segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Mulheres Diabólicas - 1995

Título original: La cérémonie
Lançamento: 1995
País: França
Diretor: Claude Chabrol
Atores: Isabelle HuppertSandrine Bonnaire, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Virginie Ledoyen
Gênero: Drama/Suspense


Sophie (Sandrine Bonnaire) e Jeanne (Isabelle Huppert) - Uma amizade funesta.


Em 12 de setembro de 2010, morreu Claude Chabrol aos 80 anos. Recém chegado a Paris, pude presenciar a grande comoção que a morte do cineasta provocou nos franceses, provando que talvez ele tenha sido o diretor mais popular dentre os gigantes da Nouvelle Vague. Assim como GodardTruffautRohmer e Rivette, Chabrol participou do movimento de renovação do cinema francês nos anos 50, sendo um dos grandes nomes da influente Nouvelle Vague. Em mais de 50 anos de carreira, o prolífico Chabrol dirigiu mais de 50 longas-metragens para o cinema, além de diversos trabalhos para a televisão e curtas-metragens. O cineasta se notabilizou por um gênero em particular: o suspense. Mulheres Diabólicas (1995) é considerado um de seus melhores trabalhos, ao lado de O Açougueiro (1970), A Mulher Infiel (1969) e Um Assunto de Mulheres (1988). O filme é também a terceira de sete parcerias do diretor com uma de suas atrizes favoritas, a talentosíssima e multipremiada Isabelle Huppert. 

Mulheres Diabólicas conta a história da jovem Sophie, que é contratada para trabalhar como empregada na mansão de uma família abastada, no interior da França. A dona da casa, Catherine Lelievre (Jacqueline Bisset), deposita grande confiança em Sophie e fica impressionada com a eficiência da jovem e com sua personalidade austera e reservada. A empregada, no entanto, guarda alguns segredos, como o fato de ser analfabeta. Rapidamente, Sophie faz amizade com Jeanne (Isabelle Huppert), moça espontânea e extrovertida, que trabalha no correio da pequena cidade e que não se dá nada bem com Georges Lelievre (Jean-Pierre Cassel), marido de Catherine. Jeanne e Sophie têm algo em comum, ambas foram consideradas suspeitas de assassinato no passado, mas eventualmente inocentadas por falta de provas.

A versão brasileira do título original (La Cérémonie - A Cerimônia) pode ser considerada um pequeno spoiler, uma vez que revela algo que é apenas insinuado durante grande parte do filme. Certamente, um dos grandes charmes da obra de Chabrol é o de construir uma aura estranha em torno das duas protagonistas sem, no entanto, revelar a verdade sobre elas. A banalidade do enredo se contrapõe à sensação de perigo iminente, o que faz do filme uma experiência deliciosamente instigante. A presença de Sophie é inquietante. Monossilábica, fria, estranha, a personagem parece não ser dotada de qualquer traquejo social, impondo uma distância a todos em sua volta, com exceção de Jeanne. É interessante perceber como Catherine tenta estabelecer uma relação afetuosa com a empregada através do contato físico, que é recebido com indiferença. Jeanne, por sua vez, parece o oposto de Sophie, falastrona, espaçosa, bisbilhoteira, ela carrega a energia extra que parece faltar na empregada. Um elemento quase sobrenatural parece atrair essas duas mulheres solitárias, que se tornam cúmplices e amigas. Intuitivamente, elas reconhecem, uma na outra, o mesmo potencial psicopata. Além disso, é possível também perceber um homoerotismo entre as duas personagens.  

A relação das duas protagonistas é construída de maneira magistral por Chabrol (que também é responsável pelo roteiro ao lado de Caroline Eliacheff). Jeanne insere o caos na vida de Sophie, que o aceita sem a mínima luta. Jeanne despreza as regras sociais. Nada a seduz mais que a transgressão. Além disso, ela nutre um misto de ódio, desprezo e inveja pela família Lelievre, perfeito modelo da feliz família burguesa. Tudo nos leva a crer que a aproximação de Jeanne a Sophie é arquitetada pela primeira, como uma maneira de se inserir na realidade dos Lelievre. Sophie se entrega à manipulação e, sem nenhuma resistência, entra no perigoso jogo da nova amiga. Ao longo da trama, as duas mulheres parecem se mimetizar, usando, inclusive, o mesmo penteado. Mas não se engane: Sophie nada tem de vítima ou inocente. É interessante perceber, por exemplo, que enquanto sua comparsa revela um pouco de seu passado, Sophie nada expõe de seu mistério, revelando-se, ao final, tão ou mais perigosa que Jeanne. 

Chabrol sempre revelou uma visão ácida da burguesia. Em Mulheres Diabólicas, ele faz uma pintura muito interessante da diferença de classes. Os Lelievre são figuras cheias de boas intenções, com uma rotina perfeita, uma casa deslumbrante e cujo programa de família é se reunir para ouvir ópera. A mansão em que vivem se contrasta com o modesto e diminuto apartamento de Jeanne, que é tomada por um sentimento de injustiça social latente. O espectador tende a se identificar com as protagonistas e não com a família, uma vez que o filme adota o ponto de vista das mulheres. O longa-metragem pode ser encarado como uma alegoria de uma "vingança social". 

O que seria de Mulheres Diabólicas sem seu ótimo elenco? Sandrine Bonnaire (que tem um rosto lindo e marcante) faz um trabalho impressionante. Uma atuação é magistral quando a personagem parece ter vida própria, se revelando maior que a ficção. A intensidade do olhar de Bonnaire e a precisão de sua interpretação fazem de Sophie uma personagem fascinante e assustadora. A performance contida da atriz se contrapõe maravilhosamente à exuberância de Isabelle Huppert, que nos oferece uma atuação cheia de vida e energia. Completando o elenco, temos a belíssima Jacqueline Bisset, que encarna com naturalidade e elegância a refinada Catherine, e o veterano Jean-Pierre Cassel, também excelente. 

Mulheres diabólicas ainda conta com a sombria trilha sonora de Matthieu Chabrol (filho do diretor) e com um final inesquecível, carregado de humor negro, ironia e um tom quase surrealista. Neste filme, Chabrol comprova ser um mestre do thriller, compondo uma narrativa instigante e inquietante. 

Assista ao trailer:





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Tão Forte e Tão Perto - 2011

Título original: Extremely Loud and Incredibly Close
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Stephen Daldry
Atores: Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, John Goodman, Max von Sidow.
Duração: 129 min
Gênero: Drama
Estreia no Brasil: 24 de fevereiro

O estreante Thomas Horn interpreta Oskar Schell em Tão Forte e Tão Perto

Como descrever Oskar Schell, protagonista de Tão Forte e Tão Perto? Irritantemente inteligente, precoce, inflexível, teimoso, curioso, racional, aventureiro, medroso, estranho, genioso, meticuloso, sensível, cheio de manias, paranoico, autoritário, antissocial, detestavelmente adorável. Como descrever a performance de Thomas Horn, intérprete de Oskar? Extraordinária, fora de série, surpreendente, comovente, de tirar o fôlego, impressionante e uma das melhores de 2011. Toda essa empolgação não é injustificada (prometo). Tão Forte e Tão Perto é o primeiro trabalho no cinema desse garoto de 14 anos e, se o mundo fosse justo, ele estaria concorrendo ao Oscar de Melhor Ator neste ano e ainda seria um dos favoritos a levar a estatueta para casa. Mas quem precisa do reconhecimento do Oscar ou de qualquer outra premiação quando se é tão jovem e promissor? 

Comecemos pelo começo. Tão Forte e Tão Perto é apenas o quarto longa-metragem do diretor inglês Stephen Daldry. Mesmo tendo um currículo ainda curto, amor da crítica é o que não falta ao cineasta de 50 anos. Daldry foi indicado três vezes ao Oscar de Melhor Diretor pelos seus três primeiros filmes. Mas não é só isso: seus três últimos filmes foram indicados ao prêmio principal. Quando a maioria de nós pensava que ele não seria lembrado na lista final da Academia, este ano, eis que Tão Forte e Tão Perto abocanha uma inesperada indicação a Melhor Filme. É uma pena, no entanto, que os votantes da Academia tenham sido tão econômicos com o filme, lembrando-se dele em apenas duas categorias (Filme e Ator Coadjuvante). Mas chega de falar de Oscar! O importante é que depois de dois grandes filmes, Billy Elliot (2000) e As Horas (2002) e um apenas bom, O Leitor (2008), Daldry volta com tudo, em um filme exemplar, provando que errar não é com ele. 

O roteiro do novo filme de Daldry é de responsabilidade do veterano Eric Roth. Alguns dos trabalhos anteriores do roteirista são: Forrest Gump (1994), O Informante (1999) e O Curioso Caso de Benjamin Button (2008). Em Tão Forte, Tão Perto, Roth adapta o romance Extremely Loud and Incredibly Close do escritor americano Jonathan Safran Foer, publicado em 2005. O filme, assim como o romance, é centrado em Oskar Schell, garoto de nove anos, cujo pai morreu no atentado de 11 de setembro às Torres Gêmeas. Schell era extremamente apegado ao pai, Thomas (Tom Hanks) que incentivava o interesse do menino pela aventura, pela ciência e pela pesquisa. Um ano após a morte de Thomas, Schell encontra uma chave entre os pertences do pai e inicia uma exaustiva peregrinação para descobrir o que ela abre. 



A busca de Schell pelo segredo do pai é uma tentativa do garoto de adiar o enfrentamento da perda. O menino, que sempre surpreende o espectador pela sua perspicácia e pelo seu raciocínio lógico, tem plena consciência que sua aventura é uma maneira de adiar uma inevitável "separação", ou seja, enquanto ele estiver envolvido com sua missão, não precisará "despedir-se" do pai. A jornada pessoal de Schell é essencial para que a criança aceite a perda, supere a dor e consiga viver com uma culpa que o atormenta. O belo e eficiente roteiro de Eric Roth acerta ao construir sua narrativa através do ponto de vista da criança, que assume também o papel de narradora no filme. Mesmo que o protagonista não corresponda à ideia de criança adorável (e ele é capaz de dizer coisas cruéis e ser bem desagradável), o espectador acaba por se familiarizar com o menino, conseguindo compreender suas motivações e enxergar suas limitações e qualidades. O roteiro de Roth não apenas permite que criemos um vínculo com o personagem principal, mas também que tenhamos acesso ao seu universo dominado pela lógica e pela razão. 

Daldry mergulha no universo infantil com a mesma sensibilidade que havia demonstrado em Billy Elliot. O diretor dá à narrativa o dinamismo de uma aventura, mas consegue, ao mesmo tempo, explorar cada nuance da personalidade do protagonista, assim como o potencial dramático da história. Mesmo revelando-se por vezes sentimentalista, o filme jamais se torna sentimentaloide. E é interessante perceber que Daldry contorna as armadilhas, evitando cair na pieguice e no melodrama. Impressionam também a decupagem do filme, o capricho da direção de arte e a bela fotografia. 

Outro ponto forte do filme é seu elenco. O já citado Thomas Horn demonstra uma maturidade cênica impressionante. O ator estreante está em praticamente todas as cenas, interpreta um personagem delicado e difícil e, mesmo assim, carrega o filme nas costas. Outro destaque é Sandra Bullock, numa das performances mais maduras e interessantes de sua carreira, o que prova que ela vêm evoluindo cada vez mais, saindo da sua zona de conforto que é a comédia. O maravilhoso e veterano ator sueco Max von Sidow, indicado ao Oscar por sua atuação no filme, não profere uma só palavra durante o filme, mas constrói um dos personagens mais instigantes da história. Daldry ainda se dá ao luxo de usar nomes de peso em participações especiais: Viola Davis (que tem uma cena linda), John Goodman e Jeffrey Wright têm pouco tempo de cena. Já Tom Hanks, que dá vida ao pai de Oskar, não faz muito mais que o usual, mas sua persona cai como uma luva para o papel. 

Tão Forte e Tão Perto me surpreendeu. O que poderia ser mais um drama lacrimejoso sobre uma das maiores tragédias da história norte-americana, revela-se um filme delicado, intenso, mas que foge da autocomiseração e do sensacionalismo. É interessante como o longa-metragem afronta corajosamente o atentado de 11 de setembro, ainda tão sentido pela sociedade americana. Ao final, Tão Forte e Tão Perto revela-se uma fábula sobre o luto, o crescimento e a aceitação da perda. 

Assista ao trailer:



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Em Um Mundo Melhor - 2010

Título original: Haevnen
Lançamento: 2010 
País: Dinamarca/Suécia
Direção: Susanne Bier
Atores: Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen, William Johnk Nielsen.
Duração: 119 min
Gênero: Drama


O ator sueco Mikael Persbrandt é o protagonista de Em Um Mundo Melhor.

Como ser uma pessoa boa, ética e justa em um mundo onde a maldade, a injustiça e a falta de humanidade muitas vezes parecem prevalecer? Essa é a pergunta que a diretora dinamarquesa Susanne Bier nos faz em Em Um Mundo Melhor (2010), longa-metragem premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. A diretora de 51 anos tem uma filmografia bastante sólida com 12 filmes no currículo. Entre eles, destacam-se: Corações Livres (2002), Brødre (2004) e Depois do Casamento (2006).  Em Um Mundo Melhor marca a quarta parceria de Bier com o roteirista Anders Thomas Jensen, com quem divide os créditos pelo roteiro do filme. 

O roteiro de Em Um Mundo Melhor impressiona pela sua maturidade e pela maneira com que cada fração da história se comunica e se completa, criando uma unidade de sentido. O filme é centrado em duas famílias.  No primeiro núcleo familiar, temos Anton (Mikael Persbrandt), um médico que trabalha na África e que está se divorciando de Marianne (Trine Dyrholm). Ao que tudo indica, Anton estava mantendo um caso extraconjugal e foi descoberto pela esposa. O filho de casal, Elias (Markus Rygaard), tem doze anos e sofre bullying na escola. A outra família é formada por Claus (Ulrich Thomsen) e Christian (William Jøhnk Nielsen), pai e filho respectivamente. Christian tem a mesma idade de Elias. A mãe do pré-adolescente morreu de câncer e agora pai e filho têm que superar essa perda juntos. Christian, no entanto, não consegue se relacionar com Claus. Elias e Christiam se conhecem na escola e iniciam uma amizade. 

Cada personagem do filme é desenvolvido com extremo cuidado e carinho pelo roteiro. Anton nos é apresentado exercendo a sua função de médico na África, em uma região dominada pela miséria, pela aridez e pela falta de recursos. O trabalho do personagem revela a humanidade e a preocupação social do mesmo. Podemos afirmar que os dois grandes opostos do filme são: Anton e o jovem Christian. Enquanto o primeiro acredita no poder da não-violência e de compreensão do próximo, o segundo se sente impelido a fazer justiça com as próprias mãos, respondendo uma agressão com outra agressão. Não é injustificável o espírito vingador e rebelde de Christian, uma vez que ele parece enxergar como o mundo é cruel e injusto. Quando ele se utiliza de uma arma para punir o agressor do amigo, ele quer fazer o certo, ele quer corrigir uma injustiça. No entanto, o garoto acaba ficando cada vez mais sombrio e violento. 

Elias (Markus Rygaard) e Christian (William Jøhnk Nielsen) são melhores amigos no filme.

Dividido entre a filosofia pacífica do pai e a atitude vingativa do melhor amigo, está o doce Elias. O personagem encanta por ser naturalmente bom e ético. O menino, que aparentemente não tem amigos e sofre com a distância do pai e o divórcio, encontra em Christian uma alternativa para a sua solidão. O medo de perder a amizade de Christian, é o que faz Elias se tornar vulnerável à violência do amigo. É tocante como o filme retrata a cumplicidade infantil. Claus e Marianne compartilham a mesma dificuldade de se comunicar com os filhos. Claus é um personagem impotente diante do ódio avassalador e da indiferença do filho. Já Marianne sofre por não conseguir perdoar o marido, que além de ser um excelente pai, lhe faz muita falta. 

Susanne Bier revela-se uma mestre em explorar as emoções dos personagens, por vezes diante de situações limites. Em várias cenas, é possível compreender tudo que um personagem está sentindo apenas pelo olhar do mesmo e pela maneira com que a diretora conduz a cena, muitas vezes apostando nos closes ou mesmo na instabilidade da câmera. Podemos destacar o momento em que Anton tem que prestar socorro a um terrível criminoso, líder de uma milícia que aterroriza a região em que o médico trabalha. Nesta cena, é palpável a hesitação e o conflito interno do personagem. Em outra cena extremamente forte, em que Marienne tem uma atitude cruel com Christian, é nítido que ela se arrepende quase instantaneamente, percebendo a gravidade do que falou.

Não apenas a direção dos atores é fenomenal, mas também os próprios atores. Os jovens William Jøhnk Nielsen e Markus Rygaard podem ser considerados grandes revelações. Se o primeiro impressiona pela intensidade de sua atuação, o segundo nos conquista pela naturalidade de sua performance. Já o ator sueco Mikael Persbrandt é o coração do filme. Sua interpretação é precisa, contida e seu personagem emana humanidade e sensatez. Trine Dyrholm, que chegou a ganhar alguns prêmios por sua performance, dá um show em cada cena em que aparece. A atriz dinamarquesa estará no próximo filme de Bier, previsto para estrear em 2012. Por fim, Ulrich Thomsen completa o quinteto de atores principais e confere, ao seu personagem,fragilidade e vulnerabilidade. 

Um dos grandes êxitos de Em Um Mundo Melhor é a sua excelente direção de fotografia, que explora perfeitamente a intensidade e multiplicidade das cores da ensolarada e árida África, assim como a beleza das paisagens dinamarquesas. A narrativa é ainda pontuada por uma trilha sonora bela e minimalista. É interessante constatar que os roteiristas optaram por uma resolução otimista do filme, para o que poderia ser um final trágico. Ainda que um final "mais realista" fosse mais impactante, fico feliz com a escolha da dupla Bier-Jensen, já que, com isso, eles parecem nos dizer que é possível acreditar em um mundo melhor. 

Assista ao trailer:



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Valsa com Bashir - 2008

Título original: Vals Im Bashir
Lançamento: 2008 
País: Israel
Direção: Ari Folman
Depoimentos de: Ron Ben-Yishai, Ronny Dayag, Ari Folman, Dror Harazi.
Duração: 90 min
Gênero: Animação/Documentário


Valsa com Bashir é o terceiro longa-metragem de Ari Folman, diretor, roteirista e compositor israelense. Aos 19 anos, Folman era soldado do Exército de Defesa Israelense, tendo combatido na Guerra do Líbano (1982/1983). Em Valsa com Bashir, o diretor tenta reconstruir sua memória do período de guerra. Quando um amigo do cineasta o procura para relatar um pesadelo recorrente que tem tido e que estaria relacionado a uma de suas missões no Líbano, Ari percebe que não consegue ter lembranças nítidas desse período. O diretor então inicia uma busca pela verdade, recorrendo aos seus colegas de infantaria e colhendo depoimentos. A sombra do terrível Massacre de Sabra e Chatila (16-18 de setembro de 1982) perturba o diretor. Tal massacre foi responsável pela morte de centenas (não se sabe o número exato) de refugiados civis palestinos e libaneses, tendo sido perpetrado por uma milícia falangista cristã libanesa. O genocídio foi uma resposta ao assassinato de Bashir Gemayel, presidente eleito do Líbano em 1982 e líder da milícia cristã de extrema-direita apoiada por Israel. A relação do Exército Israelense com o massacre nunca foi devidamente esclarecida. 

A campanha publicitária do lançamento de Valsa com Bashir reivindicava que este era o primeiro documentário de animação realizado na história do cinema. No entanto, mais importante do que a discussão sobre o fato de ele ser ou não o primeiro (e existem partidários para as duas teorias), é compreender a dinâmica desse longa-metragem e o que faz dele um documentário e não um filme de ficção. Por vezes, nos deparamos com filmes que desafiam todo tipo de classificação e que revelam uma linguagem híbrida, nos provando que certas obras de arte não podem ser rotuladas. E mais, como definir precisamente o que é um documentário? Podemos tentar: documentário é um filme construído a partir de documentos reais e se caracteriza pela relação direta com uma realidade pré-existente, por veicular imagens dadas como verídicas, que não passam pelo poder criador do homem. A objetividade e a fidelidade ao real são marcas da abordagem documentarista. Como não poderia deixar de ser, Valsa com Bashir cria um problema para a nossa definição. As imagens do filme se distanciam do referente real e são derivadas da mão do homem. Como um desenho pode ter valor de documento, se não é a reprodução direta da realidade? Ari Folman nos prova que tudo é possível no cinema.

A escolha de se realizar um documentário sob a forma de animação é fascinante, já que o desenho permite representar o que dificilmente poderia ser representado ou mostrado de outra forma. Como dar a real dimensão da barbárie e mostrar o efeito da guerra sobre os homens? Talvez o desenho consiga transmitir com mais fidelidade o horror de um massacre do que uma imagem jornalística. A animação contorna também o problema da ausência de documentos e arquivos e permite que as pessoas se exponham, sem, no entanto, revelar seus rostos. Outra vantagem da animação, explorada magnificamente por Folman, é que ela permite representar os sonhos e pesadelos dos entrevistados. As sequência oníricas do filme são belíssimas, ricas em simbologias e Folman se interessa explicitamente pela dimensão psicanalítica da história. O agenciamento da realidade psíquica, do presente e da realidade histórica é representado pelo uso das cores no filme. As cenas de alucinação e as do massacre se caracterizam pelo uso de tons amarelados e do preto, as cenas dos sonhos são dominadas pelo verde, azul e laranja, já as cenas realistas do presente são caracterizadas pelas cores frias. 


Mesmo optando pela animação, Folman obedece a certos códigos do documentário. Antes de escrever o roteiro, o diretor fez uma rigorosa pesquisa, documentação e colheu entrevistas. Os desenhos da maioria dos entrevistados são inspirados na fisionomia dos mesmos. Além disso, a dublagem é feita pelos próprios entrevistados e não por atores, ou seja, Folman fez as pessoas regravarem os depoimentos que concederam anteriormente. O diretor também mostra na tela os nomes dos entrevistados, procedimento comum do documentário. Folman concebe cada cena segundo o ponto de vista de uma câmera real, tentando se aproximar de uma estética realista e imitando, por exemplo, a instabilidade da câmera nos ombros, em determinados momentos do filme. 

Todos os aspectos formais do filme estão a serviço de uma busca pela memória, um afrontamento do trauma, daquilo que ficou mal resolvido no passado. O documentário funciona como um ato político ao revisitar e denunciar um passado doloroso, ainda pouco compreendido e ao tentar lançar uma luz sobre uma tragédia que muitos preferem esquecer. Sobre quais ombros pesam a morte das centenas (e talvez milhares) de pessoas inocentes cujas vidas foram tiradas precocemente no funesto setembro de 1982? Folman estava lá e mesmo não tendo puxado o gatilho contra os civis palestinos, ele sabe que de alguma forma participou do genocídio. O documentário é uma forma de expiar os pecados de toda uma geração e de toda uma sociedade. 

É interessante notar que Folman cede à tentação e acaba inserindo, ao final do documentário, uma cena filmada pela televisão inglesa após o Massacre de Sabra e Chatila. Por que será que o diretor se sentiu impelido a inserir o vídeo após o filme? Será uma maneira de chamar a atenção do espectador de que tudo o que foi contado anteriormente ocorreu de fato, criando uma ligação direta entre a animação e a realidade? Ou será que ele quis simplesmente mostrar que tal imagem não tem o poder de dar a dimensão de tudo o que o ocorreu naquelas noites de setembro e que todo o filme foi uma preparação para compreender aquela cena trágica? De qualquer forma, Valsa com Bashir é um dos documentários mais instigantes que o cinema produziu nos últimos anos.  


Assista ao trailer:




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro - 2011

Título original: The Iron Lady
Lançamento: 2011 
País: Reino Unido
Direção: Phyllida Lloyd
Atores: Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Anthony Head.
Duração: 105 min
Gênero: Drama/Biografia

Margaret Thatcher (a original) e sua versão cinematográfica (Meryl Streep)

Após assistir A Dama de Ferro, é inevitável se perguntar: o que Margaret Thatcher (sim, ela está viva) pensaria ou pensou sobre sua cinebiografia? Será que ela a viu? Poucos notáveis tiveram o privilégio de verem suas próprias vidas retratadas nas telas do cinema. No caso de Thatcher, a palavra "privilégio" revela-se no mínimo irônica e, sinceramente, espero que essa senhora de 86 anos não tenha tido que passar pela provação de assistir a tal "homenagem". Sobretudo, parece-me estranho que a ex-primeira ministra britânica não tenha ordenado uma intervenção militar quando foi anunciado que a diretora de Mamma Mia! (2008) encabeçaria o projeto A Dama de Ferro. Minha reação face à notícia (lembro-me como se fosse hoje) foi de medo, um medo digno do período da Guerra Fria, retratado no filme. Uma das grandes figuras políticas do século XX merecia mais consideração. Brincadeiras a parte, é difícil estabelecer qual dos dois longas-metragens de Phyllida Lloyd deixa mais a desejar. Mamma Mia!, sua estreia no cinema, foi um imenso sucesso de público, apesar de eu não encontrar outra palavra além de "constrangedor", para descrever o alegre musical (que me perdoem os fãs de ABBA). Ao contrário de A Dama de Ferro, o filme de 2008 não se levava suficientemente a sério, o que faz dele, provavelmente, um fracasso menor.

Muitos já antecipavam que uma cinebiografia de Margaret Thatcher daria o que falar, afinal a ex-primeira ministra sempre foi cercada de polêmicas, dividindo a opinião pública. Não foram poucos os que atacaram o filme de Lloyd, alegando que o mesmo fazia um retrato pouco lisonjeiro de Thatcher, enquanto outros afirmavam o contrário, que o longa suavizava o caráter da grande líder. Um maior consenso parece girar em torno do pouco apego da roteirista à realidade histórica. De qualquer forma, este não é o primeiro nem será o último filme a fazer uso da "licença poética" e bons filmes, por sinal, já a utilizaram. A questão mais delicada, a meu ver, é de cunho ético e tange à maneira com que Thatcher é mostrada nos dias de hoje. Retratá-la como uma mulher à beira da esclerose e da demência, pode ser visto como um ato de extrema insensibilidade, já que Thatcher está viva e provavelmente enfrenta todas as dificuldades que a idade avançada lhe traz. Além disso, será que esse momento frágil de sua vida é realmente relevante? Será que é assim que ela quer ser lembrada?  O ato de contar a vida de uma pessoa real suscita interessantes reflexões a respeito da existência ou não de uma responsabilidade por parte do autor.



Qual é a estratégia cinematográfica mais comum em uma biografia? O flashback. Phyllida Lloyd não foge do convencional e constrói um filme que agencia retornos a diferentes estágios do passado da protagonista, em oposição ao presente da mesma, ponto de partida da história. Tais flashbacks são suscitados pelas lembranças de Thatcher (Meryl Streep). O fraco roteiro de Abi Morgan (que, em compensação, escreveu o ótimo Shame), inicia revelando uma Thatcher que em nada lembra a imagem da líder austera, inflexível e poderosa. A escolha de apresentar a personagem já idosa e vulnerável, não é de todo desprovida de sentido, já que a roteirista opta claramente por humanizar a personagem e desconstruir a imagem unidimensional que o mundo tem da figura histórica. Aplausos pela intenção. No entanto, o roteiro erra ao fazer da protagonista uma figura decrépita, próxima do ridículo que, inclusive, fala com o “fantasma” do marido morto (e me pergunto de onde Morgan tirou essa ideia).

O roteiro de Abi Morgan se revela confuso já pelas suas intenções. Se por um lado, a roteirista parece promover a humanização da personagem principal, mostrando seu presente decadente, ela investe paralelamente na heroicização da mesma, ao mostrar a trajetória política de Thatcher, para ao final tentar pintar um retrato menos elogioso. A soma de tudo isso dá um carnaval sem precedentes: Margaret Thatcher é ao mesmo tempo uma velha senil que conversa com um fantasma, uma Norma Rae que luta contra a supremacia masculina no mundo político e uma megera dominadora e inflexível. Quem, afinal, foi (e é) Margaret Thatcher?



Cedendo aos clichês do gênero, Phyllida Lloyd recheia seu filme de “momentos inspiradores”, fazendo de sua Thatcher, mais do que um exemplo de superação, uma fonte de sabedoria e uma discípula disfarçada de Sun Tzu (autor de A Arte da Guerra). A protagonista, por sinal, é uma figura que tem sempre uma máxima, uma frase de efeito a dizer. Mas Lloyd revela sua fragilidade como diretora também de outras formas. Ela, por exemplo, insiste em enfatizar que a personagem principal conseguiu penetrar num universo masculino. Como se não bastasse o plano em plongée (de cima para baixo), em que vemos a protagonista "engolida" pela multidão de homens, a diretora cria uma sucessão de outros planos para manifestar a mesma ideia do "estranho no ninho". Repetitiva e nada sutil, Lloyd ainda nos proporciona momentos mais embaraçosos, como em certa cena de reunião, onde a câmera parece ter vida própria. Outro tropeço da diretora é o de incluir cenas de arquivo no longa de maneira pouco orgânica à narrativa, salientando ainda mais a artificialidade da história.

E Meryl Streep (alguém pode se perguntar)? Ela não salva o filme? A atriz, recordista de indicações ao Oscar, prova mais uma vez que é uma camaleoa. Assim como no mediano Julie & Julia (2009), Streep faz um trabalho de composição impressionante. Nota-se (o que talvez não seja tão bom) que ela teve um trabalho de pesquisa aprofundado e que ela tentou captar em sua atuação o modo de falar, a postura e os maneirismos de Margaret Thatcher. Sua interpretação é magnética, principalmente quando interpreta Thatcher mais velha. Como trata-se de uma atuação "muito construída", talvez exista algo de artificial nela, que crie certo distanciamento. Pode ser que a qualidade medíocre do filme atrapalhe a atriz na corrida pelo seu terceiro Oscar. Viola Davis, sua principal adversária (e que deveria concorrer como coadjuvante), tem uma performance mais tocante em Histórias Cruzadas (2011), sem a armadura da caracterização de Streep, e seu filme teve uma recepção muito melhor que A Dama de Ferro, o que pode beneficiá-la.



O elenco de A Dama de Ferro é composto em sua maioria por atores ingleses (Streep é, obviamente, uma exceção). Ao fantástico Jim Broadbent cabe o ingrato papel de Dennis Thatcher, marido-aparição da protagonista, que pode ser considerado um dos "fantasminhas" mais inconvenientes do cinema. Bobo e sem-graça, o personagem é infantilizado pelo roteiro e o ator inglês pouco pode fazer para melhorá-lo. Alexandra Roach, que interpreta a jovem Margaret, e Olivia Colman, que interpreta a filha, têm ótimas participações.

Se a direção de arte e o figurino do filme merecem elogios, a trilha sonora do mesmo é um pequeno desastre, revelando-se previsível e piegas (o que dizer da cena de renúncia de Thatcher ao som de uma ópera exageradamente dramática?). Indicada merecidamente ao Oscar, a maquiagem do longa é fenomenal. Formulaico e convencional, A Dama de Ferro não faz jus à importância da personalidade que retrata e, talvez, até mesmo a embarace.



Veja a verdadeira Margaret Thatcher e compare com o trabalho de Meryl Streep:



Trailer do filme:



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A Guerra Está Declarada - 2011

Título original: La Guerre est Déclarée
Lançamento: 2011 
País: França
Direção: Valérie Donzelli
Atores: Valérie Donzelli, Jérémie Elkaïm, Michèle Moretti, Philippe Laudenbach.
Duração: 100 min
Gênero: Drama


O filho de um jovem casal é diagnosticado com um tumor cerebral

A relação biografia x obra sempre causou interesse e curiosidade. Na literatura, o crítico Sainte-Beuve acreditava que o trabalho de um escritor era necessariamente um reflexo de sua vida pessoal. Sem cair no radicalismo do crítico francês, podemos afirmar que uma obra de arte carrega em maior ou menor escala um pouco daquele que a fabrica. No cinema, temos casos interessantes. Federico Fellini, por exemplo, incluiu vários elementos autobiográficos em Amarcord (1973) e 8 1/² (1963). Em Persepolis (2007), de Marjane Satrapi, temos um caso explícito de uma autobiografia nos moldes tradicionais, onde até mesmo os nomes verídicos são mantidos. Outros casos são mais complexos. Em Noivo neurótica, noiva nervosa (1977), Woody Allen fala sobre um casal, interpretado por ele e Diane Keaton, que também formavam um casal na vida real na época. A personagem de Keaton chama-se Annie Hall (Annie é o apelido da atriz e Hall, o sobrenome). Apesar do diretor afirmar categoricamente que o filme não é autobiográfico, a comédia tem, sem dúvida, uma forte relação com uma realidade preexistente. E foi através da persona que Allen criou nesse filme, que o diretor passou a ser reconhecido. 

A Guerra Está Declarada, longa-metragem francês de Valérie Donzelli, é um filme que, assim como os outros citados acima, nos permite refletir sobre as diferentes maneiras de se realizar uma autobiografia no cinema. Donzelli e seu ex-companheiro, o ator Jérémie Elkaïm, empreendem um projeto audacioso. Os dois escreveram juntos o roteiro de A Guerra Está Declarada, que retrata um período bastante delicado da vida do ex-casal: a descoberta de que o filho de 18 meses tinha um tumor no cérebro e a luta pela cura da criança. Além de terem escrito juntos o roteiro do longa-metragem, Donzelli e Elkaïm, interpretam aqueles que seriam os seus próprios papéis. É tocante também ver, ao final, o filho do casal, Gabriel Elkaïm (a quem o filme é dedicado) fazendo uma participação especial no filme. Mesmo com toda essa dimensão autobiográfica, trata-se de um filme de ficção e não um documentário. Donzelli  e Elkaïm conseguem recriar o trauma vivido, construindo uma bela história de amor. 

A Guerra Está Declarada não é, portanto, um filme sobre o câncer e sim a história de amor de dois jovens adultos apaixonados e pouco experientes que, inesperadamente, têm que lidar com a possibilidade da morte de seu bebê. A atenção do filme é toda direcionada à trajetória emocional dos protagonistas, à mudança que ocorre em suas vidas. Um detalhe que não passa despercebido é o fato de que os roteiristas optam por conferir outros nomes aos personagens principais: Romeu e Julieta. Não é por acaso que Donzelli e Elkaïm escolhem tais "pseudônimos". O célebre casal da obra de Shakespeare é o símbolo maior da intensidade do amor juvenil e também da tragédia. Ao final da história, os nomes dos personagens ganham uma dimensão ainda mais poética, uma vez que o casal morre simbolicamente para construir um outro tipo de relação. Há ainda em Romeu e Julieta um romantismo exacerbado que tem tudo a ver com a energia e atmosfera do filme, cheio de vitalidade e sempre pulsante. 

O longa francês é quase uma opereta. A importância da música no filme é algo impressionante e ela tem como funções dar ritmo, pontuar a narrativa e sublinhar os sentimentos dos personagens. Sem dúvida, o filme deve muito do seu charme às suas músicas. Uma das canções (Ton grain de beauté) foi escrita por Dozelli e é cantada por ela e Elkaïm no filme. Por mais que a letra seja linda, talvez esse seja o único momento musical que não é completamente bem-sucedido no longa, já que parece descolado da narrativa, como se fosse um pequeno clip incluído no filme. 

Um grande acerto do filme é que a narrativa é bem ancorada no mundo real, no cotidiano. Romeu e Julieta são dois jovens parisienses. Eles vivem na correira da cidade grande, têm uma vida sem glamour, precisam trabalhar para se sustentarem e, por vezes, dependem da ajuda financeira dos pais. É fácil se identificar com os dramas e conflitos desses jovens adultos. A abordagem realista da diretora se revela também na sua opção em filmar nos hospitais que frequentou durante o tratamento de seu filho e ao utilizar muitos não-atores nos papéis coadjuvantes. O realismo presente na construção dos personagens e na maneira como eles se relacionam entre si é um dos pontos fortes do filme. Impressiona, por exemplo, a naturalidade com a qual Julieta se irrita com a mãe, em uma cena de hospital, nos remetendo realmente à cena típica familiar. As performances dos atores vão de encontro a esse tom de realismo e são baseadas na naturalidade e na simplicidade. 

Valérie Donzelli revela extrema sensibilidade em sua direção e nos presenteia com cenas que impressionam tanto pela sua beleza estética, como pela capacidade da diretora de expressar de maneira concisa e inteligente todas as emoções em jogo em diferentes situações. Podemos citar a primeira sequência do filme, que mostra a formação do casal e que se destaca por ser super efervescente e juvenil. Outro grande momento é aquele em que o diretora justapõe as diferentes reações dos familiares à notícia do câncer de Adam. A cena em que Julieta sai correndo pelos corredores do hospital mostra um desesperado desejo de evasão e de fuga da protagonista.

A Guerra Está Declarada foi o candidato francês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, não ficando entre os finalistas. Fugindo do melodrama e do lugar comum, o longa francês se destaca pela sensibilidade de seu roteiro, pelo cuidado na construção dos personagens e por seu romantismo encantador. O filme é baseado numa experiência pessoal dolorosa, mas Valérie Donzelli nos ensina que, para lutar contra algo tão sério como o câncer, é preciso não se intimidar e se preparar para a guerra com muita esperança e otimismo. A Guerra Está Declarada é mais uma pequena joia do cinema francês atual. 


Assista ao trailer:





sábado, 4 de fevereiro de 2012

Millenium: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres - 2011

Título Original: The Girl with the Dragon Tattoo
Lançamento: 2011
País: Estados Unidos
Direção: David Fincher
Atores: Daniel CraigRooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Robin Wright, Joely Richardson
Gênero: Suspense


Rooney Mara oferece uma das melhores performances de 2011 na pele de Lisbeth Salander

9 de dezembro de 2004 - morre, aos 50 anos, Stieg Larsson, jornalista, ativista político e romancista sueco. Agosto de 2005 - publicação de Os homens Que Não Amavam as Mulheres, primeiro volume da trilogia Millenium, deixada por Larsson. 2006 - publicação de A Menina Que Brincava com Fogo, segundo volume da trilogia. No mesmo ano, Larsson é premiado postumamente com o Glass Key Award de melhor romance policial do ano, seu primeiro prêmio literário. 2007 - publicação de A Rainha do Castelo de Ar, último volume de Millenium.  2008 - Larson é premiado por mais três associações na Suécia, na África do Sul e no Reino Unido. No mesmo ano, Larsson se torna o segundo autor mais vendido no mundo. 2009 - Larsson é premiado com mais dois prêmios literários. No mesmo ano, é lançada a versão cinematográfica sueca para a trilogia, o primeiro filme foi dirigido por Niels Arden Oplev e os outros dois por Daniel Alfredson (irmão de Tomas de O Espião que Sabia Demais). 2010 A Rainha do Castelo de Ar se torna o livro mais vendido nos Estados Unidos. Dezembro de 2011 - é lançado nos Estados Unidos a versão americana de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, dirigido por David Fincher. 24 de janeiro de 2012 - O filme de Fincher é indicado a cinco Oscar's (Melhor Atriz, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som). 

Infelizmente, um infarto fulminante impediu que Larsson visse a repercussão e o sucesso meteórico de seus romances. Em apenas sete anos, quatro adaptações fílmicas de sua obra foram realizadas, sintoma de que a trilogia é um verdadeiro hit cultural. Era de se esperar que Hollywood também se interessasse na adaptação da obra e, para a nossa sorte, a direção de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres foi parar nas mãos de David Fincher. O diretor americano de 49 anos tem um currículo invejável e mesmo os seus filmes menos bem-sucedidos podem ser considerados "tropeços dignos". Embarcando mais uma vez no suspense, gênero que domina com perfeição, Fincher retrata o sombrio universo do crime (como o fez em Seven e Zodíaco), da violência e da investigação.


O filme, roteirizado pelo prolífico Steven Zaillian, o mesmo de O Homem Que Mudou O Jogo, começa nos mostrando como a vida de Mikael Blomkvist (Daniel Craig), jornalista investigativo e co-editor da Revista Millenium, virou de cabeça para baixo após ter publicado uma série de denúncias sobre um importante empresário sueco. Sem provas para sustentar suas acusações, Blomkvist vê sua reputação manchada e sua conta bancária gravemente atingida, já que ele deverá pagar uma indenização exorbitante ao suposto caluniado. Oportunamente, o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) contacta o jornalista para que este o ajude a descobrir a causa do misterioso desaparecimento de sua sobrinha. Para ajudá-lo nessa missão, Blomkvist recruta a hacker Lisbeth (Rooney Mara), jovem de 23 anos que encontra-se sob tutela do Estado, devido ao seu histórico de violência. 

Uma das grandes personagens que apareceram nas telonas neste último ano, Lisbeth é um espetáculo a parte. Muito do impacto da personagem vem do fantástico trabalho de caracterização que é feito com a atriz Rooney Mara: do figurino aos penteados, passando pelos piercings e tatuagens, sem mencionar as sobrancelhas descoloridas. Seria injusto, no entanto, afirmar que a caracterização é uma muleta para performance de Mara, já que a atriz nos presenteia com uma das maiores atuações do ano. A jovem atriz de 25 anos que já havia participado do filme anterior de Fincher, o ótimo A Rede Social (2010), revela um talento impressionante e uma entrega admirável ao papel. 


A composição da personagem é feito com extremo zelo e este cuidado se revela já na criação de uma maneira própria de Lisbeth falar, com uma dicção precisa, objetiva, quase robótica. Podemos dizer, que a personagem tem um "tempo" diferente dos demais. Mas não para por aí. Mara ainda confere diversas nuances à protagonista, fazendo dela uma personagem perigosa, intimidadora, arredia, imprevisível e, ao mesmo tempo, heroica. Por trás de toda fachada bizarra, Lisbeth é uma heroína. A frieza da personagem e sua dificuldade de se relacionar com as outras pessoas, vêm da mistura de uma inadequação ao mundo, de um sentimento de superioridade (afinal ela é inteligentíssima) e, provavelmente, de uma timidez absurda. Mesmo não tendo acesso ao passado da personagem, é nítido que sua infância e adolescência foram atravessados por acontecimentos que a marcaram profundamente e que justificam os mecanismos de defesa que ela utiliza para enfrentar um mundo cheio de violência. Mesmo com os traumas e uma sexualidade ambígua, Lisbeth, ao final, revela também um romantismo tocante, já que ela encontra em Blomkvist, alguém em quem ela pode confiar e se conectar. 

A violência é explorada de forma destemida e realista por Fincher e o filme contém cenas extremamente perturbadoras. Entre elas, não podemos deixar de mencionar uma cena de estupro e outra de tortura, que estão entre os momentos mais fortes do cinema em 2011. O filme é uma grande denúncia da violência cometida contra mulheres e contra atos de misoginia. É interessante notar que Lisbeth não pensa duas vezes quando  Blomkvist  a chama para a investigação, dizendo: "Quero que você me ajude a apanhar um assassino de mulheres". A personagem, que tem ares de vingadora, sem dúvida se sente atraída pela causa, que a atinge diretamente, já que ela também foi vítima da violência masculina. O filme também aborda um problema bastante delicado: o neonazismo que persiste em várias cidades da Europa. 


Não só Rooney Mara merece aplausos no filme. O sempre competente Daniel Craig entrega mais uma ótima performance, sendo capaz de nos fazer esquecer completamente que ele é o atual James Bond. O filme traz também Christopher Plummer em seu segundo grande trabalho no cinema em 2011. O talentoso ator sueco Stellan Skarsgård também está excelente e tem uma cena absolutamente magistral, com um monólogo de arrepiar. Entre muitas ótimas participações, destacam-se também as belas Robin Wright e Joely Richardson. 

Além da direção primorosa e do elenco afiado, o filme de Fincher ainda tem uma inspirada trilha sonora (de Trent Reznor e Atticus Ross) e uma excelente fotografia (de Jeff Cronenweth), que cria uma atmosfera tensa e, por vezes,claustrofóbica. Os tons acinzentados e frios dominantes no filme dão lugar às cores quentes no momento em que Henrik lembra de seu passado familiar, criando um contraste bastante interessante. A montagem do filme é excepcional e é brilhante a forma com a qual ações simultâneas são agenciadas, no clímax do filme, criando um efeito de suspense à la Hitchcock. A escolha de se estruturar o filme em duas narrativas paralelas que eventualmente se tornam uma só é outro acerto. 

Os Homens Que Não Amavam As Mulheres é tão envolvente que atiça a curiosidade do espectador para conhecer o futuro dos personagens principais. Talvez o final do filme pudesse ser mais enxuto, mas este é um defeito menor e perdoável deste thriller praticamente irreprochável.