sexta-feira, 29 de junho de 2012

Repulsa ao Sexo - 1965

Título Original: Repulsion 
Lançamento: 1965
País: Reino Unido 
Direção: Roman Polanski
Atores: Catherine DeneuveIan Hendry e John Fraser
Duração: 105
Gênero: Drama/ Thriller


Repulsa ao Sexo (1965) é o segundo longa-metragem da carreira do cineasta franco-polonês Roman Polanski. O filme é o primeiro volume da famosa "trilogia do apartamento", da qual também fazem parte O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976). Repulsa ao Sexo foi filmado no Reino Unido, sendo o primeiro filme em inglês do diretor, que viria a filmar também na França e nos Estados Unidos. O cineasta, que realizou apenas um longa-metragem em seu país, Polônia, teve uma vida marcada por traumas e problemas judiciais. Em 1969, sua esposa, a atriz Sharon Tate, foi brutalmente assassinada por membros da família Manson. Em 1977, o diretor foi acusado de abuso sexual contra uma adolescente de 13 anos, não podendo mais retornar aos Estados Unidos, onde fez dois de seus maiores clássicos: O Bebê de Rosemary e Chinatown (1974).

Repulsa ao Sexo apresenta uma forte influência do surrealismo, principalmente de obras do espanhol Luis Buñuel. O filme, que combina drama psicológico, terror e thriller de maneira magistral, conta a história de Carol (Catherine Deneuve), uma jovem belga que vive com a irmã num pequeno apartamento em Londres, onde trabalha como manicure. Apesar de atrair a atenção de muitos homens, entre eles, do apaixonado Collin (John Fraser), a bela moça parece ter aversão ao sexo masculino. Quando a irmã mais velha (Yvonne Furneaux) viaja com o namorado (Ian Hendry) e deixa Carol sozinha no apartamento, a sanidade desta começa a se desestabilizar e estranhos eventos acontecem. A exuberante atriz francesa Catherine Deneuve tinha apenas 22 anos quando deu vida a uma das personagens mais importantes de sua carreira.


Muitas das narrativas de Polanski são construídas sob uma atmosfera sombria, incerta e angustiante. O tema da paranoia é também relevante em sua filmografia, podendo ser verificado em alguns de seus filmes, como O Inquilino e o próprio Repulsa ao Sexo. Polanski sempre revelou um imenso fascínio pelas neuroses humanas. O roteiro de Repulsa ao Sexo foi escrito pelo diretor em parceria com Gérard Brach. Um dos maiores atrativos do filme é a construção da personagem central, uma figura que impressiona por sua fragilidade, seu ar alienado e perdido e, ao mesmo tempo, pela sua alta periculosidade. Polanski não se preocupa em dar justificativas sobre o comportamento de sua protagonista, que pode ter origem em algum trauma de infância, como um possível estupro. Uma coisa, no entanto, parece ser certa: qualquer que seja a origem precisa dos traumas da personagem, ela está relacionada ao sexo e à sexualidade.

Polanski retrata brilhantemente a vida psicológica da personagem, recriando suas alucinações e transformando os medos dela em imagens, através de belas sequências de inspiração expressionista e surrealista.  A intensa vida interior de Carol se contrapõe à sua personalidade aparentemente insípida e retraída. O filme nos permite ainda supor que a aversão da personagem ao gênero masculino e ao sexo é  fruto de um desejo mal resolvido, reprimido e que lhe causa pavor. A existência de um convento ao lado do prédio da protagonista e mesmo sua vestimenta (ela está quase sempre vestida de branco) parecem simbolizar a pureza da virginal personagem. Carol é confrontada ao apelo do sexo pela presença do namorado da irmã em casa, pelos ruídos de sexo durante a noite e pelo assédio de um pretendente. O coelho na trama, por sua vez, é quase uma metáfora da própria fragilidade da personagem, que se sente coagida pelos seus predadores. 


Repulsa ao Sexo é abrilhantado por uma sedutora fotografia em preto e branco, belíssimos enquadramentos e uma elegância ímpar na direção. Além de ser esteticamente primoroso, o filme conta com uma atuação impressionante da belíssima Catherine Deneuve, cuja composição em nada se assemelha às femmes fatales que interpretaria posteriormente. Deneuve expõe, de maneira eficiente, o desconforto, a alienação, a dificuldade de se comunicar da personagem. É interessante observar que, na foto de família, presente no apartamento, Carol se diferencia dos outros familiares. Ela aparece ainda criança, com um olhar perdido e em segundo plano. Esse já é um indício do caráter isolado e "especial" da personagem. É importante salientar também que Polanski cria uma personagem sexualmente atraente, que se recusa a ser um objeto sexual.

Angustiante e instigante, Repulsa ao Sexo é uma das primeiras obras-primas da belíssima filmografia de Roman Polanski. Esse thriller com toques de terror, é um clássico que explora as dimensões tortuosas da psicologia humana. 



Veja mais fotos do filme:














Assista ao trailer:



quinta-feira, 28 de junho de 2012

Clássicos da Cinemateca - E o Vento Levou... (1939)


Divulgação
Quem nunca ouviu falar de E o Vento Levou? Ou citou, mesmo sem saber a origem, uma de suas frases célebres, como “Amanhã é um novo dia”? Quem não conhece o tema musical de Tara, composto pelo genial Max Steiner, nem que seja através do seriado Chaves? Pois bem, o épico romântico é um dos filmes mais amados, parodiados e citados da história. O que não significa que seja uma unanimidade. Alguns o comparam ao polêmico Nascimento de uma Nação (1915), de D.W. Griffith, pela maneira como a sociedade escravista é representada. Outros torcem o nariz para o caráter melodramático do filme, pelo que chamam de “quatro horas de novela mexicana”. Detratores à parte, E o Vento Levou sustenta o status de um dos filmes mais populares do cinema. No texto de estreia da coluna Cinemateca, dedicada aos clássicos, tentaremos desvendar os bastidores deste que é um dos maiores sucessos artísticos e comerciais de todos os tempos da indústria cinematográfica.
DivulgaçãoUma das perguntas mais interessantes a se fazer com relação a E o Vento Levou é: quem é o verdadeiro autor do longa-metragem? Normalmente, o diretor é aquele a quem atribuímos a autoria de um filme, seu fracasso ou seu sucesso. Com o nosso filme, isso não funcionaria. Para começar, E o Vento Levou foi assumido por três diretores (o oficial, Victor Fleming - foto - e os não creditados George Cukor e Sam Wood) e nenhum deles conseguiu ter liberdade suficiente para imprimir ao filme sua visão da história e seu estilo. Isso se explica pelo fato de o produtor David O. Selznick ser extremamente intervencionista.
Selznick é um dos maiores produtores da Hollywood Clássica. Controlador, amante das adaptações literárias e das produções grandiosas, o genro do poderoso Louis B. Mayer era o pesadelo de qualquer cineasta, já que sempre impunha a sua vontade. Selznick é, sem dúvida, o maior responsável pelo sucesso de E o Vento Levou. Ele comprou os direitos da adaptação do romance de Margaret Mitchell antes mesmo dele se tornar um best-seller e começou sua produção em 1936.
Seria, no entanto, injusto atribuir a autoria de E o Vento Levou somente a Selznick. William Cameron Menzies, renomado diretor de arte, é responsável pela concepção estética do filme, assim como pelo magistral uso das cores, com destaque para o característico vermelho saturado. Menzies foi contratado por Selznick para produzir o storyboard de cada tomada do filme. E o Vento Levou foi um dos primeiros longas a ter cada uma de suas sequências planejadas através do processo do storyboarding. Menzies foi importante também por ter dado unidade ao filme, que poderia ter sido uma bagunça devido à troca constante de diretores.
DivulgaçãoA partir do momento em que foi anunciada a adaptação cinematográfica do romance de Margaret Mitchell, houve uma participação massiva do povo americano no projeto, tamanha era a popularidade da história. Em uma pesquisa nacional realizada na época, Clark Gable (foto) foi escolhido como o favorito do público para encarnar o protagonista Rhett Butler. Gable, que declarou nunca ter terminado de ler o livro, estava receoso e relutante em interpretar o personagem. Além disso, o ator tinha contrato com a MGM e, de acordo com o studio system, ele não poderia fazer o filme, já que estava "preso" ao estúdio de Louis B. Mayer. Selznick, no entanto, negociou com o sogro e conseguiu com que Gable fosse emprestado, desde que em troca a MGM fosse encarregada pela distribuição do filme. Gable não tinha opção. Pressionado, ele aceitou ser o intérprete de Rhett Butler, mesmo temendo decepcionar o público.
A escolha dos coadjuvantes se deu com certa tranquilidade. Olivia de Havilland, uma das atrizes americanas mais populares da segunda metade dos anos 30, queria dar um novo rumo a sua carreira e deixar de lado os papéis que lhe deram fama nos filmes de capa e espada. Ela foi indicada pela irmã Joan Fontaine e aceitou rapidamente ser a intérprete de Melanie Wilkes. Para viver Ashley Wilkes, Selznick não queria outro que não Leslie Howard. Para participar do filme, o ator exigiu que Selznick produzisse seu próximo filme: Intermezzo – A Love Story (1939). Howard não gostava nem um pouco de seu personagem, nunca leu o livro, se achava velho para o papel e só se importava em decorar suas falas. Ele acreditava que E o Vento Levou era um filme de mulher.
DivulgaçãoMuito mais complicada e demorada foi a escolha da protagonista feminina, a (anti)heroína Scarlett O’Hara. Diversos nomes famosos foram cogitados, como o de Bette Davis. A atriz se mostrara extremamente interessada pelo papel, mas veio a recusá-lo, uma vez que seu empréstimo para o filme estava condicionado ao empréstimo de Errol Flynn como seu par romântico (e ela odiava mortalmente o ator). Paulette Goddard (foto à esquerda) foi a atriz que mais se aproximou de ser a escolhida de Selznick. O produtor havia gostado bastante do seu teste. Por temer a má repercussão do relacionamento de Goddard com Charles Chaplin, Selznick acabou por desistir dela.
DivulgaçãoMais de 1.400 atrizes se candidataram ao papel e mais de 400 testes foram realizados. Myron Selznick, irmão de David, estava trazendo para os Estados Unidos o ator inglês Laurence Olivier para seu primeiro filme americano. Olivier tinha um caso com Vivien Leigh (foto à direita), atriz desconhecida nos Estados Unidos. Como o casal não queria se separar, a vinda de Leigh tornava-se necessária. Myron teve, então, a ideia de indicar Leigh para o papel de Scarlett. Ao apresentar a atriz ao irmão, ele disse: “Eis sua Scarlett!” David Selznick já havia visto alguns filmes da atriz e não havia se impressionado. No entanto, ele ficou encantado com o teste da inglesa. Boa parte do público repercutiu negativamente a escolha de uma atriz não americana para o papel de Scarlett O’Hara. Hoje em dia, é quase impossível pensar em outra atriz na pele da personagem icônica.
DivulgaçãoMuitos problemas interferiram nas filmagens de E o Vento Levou. Selznick exigiu diversas mudanças no roteiro, que acabou sendo escrito a cinco mãos. Paginas do script chegavam a ser reescritas no mesmo dia de sua filmagem. Para a direção do longa-metragem, o produtor convidara o amigo George Cukor. Após algum tempo de filmagem, Selznick o afastou da produção, afirmando não estar gostando do resultado. Cukor, conhecido por saber retratar com sensibilidade o universo feminino, tinha uma ótima relação com Leigh e Havilland, mas não se dava bem com Gable. O ator sentia que o diretor dava muito mais atenção às mulheres. No lugar de Cukor, que era homossexual, Selznick colocou Victor Fleming, que tinha a fama de machista, e que era amigo de Gable. Leigh e Havilland odiavam o novo diretor. Após brigas homéricas com Leigh, Fleming se afastou. Sam Wood foi então chamado, mas Selznick não gostou nada do resultado, sendo obrigado a chamar Fleming de volta para dirigir o restante das principais cenas.
DivulgaçãoE o Vento Levou estreou nos Estados Unidos em 15 de dezembro de 1939. O filme ganhou oito Oscars (Melhor Filme, Direção, Roteiro, Atriz, Atriz Coadjuvante, Direção de Arte, Fotografia e Montagem) além de dois prêmios especiais pelos avanços técnicos promovidos pelo longa. O filme continua a ser o campeão absoluto de bilheteria em termos de número de espectadores (202 milhões de ingressos vendidos*), superando, neste quesito, o campeão de arrecadação, o filme Avatar (2009), de James Cameron (61 milhões de ingressos*). E o Vento Levou sustenta, portanto, há 72 anos, o status de filme mais visto de todos os tempos nos cinemas. Muito ainda pode ser dito sobre ele, mas este é apenas o primeiro texto da nossa coluna e, com certeza, o clássico produzido por David O. Selznick aparecerá por aqui outras vezes.
* Fonte: Box Office Mojo, 05/02/2010
TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA COLUNA CINEMATECA DE MINHA AUTORIA EM 11 DE JANEIRO DE 2012.

terça-feira, 19 de junho de 2012

4 meses, 3 semanas e 2 dias - 2007

Título Original: 4 luni, 3 saptamâni si 2 zile
Lançamento: 2007
País: Romênia 
Direção: Cristian Mungiu
Atores: Anamaria Marinca, Vlad Ivanov, Laura Vasiliu
Gênero: Drama
Duração: 113 min
Anamaria Marinca e Laura Vasiliu protagonizam 4 meses, 3 semanas e 2 dias.
Laureado com o prêmio de Melhor Roteiro na edição deste ano do Festival de Cannes pelo filme Além das Colinas (2012), o cineasta romeno Cristian Mungiu já havia dado o que falar 5 anos antes, quando o segundo longa-metragem de sua carreira4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), levou a Palma de Ouro no mesmo festival. O multipremiado filme de 2007 é ambientado na Romênia de 1987. O filme retrata uma Romênia comunista, ainda sob o poder do ditador Nicolae Ceauşescu, que viria a ser executado dois anos depois. 

4 meses tem como pano de fundo, uma Romênia cinzenta, triste e fria (salientada pela ótima fotografia), um país privado dos luxos e de certos confortos propiciados pelo capitalismo. Trata-se de um universo sombrio, em que determinados bens, produtos e marcas, só podem ser encontrados de maneira clandestina. O filme acompanha um dia na vida de Otilia (Anamaria Marinca) e Gabriela (Laura Vasiliu), duas grandes amigas que dividem um quarto numa república de estudantes. A história se inicia em media res, no fim de uma conversa entre as duas universitárias em que essas, provavelmente, tomam uma decisão que definirá o que farão a seguir, algo que permanece velado ao espectador até certo ponto da narrativa. Aos poucos, o espectador compreende que Otília está ajudando "Gabita", a melhor amiga, a planejar e realizar um aborto (o título do filme é uma referência ao tempo de gestação de Gabriela). É sobre os ombros de Otília que recai a responsabilidade de arranjar os últimos preparativos do procedimento, um grave crime no país. A moça deve encontrar um lugar seguro para a realização do aborto, contatar aquele que executará o procedimento e ainda lidar com problemas inesperados. Com pragmatismo e coragem, Otília chega a fazer sacrifícios para que tudo dê certo ao final. 

Mungiu confere uma dramaticidade extraordinária à narrativa, que é relativamente simples, circunscrita a algumas horas na vida das protagonistas. O diretor romeno faz uso de belos e longos planos-sequências, abre mão da trilha sonora e explora magistralmente os "tempos mortos da narrativa" não apenas para dar o máximo de realismo a cada cena, mas também para captar o impacto que cada decisão tem sobre os personagens, a reação dos mesmos diante de situações-limites e para dar a real dimensão do sofrimento que, por vezes, não pode ser expressado com palavras. Mungiu prova sua habilidade e talento ao criar momentos completamente angustiantes, contrapondo as preocupações e os conflitos internos da protagonista ao mundo a sua volta, que, por vezes, se revela inesperadamente inóspito e agressivo. 

Fugindo dos clichês e descartando as reviravoltas hollywoodianas, Mungiu concentra a força de seu longa-metragem no estudo psicológico de suas personagens e na dilatação da tensão no centro de uma trama relativamente simples, ancorada no quotidiano de pessoas reais, com problemas reais. Podemos perceber isso, em uma das cenas mais memoráveis do filme, um longo plano-sequência, em que Mungiu posiciona a protagonista no centro da tela, na extremidade de uma mesa de jantar, enquanto esta é rodeada de personagens que não cessam de falar, rir e se movimentar. Trata-se de um simples jantar na casa do namorado. Longe de servir como um parênteses na narrativa, um momento de descontração ou algo que desvie a atenção do conflito central da trama, tal  "acontecimento" é uma provação a mais que Otília deve enfrentar no seu dia. Ainda que a moça permaneça praticamente calada, o desconforto da personagem, sua agitação interior e a urgência que vem com a passagem do tempo, fazem com que a cena ganhe contornos dramáticos que contrastam com seu caráter aparentemente trivial. 

Mesmo que não explicite uma posição favorável ou contrária à prática do aborto, Mungiu mostra de forma contundente o que há de violento por trás da prática clandestina, tanto ao mostrar cruamente o procedimento, como na forte cena em que o feto em questão é exibido ao espectador. Sem ser panfletário, 4 meses reaviva a questão da interrupção da gravidez, sendo um dos filmes mais interessante a tratar do assunto. 

Além da direção primorosa, 4 meses conta com um grande trabalho de seus atores principais. Anamaria Marinca, uma das grandes revelações do cinema romeno, incorpora com intensidade e naturalidade sua personagem e confere verossimilhança ao drama de Otília, que não deixa de ser uma heroína moderna. A protagonista assume uma responsabilidade que não é sua e encara uma jornada difícil em nome da amizade. Ao final, a personagem é tão ou mais exigida que a verdadeira grávida. Já a atriz Laura Vasiliu se destaca ao dar vida à fragilíssima Gabriela, o contraponto de Otília, uma personagem que impressiona tanto pela sua voz suave, quanto pelo seu comportamento irresponsável e quase infantil. Por fim, Vlad Ivanov interpreta o cafajeste Sr. Bebe, um sujeito verdadeiramente monstruoso. Apesar de pequena, a participação do ator é marcante e sua performance é impressionante.

Cristian Mungiu é um dos maiores representantes do cinema romeno atual. 4 semanas, 3 semanas e 2 dias é uma obra-prima envolvente e impactante: um filme nó-na-garganta. É inevitável não nutrir altas expectativas para a nova obra de Mungiu, Além das Colinas, ainda sem estreia prevista no Brasil. 

Assista ao trailer:



terça-feira, 12 de junho de 2012

Os melhores filmes para se assistir no Dia dos Namorados

No dia mais romântico do ano, o Clube do Filme elege os melhores filmes para se assistir com a pessoa amada nesta data especial. 

1 - Bonequinha de Luxo (1961)
Dir.: Blake Edwards


O clássico de 1961 é um dos filmes mais românticos de todos os tempos. Protagonizado pela inesquecível Audrey Hepburn, o filme foi dirigido por Blake Edwards e é baseado em um conto de Truman Capote. O filme foi indicado a 5 Oscar's, tendo ganhado o de Melhor Trilha Sonora e o de Melhor Canção (para "Moon River"). 

2 - Dirty Dancing - Ritmo Quente (1987)
Dir.: Emile Ardolino


Um dos romances mais famosos dos anos 80 conta a história de amor entre "Baby" e seu professor de dança (Jennifer Grey e Patrick Swayze, respectivamente). "(I've Had) The Time of My Life" ganhou o Oscar de Melhor Canção. 

3 - O Feitiço da Lua (1987)
Dir.: Norman Jewison


O Feitiço da Lua deu o Oscar de Melhor Atriz à cantora Cher e lançou Nicolas Cage à fama. A ótima comédia romântica ainda ganhou outros dois Oscar's (Melhor Atriz Coadjuvante para Olympia Dukakis e Melhor Roteiro Original).  

4 - Harry e Sally - Feitos um para o outro (1989)
Dir.: Rob Reiner


Billy Crystal e Meg Ryan estrelam uma das comédias românticas mais divertidas de todos os tempos. O roteiro é de Nora Ephron (indicada ao Oscar), que dirigiu Sintonia de Amor (1993) e o recente Julie & Julia (2009).

5 - Digam o que quiserem (1989)
Dir.: Cameron Crowe


John Cusack interpreta um homem completamente apaixonado no cult Digam o que disseram, o primeiro filme de Cameron Crowe. 

6 - Ghost - Do outro lado da vida (1990) 
Dir.: Jerry Zucker


Patrick Swayze e Demi Moore protagonizam uma das histórias de amor mais conhecidas do cinema. O filme foi indicado a 5 Oscar's, tendo levado o de Melhor Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg) e o de Melhor Roteiro Original. 

7 - Uma Linda Mulher (1990)
Dir.: Garry Marshall

Julia Roberts foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e ganhou o Globo de Ouro por sua atuação em Uma Linda Mulher. Ela e Richard Gere protagonizam um conto de fadas moderno. 

8 - Sintonia de Amor (1993)
Dir.: Nora Ephron


Sintonia de Amor é um jovem clássico, considerado um dos filmes mais românticos do cinema. O longa-metragem, estrelado por Tom Hanks e Meg Ryan, foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original e Melhor Canção ("A Wink and a Smile").

9 - Quatro Casamentos e Um Funeral (1994)
Dir.: Mike Newell


A comédia romântica inglesa alavancou a carreira de Hugh Grant e fez escola. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. 

10 - Enquanto você dormia (1995)
Dir.: Jon Turteltaub


Sandra Bullock foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz (Comédia) por sua performance em Enquanto Você Dormia. Bill Pullman e Peter Gallagher completam o divertido triângulo amoroso. 

11 - Razão e Sensibilidade (1995)
Dir.: Ang Lee

 
Razão e Sensibilidade é um dos melhores filmes do grande cineasta Ang Lee. Com um elenco espetacular, o drama inglês é baseado numa das obras mais conhecidas da escritora Jane Austen. O filme foi indicado a 7 Oscar's, tendo levado o de Melhor Roteiro. 

12 - Shakespeare Apaixonado (1998)
Dir.: John Madden


Shakespeare Apaixonado ganhou 7 Oscar's, dentre eles o de Melhor Filme e o de Melhor Atriz (Gwyneth Paltrow). O filme conta a história de amor impossível entre o jovem Shakespeare e uma linda mulher da nobreza. 

13 - Um lugar chamado Notting Hill (1999)
Dir.: Roger Michell


Julia Roberts e Hugh Grant protagonizam uma das comédias românticas mais célebres de suas carreiras. O filme foi indicado a 3 Globos de Ouro (Melhor Filme, Ator e Atriz)

14 - 10 coisas que eu odeio em você (1999)
Dir.: Gil Junger 


Heath Ledger e Julia Stiles despontaram para fama nessa deliciosa comédia adolescente. O filme marcou  toda uma geração. Uma das cenas mais célebres é aquela em que o ator canta "Can't take m eyes off you". 

15 - O Diário de Bridget Jones (2001)
Dir.: Sharon Maguire


Renée Zellweger foi indicada ao Oscar por sua atuação nessa comédia romântica. O filme é baseado no best seller de Helen Fielding.

16 - O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)
Dir.: Jean-Pierre Jeunet


Um dos filmes mais charmosos do cinema é também um dos mais românticos. O filme francês é estrelado por Audrey Tautou e foi indicado a 5 Oscar's, dentre eles, o de Melhor Filme Estrangeiro. 

17 - Simplesmente Amor (2003)
Dir.: Richard Curtis


Simplesmente Amor é o primeiro filme dirigido por Richard Curtis, roteirista de Quatro Casamentos e Um Funeral (1994) e Um Lugar chamado Notting Hill (1999). Contando com um elenco estelar, o filme mostra várias histórias de amor. 

18 - Como perder um homem em 10 dias (2003)
Dir.: Donald Petrie


Kate Hudson está ótima nessa divertida comedia romântica americana.

19 - Como se fosse a primeira vez (2004)
Dir.: Peter Segal


O longa-metragem de 2004 teria tudo para ser mais uma bomba estrelada por Adam Sandler. Mas, eis que o filme é uma delicada comédia romântica, protagonizada também por Drew Barrymore.

20 - Orgulho e Preconceito (2005)
Dir.: Joe Wright


Orgulho e Preconceito é o primeiro longa-metragem de Joe Wright. O filme é uma das mais belas adaptações do clássico romance de Jane Austen. Keira Knightley foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. 

21 - 500 dias com ela (2009)
Dir.: Marc Webb


O jovem cult é o primeiro longa-metragem do promissor Marc Webb, diretor incumbido do novo filme do Homem-Aranha, que estreará neste ano. Indicado a dois Globos de Ouro (Filme e Ator), 500 dias com ela é estrelado por Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt.


FELIZ DIA DOS NAMORADOS!!!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cosmopolis - 2012

Título Original: Cosmopolis
Lançamento: 2012
País: Canadá
Direção: David Cronenberg
Atores: Robert PattinsonSamantha Morton, Jay Baruchel, Paul Giamatti, Sarah Gadon
Duração: 108 min
Gênero: Drama
Previsão de estreia no Brasil: 13 de julho

"Minha próstata é assimétrica!"

Cena de Cosmopolis
O diretor canadense David Cronenberg e o astro Robert Pattinson compareceram à première de Cosmopolis em Paris, ao som de centenas de fãs enlouquecidas do fenômeno teen que despontou na saga CrepúsculoCosmopolis, que já havia estreado em Cannes na semana passada, não vem recebendo críticas positivas. Ao contrário, as revistas The Guardian The Hollywood Reporter, por exemplo, se mostraram bastante avessas à nova empreitada de Cronenberg. O longa-metragem é uma adaptação do romance homônimo do escritor americano Don DeLillo, publicado em 2003. Cronenberg é também o responsável pela adaptação da história e assina sozinho o roteiro do filme. Na entrevista pré-projeção, o diretor brincou que o filme era muito engraçado e que as pessoas deveriam rir. Até a metade do filme, nenhuma risada foi ouvida na gigantesca sala Grand Rex. 

Cosmopolis conta um dia na vida de Eric Packer (Robert Pattinson). O multibilionário de 28 anos circula por Manhattan em sua limosine. Seu objetivo é simples: ir a um salão mudar o corte de cabelo. No entanto, várias pessoas cruzam o seu caminho. Tais encontros se dão quase sempre em sua limosine, cenário principal do filme. É nela que ele encontra sua consultora de arte (rápida participação de Juliette Binoche), sua consultora financeira (Samantha Morton), seu médico, seus assistentes, entre outros. O dia de Eric é perturbado pela confusão do mercado financeiro, pela visita do presidente americano, por protestos na rua, pela morte de um cantor de rap e por uma séria ameaça à vida do protagonista. Acompanhado sempre pelo seu chefe de segurança (Kevin Durand), o moço ainda tem que lidar com sua distante e evasiva noiva (Sarah Gadon) que se recusa a ir para a cama com ele. 

Cosmopolis é um filme centrado no diálogo, o que faz com que ele tenha uma forte "pegada" teatral. Na verdade, o sentido de diálogo deve ser nuançado nesse caso, já que muitas vezes os personagens se lançam a conversações sem sentido. Sem dúvida a questão da comunicação é posta à prova, afinal vemos diversos personagens verborrágicos que não conseguem comunicar uma informação com clareza ou com objetividade. Ao contrário, eles se envolvem em divagações pseudo-filosóficas, mercadológicas, existenciais, que conseguem ser paradoxalmente coerentes e absurdas. O filme é ambientado em um universo aparentemente apocalíptico, em que ratos são moedas e valem mais do que o euro. Ao mesmo tempo, existe algo extremamente atual no enredo e os protestos vistos na trama, nos lembram o recente movimento Occupy Wall Street

Sob sua aparente insanidade, o filme toca temas muito importantes como a disparidade social, o individualismo, a invasão da tecnologia em todos os âmbitos da vida humana, a insensibilidade do homem face à dor alheia, o poder do capitalismo, a erupção da violência no quotidiano, entre outros. O protagonista é um jovem que usa sua limosine como uma bolha que o protege do mundo, algo que sinaliza sua riqueza e que o separa dos simples mortais. Eric, acostumado a ter tudo o que quer, tenta comprar o que não pode ter como um monumento histórico. Atormentado pelas coisas que ele não pode controlar, como as altas e baixas do mercado financeiro, a morte de um ídolo, sua própria saúde, as vontades da noiva, o jovem começa a se confrontar com o vazio de sua existência e se lança a um caminho de autodestruição. 

Cronenberg utiliza reiteradamente a ferramenta do campo/contracampo, o que introduz dinamismo e certo desconforto às conversações. O diretor também aposta em uma profusão de planos fechados e closes (que reduzem a sensação de amplitude do ambiente), e esses recursos, aliados ao espaço estreito e limitado da limosine, conferem um caráter claustrofóbico à narrativa. O ritmo e o conceito do filme com certeza encontrarão espectadores bastante resistentes que, ansiosos pela ação, deixarão de apreciar o humor sutil e sagaz de cada fala. Cronenberg não mentiu, o filme, de fato, é engraçado. Mas não se engane, não é o tipo de humor que lhe fará dar gargalhadas. É um tipo de humor que faz você reconhecer a ironia fina e inteligente por trás de cada réplica, dita às vezes seriamente ou com grandiloquência. 

O elenco é encabeçado pelo onipresente Robert Pattinson que, sob a direção de Cronenberg, consegue esconder suas limitações e nos oferece, provavelmente, a melhor performance da sua carreira. Obviamente, a ligeira falta de expressão do ator cai como uma luva ao personagem, que tem algo de mecânico. Mas o ator também tem seus méritos e confere certa espessura dramática ao personagem. Em meio às diversas participações especiais vistas no filme, destacam-se a de Samantha Morton, que é sempre magnética e interessante em cena e um fenomenal Paul Giamatti, que dá vida e energia à trama, que tende a ser monocórdica. 

Não dá para se esperar um filme convencional de David Cronenberg. Cosmópolis é, no entanto, um dos filmes menos acessíveis e mais estranhos do diretor. Cronenberg afirmou, na entrevista dada antes da projeção, que não realizou o filme para ser um sucesso de bilheteria. E não será. Dificilmente ficamos indiferentes a Cosmópolis, ele é do tipo ame-o ou odeie-o. Pelo visto, mais odeie-o do que ame-o. Só para constar, eu adorei. 

A sessão especial de Cosmopolis aconteceu ontem, dia 30, no Grand Rex de Paris.

Assista ao trailer:


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Na Estrada - 2012

Título Original: On the road
Lançamento: 2012
País: EUA
Direção: Walter Salles
Atores: Garrett HedlundSam Riley, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Tom Sturridge
Duração: 137 min
Gênero: Drama
Previsão de estreia no Brasil: 13 de julho 

“As únicas pessoas que me interessam são os loucos, loucos por viver, loucos por falar, loucos para serem salvos, sedentos de tudo ao mesmo tempo..."


On the road, romance de Jack Kerouac publicado em 1957, é considerado uma das obras literárias norte-americanas mais importantes do século XX. O romance, de forte inspiração autobiográfica, conta as aventuras de um grupo de amigos (jovens intelectuais, poetas) que atravessaram o território estadunidense como forma de celebração à liberdade. On the road é o produto mais marcante da Geração Beat, formada por um grupo de escritores do pós-Segunda Guerra, cujos estilo de vida e expressão artística eram baseados na experimentação, no uso de drogas, na exploração da sexualidade, na religião oriental e na rejeição ao materialismo. Vários cineastas se interessaram na transposição do romance para as telonas, entre eles Francis Ford Coppola, que comprou o direito de adaptação do livro, mas acabou por incumbir o brasileiro Walter Salles para a realização do longa-metragem. Na Estrada foi exibido na mostra oficial do Festival de Cannes no último dia 23 e teve uma recepção morna da crítica especializada. 

Coube a Walter Salles a responsabilidade de adaptar uma obra que possui inúmeros fãs, bem como a tarefa de transportar para o cinema todo o furor e poeticidade de On the road. Roteirizado por Jose Rivera (que já havia trabalhado com Salles em Diários de Motocicleta), o filme acompanha as aventuras protagonizadas por Sal (Sam Riley), Dean Moriarty (Garrett Hedlund) e Marylou (Kristen Dunst), assim como a intensa relação estabelecida entre esses jovens. A maioria dos filmes "de estrada", ou road movies,  se caracterizam por mostrar não apenas uma viagem, como também o autoconhecimento, o amadurecimento e o aprendizado proporcionados por essa experiência. O road movie revela quase sempre uma busca de si mesmo. Duas das maiores obras da filmografia de Salles são road moviesCentral do Brasil (1998) e Diários de Motocicleta (2004). Bastante familiarizado com o gênero, o diretor realiza uma de suas obras mais ambiciosas, mas cujo resultado final tende a dividir os espectadores. 

Jose Rivera tinha a difícil missão de criar uma estrutura narrativa que conseguisse reagrupar de maneira harmoniosa as diversas aventuras retratadas no livro, uma multiplicidade de acontecimentos e episódios esparsados em um período de três anos (1947-1950). O filme apresenta uma estrutura episódica preponderante, ainda que a ordem cronológica seja, em grande parte, respeitada. A opção do roteirista de incluir na narrativa episódios menos relevantes dramaticamente como o affair de Sal e Terry (Alice Braga) e o encontro com Old Bull Lee (Viggo Mortensen), assim como a inclusão de outros personagens secundáriosconfere ao filme um caráter ainda mais fragmentado, dilata sua duração e tira o foco de uma linha narrativa única centrada nos dois protagonistas masculinos. Outra característica da trama é a ausência de um grande conflito unificador. Trata-se, sobretudo, de um diário de viagens, alimentado por um estudo de personagens. O que alguns críticos chamaram de "sem direção" é provavelmente fruto da combinação de tais elementos. É provável que um filme mais enxuto, que focalizasse sobretudo o triângulo amoroso central, fizesse mais sucesso com público e crítica. Em compensação, excluir alguns acontecimentos presentes no livro não seria mutilar a expêriencia contada pelo narrador-personagem? 

Walter Salles traduz em imagens a essência da obra de Kerouac: a celebração da juventude, do espírito livre, da amizade e da arte. O diretor capta com maestria a alma rebelde dos protagonistas, fazendo com que o espectador mergulhe num universo dominado por um lirismo contagiante. Salles reconstrói, com auxílio de uma direção de arte e figurino impecáveis, uma América dos anos 40/50 que pulsa ao som efervescente do jazz. Merecem elogios a belíssima e eficiente fotografia de Eric Gautier e a ótima trilha sonora do experiente compositor argentino Gustavo Santaolalla, que já havia trabalhado com Salles em Diários de Motocicleta e que tem na estante dois Oscar's, por O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Babel (2006). 

Na Estrada tem um grande elenco. Em meio a nomes mais famosos, Garret Hedlund revela-se a maior atração do filme. A atuação do ator de 27 anos é cheia de vigor, fúria e sensualidade. Hedlund confere  angústia e nervosismo existencial a seu personagem (Dean). O galã é mais conhecido pelo seu trabalho no mediano Tron - O Legado (2010). O inglês Sam Riley dá vida a Sal, narrador e personagem central do filme. Riley acaba sendo ofuscado por Hedlund não apenas devido à intensidade da atuação do colega, como pelo fato de Dean ser o personagem mais fascinante da trama, aquele que comanda a atenção do espectador e dos outros personagens. Kristen Stewart, ainda que tenha uma figura interessante na tela e protagonize cenas ousadas, definitivamente não convence como atriz. Sua xará, Kristen Dunst, ao contrário, prova, mais uma vez, o quanto se tornou uma atriz mais madura e interessante. Uma das melhores surpresas do longa fica por conta de Tom Sturridge, que vive o apaixonado Carlo e tem algumas das cenas mais tocantes do longa. Na Estrada conta ainda com as participações de luxo de Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi e Alice Braga.

Na Estrada não tem vocação para unanimidade. Muitos irão torcer o nariz para o filme, mas, definitivamente, o novo longa-metragem de Walter Salles encontrará fãs apaixonados. Por mais que reconheça que esse não é o melhor trabalho do diretor brasileiro, tendo a encarar o filme como um projeto bem-sucedido e, por vezes, inspirado. 


Assista ao trailer:




quarta-feira, 23 de maio de 2012

De rouille et d'os - 2012

Título Original: De rouille et d'os 
Lançamento: 2012
País: França
Diretor: Jacques Audiard
Atores: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Corinne Masiero, Bouli Lanners
Duração: 120 min
Gênero: Drama


Matthias Shoenaerts e Marion Cotillard protagonizam De rouille et d'os

O segundo filme da mostra competitiva a ser exibido no Festival de Cannes foi o francês De rouille et d'os ("Ferrugem e osso"). O longa-metragem foi realizado por Jacques Audiard, que, em 2009, chamou bastante atenção com o seu excelente Um profeta, drama criminal indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e ganhador do grande prêmio do júri em Cannes naquele ano. O diretor causou mais uma vez uma boa impressão no Festival. Seu novo filme agradou bastante aos críticos, sendo bem mais elogiado que Moonrise Kingdom (2012), filme que abriu a competição. De rouille et d'os é estrelado pela francesa Marion Cotillard e pelo belga Matthias Schoenaerts, ator que foi considerado uma das revelações do festival. Audiard escreveu o roteiro do longa ao lado de Thomas Bidegain, a partir do argumento de Craig Davidson. 

Em De rouille et d'os, Alain (Schoenaerts) se vê incumbido de cuidar do filho de cinco anos, mas passa sérias dificuldades. No entanto, ele tem a chance de recomeçar sua vida, no sul da França, com o auxílio da irmã. Trabalhando como segurança de uma boate, Alain encontra Stéphanie (Marion Cotillard), uma treinadora de orcas. Após um grave acidente durante uma apresentação com os animais, Stéphanie tem suas pernas amputadas. A moça volta a encontrar Alain e os dois iniciam uma inusitada relação. De rouille et d'os fala dos acidentes, das fatalidades e das coincidências capazes de transformar vidas. 

Um dos maiores acertos do filme é a sua abordagem realista do quotidiano, dos indivíduos e de seus dramas pessoais. O filme é completamente ancorado no real, no caos do dia-a-dia, no cinza da cidade, no que não é necessariamente bonito. Cada detalhe trivial da vida das pessoas é importante para termos a sensação de estarmos testemunhando um pedaço da vida de um ser verdadeiro, mortal, cheio de problemas e limitações. Em diversos momentos, Audiard se lança em uma empreitada que lembra à estética do documentário: câmera na mão, tremores, movimentos rápidos. Ao mesmo tempo, chega a ser fascinante a maneira com a qual o diretor insere momentos de extrema poeticidade em meio ao seu realismo urbano, como as belíssimas cenas em que Stéphanie faz os movimentos de comando das orcas ora em um  terraço, ora em frente a um aquário/tanque. 

Em um determinado momento da trama, Stéphanie pede a Alain um pouco de delicadeza. Este parece ser um dos motes principais do filme: como encontrar delicadeza e sensibilidade em um universo dominado pela brutalidade e pela violência? Audiard, por sinal, não tem medo de explorar o lado mais vil do ser humano e faz surgir, por exemplo, Stéphanie em cena já com o nariz sangrando em consequência de um soco que levou de um homem. Essa é a primeira aparição de Marion Cotillard e não é por acaso que o diretor faz a estrela do filme surgir em cena dessa maneira. Mas não é só isso. Audiard filma cada gesto de violência com extremo vigor, apostando em closes impactantes e em movimentos de câmera repentinos. Ao fazer de seu protagonista um lutador de vale-tudo, que participa de perigosas lutas clandestinas, o diretor mostra também o culto à violência e a pulsão autodestrutiva do personagem. 

O filme conta com um elenco afiado formado, em sua maioria, por atores franceses e belgas. Marion Cotillard confere autenticidade ao drama de sua personagem. Um exemplo disso é a cena da descoberta da perda das pernas no quarto do hospital, em que ela grita aos prantos e repetidamente "O que fizeram com minhas pernas?". Na mão de uma atriz menos talentosa, a cena poderia soar como um melodrama barato. A atriz ainda consegue comunicar, principalmente através do seu olhar e de suas expressões, os dilemas e as emoções de sua personagem, tais como: o desejo, o fascínio pela força e pela brutalidade de Alain, a depressão, etc. A atriz ainda dá dimensão à dor da personagem da forma mais delicada e simples possível. Uma lágrima furtiva parece dizer muito mais do que um diálogo. O efeito visual que faz desaparecer parte das pernas de Cotillard é extremamente bem realizado e confere verossimilhança à trama. O galã Mathias Schoenaerts interpreta um brutamontes que no fundo tem um bom coração. A jornada do grosseiro e insensível Alain é justamente a de descobrir o amor e a arte da delicadeza. A atuação do ator belga é magnética, forte e visceral. Tanto Shoenaerts como Cotillard se expõem bastante em cenas de sexo e de nu. É interessante que mesmo não apostando na glamourização dos corpos, Audiard consiga fazer de tais cenas algo extremamente bonito, sensual e natural. 

De rouille et d'os conta com a ótima trilha sonora do onipresente e prolífico Alexandre Desplat (que também trabalhou em Moonrise Kingdom). O filme ainda conta com um trabalho de montagem e edição de som  excelentes e uma bela fotografia, essencial para o tom documental do filme. Infelizmente, De rouille et d'os parece se perder justamente no seu ato final, no qual a resolução soa forçada e precipitada. A redenção de Alain parece ser fruto muito mais de um acidente do que do percurso do personagem durante o filme e de seu envolvimento com Stéphanie, o que é uma pena. 

O novo filme de Jacques Audiard proporciona que entremos na intimidade de dois personagens fortes e   fascinantes e que mergulhemos em seus caos particulares. De rouille et d'os mostra a erupção da violência no dia-a-dia e o nascimento do amor no lugar menos provável. Imperdível. 

Assista ao trailer: