sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Os Melhores de 2011



O Oscar 2012 marca o fim da temporada de premiações para os filmes lançados em 2011. A aguardada premiação ocorrerá neste domingo, dia 26 de fevereiro. Aproveitando a ocasião, faço a minha lista pessoal dos melhores de 2011, em 17 categorias. Confira e dê sua opinião!

Os 10 melhores filmes de 2011 (por ordem de preferência):

- A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese
- A Separação, de Asghar Farhadi
Melancoliade Lars Von Trier
- Drive, de Nicolas Winding Refn
- O Artista, de Michel Hazanavicius 
- A Árvore da Vida, de Terrence Malick
- Tão Forte e Tão Perto, de Stephen Daldry
- As Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg
- Meia-noite em Paris, de Woody Allen

Melhor Diretor: Martin Scorsese, por A Invenção de Hugo Cabret
seguido por: Lars Von Trier, por Melancolia

Melhor Ator: Michael Fassbender, por Shame
seguido por: Thomas Horn, por Tão Forte e Tão Perto.

Melhor Atriz: Meryl Streep, por A Dama de Ferro
seguida por: Rooney Mara, por Millenium: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres.

Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor
seguido por: Christoph Waltz, por Carnage - Deus da Carnificina.

Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis, por Histórias Cruzadas
seguida por: Jessica Chastain, por Histórias CruzadasA Árvore da Vida.

Melhor Roteiro Original: A Separação, escrito por Asghar Farhadi
seguido por: Melancolia, escrito por Lars von Trier.

Melhor Roteiro Adaptado: A Invenção de Hugo Cabret, escrito por John Logan
seguido por: Millenium- Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, escrito por Steven Zaillian.

Melhor MontagemMillenium: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, de Angus Wall e Kirk Baxter
seguida por: A Invenção de Hugo Cabret, de Thelma Schoonmaker.

Melhor Fotografia: A Árvore da Vida, de Emmanuel Lubezki.
seguida por: O Artista, de Guillaume Schiffman. 

Melhor Direção de Arte: A Invenção de Hugo Cabret, de Dante FerrettiFrancesca Lo Schiavo. 
seguida por: O Artista, de Laurence BennettRobert Gould.

Melhor Maquiagem: A Dama de Ferro, de Mark CoulierJ. Roy Helland
seguida por: Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, de  Nick DudmanAmanda Knight,Lisa Tomblin.

Melhores Efeitos EspeciaisHarry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, de Tim BurkeDavid VickeryGreg ButlerJohn Richardson
seguido por: X-Men - Primeira Classe, de Scanlan Backus, Hamish Beachman e Steve Benelisha.

Melhor Figurino: Meia Noite em Paris, de Sonia Grande
seguido por: A Invenção de Hugo Cabret, de Sandy Powell.

Melhor Trilha Sonora: Drive, de Cliff Martinez
seguida por: O Artista, de Ludovic Bource.

Melhor Filme de Animação: As Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg
seguido por: Rango, de Gore Verbinski.

Melhor Documentário: Pina, de Win Wenders
Seguido por: Senna, de Asif Kapadia.


Categoria bônus:


Pior filme do ano: A Dama de Ferro, de Phyllida Lloyd. 
Seguido por: Não se preocupe, nada vai dar certo, de Hugo Carvana. 


Menções especiais a:


- O elenco de A Separação
- Bryce Dallas Howard e Octavia Spencer, em Histórias Cruzadas
- Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg, em Melancolia
- Precisamos Falar Sobre Kevin, de Lynne Ramsay.
- O Palhaço, de Selton Mello. 
- O elenco feminino de Missão: Madrinha de Casamento. 
- Sandra Bullock e Max von Sidow, em Tão Forte, Tão Perto. 
- X-Men: Primeira Classe, de Matthew Vaughn.
- Os cachorrinhos adoráveis da ficção:  Uggie (O Artista), Cosmo (de Toda Forma de Amor) e Snowy (As Aventuras de Tintim).


Segunda-feira comentaremos os vencedores do Oscar. Vamos cruzar os dedos por nossos favoritos!

E lembre-se: o segredo para não se irritar com o Oscar é não levá-lo tão a sério. A premiação pode ser a mais famosa do cinema, mas está longe de ser a verdade absoluta. 

Abraços e obrigado por ajudar o Clube do Filme a chegar a 100 mil visitas! 


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Coração Selvagem - 1990

Título original: Wild at Heart
Lançamento: 1990 
País: EUA
Direção: David Lynch
Atores: Nicolas Cage, Laura Dern, Willem Dafoe, J.E. Freeman, Diane Ladd.
Duração: 98 min
Gênero: Drama
"This whole world's wild at heart and weird on top."

Lula (Laura Dern) e Sailor (Nicolas Cage): um casal quente.
Sailor Ripley (Nicolas Cage) é loucamente apaixonado por Lula Fortune (Laura Dern), mas não tem a aprovação da mãe da moça, Marietta (Diane Ladd). Essa história seria trivial se a tal sogra não fosse completamente desequilibrada e se não ordenasse o assassinato do rapaz; sem contar que se trata de um  filme dirigido por David Lynch. Coração Selvagem (1990) é o quinto longa-metragem do cineasta, que também assina o roteiro do filme, uma adaptação do romance Wild at Heart. Este romance foi o primeiro de uma série de livros protagonizados pelo casal Sailor e Lula. Barry Gifford, autor da série, chegou a trabalhar posteriormente com Lynch no roteiro de Estrada Perdida (1997), um dos filmes cults do diretor.

Coração Selvagem, como indica o título, é um filme derramadamente romântico e incrivelmente erótico. Lula e Sailor têm o apetite sexual de coelhos (metáfora que é inclusive utilizada na trama). O fogo, um dos elementos mais importantes e constantes no filme, refere-se não apenas a acontecimentos da narrativa, mas também à paixão explosiva dos protagonistas. Sailor é um fora da lei que emana testosterona, Lula é uma jovem ninfomaníaca, cuja mentalidade é quase infantil. Como não poderia deixar de ser, Lynch acrescenta um toque de loucura e bizarrice à relação dos amantes. Em certo momento, Lula faz uma declaração inusitada, que parece refletir o espírito do filme, uma história de amor erótica e psicodélica. Ela diz: "Às vezes quando fazemos amor, você me leva para algum lugar além do arco-íris. Sabe exatamente o que acontece comigo, acho que você presta atenção. Amorzinho, juro que você tem um peru lindo. É como se ele falasse comigo, quando está dentro de mim. Você me deixa doida."

Marietta (Diane Ladd) em cena do filme 
Assim como o faz em diversos de seus filmes, Lynch povoa a narrativa de personagens estranhos, que parecem terem saído de um pesadelo. No entanto, ao contrário de seus filmes mais experimentais, Coração Selvagem revela-se extremamente acessível ao espectador e sua estrutura é basicamente linear, mesmo que haja pontualmente a intervenção de flashbacks. Podemos afirmar que Lynch brinca com a narrativa, construindo um filme estilizado, mas que no fundo segue os códigos da aventura romântica. Nota-se também que o diretor foi influenciado por diferentes estilos e gêneros, como o filme policial, o road movie, o romance, o pornô e a soap opera americana. 

Durante o filme, são feitas inúmeras referências ao clássico O Mágico de Oz (1939). Lula é uma versão da Dorothy, uma menina sonhadora que quer chegar do outro lado do arco-íris. Coração Selvagem pode ser compreendido até mesmo como atualização ou modernização do conto de fadas. É divertido perceber que Lynch brinca com a associação entre a história de Lula e o clássico infantil, mostrando, em determinada cena, Marietta calçando sapatos que muito se assemelham aos da Bruxa do Oeste. David Lynch se inspira no universo do conto de fadas, acrescentando altas doses de erotismo e humor e também momentos extremamente sombrios, com destaque para a ótima cena em que Sailor e Lula tentam resgatar uma acidentada. 

Nicolas Cage interpreta, em Coração Selvagem, um tipo comum na sua carreira e foi provavelmente escalado por Lynch por causa do que despertava no imaginário do espectador. O ator evoca a dualidade herói/bandido, assim como a inocência do amante apaixonado. Já a talentosa Laura Dern nunca esteve tão sexy, compondo uma personagem que encanta pela sua infantilidade, luxúria e romantismo. A mãe de Dern na vida real, Diane Ladd, interpreta a mãe dela também na ficção (o que aconteceu diversas vezes na carreira das duas atrizes). Ladd, que foi indicada ao Oscar por sua atuação como Marietta, parece se divertir ao máximo, criando uma personagem caricatural, exagerada e histriônica (as perucas usadas pela atriz são uma diversão a parte). Outro nome famoso do elenco é Willem Dafoe, que surge quase irreconhecível, em uma participação sensacional. 

Cena do filme
Em Coração Selvagem, Lynch se reencontra com alguns de seus parceiros habituais. A começar, temos o compositor Angelo Badalamenti, que compôs a trilha sonora de vários longas-metragens do diretor e da série Twin Peaks (1990-1991), criada por Lynch e Mark Frost. Por falar na série cult, alguns atores que participavam dela também aparecem em Coração Selvagem (o filme foi realizado no mesmo ano da primeira temporada do seriado). Sherilyn FennGrace Zabriskie, Sheryl Lee e Jack Nance, que interpretavam personagens importantes em Twin Peaks, têm participações pequenas, mas impactantes no filme. Em Coração Selvagem,  Lynch também teve a oportunidade de trabalhar novamente com sua musa de Veludo Azul (1986), a atriz Isabella Rosselinni, sua noiva na época. Laura Dern, protagonista de Coração Selvagem, também já havia trabalhado com o diretor em Veludo Azul e protagonizou o último longa-metragem do diretor para o cinema, Império dos Sonhos (2006). 

Coração Selvagem provavelmente não esteja entre os filmes mais notáveis do fantástico David Lynch, mas é, provavelmente, um dos filmes mais divertidos do diretor. Deliciosamente romântico, por vezes bobo, o filme reúne diversos elementos característicos do estilo do cineasta em prol de uma história de amor encantadora. 
Assista ao trailer:

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Mulheres Diabólicas - 1995

Título original: La cérémonie
Lançamento: 1995
País: França
Diretor: Claude Chabrol
Atores: Isabelle HuppertSandrine Bonnaire, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Virginie Ledoyen
Gênero: Drama/Suspense


Sophie (Sandrine Bonnaire) e Jeanne (Isabelle Huppert) - Uma amizade funesta.


Em 12 de setembro de 2010, morreu Claude Chabrol aos 80 anos. Recém chegado a Paris, pude presenciar a grande comoção que a morte do cineasta provocou nos franceses, provando que talvez ele tenha sido o diretor mais popular dentre os gigantes da Nouvelle Vague. Assim como GodardTruffautRohmer e Rivette, Chabrol participou do movimento de renovação do cinema francês nos anos 50, sendo um dos grandes nomes da influente Nouvelle Vague. Em mais de 50 anos de carreira, o prolífico Chabrol dirigiu mais de 50 longas-metragens para o cinema, além de diversos trabalhos para a televisão e curtas-metragens. O cineasta se notabilizou por um gênero em particular: o suspense. Mulheres Diabólicas (1995) é considerado um de seus melhores trabalhos, ao lado de O Açougueiro (1970), A Mulher Infiel (1969) e Um Assunto de Mulheres (1988). O filme é também a terceira de sete parcerias do diretor com uma de suas atrizes favoritas, a talentosíssima e multipremiada Isabelle Huppert. 

Mulheres Diabólicas conta a história da jovem Sophie, que é contratada para trabalhar como empregada na mansão de uma família abastada, no interior da França. A dona da casa, Catherine Lelievre (Jacqueline Bisset), deposita grande confiança em Sophie e fica impressionada com a eficiência da jovem e com sua personalidade austera e reservada. A empregada, no entanto, guarda alguns segredos, como o fato de ser analfabeta. Rapidamente, Sophie faz amizade com Jeanne (Isabelle Huppert), moça espontânea e extrovertida, que trabalha no correio da pequena cidade e que não se dá nada bem com Georges Lelievre (Jean-Pierre Cassel), marido de Catherine. Jeanne e Sophie têm algo em comum, ambas foram consideradas suspeitas de assassinato no passado, mas eventualmente inocentadas por falta de provas.

A versão brasileira do título original (La Cérémonie - A Cerimônia) pode ser considerada um pequeno spoiler, uma vez que revela algo que é apenas insinuado durante grande parte do filme. Certamente, um dos grandes charmes da obra de Chabrol é o de construir uma aura estranha em torno das duas protagonistas sem, no entanto, revelar a verdade sobre elas. A banalidade do enredo se contrapõe à sensação de perigo iminente, o que faz do filme uma experiência deliciosamente instigante. A presença de Sophie é inquietante. Monossilábica, fria, estranha, a personagem parece não ser dotada de qualquer traquejo social, impondo uma distância a todos em sua volta, com exceção de Jeanne. É interessante perceber como Catherine tenta estabelecer uma relação afetuosa com a empregada através do contato físico, que é recebido com indiferença. Jeanne, por sua vez, parece o oposto de Sophie, falastrona, espaçosa, bisbilhoteira, ela carrega a energia extra que parece faltar na empregada. Um elemento quase sobrenatural parece atrair essas duas mulheres solitárias, que se tornam cúmplices e amigas. Intuitivamente, elas reconhecem, uma na outra, o mesmo potencial psicopata. Além disso, é possível também perceber um homoerotismo entre as duas personagens.  

A relação das duas protagonistas é construída de maneira magistral por Chabrol (que também é responsável pelo roteiro ao lado de Caroline Eliacheff). Jeanne insere o caos na vida de Sophie, que o aceita sem a mínima luta. Jeanne despreza as regras sociais. Nada a seduz mais que a transgressão. Além disso, ela nutre um misto de ódio, desprezo e inveja pela família Lelievre, perfeito modelo da feliz família burguesa. Tudo nos leva a crer que a aproximação de Jeanne a Sophie é arquitetada pela primeira, como uma maneira de se inserir na realidade dos Lelievre. Sophie se entrega à manipulação e, sem nenhuma resistência, entra no perigoso jogo da nova amiga. Ao longo da trama, as duas mulheres parecem se mimetizar, usando, inclusive, o mesmo penteado. Mas não se engane: Sophie nada tem de vítima ou inocente. É interessante perceber, por exemplo, que enquanto sua comparsa revela um pouco de seu passado, Sophie nada expõe de seu mistério, revelando-se, ao final, tão ou mais perigosa que Jeanne. 

Chabrol sempre revelou uma visão ácida da burguesia. Em Mulheres Diabólicas, ele faz uma pintura muito interessante da diferença de classes. Os Lelievre são figuras cheias de boas intenções, com uma rotina perfeita, uma casa deslumbrante e cujo programa de família é se reunir para ouvir ópera. A mansão em que vivem se contrasta com o modesto e diminuto apartamento de Jeanne, que é tomada por um sentimento de injustiça social latente. O espectador tende a se identificar com as protagonistas e não com a família, uma vez que o filme adota o ponto de vista das mulheres. O longa-metragem pode ser encarado como uma alegoria de uma "vingança social". 

O que seria de Mulheres Diabólicas sem seu ótimo elenco? Sandrine Bonnaire (que tem um rosto lindo e marcante) faz um trabalho impressionante. Uma atuação é magistral quando a personagem parece ter vida própria, se revelando maior que a ficção. A intensidade do olhar de Bonnaire e a precisão de sua interpretação fazem de Sophie uma personagem fascinante e assustadora. A performance contida da atriz se contrapõe maravilhosamente à exuberância de Isabelle Huppert, que nos oferece uma atuação cheia de vida e energia. Completando o elenco, temos a belíssima Jacqueline Bisset, que encarna com naturalidade e elegância a refinada Catherine, e o veterano Jean-Pierre Cassel, também excelente. 

Mulheres diabólicas ainda conta com a sombria trilha sonora de Matthieu Chabrol (filho do diretor) e com um final inesquecível, carregado de humor negro, ironia e um tom quase surrealista. Neste filme, Chabrol comprova ser um mestre do thriller, compondo uma narrativa instigante e inquietante. 

Assista ao trailer:





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Tão Forte e Tão Perto - 2011

Título original: Extremely Loud and Incredibly Close
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Stephen Daldry
Atores: Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, John Goodman, Max von Sidow.
Duração: 129 min
Gênero: Drama
Estreia no Brasil: 24 de fevereiro

O estreante Thomas Horn interpreta Oskar Schell em Tão Forte e Tão Perto

Como descrever Oskar Schell, protagonista de Tão Forte e Tão Perto? Irritantemente inteligente, precoce, inflexível, teimoso, curioso, racional, aventureiro, medroso, estranho, genioso, meticuloso, sensível, cheio de manias, paranoico, autoritário, antissocial, detestavelmente adorável. Como descrever a performance de Thomas Horn, intérprete de Oskar? Extraordinária, fora de série, surpreendente, comovente, de tirar o fôlego, impressionante e uma das melhores de 2011. Toda essa empolgação não é injustificada (prometo). Tão Forte e Tão Perto é o primeiro trabalho no cinema desse garoto de 14 anos e, se o mundo fosse justo, ele estaria concorrendo ao Oscar de Melhor Ator neste ano e ainda seria um dos favoritos a levar a estatueta para casa. Mas quem precisa do reconhecimento do Oscar ou de qualquer outra premiação quando se é tão jovem e promissor? 

Comecemos pelo começo. Tão Forte e Tão Perto é apenas o quarto longa-metragem do diretor inglês Stephen Daldry. Mesmo tendo um currículo ainda curto, amor da crítica é o que não falta ao cineasta de 50 anos. Daldry foi indicado três vezes ao Oscar de Melhor Diretor pelos seus três primeiros filmes. Mas não é só isso: seus três últimos filmes foram indicados ao prêmio principal. Quando a maioria de nós pensava que ele não seria lembrado na lista final da Academia, este ano, eis que Tão Forte e Tão Perto abocanha uma inesperada indicação a Melhor Filme. É uma pena, no entanto, que os votantes da Academia tenham sido tão econômicos com o filme, lembrando-se dele em apenas duas categorias (Filme e Ator Coadjuvante). Mas chega de falar de Oscar! O importante é que depois de dois grandes filmes, Billy Elliot (2000) e As Horas (2002) e um apenas bom, O Leitor (2008), Daldry volta com tudo, em um filme exemplar, provando que errar não é com ele. 

O roteiro do novo filme de Daldry é de responsabilidade do veterano Eric Roth. Alguns dos trabalhos anteriores do roteirista são: Forrest Gump (1994), O Informante (1999) e O Curioso Caso de Benjamin Button (2008). Em Tão Forte, Tão Perto, Roth adapta o romance Extremely Loud and Incredibly Close do escritor americano Jonathan Safran Foer, publicado em 2005. O filme, assim como o romance, é centrado em Oskar Schell, garoto de nove anos, cujo pai morreu no atentado de 11 de setembro às Torres Gêmeas. Schell era extremamente apegado ao pai, Thomas (Tom Hanks) que incentivava o interesse do menino pela aventura, pela ciência e pela pesquisa. Um ano após a morte de Thomas, Schell encontra uma chave entre os pertences do pai e inicia uma exaustiva peregrinação para descobrir o que ela abre. 



A busca de Schell pelo segredo do pai é uma tentativa do garoto de adiar o enfrentamento da perda. O menino, que sempre surpreende o espectador pela sua perspicácia e pelo seu raciocínio lógico, tem plena consciência que sua aventura é uma maneira de adiar uma inevitável "separação", ou seja, enquanto ele estiver envolvido com sua missão, não precisará "despedir-se" do pai. A jornada pessoal de Schell é essencial para que a criança aceite a perda, supere a dor e consiga viver com uma culpa que o atormenta. O belo e eficiente roteiro de Eric Roth acerta ao construir sua narrativa através do ponto de vista da criança, que assume também o papel de narradora no filme. Mesmo que o protagonista não corresponda à ideia de criança adorável (e ele é capaz de dizer coisas cruéis e ser bem desagradável), o espectador acaba por se familiarizar com o menino, conseguindo compreender suas motivações e enxergar suas limitações e qualidades. O roteiro de Roth não apenas permite que criemos um vínculo com o personagem principal, mas também que tenhamos acesso ao seu universo dominado pela lógica e pela razão. 

Daldry mergulha no universo infantil com a mesma sensibilidade que havia demonstrado em Billy Elliot. O diretor dá à narrativa o dinamismo de uma aventura, mas consegue, ao mesmo tempo, explorar cada nuance da personalidade do protagonista, assim como o potencial dramático da história. Mesmo revelando-se por vezes sentimentalista, o filme jamais se torna sentimentaloide. E é interessante perceber que Daldry contorna as armadilhas, evitando cair na pieguice e no melodrama. Impressionam também a decupagem do filme, o capricho da direção de arte e a bela fotografia. 

Outro ponto forte do filme é seu elenco. O já citado Thomas Horn demonstra uma maturidade cênica impressionante. O ator estreante está em praticamente todas as cenas, interpreta um personagem delicado e difícil e, mesmo assim, carrega o filme nas costas. Outro destaque é Sandra Bullock, numa das performances mais maduras e interessantes de sua carreira, o que prova que ela vêm evoluindo cada vez mais, saindo da sua zona de conforto que é a comédia. O maravilhoso e veterano ator sueco Max von Sidow, indicado ao Oscar por sua atuação no filme, não profere uma só palavra durante o filme, mas constrói um dos personagens mais instigantes da história. Daldry ainda se dá ao luxo de usar nomes de peso em participações especiais: Viola Davis (que tem uma cena linda), John Goodman e Jeffrey Wright têm pouco tempo de cena. Já Tom Hanks, que dá vida ao pai de Oskar, não faz muito mais que o usual, mas sua persona cai como uma luva para o papel. 

Tão Forte e Tão Perto me surpreendeu. O que poderia ser mais um drama lacrimejoso sobre uma das maiores tragédias da história norte-americana, revela-se um filme delicado, intenso, mas que foge da autocomiseração e do sensacionalismo. É interessante como o longa-metragem afronta corajosamente o atentado de 11 de setembro, ainda tão sentido pela sociedade americana. Ao final, Tão Forte e Tão Perto revela-se uma fábula sobre o luto, o crescimento e a aceitação da perda. 

Assista ao trailer:



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Em Um Mundo Melhor - 2010

Título original: Haevnen
Lançamento: 2010 
País: Dinamarca/Suécia
Direção: Susanne Bier
Atores: Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen, William Johnk Nielsen.
Duração: 119 min
Gênero: Drama


O ator sueco Mikael Persbrandt é o protagonista de Em Um Mundo Melhor.

Como ser uma pessoa boa, ética e justa em um mundo onde a maldade, a injustiça e a falta de humanidade muitas vezes parecem prevalecer? Essa é a pergunta que a diretora dinamarquesa Susanne Bier nos faz em Em Um Mundo Melhor (2010), longa-metragem premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. A diretora de 51 anos tem uma filmografia bastante sólida com 12 filmes no currículo. Entre eles, destacam-se: Corações Livres (2002), Brødre (2004) e Depois do Casamento (2006).  Em Um Mundo Melhor marca a quarta parceria de Bier com o roteirista Anders Thomas Jensen, com quem divide os créditos pelo roteiro do filme. 

O roteiro de Em Um Mundo Melhor impressiona pela sua maturidade e pela maneira com que cada fração da história se comunica e se completa, criando uma unidade de sentido. O filme é centrado em duas famílias.  No primeiro núcleo familiar, temos Anton (Mikael Persbrandt), um médico que trabalha na África e que está se divorciando de Marianne (Trine Dyrholm). Ao que tudo indica, Anton estava mantendo um caso extraconjugal e foi descoberto pela esposa. O filho de casal, Elias (Markus Rygaard), tem doze anos e sofre bullying na escola. A outra família é formada por Claus (Ulrich Thomsen) e Christian (William Jøhnk Nielsen), pai e filho respectivamente. Christian tem a mesma idade de Elias. A mãe do pré-adolescente morreu de câncer e agora pai e filho têm que superar essa perda juntos. Christian, no entanto, não consegue se relacionar com Claus. Elias e Christiam se conhecem na escola e iniciam uma amizade. 

Cada personagem do filme é desenvolvido com extremo cuidado e carinho pelo roteiro. Anton nos é apresentado exercendo a sua função de médico na África, em uma região dominada pela miséria, pela aridez e pela falta de recursos. O trabalho do personagem revela a humanidade e a preocupação social do mesmo. Podemos afirmar que os dois grandes opostos do filme são: Anton e o jovem Christian. Enquanto o primeiro acredita no poder da não-violência e de compreensão do próximo, o segundo se sente impelido a fazer justiça com as próprias mãos, respondendo uma agressão com outra agressão. Não é injustificável o espírito vingador e rebelde de Christian, uma vez que ele parece enxergar como o mundo é cruel e injusto. Quando ele se utiliza de uma arma para punir o agressor do amigo, ele quer fazer o certo, ele quer corrigir uma injustiça. No entanto, o garoto acaba ficando cada vez mais sombrio e violento. 

Elias (Markus Rygaard) e Christian (William Jøhnk Nielsen) são melhores amigos no filme.

Dividido entre a filosofia pacífica do pai e a atitude vingativa do melhor amigo, está o doce Elias. O personagem encanta por ser naturalmente bom e ético. O menino, que aparentemente não tem amigos e sofre com a distância do pai e o divórcio, encontra em Christian uma alternativa para a sua solidão. O medo de perder a amizade de Christian, é o que faz Elias se tornar vulnerável à violência do amigo. É tocante como o filme retrata a cumplicidade infantil. Claus e Marianne compartilham a mesma dificuldade de se comunicar com os filhos. Claus é um personagem impotente diante do ódio avassalador e da indiferença do filho. Já Marianne sofre por não conseguir perdoar o marido, que além de ser um excelente pai, lhe faz muita falta. 

Susanne Bier revela-se uma mestre em explorar as emoções dos personagens, por vezes diante de situações limites. Em várias cenas, é possível compreender tudo que um personagem está sentindo apenas pelo olhar do mesmo e pela maneira com que a diretora conduz a cena, muitas vezes apostando nos closes ou mesmo na instabilidade da câmera. Podemos destacar o momento em que Anton tem que prestar socorro a um terrível criminoso, líder de uma milícia que aterroriza a região em que o médico trabalha. Nesta cena, é palpável a hesitação e o conflito interno do personagem. Em outra cena extremamente forte, em que Marienne tem uma atitude cruel com Christian, é nítido que ela se arrepende quase instantaneamente, percebendo a gravidade do que falou.

Não apenas a direção dos atores é fenomenal, mas também os próprios atores. Os jovens William Jøhnk Nielsen e Markus Rygaard podem ser considerados grandes revelações. Se o primeiro impressiona pela intensidade de sua atuação, o segundo nos conquista pela naturalidade de sua performance. Já o ator sueco Mikael Persbrandt é o coração do filme. Sua interpretação é precisa, contida e seu personagem emana humanidade e sensatez. Trine Dyrholm, que chegou a ganhar alguns prêmios por sua performance, dá um show em cada cena em que aparece. A atriz dinamarquesa estará no próximo filme de Bier, previsto para estrear em 2012. Por fim, Ulrich Thomsen completa o quinteto de atores principais e confere, ao seu personagem,fragilidade e vulnerabilidade. 

Um dos grandes êxitos de Em Um Mundo Melhor é a sua excelente direção de fotografia, que explora perfeitamente a intensidade e multiplicidade das cores da ensolarada e árida África, assim como a beleza das paisagens dinamarquesas. A narrativa é ainda pontuada por uma trilha sonora bela e minimalista. É interessante constatar que os roteiristas optaram por uma resolução otimista do filme, para o que poderia ser um final trágico. Ainda que um final "mais realista" fosse mais impactante, fico feliz com a escolha da dupla Bier-Jensen, já que, com isso, eles parecem nos dizer que é possível acreditar em um mundo melhor. 

Assista ao trailer:



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Valsa com Bashir - 2008

Título original: Vals Im Bashir
Lançamento: 2008 
País: Israel
Direção: Ari Folman
Depoimentos de: Ron Ben-Yishai, Ronny Dayag, Ari Folman, Dror Harazi.
Duração: 90 min
Gênero: Animação/Documentário


Valsa com Bashir é o terceiro longa-metragem de Ari Folman, diretor, roteirista e compositor israelense. Aos 19 anos, Folman era soldado do Exército de Defesa Israelense, tendo combatido na Guerra do Líbano (1982/1983). Em Valsa com Bashir, o diretor tenta reconstruir sua memória do período de guerra. Quando um amigo do cineasta o procura para relatar um pesadelo recorrente que tem tido e que estaria relacionado a uma de suas missões no Líbano, Ari percebe que não consegue ter lembranças nítidas desse período. O diretor então inicia uma busca pela verdade, recorrendo aos seus colegas de infantaria e colhendo depoimentos. A sombra do terrível Massacre de Sabra e Chatila (16-18 de setembro de 1982) perturba o diretor. Tal massacre foi responsável pela morte de centenas (não se sabe o número exato) de refugiados civis palestinos e libaneses, tendo sido perpetrado por uma milícia falangista cristã libanesa. O genocídio foi uma resposta ao assassinato de Bashir Gemayel, presidente eleito do Líbano em 1982 e líder da milícia cristã de extrema-direita apoiada por Israel. A relação do Exército Israelense com o massacre nunca foi devidamente esclarecida. 

A campanha publicitária do lançamento de Valsa com Bashir reivindicava que este era o primeiro documentário de animação realizado na história do cinema. No entanto, mais importante do que a discussão sobre o fato de ele ser ou não o primeiro (e existem partidários para as duas teorias), é compreender a dinâmica desse longa-metragem e o que faz dele um documentário e não um filme de ficção. Por vezes, nos deparamos com filmes que desafiam todo tipo de classificação e que revelam uma linguagem híbrida, nos provando que certas obras de arte não podem ser rotuladas. E mais, como definir precisamente o que é um documentário? Podemos tentar: documentário é um filme construído a partir de documentos reais e se caracteriza pela relação direta com uma realidade pré-existente, por veicular imagens dadas como verídicas, que não passam pelo poder criador do homem. A objetividade e a fidelidade ao real são marcas da abordagem documentarista. Como não poderia deixar de ser, Valsa com Bashir cria um problema para a nossa definição. As imagens do filme se distanciam do referente real e são derivadas da mão do homem. Como um desenho pode ter valor de documento, se não é a reprodução direta da realidade? Ari Folman nos prova que tudo é possível no cinema.

A escolha de se realizar um documentário sob a forma de animação é fascinante, já que o desenho permite representar o que dificilmente poderia ser representado ou mostrado de outra forma. Como dar a real dimensão da barbárie e mostrar o efeito da guerra sobre os homens? Talvez o desenho consiga transmitir com mais fidelidade o horror de um massacre do que uma imagem jornalística. A animação contorna também o problema da ausência de documentos e arquivos e permite que as pessoas se exponham, sem, no entanto, revelar seus rostos. Outra vantagem da animação, explorada magnificamente por Folman, é que ela permite representar os sonhos e pesadelos dos entrevistados. As sequência oníricas do filme são belíssimas, ricas em simbologias e Folman se interessa explicitamente pela dimensão psicanalítica da história. O agenciamento da realidade psíquica, do presente e da realidade histórica é representado pelo uso das cores no filme. As cenas de alucinação e as do massacre se caracterizam pelo uso de tons amarelados e do preto, as cenas dos sonhos são dominadas pelo verde, azul e laranja, já as cenas realistas do presente são caracterizadas pelas cores frias. 


Mesmo optando pela animação, Folman obedece a certos códigos do documentário. Antes de escrever o roteiro, o diretor fez uma rigorosa pesquisa, documentação e colheu entrevistas. Os desenhos da maioria dos entrevistados são inspirados na fisionomia dos mesmos. Além disso, a dublagem é feita pelos próprios entrevistados e não por atores, ou seja, Folman fez as pessoas regravarem os depoimentos que concederam anteriormente. O diretor também mostra na tela os nomes dos entrevistados, procedimento comum do documentário. Folman concebe cada cena segundo o ponto de vista de uma câmera real, tentando se aproximar de uma estética realista e imitando, por exemplo, a instabilidade da câmera nos ombros, em determinados momentos do filme. 

Todos os aspectos formais do filme estão a serviço de uma busca pela memória, um afrontamento do trauma, daquilo que ficou mal resolvido no passado. O documentário funciona como um ato político ao revisitar e denunciar um passado doloroso, ainda pouco compreendido e ao tentar lançar uma luz sobre uma tragédia que muitos preferem esquecer. Sobre quais ombros pesam a morte das centenas (e talvez milhares) de pessoas inocentes cujas vidas foram tiradas precocemente no funesto setembro de 1982? Folman estava lá e mesmo não tendo puxado o gatilho contra os civis palestinos, ele sabe que de alguma forma participou do genocídio. O documentário é uma forma de expiar os pecados de toda uma geração e de toda uma sociedade. 

É interessante notar que Folman cede à tentação e acaba inserindo, ao final do documentário, uma cena filmada pela televisão inglesa após o Massacre de Sabra e Chatila. Por que será que o diretor se sentiu impelido a inserir o vídeo após o filme? Será uma maneira de chamar a atenção do espectador de que tudo o que foi contado anteriormente ocorreu de fato, criando uma ligação direta entre a animação e a realidade? Ou será que ele quis simplesmente mostrar que tal imagem não tem o poder de dar a dimensão de tudo o que o ocorreu naquelas noites de setembro e que todo o filme foi uma preparação para compreender aquela cena trágica? De qualquer forma, Valsa com Bashir é um dos documentários mais instigantes que o cinema produziu nos últimos anos.  


Assista ao trailer: