segunda-feira, 7 de maio de 2012

Tiranossauro - 2011

Título Original: Tyrannosaur
País: Inglaterra
Lançamento: 2011
Direção: Paddy Considine
Atores: Peter Mullan, Olivia Colman, Eddie Marsan
Duração: 92 min
Gênero: Drama

"It's dog all together!"


Hannah e Joseph - o socorro pode vir do lugar mais inesperado. 


Um dos filmes que mais chamaram a atenção no cenário indie em 2011, foi o britânico Tiranossauro. O premiado longa-metragem é apenas o segundo filme como diretor de Paddy Considine e seu primeiro longa-metragem. Considine começou sua carreira como ator em 1999 e, desde então, esteve presente em mais de 20 filmes, dentre eles O Ultimato Bourne (2007) e Terra dos Sonhos (2004). Apesar do sucesso como realizador e de ter sido considerado uma das maiores revelações como tal, neste ano que passou, o muiti-talentoso inglês de 37 anos não pretende abdicar de sua consistente carreira como intérprete para se dedicar apenas à direção. Nos seus próximos projetos, já anunciados, ele prestará seus serviços como ator. Além de atuar e dirigir, Considine tem créditos de roteirista. É dele, inclusive, o roteiro de Tiranossauro. O filme foi lembrado em diversas premiações em 2011/2012, tendo levado prêmios no Sundance Film Festival, no BAFTA, no British Independent Film Awards e tendo sido indicado ao Independent Spirit Awards.  

Em Tiranossauro, Considine retoma os personagens principais do seu premiado curta-metragem de 16 minutos, Dog Altogether (2008). Joseph é um homem amargurado, violento, atormentado pela raiva e pela culpa. Levando uma vida sem sentido e sem paz, o cinquentão parece ver as coisas piorarem após matar o próprio cachorro em um acesso de raiva e ao ter que lidar com a doença terminal do seu melhor amigo. Muito do passado do protagonista resta obscuro, mas tudo nos leva a crer que a vida de Joseph foi marcada por inúmeros erros, sofrimentos e prováveis crimes. Certo dia, ele invade a butique de Hannah que, ao invés de expulsá-lo ou chamar a polícia, ora por ele. A vida de Hannah também é marcada pela dor. A moça sofre por não poder ter filhos e ainda tem que lidar com um marido sádico e desequilibrado. Os caminhos de Hannah e Joseph se cruzam e, a partir de então, uma relação inusitada se estabelece.

Peter Mullan interpreta um homem marcado pelo desespero e em busca de redenção.

Uma das maiores qualidades do cinema independente é a maneira com a qual as relações humanas são desvendadas e exploradas. Tais relações ocupam quase sempre o primeiro plano das narrativas, calcadas no quotidiano das pessoas, no que pode ocorrer de mais absurdo e chocante entre quatro paredes, numa comunidade ou no seio de uma família. É louvável o interesse dos cineastas independentes pelo ser humano, suas incongruências, seus monstros internos e sua beleza. Nada é mais devastador do que a dor e a miséria humana. Considine escreveu e realizou um longa-metragem pertubardor, por vezes revoltante, mas, sobretudo, humano. Joseph e Hannah, os personagens centrais, são pessoas à beira de um abismo, que se encontram para se salvarem mutuamente. 

Em certo momento, um amigo de Joseph diz "Somos todos cachorros" (It's dog all together - referência ao título do primeiro filme do diretor).  A figura do "cachorro" ocupa um lugar fundamental na narrativa. Não só os personagens levam uma "vida de cachorro", ou seja, uma vida infeliz, cheia de misérias, como se sentem tratados como cachorros pela vida, como animais, seres isentos de humanidade. O "sacríficio" dos dois cães na trama tem significados muito fortes. Considine sabe que pouca coisa é mais impactante para o espectador, principalmente para aquele proveniente do mundo ocidental, do que cenas de violência contra cachorros. O diretor/roteirista utiliza os sacrifícios para marcar as mudanças no protagonista. O primeiro assassinato é o estopim da derrocada do personagem, o segundo representa a morte do lado selvagem do personagem, um sacrifício necessário para que ele se reerga. Ambas as mortes são injustas, mas tem valores diferentes. Na primeira, Joseph fere quem o ama, assim como fazia com sua falecida mulher. A segunda é compreendida pelo personagem como uma atitude necessária, uma forma de combater a injustiça e o mal do mundo. Joseph carrega o luto pelas duas mortes.

Olivia Colman confere vulnerabilidade e profundidade a uma personagem trágica e encantadora.

Além do ótimo e sensível roteiro, Considine confere ao filme um tempo e um ritmo próprios, dando um peso necessário a cada descoberta, investindo nas reações dos personagens, nas trocas de olhares, nos não-ditos, nos silêncios. Merecem elogios também a bela trilha sonora de Barker e Baldwin, a fotografia de Erik Wilson (que confere um tom invernal e cinzento à história), a inteligente edição de som e a eficiente montagem. O filme ainda se beneficia muito das atuações de seu ótimo elenco, a começar pelo sensacional ator escocês Peter Mullan, com sua maravilhosa e profunda voz grave. A performance do ator impressiona pelo vigor, pela entrega, pela maneira com a qual ele retrata a jornada emocional de seu personagem. A atuação de Olivia Colman é uma pequena jóia. A atriz encarna com uma sensibilidade fora do comum sua personagem trágica e é difícil não se emocionar com sua performance. Eddie Marsan, por sua vez, surge assustador e sua participação é extraordinária.


Tiranossauro é um filme nó-na-garganta, uma obra arrasadora e envolvente. Sem dúvida, trata-se de um dos melhores longas independentes de 2011. 


Assista ao trailer:



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Atores que não têm o destaque ou o reconhecimento que merecem!

O Clube do Filme homenageia ótimos atores que são constantemente subestimados ou pouco prestigiados pela mídia. Tais atores raramente têm seus talentos reconhecidos pela crítica ou por premiações da indústria cinematográfica. Muitas vezes, encontram dificuldades de encontrar bons papéis e são relegados a personagens de segundo plano. Quando se lançam a projetos interessantes, passam despercebidos. Ainda há o caso de atores com longas e consistentes carreiras, mas que nunca tiveram o reconhecimento ou o destaque que merecem. No post de hoje, o Clube do Filme relembra os talentos que mereciam ser mais valorizados ou melhor aproveitados no cinema atualmente.

Em ordem alfabética:

1. Alan Rickman



Grande ator inglês, com um currículo invejável e que, absurdamente, não tem nenhuma indicação ao Oscar. Recentemente, ele esteve fantástico na série Harry Potter.

2. Brendan Gleeson



Um excepcional ator irlandês relegado constantemente a papéis menores. O eterno coadjuvante esteve em Coração Valente (1995), na franquia Harry Potter e na comédia Na Mira do Chefe (2008).

3. Christina Ricci



Ela se destacou como atriz-mirim e mostrou seu talento em filmes como A Família Adams (1991), O Oposto do Sexo (1998) e Monster – Desejo Assassino (2003). Há algum tempo, a atriz não se envolve em uma produção de destaque.

4. Djimon Hounsou



Ele nasceu em Cotonou, na África. O ator teve atuações excepcionais em Amistad (1997), Terra dos Sonhos (2002) e Diamante de Sangue (2006).

5. Edward Norton



Um dos melhores atores americanos de sua geração, muitas vezes, esnobado pelas premiações.

6. Ewan McGregor



O ator escocês é extremamente talentoso e versátil, mas, até hoje, não foi indicado ao Oscar. Recentemente, ele esteve ótimo em Toda Forma de Amor (2011).

7. Gary Oldman



Um dos maiores atores ingleses da atualidade, tem trabalhos inesqueciveis no cinema e já foi esnobado diversas vezes pelas grandes premiações. Ele foi indicado pela primeira vez ao Oscar neste ano! Entre seus maiores trabalhos estão Sid & Nancy (1986) e Drácula de Bram Stoker (1992).

8. Gillian Anderson



A talentosa atriz americana já trabalhou no teatro, no cinema e na televisão. Ela foi revelada na série Arquivo X, mas ainda não conseguiu um grande papel no cinema. Sua atuação no filme A Essência da Paixão (2000) prova o que ela é capaz de fazer.

9. Guy Pearce



O ator australiano já provou diversas vezes que é bem mais do que um simples galã.

10. Ian McKellen



O ator tem mais de 40 anos de carreira, mas conquistou fama internacional há pouco tempo com seu icônico personagem Gandalf na trilogia Senhor dos Anéis. Antes disso, ele já havia sido indicado ao Oscar por sua excelente performance por Deuses e Monstros (1998). Ele também deu vida a Magneto na série X-Men. Particularmente, sinto falta de vê-lo com mais frequência nas telonas.

11. Jamie Lee Curtis



Filha de Tony Curtis e Janet Leigh, a atriz tem um timing cômico único e performances sensacionais em filmes como Um Peixe Chamado Wanda (1988) e True Lies (1994). A dificuldade de encontrar bons papéis a fez cogitar a aposentadoria recentemente.

12. Joan Allen



A excelente atriz americana já foi indicada ao Oscar três vezes, mas vem sendo esnobada em seus últimos trabalhos e nem sempre é presenteada com papéis do seu calibre.

13. John Cusack



Um grande ator que nunca teve o reconhecimento que merece e que vem se lançando a filmes menores ou blockbusters.

14. John Lithgow



Um ator excepcional, que brilhou na televisão americana e que teve trabalhos de destaque no cinema no passado. Ele, no entanto, parece não encontrar bons papéis atualmente no cinema. Um desperdício!

15. John Malkovich



Um ator extremamente talentoso que nem sempre teve o reconhecimento que merece. Há algum tempo, o ator não é visto em um papel de destaque no cinema.

16. Kathleen Turner



Kathleen Turner foi um dos grandes símbolos sexuais dos anos 80, mas provou em diversas ocasiões que era também uma grande atriz. Hoje em dia, a atriz (como muitas da sua geração) enfrenta dificuldades de encontrar bons papéis.

17. Laura Dern


A atriz é talentosa, mas muitas vezes mal aproveitada. Ela brilhou em filmes de David Lynch e na recente série Enlightened. 

18. Laura Linney

Ela já foi indicada ao Oscar três vezes, mas nunca se tornou uma grande celebridade. Ela é capaz de roubar a cena como coadjuvante e atualmente brilha na série televisiva The Big C.

19. Lisa Kudrow



Provavelmente, a atriz mais talentosa da série Friends. A humorista já fez alguns filmes para o cinema, mas nunca conseguiu repetir o sucesso de Phoebe. Talento é o que não falta!

20. Mary Louise Parker



Além de bela, Mary Louise Parker é uma fantástica atriz. Ela se destacou na televisão americana, na série Weeds e na minissérie Angels in America. A atriz merece bons papéis no cinema.

21. Mia Farrow



Mia Farrow é, sem dúvida, uma das atrizes mais subestimadas do cinema. Apesar de ter vários grandes trabalhos como em O Bebê de Rosemary (1968) e em filmes de Woody Allen, a atriz nunca foi indicada ao Oscar.

22. Naomi Watts



Naomi Watts é uma das melhores atrizes de sua geração. Ela foi esnobada no Oscar por sua atuação em Cidade dos Sonhos (2001). A atriz costuma escolher bons projetos, mas poucas vezes tem o destaque que merece.

23. Patricia Clarkson



Patricia Clarkson é uma excelente atriz americana, normalmente vista em papéis coadjuvantes.

24. Paul Giamatti



O ator, sempre interessante, foi esnobado pelo Oscar por Sideways - Entre Umas e Outras (2004) e Anti-Herói Americano (2003). Ele é normalmente visto em produções independentes.

25. Robin Wright



Ex-Sra. Penn, a bela Robin Wright nunca foi devidamente reconhecida pelo seu talento.

26. Samantha Morton



A interessantíssima atriz inglesa foi indicada ao Oscar por Poucas e Boas (1999) e Terra dos Sonhos (2003) e esnobada pela sua ótima performance em Minority Report (2002).

27. Sigourney Weaver



A atriz é muito mais do que a tenente Ripley, mas raramente tem a oportunidade de provar.

28. Steve Buscemi



O eterno coadjuvante que brilhou em Fargo (1996), provou na série Boardwalk Empire que tem cacife para ser protagonista.

29. Toni Colette



A atriz australiana dificilmente deixa a desejar. Ela esteve excelente em filmes como O Casamento de Muriel (1994), roubou a cena em uma pequena participação em As Horas (2002) e esteve magnífica na série United States of Tara.

30. William H. Macy



Outro eterno coadjuvante, William H. Macy tem um currículo invejável e trabalhos memoráveis no cinema e na televisão.

E para você? Quais são os atores mais subestimados, esnobados ou mal aproveitados do cinema? Contribua com a nossa lista. 



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Espelho, Espelho Meu - 2012

Título Original: Mirror Mirror
País: EUA
Lançamento: 2012
Duração: 106 min
Direção: Tarsem Singh
Atores: Lily Collins, Julia Roberts, Armie Hammer e Nathan Lane
Gênero: Comédia / Aventura / Romance

Lily Collins dá vida a Branca de Neve em Espelho, Espelho Meu



A mais nova moda em Hollywood parece ser resgatar contos de fada e fazer releituras "modernas". Depois do famigerado A Garota da Capa Vermelha (2011) sobre Chapeuzinho Vermelho, temos, no mesmo ano, dois filmes sobre Branca de Neve: Espelho, Espelho Meu (2012) e Branca de Neve e o Caçador (2012). E não pára por aí: já foi anunciada a adaptação de A Bela Adormecida para as telonas. O filme contará com a participação de Angelina Jolie. Um dos pioneiros na adaptação em live-action (com atores reais) de contos de fada para o cinema foi o francês Jean Cocteau, com  A Bela e a Fera (1946). Foi, no entanto, através das animações da Disney que tais narrativas se popularizaram nas telonas, com Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Pinocchio (1940), Cinderela (1950), A Bela e a Fera (1991), entre outros. Com a exceção do clássico de Cocteau, é difícil citar excelentes filmes em live-action que tenham abordado o universo do conto de fadas. Recentemente, Tim Burton se aventurou com Alice no País das Maravilhas (2010), mas o resultado foi menos interessante do que poderíamos esperar.

O primeiro dos filmes sobre Branca de Neve a ser lançado neste ano é Espelho, Espelho Meu. O longa-metragem foi dirigido pelo indiano Tarsem Singh, que, até então, havia realizado apenas 3 filmes na carreira, entre eles A Cela (2000). É interessante salientar que Singh parece ser especialista em obras de fantasia, já que todos os seus filmes pertencem a esse gênero. Inspirado no célebre conto dos irmãos Grimm, o roteiro de Espelho, Espelho Meu ficou a cargo de Jason Keller e Melissa Wallack, que também não possuem um currículo extenso ou expressivo. Tudo relacionado ao projeto nos levaria a crer que ele seria uma bomba homérica ou mais um filme medíocre. Eis, no entanto, que o filme se revela uma grata surpresa, ainda que não tenha nada de extraordinário ou inovador.

O filme se inicia com uma excelente sequência de animação que contextualisa a história. Mas como todo mundo já conhece a trama de Branca de Neve, seria necessário fazer com que algo saísse do lugar-comum. Este é o primeiro acerto do filme: criar um prólogo narrado por ninguém menos que a bruxa que, desde esse momento, revela ter um senso de humor bastante peculiar. É interessante observar que os roteiristas subvertem a história do clássico, acrescentando e transformando diversos elementos da narrativa, mas não a descaracterizando completamente. Keller e Wallack encontram espaço, em sua narrativa modernosa, para a maçã envenenada, para o espelho mágico, para os sete anões etc. Não deixa de ser curiosa a inversão de papéis que os autores operam na trama, fazendo Branca de Neve dar o beijo que retirará o feitiço do príncipe. Um relance de feminismo?  Infelizmente, os roteiristas caem em inúmeros clichês aborrecidos, como a irritante tendência hollywoodiana de transformar toda mocinha em guerreira. Essa tendência talvez possa ser encarada como uma mudança na forma de representação das mulheres no cinema. Até mesmo a princesa de conto de fadas pode se defender sozinha, ou quase... Mas, enfim, eu divago. 

O maior acerto do filme é investir na comédia e é nesse gênero que ele se mostra bem sucedido. Apesar de apostar na ironia e, por vezes, no tom parodístico, o filme resgata um tipo de humor leve e inocente que a tempo não se via no cinema.  Obviamente os roteiristas utilizam a auto-derisão para zombar dos procedimentos do conto de fadas, algo que a série Shrek já havia feito de maneira mais inteligente. No entanto, a leveza da trama e a performance inspirada dos atores, fazem do filme um divertimento saudável. O filme, infelizmente, cai numa armadilha bastante comum. No último ato, consagrado às resoluções dramáticas, o filme fica formulaico e previsível . E quando o espectador pensa que tudo acabou, eis que Singh resolve homenagear suas origens e faz uma sequência musical à la Bollywood. Bisonho? Talvez. Constrangedor? Provavelmente. O filme, no entanto, te deixa de tão bom humor, que é provável que muito espectador saia do cinema balançando os ombrinhos ao som da musiquinha I Believe (in love).

Encabeçando o elenco, temos a estrela Júlia Roberts, no papel de vilã. Há alguns anos, a atriz não fazia algo digno de nota. Desde Closer, ela parece estar tendo dificuldades para encontrar bons papéis. Em Espelho, Espelho Meu, ela tem a oportunidade de brilhar e não a desperdiça. Roberts brinca e se diverte com sua personagem, que definitivamente não exige muito de suas habilidades artísticas. O carisma da atriz cai como uma luva para o papel da bruxa malvada e ela prova que continua com um ótimo timing cômico.  O único problema com a personagem é o figurino e a maquiagem. A bruxa do clássico da Disney era muito mais atraente e bonita do que a encarnada por Julia Roberts e isso em 1937! A novata e promissora Lily Collins surge com suas grossas sobrancelhas no papel de Branca de Neve. A moça não chega a impressionar, mas não faz feio. Ela ainda nos remete a Anne Hathaway. Armie Hammer, descoberto em A Rede Social (2010), prova ser uma das grandes revelações masculinas dos últimos anos. O galã é um Brendan Fraser melhorado e se entrega completamente à comédia, surpreendendo. Nathan Lane surge mais uma vez engraçado, com suas caras e bocas habituais. Por fim, deve-se fazer uma menção aos atores que interpretam os anões, todos muito bons.

Ainda que não tenha gostado do figurino (e eu gostaria de saber o porquê da insistência com o amarelo gema), o filme apresenta um bom espetáculo visual, com uma fotografia eficiente e um bom uso dos efeitos especiais. A direção de arte é exemplar. No final das contas, Espelho, Espelho Meu é um entrenimento tão despretensioso que chega a ser um filme charmoso e divertido. Nesse sentido, ele acaba sendo superior a muitas outras comédias lançadas atualmente, já que diverte sem precisar apelar para a vulgaridade, escatologia ou coisas do gênero... E mais: acredito que o filme será igualmente atraente para o público infantil. Em suma, Espelho, Espelho Meu é um bom filme Sessão da Tarde.

Assista ao trailer:



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um Método Perigoso - 2011

Título original: A dangerous method
Lançamento: 2011
País: EUA
Diretor: David Cronenberg
Atores: Michael FassbenderKeira Knightley, Viggo Mortensen e Vincent Cassel
Duração: 99 min 
Gênero: Drama

Michael Fassbender e Viggo Mortensen interpretam Jung e Freud, respectivamente.
David Cronenberg é indubitavelmente um dos cineastas mais instigantes da atualidade. Muitos dos seus filmes mais conhecidos são associados a um gênero em particular, a ficção científica, como o jovem clássico A Mosca (1986) e os cults Scanners (1981) e eXistenZ (1999). O diretor canadense conseguiu, no entanto, expandir sua obra para outros gêneros como, por exemplo, o drama, com Spider (2002), e o thriller, com Marcas da Violência (2005), sem, no entanto, deixar de lado seu interesse pelo caos, pela dimensão psicanalítica de seus personagens e por narrativas audaciosas e perturbadoras. Cronenberg é, provavelmente, o cineasta mais kafkaniano de que temos notícia. Não chega a surpreender o interesse do diretor em realizar um filme sobre dois dos maiores ícones da psicanálise: Sigmund Freud, o fundador do método, e Carl Jung, um discípulo contestador. Um Método Perigoso (2011), o filme em questão, foi roteirizado pelo roteirista/dramaturgo Christopher Hampton, de Ligações Perigosas (1988) e Desejo e Reparação (2007). O filme é a adaptação da peça The Talking Cure (também de Hampton), que, por sua vez, é baseada no livro A Most Dangerous Method do escritor americano John Kerr. 

Um Método Perigoso retrata dois encontros extremamente importantes no mundo da psicanálise. O primeiro deles é aquele entre Jung e sua célebre paciente, Sabina Spielrein, que viria a se tornar, posteriormente, uma das primeiras psicanalistas mulheres da história. Hampton e Cronenberg acertadamente optaram por focalizar não apenas a relação amorosa do casal, mas também a fecunda e intensa relação intelectual que se estabeleceu entre os dois, assim como a influência que o pensamento de um teve sobre trabalho do outro. A outra relação abordada pelo filme não é menos interessante. Um Método Perigoso pinta o nascimento da amizade entre Freud e Jung, o gradual distanciamento dos dois e a ruptura final. Não é difícil perceber que o filme reforça a imagem paternal de Freud com a relação a Jung e a necessidade deste de sair da sombra do grande mestre. 

O filme se estrutura em duas partes facilmente identificáveis. Na primeira metade do longa-metragem, temos um destaque maior para a relação Sabina x Jung. Na segunda, a trama se concentra na relação Jung x Freud. Jung é, portanto, a figura central do filme, ao redor da qual pivotam os outros personagens, inclusive o interessante Dr. Otto Gross. O ponto de vista do protagonista é aquele que predomina no filme e poderíamos conceber outras narrativas sob a perspectiva de Freud e Sabina. Uma das maiores qualidades do roteiro de Hampton é o de fazer com que todas as teorias em jogo, nas discussões intelectuais dos personagens, sejam facilmente digeridas pelo espectador leigo, o que faz do filme uma boa introdução ao estudo da psicanálise e da oposição entre a visão de Freud e de Jung. No entanto, se por um lado o ditatismo da abordagem de Hampton possibilita que a história seja acessível a todos, ela contribui para o que é, a meu ver, o maior pecadilho do filme: o excesso de racionalismo.

Há algo de extremamente racional e frio na narrativa de Um Método Perigoso. As ideias dos personagens parecem mais convincentes e interessantes que seus próprios sentimentos, fenômeno que acaba por criar um distanciamento entre o espectador e os protagonistas. Por exemplo, a relação entre Sabina e Jung e até mesmo a atração sexual entre dois personagens não soam verdadeiramente intensos ou viscerais. Trocando em miúdos, o filme parece ser calcado muito mais no aspecto racional de seus personagens e falha em dar a dimensão necessária à vida emocional deles. A performance dos atores talvez contribua para essa lacuna emocional. O sempre interessante Michael Fassbender compõe um personagem que se destaca pela sua rigidez corpórea. Por mais que esteja torturado por diversos conflitos, o ator mantém a compostura de um intelectual burguês bem nascido e educado.

Já a performance de Keira Knightley talvez represente um dos pontos mais fracos do filme. A atriz se esforça, no início da trama, para dar corpo e voz a uma personagem histérica, mas, infelizmente, a construção da sua performance fica nítida, nos mostrando uma atuação muito estudada e artificial. O maior desafio ao se interpretar personagens desequilibrados ou loucos é o de fugir da simples caricatura e do exagero e fazer algo orgânico e verossímil. Infelizmente, Knightley acabou revelando suas limitações como atriz, nos mostrando, ao mesmo tempo, uma entrega e um esforço admiráveis. Outro problema é que a personagem se metamorfoseia ao longo do filme, perdendo, quase de uma hora para outra, o seu tom histérico. Mais bem sucedido são Viggo Mortensen e Vicent Cassel. O primeiro faz de Freud uma figura extremamente interessante e sedutora. O segundo tem uma pequena participação, onde rouba a cena, dando um verdadeiro show. Seu personagem, um "anjo do mal", talvez se destaque justamente por trazer um pouco de subversão à trama. 

Em Um Método Perigoso, Cronenberg se reinventa, investindo em um gênero que não é comum em sua filmografia: a cinebiografia. O diretor aposta bastante nos closes, optando pela alternância ritmada de planos sobre os rostos dos personagens. Como o filme é basicamente baseado em conversações, a ferramenta do campo contracampo introduz dinamismo e, por vezes, tensão às discussões. Outra escolha do diretor é a de mostrar, em diversos momentos, dois personagens, um no primeiro plano e outro no segundo, com grande profundidade de campo (ambos nítidos). Tal procedimento permite unir dois personagens no mesmo quadro, criando uma impressão proximidade entre eles. Este recurso é utilizado sobretudo com Sabine e Jung, nas sessões de terapia. É interessante observar que, na cena final do filme, os personagens já não são mostrados dessa forma, evidenciando o rompimento definitivo entre eles. O diretor ainda mostra, de maneira extremamente sutil, as diversas inversões de papéis entre os personagens que ocorrem no filme, de analista a analisado. O filme ainda conta com uma bela fotografia que explora os tons pastéis e claros. É pertinente apontar como o universo de Freud é  escuro, enquanto o de Jung é  iluminado. Cronenberg não deixa de explorar as diferenças entre os dois personagens: classe social, cultura, raça, background, ideologia, etc. 

Em Um Método Perigoso, David Cronenberg mais uma vez demonstra um grande fascínio pelo ser humano e pelo seu universo interior, dando especial atenção às neuroses de seus personagens. O caráter racional e frio do longa-metragem é algo intencional, uma abordagem que talvez faça do filme uma experiência menos envolvente. Embora seja um filme menor de Cronenberg e, mesmo que falte ingredientes para que seja excepcional, Um Método Perigoso representa um cinema de qualidade, com a assinatura de um cineasta sempre relevante. 

Assista ao trailer:



segunda-feira, 26 de março de 2012

Jogos Vorazes - 2012

Título Original: The Hunger Games
Lançamento: 2012
País: EUA
Diretor: Gary Ross
Atores: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Stanley Tucci.
Duração: 142 min
Gênero: Ação/Aventura/Ficção Científica

Jennifer Lawrence protagoniza Jogos Vorazes
Jogos Vorazes é a adaptação fílmica do primeiro romance da trilogia de mesmo nome, concebida pela escritora americana Suzanne Collins. A autora se apoiou na mitologia grega, em especial no mito de Teseu, na Roma Antiga e no sucesso do reality show nos anos 2000 para compor sua obra. Suzanne Collins construiu um universo ficcional que funciona como um retrato de nossa sociedade, vista através de um olhar extremamente crítico e preciso. Não é necessário conhecer a fundo a obra da escritora e nem mesmo ter lido sobre suas inspirações para perceber, através deste primeiro Jogos Vorazes, que a realidade mostrada no longa-metragem é calcada na nossa atualidade. Um dos maiores êxitos do filme de Gary Ross é o de ter realçado essa dimensão crítica da obra de Collins, ao invés de ter se focado apenas na ação e na aventura, ou mesmo no romance da trama. O filme revela-se, portanto, mais do que ótimo entretenimento, uma reflexão sobre a natureza do homem e sobre o momento em que vivemos. Sob o viés da alegoria, Jogos Vorazes faz questionamentos importantes sobre o prazer voyerístico e sádico do ser humano, assim como uma crescente desumanização dos indivíduos, cada vez mais insensíveis à dor alheia.

Gary Ross, não apenas dirigiu como foi um dos roteristas deste primeiro capítulo de Jogos Vorazes. Americano de 56 anos, Ross dirigiu apenas 3 filmes em sua carreira, mas tem uma dezena de créditos como roteirista. É dele o roteiro do jovem clássico Big - Quero Ser Grande (1988). Ele também dirigiu e escreveu o ótimo Pleasantville - Uma vida em preto e branco (1998). A trama de Jogos Vorazes é centrada numa distopia, em um universo ficcional em que domina o totalitarismo e o controle sobre os indivíduos através do uso da tecnologia. A história se passa em uma realidade futurística e pós-apocalíptica, mais especificamente, em um país fictício chamado Panem (referência explícita à expressão latina Panem et circenses, que significa "pão e circo"). Tal país é formado por 12 distritos governados por um poder central, localizado no Capitólio, centro administrativo de Panem.

Os chamados "jogos vorazes" (hunger games, em inglês) é um evento anual transmitido pela televisão, no estilo Big Brother, no qual 12 casais, vindos dos 12 distritos, são obrigados a lutar pela sobrevivência. As pessoas escolhidas são adolescentes de 12 a 18 anos, que irão competir entre si até a morte. Apenas um deles sairá vivo e se sagrará campeão. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), garota de dezesseis anos, se oferece para ir no lugar de sua irmã mais nova, que havia sido sorteada para a competição. Ela representa o distrito 12, um dos mais miseráveis de Panem, ao lado de Peeta Mellark (Josh Hutcherson), garoto da mesma idade. Peeta se declara apaixonado por Katniss durante uma entrevista, às vésperas da competição. Peeta e Katniss têm como mentor Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), ex-vencedor da competição, um alcóolatra cínico que acaba por criar afeição pela dupla.

Gary Ross, auxilíado pelo trabalho sensacional da direção de arte e fotografia, consegue mostrar o contraste entre a miséria do distrito 12 e a opulência e tecnologia do Capitólio, magnificamente idealizado sob o modelo das cidades romanas. A utilização das cores revela-se fundamental para esse contraste. Se o distrito 12 é marcado pelos tons acinzentados, a metrópole é caracterizada pela abundância de cores fortes e chamativas. O exuberante figurino e a maquiagem contribuem para dar aos habitantes do Capitólio uma tonalidade burlesca e, mesmo, ridícula. A parte técnica do filme, por sinal, da maquiagem aos efeitos especiais, passando pela edição de som, merecem elogios por fazerem do filme um verdadeiro espetáculo visual e sonoro, buscando diversas fontes de inspiração. Os uniformes brancos dos guardas de Panem lembram, por exemplo, a roupa dos soldados de Star Wars e também o "uniforme" usado por Alex e sua trupe em Laranja Mecânica.

O roteiro, escrito por Ross, pela autora Susanne Collins e por Billy Rae, acerta ao não se preocupar em ser extremamente didático ou explicativo. No entanto, mesmo o espectador que não esteja por dentro história, poderá compreender facilmente, ao longo do filme, a dinâmica do país e dos jogos. Ao conservar alguns não-ditos, o trio de roteiristas faz com que o espectador participe ativamente da construção da história e, ao mesmo tempo, prepara o terreno para a continuação. É interessante observar que a primeira metade do filme acaba por se revelar mais interessante que a segunda, mesmo que esta não deixe de ser instigante. Na segunda metade, o longa-metragem parece cair no automático do formato ação-aventura, cedendo a momentos clichês e cenas melodramáticas, algo que o filme havia evitado até então. Outro aspecto que chega a incomodar é a necessidade de se criar um grupo de malvados entre os adolescentes, apelando para o bom e velho esquema maniqueísta. Seria muito mais pertinente e interessante mostrar os adolescentes como seres humanos em busca da sobrevivência, sem apelar para o batido embate do bem contra o mal. Nesse sentido, o personagem interpretado por Alexander Ludwig, por exemplo, parece uma caricatura ambulante e temos a sensação que a qualquer momento o moço soltará uma risada malévola à la Bruxa Malvada do Oeste.

A direção de Ross revela-se também irregular. O diretor acerta ao adotar em certos momentos uma estética que se aproxima do documentário. É interessante também observar como ele concebe a cena da seleção dos "tributos" que irão para os jogos, como se fosse um filme sobre o holocausto. A entrada das crianças ao lugar do sorteio parece a chegada a um campo de concentração, o que cofere à cena uma tensão ainda maior. Ross acerta também ao filmar a abertura de jogos como se realmente fosse uma transmissão de televisão, apostando em enquadramentos típicos da linguagem televisiva e procedimentos tradicionais como o split screen. Ross peca, no entanto, em outras cenas pelo excesso. O diretor aposta em um número exagerado de cortes no momento do discurso de Effie Trinket (Elizabeth Banks), provavelmente uma preocupação estilística desnecessária. O diretor também filma as cenas de luta, apostando numa montagem rápida e no deslocamento constante da câmera, o que faz com que o espectador não consiga realmente ver o combate, diminuindo, assim, a força da cena.

Mesmo sendo povoado de grandes e experientes atores, o maior destaque do elenco de Jogos Vorazes é mesmo sua protagonista Jennifer Lawrence. A presença magnética da atriz e sua beleza fazem de Katniss uma heroína apaixonante. Já seu colega e par romântico, Josh Hutcherson, é muito menos convincente como ator, mas, ao menos, aparece carismático no papel. Dos veteranos em papéis coadjuvantes, o maior destaque é Stanley Tucci, que parece se divertir bastante ao compor um apresentador/entrevistador extrovertido e de risada fácil. O grande Donald Sutherland não teve muito o que fazer com seu personagem que promete crescer no próximo filme. Já o sempre interessante Woody Harrelson parece fazer a reciclagem de algumas de suas atuações passadas. O filme ainda conta com a participação de Elizabeth Banks, Toby Jones, Wes Bentley e Lenny Kravitz (que mostra grande carisma e expressão zero).

Apesar de alguns tropeços, Jogos Vorazes é um filme de aventura que apresenta um resultado acima da média. Interessante, inteligente e emocionante, o filme pode agradar tanto aqueles que querem uma diversão sem compromisso, quanto os que querem algo mais do que um passatempo. O filme é um belo início para uma trilogia que promete bastante!

Assista ao trailer:





terça-feira, 20 de março de 2012

Kick-Ass: Quebrando Tudo - 2010

Título Original: Kick -Ass
Lançamento: 2010
País: Reino Unido / EUA
Direção: Matthew Vaughn
Atores: Aaron JohnsonNicolas CageChloë Grace Moretz, Christopher Mintz-Plasse e Mark Strong
Duração: 117 min
Gênero: Comédia / Ação


Kick-Ass e Hit-Girl
Kick-Ass é o terceiro longa-metragem realizado por Matthew Vaughn, diretor inglês de 41 anos. Apesar de ter apenas quatro filmes no currículo, Vaughn já apresenta um conjunto de obras bastante consistente. Ele dirigiu os ótimos Nem Tudo É o Que Parece (2004), Stardust – O Mistério da Estrela (2007) e o excepcional X-Men: Primeira Classe (2011). Muito antes de se tornar diretor, ele já possuía uma vasta experiência como produtor de cinema e televisão. Ele foi, por exemplo, um dos produtores do cult Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998). Sem dúvida, Matthew Vaughn é um nome a se guardar. Em Kick-Ass, o diretor repagina o gênero “filme de super-herói”, acrescentando influências de outros gêneros e criando uma narrativa que consegue soar nova e inventiva, mesmo ao seguir certas fórmulas e clichês.

O filme é centrado no adolescente Dave Lizewski (Aaron Johnson). O protagonista é o perfeito loser (derrotado). É notório o fascínio que o cinema americano, em especial, tem pela figura do loser e, consequentemente, pela volta por cima desse típico derrotado. Dave não possui nenhum talento particular, não é popular na escola, é ignorado pelas garotas, é zombado pelos amigos e ainda apanha dos valentões (para não dizer criminosos) do seu bairro. Sendo, particularmente, sensível à injustiça que o rodeia e sendo fã inveterado de histórias em quadrinhos, o adolescente resolve se tornar um super-herói mascarado. Eventualmente, o garoto, que adota o pseudônimo de Kick-Ass (Chuta-Bundas), chama a atenção da mídia e de dois verdadeiros super-heróis: Big Dad (Nicolas Cage) e Hit-Girl (Chlöe Moretz), pai e filha. Esses dois últimos são justiceiros que tentam acabar com toda a rede criminosa do traficante Frank D’Amico (Mark Strong), um perigoso gângster local.


Big Dad e Hit-Girl
O roteiro de Kick-Ass foi escrito por Jane Goldman e pelo próprio Matthew Vaughn. O filme é a adaptação da irreverente série de histórias em quadrinhos de mesmo nome, escrita por Mark Millar, ilustrada por John Romita Jr e publicada, pela primeira vez, em 2008. Kick-Ass, o filme, é recheado de referências a célebres super-heróis, como Homem-Aranha, Batman, Superman, entre outros. O universo da história em quadrinhos é perfeitamente integrado à narrativa. Além de utilizar, os marcadores de passagem de tempo típicos do comic book, Vaughn ainda produz uma excelente sequência que recria digitalmente as páginas dos quadrinhos dando, no entanto, um aspecto tridimensional ao desenho. Vaughn consagra essa ótima e eficiente sequência a um dos momentos-chaves do filme, um importante flashback-resumo, que explicita as motivações de um dos personagens principais. O filme adota uma interessante dimensão metalinguística e reflexiva, já que, retratando o universo de super-heróis, ele parece se questionar sobre a importância de tais figuras no imaginário das pessoas e a necessidade que temos em criar tais personagens. 

Um dos maiores atrativos de Kick-Ass é a maneira com a qual paródia e humor são inseridos na trama. O roteiro do filme brinca incessantemente com as expectativas do público com relação ao gênero “filme de super-herói” e a quebra dessa expectativa. Já em sua deliciosa cena de abertura, o filme surpreende o espectador desprevenido. A violência do acontecimento inicial é compensada pelo humor negro da narração. A forte dimensão parodística de Kick-Ass o aproxima das séries Todo Mundo em Pânico e Corra Que a Polícia Vem Aí.  O filme, no entanto, não se conforma com a reciclagem e derrisão de outros filmes, ou seja, ele não se contenta em fazer piada em cima dos clichês e códigos de gêneros específicos. É interessante observar também os momentos em que o filme “se leva a sério”.

Uma das melhores cenas do filme. 
Todo o universo de Dave/Kick Ass é tratado sob o viés do humor e da paródia. O protagonista não tem nada de heroico, além das boas intenções. O fato de o personagem assumir também o papel de narrador do filme cria uma identificação e proximidade maiores do espectador com o protagonista. Já Big Dad e Hit Girl são, sim, mostrados como verdadeiros super-heróis, pessoas altamente treinadas e habilidosas e, de certa forma, superiores. A diferença de tratamento entre os personagens fica nítida nas cenas de ação. Enquanto os combates de Hit-Girl são filmados como grandes cenas de ação, as de Kick-Ass se assemelham à comédia pastelão.

Vaughn, por sinal, revela uma fina habilidade ao dosar a ação e a comédia. As cenas de luta de Hit-Girl e Big Daddy são de tirar o fôlego, coreografadas de maneira magistral. Provavelmente, o diretor se inspirou em filmes de arte marcial ou mesmo no recente Kill Bill para idealizar tais cenas. É através da decupagem de tais cenas, do uso da trilha sonora (importantíssima no filme) e da precisão da direção, que Vaughn consegue transformar uma menininha de 11 anos (Hit-Girl) em uma matadora em série. Para nos fazer rir, por outro lado, Vaughn aposta, por exemplo, nas gags visuais, como no momento em que um adesivo no espelho parece fazer um lacinho cor de rosa na cabeça de Kick-Ass. O diretor investe também na já mencionada quebra de expectativa, na ironia e na narração dirigida diretamente ao espectador. O gênero comédia adolescente certamente exerceu grande influência nas escolhas do cineasta.

Aaron Johnson interpreta Kick-Ass.
O elenco principal do filme é formado, em sua maioria, por jovens atores. O grande destaque é Chlöe Moretz que vive a personagem mais interessante do longa, a apaixonante Hit-Girl. A jovem atriz é, sem dúvida, uma das maiores promessas Hollywood. Hit-Girl é a grande heroína do filme, a mais perigosa, forte e destemida. Além disso, a personagem de Chlöe Moretz é boca-suja, temperamental e politicamente incorreta. Sua aparência fofinha contrapõe-se com seu gênio nada infantil. É dela uma das falas mais divertidas e inusitadas do filme, que vai de encontro ao tom parodístico do mesmo. Quando Kick-Ass pergunta como poderá encontrá-la, ela responde: “Contate o escritório do prefeito. Ele tem um sinal especial que brilha no céu... com o formato de um pinto gigante”. Mas não é somente a jovem atriz que brilha. Aaron Johnson faz um excelente trabalho na pele do protagonista, revelando um ótimo timing para comédia. Da voz fanha e nada ameaçadora, até a postura desajeitada, a composição do ator é muito interessante. O filme ainda conta com ótimas participações de Christopher Mintz-Plasse e Mark Strong. Nicolas Cage, por sua vez, se entrega a mais uma composição caricata e estranha, que acaba por funcionar no filme.

Um aspecto do filme que talvez tenha passado um pouco despercebido pela crítica na época de seu lançamento, é o caráter problemático e perturbador de se veicular cenas tão violentas contra uma criança. Hit-Girl recebe socos, tiros e pontapés desferidos por homens com o triplo de seu tamanho.  Por mais que se trate de uma obra de ficção, e a personagem seja uma heroína, algumas dessas cenas não deixaram de me impactar. Sem duvida o filme é uma ótima oportunidade de se estudar a banalização da violência, dessa vez contra a criança. Felizmente, o inteligente tratamento que o filme dá para esse elemento da história não permite que fiquemos indignados com a situação (muitos espectadores nem ao menos vão levantar a questão), já que Hit-Girl bate muito mais que apanha. Além disso, a violência é muito mais gráfica, que realista, o que contribui para um certo distanciamento.

Chlöe Grace Moretz interpreta Hit-Girl. A jovem atriz nasceu em 1997.
Contando com uma trilha sonora fenomenal, uma direção de arte caprichosa e uma direção de fotografia excelente, Kick-Ass é a prova de que o cinema comercial pode ser de qualidade. Mesmo tendo um final previsível e mesmo obedecendo, no fundo, a uma fórmula de sucesso (dos filmes de super-herói), o longa-metragem consegue ser uma diversão inteligente e nada descartável. O diretor Matthew Vaughn acerta, principalmente, ao combinar com maestria e irreverência diversas influências: a comédia adolescente, a ação, o filme de gângster e a paródia. Que venha a continuação! 

Assista ao trailer: