar o personagem. Além disso, o ator tinha contrato com a MGM e, de acordo com o studio system, ele não poderia fazer o filme, já que estava "preso" ao estúdio de Louis B. Mayer. Selznick, no entanto, negociou com o sogro e conseguiu com que Gable fosse emprestado, desde que em troca a MGM fosse encarregada pela distribuição do filme. Gable não tinha opção. Pressionado, ele aceitou ser o intérprete de Rhett Butler, mesmo temendo decepcionar o público.
Muito mais complicada e demorada foi a escolha da protagonista feminina, a (anti)heroína Scarlett O’Hara. Diversos nomes famosos foram cogitados, como o de Bette Davis. A atriz se mostrara extremamente interessada pelo papel, mas veio a recusá-lo, uma vez que seu empréstimo para o filme estava condicionado ao empréstimo de Errol Flynn como seu par romântico (e ela odiava mortalmente o ator). Paulette Goddard (foto à esquerda) foi a atriz que mais se aproximou de ser a escolhida de Selznick. O produtor havia gostado bastante do seu teste. Por temer a má repercussão do relacionamento de Goddard com Charles Chaplin, Selznick acabou por desistir dela.
Mais de 1.400 atrizes se candidataram ao papel e mais de 400 testes foram realizados. Myron Selznick, irmão de David, estava trazendo para os Estados Unidos o ator inglês Laurence Olivier para seu primeiro filme americano. Olivier tinha um caso com Vivien Leigh (foto à direita), atriz desconhecida nos Estados Unidos. Como o casal não queria se separar, a vinda de Leigh tornava-se necessária. Myron teve, então, a ideia de indicar Leigh para o papel de Scarlett. Ao apresentar a atriz ao irmão, ele disse: “Eis sua Scarlett!” David Selznick já havia visto alguns filmes da atriz e não havia se impressionado. No entanto, ele ficou encantado com o teste da inglesa. Boa parte do público repercutiu negativamente a escolha de uma atriz não americana para o papel de Scarlett O’Hara. Hoje em dia, é quase impossível pensar em outra atriz na pele da personagem icônica.
Muitos problemas interferiram nas filmagens de E o Vento Levou. Selznick exigiu diversas mudanças no roteiro, que acabou sendo escrito a cinco mãos. Paginas do script chegavam a ser reescritas no mesmo dia de sua filmagem. Para a direção do longa-metragem, o produtor convidara o amigo George Cukor. Após algum tempo de filmagem, Selznick o afastou da produção, afirmando não estar gostando do resultado. Cukor, conhecido por saber retratar com sensibilidade o universo feminino, tinha uma ótima relação com Leigh e Havilland, mas não se dava bem com Gable. O ator sentia que o diretor dava muito mais atenção às mulheres. No lugar de Cukor, que era homossexual, Selznick colocou Victor Fleming, que tinha a fama de machista, e que era amigo de Gable. Leigh e Havilland odiavam o novo diretor. Após brigas homéricas com Leigh, Fleming se afastou. Sam Wood foi então chamado, mas Selznick não gostou nada do resultado, sendo obrigado a chamar Fleming de volta para dirigir o restante das principais cenas.
E o Vento Levou estreou nos Estados Unidos em 15 de dezembro de 1939. O filme ganhou oito Oscars (Melhor Filme, Direção, Roteiro, Atriz, Atriz Coadjuvante, Direção de Arte, Fotografia e Montagem) além de dois prêmios especiais pelos avanços técnicos promovidos pelo longa. O filme continua a ser o campeão absoluto de bilheteria em termos de número de espectadores (202 milhões de ingressos vendidos*), superando, neste quesito, o campeão de arrecadação, o filme Avatar (2009), de James Cameron (61 milhões de ingressos*). E o Vento Levou sustenta, portanto, há 72 anos, o status de filme mais visto de todos os tempos nos cinemas. Muito ainda pode ser dito sobre ele, mas este é apenas o primeiro texto da nossa coluna e, com certeza, o clássico produzido por David O. Selznick aparecerá por aqui outras vezes.





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