quarta-feira, 7 de março de 2012

Sete Dias com Marilyn - 2011

Título original: My Week with Marilyn 
Lançamento: 2011
País: Inglaterra / EUA 
Direção: Simon Curtis
Atores: Michelle WilliamsEddie Redmayne, Kenneth Branagh e Judi Dench
Duração: 99 min
Gênero: Drama
Estreia prevista no Brasil: 23 de março 


"As pessoas sempre vêem Marilyn Monroe. Assim que percebem que eu não sou ela, elas fogem!"

Michelle Williams dá vida a Marilyn Monroe

Em 1995, o cineasta inglês Colin Clark publicou The prince, the showgirl and me, um diário referente ao período em que trabalhara como assistente de direção no filme O Príncipe Encantado (1957). Em 2000, Clark publicou My week with Marilyn, livro que também aborda suas memórias sobre as filmagens do clássico, focalizando dessa vez sua suposta relação com a estrela Marilyn Monroe. Sete Dias com Marilyn é baseado nessas duas obras. O filme é o primeiro longa-metragem para o cinema de Simon Curtis, diretor inglês de 51 anos, que tem no currículo diversos trabalhos para a televisão britânica, além de uma vasta experiência como produtor. 

O roteiro de Sete Dias com Marilyn é assinado por Adrian Hodges que, a exemplo de Simon Curtis, construiu sua carreira na televisão. O filme aborda o turbulento período de filmagem de O Príncipe Encantado, comédia romântica inglesa dirigida e estrelada por Laurence Olivier e co-estrelada pela musa Marilyn Monroe. O clássico de 1957 foi o único filme da atriz feito fora dos Estados Unidos. Além de retratar a difícil relação entre Olivier e Monroe nos bastidores da gravação, Sete Dias com Marilyn revela as inseguranças da atriz, seus fantasmas, medos, dando especial atenção à íntima amizade que ela nutriu com o jovem Colin Clark. De origem abastada, o jovem de 23 anos consegue, após muita insistência, fazer parte da produção de O Príncipe Encantado. Não é difícil adivinhar que ele se apaixonará perdidamente pela exuberante e frágil atriz. 

Uma das melhores cenas do filme: "Should I be her?"
Marilyn Monroe é a estrela do cinema que mais despertou o imaginário e a curiosidade do público. Muito se especula sobre a sua vida, sua origem, sobre seus inúmeros casamentos, sobre seus famosos affairs e sobre sua misteriosa e prematura morte. Talvez nunca saibamos, de fato, quem foi a atriz, a mulher por detrás do mito que ela se tornou. Tudo com relação a Marilyn é superlativo: "a mulher mais famosa do mundo""uma das atrizes mais bonitas de todos os tempos""a mais sexy". A princípio, poderíamos imaginar que Sete Dias com Marilyn buscaria uma maneira de desmitificar a atriz, de aproximá-la de nós, meros mortais. O filme de fato parece tentar seguir este caminho, dando grande atenção à fragilidade emocional da moça. No entanto, seria errôneo acreditar que o longa-metragem pinte um retrato autêntico de Marilyn Monroe. Temos acesso apenas a uma interpretação ainda muito romantizada da personalidade da atriz. Talvez esse fenômeno se justifique pelo fato de que a história seja contada sob o ponto de vista de Colin Clark, que idealiza a celebridade e a coloca em um pedestal. 

A maioria das aparições de Marilyn (Michelle Williams) no filme são impactantes. A protagonista não entra em cena como os demais personagens, seu surgimento na tela é sempre realçado pela direção. É interessante observar como praticamente todos os personagens tem algo de importante a declarar sobre Marilyn, como se ela exercesse um fascínio extraordinário sobre eles. O "coro" do filme que canta repetidamente para personagem "você é maravilhosa, você é maravilhosa" parece não apenas tentar convencê-la de seu talento, como enfatizar para o espectador dos anos 2000 que a atriz era divina.Tais procedimentos vão em direção oposta a uma possível desmitificação. Além disso, o roteiro jamais vai a fundo nas motivações de Marilyn, não explorando efetivamente as razões de seus bloqueios, de sua insegurança e de seu sofrimento. Sete Dias com Marilyn revela-se, portanto, muito mais um filme sobre uma imagem que se tem de Marilyn Monroe e sobre o que ela despertava nas pessoas, do que uma tentativa de desvendar o mistério por trás do grande ícone que ela era.

Keneth Branagh interpreta Laurence Olivier
O grande problema do filme de Simon Curtis é o de não ousar sair do lugar comum, do previsível. Romantizando ao máximo a figura de Marilyn, assim como sua relação com Colin, o longa-metragem revela-se por vezes desnecessariamente meloso e melodramático. Se podemos repreender Curtis pelo caráter convencional de seu filme, temos que tirar o chapéu para a ótima reconstituição de época que ele faz (ao lado de sua equipe técnica), recriando, por exemplo, cenas do filme O Príncipe Encantado com perfeição. O trabalho de direção de arte, figurino e maquiagem do longa-metragem são impecáveis. Já a trilha sonora, apesar de bonita, peca talvez por ser excessivamente romântica, conferindo um tom ainda mais sentimentalista ao filme. 

O elenco de Sete Dias com Marilyn é um dos pontos fortes do filme. Muitos torceram o nariz para a escolha de Michelle Williams para o papel principal. A atriz Scarlett Johansson parecia a princípio uma opção mais adequada para o papel. De fato,Williams não tem o mesmo tipo físico de Marilyn, nem a mesma beleza. No entanto, a talentosíssima Michelle Williams consegue se transformar na estrela e captura a essência da persona de Marilyn Monroe: uma certa inocência que clama ao pecado. A atriz consegue conferir à personagem vulnerabilidade, melancolia e, obviamente, sensualidade. Há uma tristeza que escapa no olhar de Williams que é extremamente tocante, como se ela estivesse sempre pedindo por socorro. Já o promissor Eddie Redmayne, que protagonizou o perturbador Pecados Inocentes (2007) ao lado de Julianne Moore, convence aqui como o apaixonado e sonhador Colin. Kenneth Branagh, por sua vez, dá um show ao interpretar seu ídolo e mestre Laurence Olivier, captando os maneirismos do ator e sua postura altiva. O filme ainda conta com ótimas participações de Judi Dench, Julia Ormond e Zoë Wanamaker. 

Sete Dias com Marilyn não é um grande filme, mas também não chega a ser um fracasso, funcionando, sobretudo, como uma homenagem bem-intencionada ao magnetismo de uma das atrizes mais importantes de Hollywood. Talvez o grande defeito do filme seja o de ser esquecível, coisa que Marilyn Monroe nunca foi e nunca será. 



Assista ao trailer:





segunda-feira, 5 de março de 2012

Jovens Adultos - 2011

Título original: Young Adult
Lançamento: 2011
País: EUA
Diretor: Jason Reitman
Atores: Charlize Theron, Patrick Wilson, Patton Oswalt e Elizabeth Reaser
Duração: 94 min
Gênero: Comédia/Drama
Estreia prevista no Brasil: 6 de Abril

Charlize Theron protagoniza Jovens Adultos
Jovens Adultos é o quarto longa-metragem de Jason Reitman, diretor de 34 anos, que pode ser considerado um queridinho dos críticos americanos. O diretor e roteirista, indicado quatro vezes ao Oscar, ainda não se aventurou em outros gêneros além da comédia dramática, sua especialidade. Em Jovens Adultos, o diretor repete a parceria com a roteirista Diablo Cody, com quem fez o aclamado Juno (2007). O filme conta a história de Mavis (Charlize Theron), uma escritora de livros para adolescentes que está atravessando um período conturbado de sua vida. Divorciada e com problemas no trabalho, a quase quarentona descobre que o grande amor de sua adolescência acaba de ser pai. Subitamente, ela decide voltar a sua cidade natal para reconquistar o ex-namorado.

Às vezes, é interessante fazer uma análise comparativa de dois filmes que compartilham algumas similaridades. Não pude deixar de pensar em O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997) ao me deparar com o argumento de Jovens Adultos (2011). Em ambos os filmes, as protagonistas tentam reaver um amor do passado, "roubando-o" de suas atuais companheiras. Para reconquistar seus amores, Mavis (em Jovens Adultos) e Julianne (em O Casamento) saem de suas rotinas, realizam uma viagem até as cidades onde moram seus respectivos amados e cada uma delas conta com a sabedoria e os conselhos (na maioria das vezes ignorados) de um amigo-confidente. Diablo Cody, roteirista de Jovens Adultos e oscarizada por Juno (2007), provavelmente tinha noção de que estava se apropriando de uma ideia já transposta para o cinema anteriormente de forma muito bem sucedida. Jovens Adultos, feliz ou infelizmente, vai em direção oposta a O Casamento do Meu Melhor Amigo, revelando-se uma versão dark da comédia romântica de 1997. 

Um dos pontos positivos do longa metragem de 1997 é o caráter adorável de sua protagonista. Apesar de seu plano maquiavélico de separar um casal feliz, Julianne conquista a simpatia do público que, em grande parte, torce a seu favor. Muito do charme da personagem principal vem do carisma de Julia Roberts e de sua divertida performance. Além disso, o roteiro faz com que nos identifiquemos com a personagem, mesmo tendo conhecimento de seus defeitos e de suas más ações. O mesmo não acontece em Jovens Adultos. Mavis, a protagonista, apresenta uma personalidade definitivamente detestável, que não é, em nenhum momento, aliviada pelo roteiro. Insensível, egoísta, imatura, inconveniente, alcoólatra, a protagonista revela-se repulsiva ao espectador. Provavelmente, a roteirista Diablo Cody esperava que amássemos sua personagem justamente por seus defeitos, o que seria essencial para que o filme funcionasse plenamente. No entanto, o máximo que conseguimos nutrir por Mavis é um misto de piedade, raiva e vergonha alheia. Por outro lado, Jovens Adultos não deixa de ser uma experiência minimamente interessante justamente por abordar, de maneira tão crua, o caráter de sua anti-heroína.

Outra diferença fundamental entre o filme de 1997 e o filme de 2011, é que, no primeiro, a protagonista tem chances reais de reconquistar o seu amado. Já em Jovens Adultos, fica nítido, logo no primeiro encontro dos ex-namorados, que não existe a mínima química entre os dois e que eles não ficarão juntos. E talvez essa seja mais uma das escolhas problemáticas de Diablo Cody: além de criar uma protagonista repulsiva, ela tira da história qualquer possibilidade de romance. E mais: Buddy Slade (Patrick Wilson), o interesse amoroso de Mavis, é extremamente desinteressante.  Assim como é difícil acreditar que Buddy largaria sua mulher e filha para ficar com Mavis, não conseguimos entender o que esta vê naquele. Por fim, a última diferença entre os filmes é que se O Casamento do Meu Melhor Amigo é, efetivamente, uma comédia romântica, Jovens Adultos nunca consegue ser realmente engraçado, o que é bem ruim para um filme que é vendido como comédia. Jovens Adultos seria, a meu ver, um drama com toques de humor negro. Essa confusão genérica pode causar uma decepção ainda maior para o espectador.

O roteiro de Jovens Adultos revela-se incontornavelmente problemático quando nos damos conta de que o conflito central da trama é esvaziado de sentido, já que, de antemão, sabemos que Mavis não conseguirá o que quer. Poderíamos pensar: o que realmente importa na trama é o crescimento emocional da personagem. Durante todo o filme, o espectador se apega à possibilidade de redenção de Mavis. Mas eis que isso também não ocorre. Apesar de ser provavelmente mais realista e, nesse sentido, mais original, o final do filme revela-se incrivelmente frustrante. Cody peca também ao tentar justificar o comportamento lamentável de sua protagonista, revelando um trauma pouco convincente do passado da moça. O eventual envolvimento sexual entre Mavis e seu “amigo” Matt também é difícil de engolir, soando bastante forçado (a cena em si chega a ser deprimente).

Jovens Adultos se salva do naufrágio basicamente graças a duas performances. Charlize Theron faz um trabalho irrepreensível, conseguindo manifestar toda a confusão emocional e a sordidez de sua personagem. Ouso dizer que a atriz cria uma figura mais desprezível do que sua famosa personagem em Monster (2003). Afinal, mesmo sendo uma serial killerAileen Wuornos tinha algo de enternecedor. É interessante como a atriz se entrega a Mavis, fugindo do glamour e construindo uma personagem que se encontra em uma encruzilhada existencial e que parece à beira da insanidade. Mesmo que não gostemos da personagem, acreditamos nela. Já o ator Patton Oswalt encarna uma das poucas figuras simpáticas da trama, Matt. A história de Matt é trágica e Oswalt consegue transmitir, através de sua atuação, o tanto que seu personagem foi marcado pela dor e a que nível ele aprecia a companhia de Mavis. O filme melhora consideravelmente quando o ator está em cena.

Jason Reitman faz um trabalho extremamente convencional em Jovens Adultos, comprovando (pelo menos para mim) que é um diretor ainda bastante inexpressivo. Infelizmente, seu último filme não consegue agradar nem como comédia, nem como drama e apesar de Diablo Cody ser uma roteirista interessante, as peças de sua trama parecem não se encaixar. Mesmo assim, o filme consegue ser melhor do que medíocre graças ao retrato curioso e intenso de uma personagem detestável. Com certeza haverá quem goste mais de Jovens Adultos que de O Casamento do Meu Melhor Amigo. Eu já não tenho dúvidas: prefiro a história da romântica e desastrada Julianne à da desajustada e desequilibrada Mavis. 

Assista ao trailer:



sexta-feira, 2 de março de 2012

Donnie Darko - 2001

Título original: Donnie Darko
Lançamento: 2001 
País: EUA
Direção: Richard Kelly
Atores: Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase.
Duração: 113 min
Gênero: Drama/Terror/Suspense


Jake Gyllenhaal interpreta o personagem-título de Donnie Darko
Richard Kelly tinha apenas 25 anos quando escreveu e dirigiu o seu primeiro longa-metragem, Donnie Darko (2001). O filme, que foi produzido com orçamento baixo para os padrões hollywoodianos (4,5 milhões de dólares), hoje carrega o status de cult, sendo considerado, por muitos, um jovem clássico. Ao contrário do que poderíamos imaginar, a carreira de Kelly não decolou e, em onze anos, o diretor lançou apenas dois longas-metragens, Southland Tales - O Fim do Mundo (2006) e A Caixa (2009), que não foram nem sucesso de público e muito menos de crítica. Em 2004, Richard Kelly lançou a versão estendida de Donnie Darko, fazendo a alegria dos fãs do filme.  
Donnie Darko conta a história do personagem epônimo, um adolescente problemático que começa a se relacionar com um amigo imaginário, um coelho gigante e bizarro chamado Frank. Certa noite, Frank salva a vida de Donnie, atraindo o rapaz para fora de sua casa pouco tempo antes de uma turbina de avião cair justamente no quarto do garoto. Nessa mesma noite, o coelho revela em quanto tempo se dará o fim do mundo: 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos. O filme segue a passagem desse tempo, acompanhando os estranhos acontecimentos que ocorrem na vida do protagonista, suas visões e suas descobertas. A premissa do filme me fez lembrar um belo clássico de 1950, chamado Meu Amigo Harvey, em que o protagonista, interpretado por James Stewart, também estabelece uma relação com um coelho gigante imaginário. A semelhança entre os dois filmes limita-se a esse aspecto, mas seria interessante saber se Richard Kelly tinha o clássico em mente quando compôs o personagem Frank.
Frank 
Talvez o maior êxito de Donnie Darko consista na maneira com a qual o diretor-roteirista combina diferentes gêneros e estilos. O filme não deixa, por exemplo, de seguir o esquema "filme de adolescente" (quase gênero a parte no cinema americano). Nele, encontramos o adolescente problemático, o universo da escola, os valentões que atormentam e perseguem o protagonista, o primeiro amor, etc. Não somente o filme retrata o universo adolescente e faz uso de clichês do gênero, como parece veicular a própria jovialidade do seu diretor, que brinca com a linguagem cinematográfica, como que descobrindo a magia de se fazer cinema. Seria difícil imaginar Donnie Darko como um filme de um cineasta maduro, com uma idade já avançada. Revelando-se um desafio para qualquer classificação ou rótulo, o filme contém elementos do suspense, do terror e da ficção científica. Por fim, Donnie Darko pode, até mesmo, ser visto como um drama psicológico. 
Nada é original em Donnie Darko. Podemos definir o longa-metragem como uma colagem ou um mosaico de referências. Encontramos, na trama do filme, ideias e temas já retratados em diversas obras, tais como: o fim do mundo, a viagem no tempo, a existência de múltiplas dimensões, a esquizofrenia. A mente criativa de Richard Kelly digeriu todas essas referências (provavelmente derivadas da sua própria cinefilia) e criou uma narrativa concisa, coerente e homogênea. Outro acerto do diretor é o de não optar pelo didatismo. Para Richard Kelly, o mais importante não é explicitar todos os mistérios da trama e, sim, deixar o espectador fazer a sua própria interpretação e fabricar suas especulações. 

Donnie Darko é um personagem extremamente ambíguo. Será ele um adolescente perdido, que não consegue lidar com os males do mundo? Um garoto que teme a vida adulta, que se recusa a crescer? Um esquizofrênico? Um profeta, um ser iluminado? Um herói? De fato, podemos ver todas essas facetas na personalidade do protagonista. Grande parte do fascínio e encanto que Donnie exerce no espectador se deve à performance de seu intérprete, Jake Gyllenhaal. O ator tinha mais de 20 anos quando deu vida a Donnie Darko e não apenas convence como adolescente, como consegue transmitir toda a instabilidade do personagem e a ambiguidade mencionada anteriormente. O ótimo elenco é composto por outros nomes famosos como Maggie Gyllenhaal (irmã mais velha de Jake), Patrick Swayze, Mary McDonnell, Drew Barrymore e Jena Malone. 
Richard Kelly confere uma aura de pesadelo a sua narrativa, flertando abertamente com a fantasia e com o sobrenatural. Os efeitos especiais do longa-metragem são simples, mas extremamente eficientes (o campo de força emanado do peito de alguns personagens lembra os efeitos especiais de O Segredo do Abismo, de James Cameron). Outro aspecto de Donnie Darko que não passa desapercebido é sua ótima trilha sonora, composta, em grande parte, por canções de bandas dos anos 80. A bela e minimalista versão de Gary Jules para Mad World, clássico de Tears for Fears, acrescenta um tom ainda mais melancólico ao final do filme. Donnie Darko talvez reflita o desajuste do mundo no início do terceiro milênio, com suas transformações, seus ataques terroristas e suas incertezas. O amor de tantos fãs e admiradores do filme é justificado (por mais que, particularmente, não compartilhe a mesma empolgação de muitos deles). Resta agora esperar que Richard Kelly confirme, um dia, o talento que demonstrou no seu primeiro longa-metragem. 

Assista ao trailer:



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Salvo - 1995

Título Original: Safe
Lançamento: 1995
País: EUA
Diretor: Todd Haynes
Atores: Julianne MooreXander Berkeley, Dean Norris, Peter Friedman, James LeGros.
Duração: 119 min
Gênero: Drama

Julianne Moore protagoniza Safe

O primeiro filme de Todd Haynes foi um curta-metragem de 1985, inspirado no poeta francês Arthur Rimbaud. Desde então, o diretor realizou cinco longas-metragens, dentre eles Poison (1991)Velvet Goldmine (1998), Longe do Paraíso (2002) e Não estou lá (2007). Mesmo optando por manter certa distância do mainstream e do cinema comercial, os filmes de Haynes nunca passaram despercebidos pela crítica. Apesar de ser assumidamente homossexual e de ser muitas vezes associado ao movimento New Queer Cinema, o diretor sempre evitou rótulos para a sua obra, sendo considerado um dos nomes mais importantes do cinema independente americano. A Salvo (1995) é o segundo longa-metragem do diretor, que também assina o  roteiro. O filme é protagonizado por Julianne Moore, com quem Haynes voltaria a trabalhar em Longe do Paraíso, pelo qual ambos concorreram ao Oscar (ele como roteirista, ela como atriz principal). 

O filme conta a história de Carol White, uma dona-de-casa que leva uma vida bastante confortável com seu marido e enteado no sul da Califórnia. A rotina de Carol consiste em fazer ginástica, encontrar suas amigas ricas e fúteis e supervisionar a nova decoração de sua mansão. No entanto, algo começa a perturbar a vida da dona-de-casa. Ela começa a sentir dores, enjoos, sofrer de insônia, ter problemas de respiração, além de tosses convulsivas. Todos os exames indicam que a saúde de Carol é perfeita, fazendo com que esses sintomas pareçam ainda mais estranhos e quase inexplicáveis. Certo dia, a personagem entra em contato com um grupo de pessoas que acreditam terem a saúde debilitada devido ao acúmulo de substâncias químicas  no meio ambiente. Carol acaba por se convencer que sofre também de sensibilidade a químicos, transformando completamente a sua vida e se isolando da sociedade. 

A Salvo é um filme incômodo e perturbador. O brilhantismo do roteiro de Haynes é o de abrir as portas a várias leituras e interpretações. O diretor-roteirista parece retratar no filme o mal-estar da civilização e a confusão existencial do homem pós-moderno. Carol White é o símbolo do indivíduo desajustado, perdido, aterrorizado pela profusão de informações e engolido pelo medo. O cotidiano da protagonista é invadido por todo tipo de notícias relacionadas à morte, a doenças e a outros perigos mil. A personagem acaba por desenvolver um tipo de hipocondria existencial, não podendo mais viver a mercê dos perigos da vida em sociedade. De natureza psicossomática ou não, os sintomas desenvolvidos por Carol acabam por revelar sua inaptidão em manter um determinado estilo de vida. 

Haynes nos dá algumas pistas para tentar compreender a natureza de Carol. A dona-de-casa impressiona pela sua extrema fragilidade, algo que fica nítido na fantástica composição de Julianne Moore. A voz delicada e sem força da personagem, denuncia sua personalidade passiva, sem vida, quase desinteressante. Em uma das primeiras cenas do filme, assistimos a uma cena de sexo, em que a protagonista fica completamente a mercê do marido, como se estivesse anestesiada, apenas cumprindo uma missão imposta pelo casamento. Sem vontades, sem voz e sem lugar no mundo, Carol parece carregar um vazio emocional profundo e podemos formular a hipótese de que sua "doença" seja, de fato, uma alergia a si mesma. Sua crise pode muito bem estar ligada a um grave problema de auto-estima, a uma absoluta falta de amor a si mesma, ou ao que ela se tornou. É interessante perceber que, em determinada cena, a personagem se vê incapaz de se lembrar da própria infância, como se ela simplesmente não houvesse existido. O isolamento de Carol talvez revele uma necessidade de autoconhecimento e de descoberta de sua individualidade. 

O mal-estar físico de Carol também pode ser visto como um alarme de segurança, um desejo de autoconservação. O spa onde se isola a dona-de-casa é um esconderijo contra os males que afligem o mundo. Não por acaso, na época do lançamento do filme, muitos o consideraram como uma metáfora da propagação da AIDS. O filme reflete uma paranoia generalizada e um desejo de purificação. Haynes não se abstém de mostrar a ironia que consiste em se deixar de viver (isolando-se do mundo), para, justamente, se viver mais. Certamente, o mundo real nos parece, por vezes, inóspito e insalubre, mas será que não é justamente o medo a maior doença do século XXI? A vida do homem pós-moderno é dominada por diversos temores: temos medo da violência, da morte, da destruição ambiental, do terrorismo, dos fenômenos ambientais, da pobreza, do desemprego, etc. A Salvo funciona, portanto, como uma fábula sobre o poder avassalador do medo. 

A direção de Todd Haynes acentua o caráter perturbador da história. O cineasta se interessa, por exemplo, ao que podemos chamar de tempos vazios, instantes que não correspondem a acontecimentos. Ao focalizar os momentos mais ordinários da existência de Carol, o diretor chama atenção para a superficialidade da vida da personagem. O diretor ainda dá preferência a longos planos médios e fixos e a uma montagem que confere um ritmo lento à narrativa, escolhas que vão de encontro à sensação de incômodo provocada pela trama. Ao final do filme, Haynes passa a inserir também grandes planos de paisagem que ilustram o retorno da personagem à natureza e seu isolamento. A trilha sonora de A Salvo é típica de um filme de suspense, sendo fundamental para a construção de uma atmosfera tensa e angustiante. Por fim, a atuação de Julianne Moore é uma pequena obra-prima e a atriz, além de dar vida ao mal-estar existencial (e físico) de Carol, compõe uma personagem que parece ser uma folha em branco ou talvez um papel de seda. 

A Salvo não é está entre os filmes mais conhecidos e celebrados da filmografia de Todd Haynes, cineasta também pouco conhecido do grande público. O filme merece, portanto, ser descoberto e admirado pela sua capacidade de sintetizar sentimentos que fazem parte do nosso mundo atual, revelando a fragilidade do homem e sua inaptidão a viver em sociedade. 

Assista à abertura do filme:


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Vencedores do Oscar 2012



Talvez os fatores que tenham feito o Oscar 2012 um pouco melhor do que a sua edição anterior tenham sido a seleção dos filmes indicados neste ano, mais interessante do que a do ano passado, e o fato de que os votantes erraram menos ao escolher os vencedores. O show em si foi a prova de que a Academia ainda não achou o formato ideal para apresentação. Por mais que tenha ficado mais dinâmica e menos longa, a festa está cada vez menos interessante como entretenimento. Até mesmo o quase-sempre ótimo Billy Crystal decepcionou, revelando-se não inspirado e pouquíssimo engraçado (apesar de seu desempenho não ter sido tão embaraçoso como o da dupla de apresentadores do ano passado). Previsível, insípido e sem personalidade, o Oscar 2012 mostrou que pode ser cansativo mesmo tendo menos de três horas de duração. Quem é cinéfilo e acompanha anualmente a premiação, no entanto, persistiu e entrou madrugada adentro vendo o show (eu, que estou na Hungria, por exemplo, fui dormir depois das 6 horas da manhã). Apesar de não ter resgatado o charme de edições passadas, o Oscar laureou dois grandes filmes que, coincidentemente ou não, são declarações de amor ao cinema. Os grandes vencedores da noite foram O Artista e A Invenção de Hugo Cabret, com cinco Oscar's cada um.

Confira a lista de vencedores das principais categorias e alguns breves comentários: 

Melhor Filme: O Artista - O prêmio maior da noite foi para um excelente filme (o que já é um alívio, vide o ano passado). Merecido. Meu coração, no entanto, bate mais forte por A Invenção de Hugo Cabret e adoraria tê-lo visto vitorioso

Melhor Diretor: Michel Hazanavicius, por O Artista - O diretor francês faz um belo trabalho em O Artista, mas eu daria o prêmio ao veterano e genial Martin Scorsese, que faz um trabalho brilhante em Hugo Cabret

Melhor Ator: Jean Dujardin, por O Artista - Fiquei aliviado de ver o ator francês ganhar o Oscar. Não conceberia a ideia de George Clooney, com quem o francês dividia o favoritismo, levar um segundo Oscar em tão pouco tempo. Não que o Clooney esteja mal em Os Descendentes, mas seu histórico de atuações não tem consistência o suficiente para que galã tenha no currículo 2 Oscar's. Como explicaríamos Clooney com duas estatuetas e Gary Oldman sem nenhuma? Jean Dujardin esbanja carisma e versatilidade em O Artista. Para dizer bem a verdade, tirando Démian Bichir (cujo filme ainda não vi), nenhum dos atores indicados me arrebatou completamente. Preferiria ver Michael Fassbender e Ryan Gosling indicados. 

Melhor Atriz: Meryl Streep, por A Dama de Ferro - Essa categoria foi muito bem representada por todas as indicadas. Além disso, era uma das mais complicadas de se prever. Viola Davis também parecia ter muitas chances de conquistar o prêmio. A vitória de Streep é merecidíssma, sua atuação é indiscutivelmente soberba. A atriz chegou num patamar invejável em Hollywood: extremamente popular, recordista absoluta de indicações e, agora, a única atriz viva com três Oscar's de atuação. Muitos cinéfilos estavam aguardando ansiosamente o dia em que Streep finalmente levaria a sua terceira estatueta. A boa notícia é que ela fez por merecer, a má é que foi por um filme péssimo. Será que a atriz conseguirá bater Katherinne Hepburn, que conquistou 4 prêmios? Tempo e talento ela tem. Viola Davis é uma força da natureza, uma atriz maravilhosa, e torço que ela volte logo com um ótimo projeto. 

Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor - A vitória de Plummer era previsível e, além de ser merecida, é um reconhecimento por sua carreira. O discurso do ator foi um dos mais delicados da festa.

Melhor Atriz Coadjuvante - Octavia Spencer, por Histórias Cruzadas - Todas as indicadas são muito boas. Octavia, no entanto, não é minha favorita, gosto mais do trabalho de sua colega Jessica Chastain. 

Melhor Roteiro Original - Woody Allen, por Meia Noite em Paris - Daria o prêmio ao maravilhoso roteiro de A Separação, mas Woody Allen é Woody Allen e não dá para reclamar de sua vitória. No mais, o roteiro de Meia-Noite em Paris também é ótimo.

Melhor Roteiro Adaptado: Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash, por Os Descendentes - Dos indicados, ele seria a minha quarta opção para vencer, portanto não achei tão merecido. Daria o prêmio a John Logan por Hugo Cabret

Melhor Fotografia: Robert Richardson, por A Invenção de Hugo Cabret - Uma surpresa para mim. A fotografia do filme é belíssima e nutro amores pelo filme, mas Emmanuel Lubezki merecia seu primeiro Oscar por A Árvore da Vida.  

Melhor Montagem: Millenium: Os homens que Não Amavam as Mulheres - Vibrei com o prêmio. Grande acerto. O filme é sensacional e a montagem idem. 

Melhor Direção de Arte: A Invenção de Hugo Cabret - Merecidíssmo e Dante Ferretti é um ícone do cinema. 

Melhor Figurino: O Artista - Não assisti a todos os indicados, portanto não poderia afirmar se foi justo ou não. De qualquer maneira, o figurino de O Artista é de fato excelente. 

Melhor Trilha Sonora: O Artista - Muito merecido. A trilha sonora é fantástica e cumpre um papel essencial no filme. 

Melhores Efeitos Especiais: A Invenção de Hugo Cabret - Uma grata surpresa para mim. Os outros indicados também são ótimos, mas fico feliz que tenha ido para Hugo Cabret

Melhor Animação: Rango - Na ausência de As Aventuras de TintimRango era o meu favorito. A animação é excelente e Gore Verbinski faz um trabalho muito interessante. 

Melhor Canção: "Man or Muppet" de Os Muppets - Talvez a vitória mais difícil de engolir. Não se trata apenas de patriotismo (por exemplo, não gosto de Rio e acho justo não ter sido indicado em animação). A música de Sergio Mendes e Carlinhos Brown é muito superior a "Man or Muppets", que nem é a mais interessante de Os Muppets. Uma pena!

Melhor Filme Estrangeiro: A Separação - Confirmou o favoritismo. Um dos melhores filmes do ano! 



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Os Melhores de 2011



O Oscar 2012 marca o fim da temporada de premiações para os filmes lançados em 2011. A aguardada premiação ocorrerá neste domingo, dia 26 de fevereiro. Aproveitando a ocasião, faço a minha lista pessoal dos melhores de 2011, em 17 categorias. Confira e dê sua opinião!

Os 10 melhores filmes de 2011 (por ordem de preferência):

- A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese
- A Separação, de Asghar Farhadi
Melancoliade Lars Von Trier
- Drive, de Nicolas Winding Refn
- O Artista, de Michel Hazanavicius 
- A Árvore da Vida, de Terrence Malick
- Tão Forte e Tão Perto, de Stephen Daldry
- As Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg
- Meia-noite em Paris, de Woody Allen

Melhor Diretor: Martin Scorsese, por A Invenção de Hugo Cabret
seguido por: Lars Von Trier, por Melancolia

Melhor Ator: Michael Fassbender, por Shame
seguido por: Thomas Horn, por Tão Forte e Tão Perto.

Melhor Atriz: Meryl Streep, por A Dama de Ferro
seguida por: Rooney Mara, por Millenium: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres.

Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor
seguido por: Christoph Waltz, por Carnage - Deus da Carnificina.

Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis, por Histórias Cruzadas
seguida por: Jessica Chastain, por Histórias CruzadasA Árvore da Vida.

Melhor Roteiro Original: A Separação, escrito por Asghar Farhadi
seguido por: Melancolia, escrito por Lars von Trier.

Melhor Roteiro Adaptado: A Invenção de Hugo Cabret, escrito por John Logan
seguido por: Millenium- Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, escrito por Steven Zaillian.

Melhor MontagemMillenium: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, de Angus Wall e Kirk Baxter
seguida por: A Invenção de Hugo Cabret, de Thelma Schoonmaker.

Melhor Fotografia: A Árvore da Vida, de Emmanuel Lubezki.
seguida por: O Artista, de Guillaume Schiffman. 

Melhor Direção de Arte: A Invenção de Hugo Cabret, de Dante FerrettiFrancesca Lo Schiavo. 
seguida por: O Artista, de Laurence BennettRobert Gould.

Melhor Maquiagem: A Dama de Ferro, de Mark CoulierJ. Roy Helland
seguida por: Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, de  Nick DudmanAmanda Knight,Lisa Tomblin.

Melhores Efeitos EspeciaisHarry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, de Tim BurkeDavid VickeryGreg ButlerJohn Richardson
seguido por: X-Men - Primeira Classe, de Scanlan Backus, Hamish Beachman e Steve Benelisha.

Melhor Figurino: Meia Noite em Paris, de Sonia Grande
seguido por: A Invenção de Hugo Cabret, de Sandy Powell.

Melhor Trilha Sonora: Drive, de Cliff Martinez
seguida por: O Artista, de Ludovic Bource.

Melhor Filme de Animação: As Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg
seguido por: Rango, de Gore Verbinski.

Melhor Documentário: Pina, de Win Wenders
Seguido por: Senna, de Asif Kapadia.


Categoria bônus:


Pior filme do ano: A Dama de Ferro, de Phyllida Lloyd. 
Seguido por: Não se preocupe, nada vai dar certo, de Hugo Carvana. 


Menções especiais a:


- O elenco de A Separação
- Bryce Dallas Howard e Octavia Spencer, em Histórias Cruzadas
- Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg, em Melancolia
- Precisamos Falar Sobre Kevin, de Lynne Ramsay.
- O Palhaço, de Selton Mello. 
- O elenco feminino de Missão: Madrinha de Casamento. 
- Sandra Bullock e Max von Sidow, em Tão Forte, Tão Perto. 
- X-Men: Primeira Classe, de Matthew Vaughn.
- Os cachorrinhos adoráveis da ficção:  Uggie (O Artista), Cosmo (de Toda Forma de Amor) e Snowy (As Aventuras de Tintim).


Segunda-feira comentaremos os vencedores do Oscar. Vamos cruzar os dedos por nossos favoritos!

E lembre-se: o segredo para não se irritar com o Oscar é não levá-lo tão a sério. A premiação pode ser a mais famosa do cinema, mas está longe de ser a verdade absoluta. 

Abraços e obrigado por ajudar o Clube do Filme a chegar a 100 mil visitas!