quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Indicações ao Oscar 2012

Ontem, dia 24, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de indicados ao Oscar 2012. 

A Invenção de Hugo Cabret lidera as indicações ao Oscar, concorrendo em 11 categorias. 

Clube do Filme fará uma análise mais minuciosa dos vencedores do prêmio após a cerimônia que ocorrerá no dia 26 de fevereiro. Podemos, no entanto, comentar algumas categorias e indicações inesperadas. 

1 - A Academia mudou as regras para a categoria de Melhor Filme. De cinco a dez filmes poderiam ser indicados, dependendo da quantidade de vezes que os candidatos fossem lembrados pelos votantes. Foram indicados nove títulos. É interessante notar que a Academia abraçou A Árvore da Vidaum "filme de arte", amado por uns e odiado por outros. Menos interessante é ver Histórias Cruzadas na lista, uma vez que o maior trunfo do filme é o elenco. A popularidade do filme pesou mais que sua qualidade. Tão Forte e Tão Perto, filme de Stephen Daldry que não havia sido muito lembrado na temporada de premiações, apareceu na lista e pode ser considerado uma surpresa. Algumas ausências lamentáveis, mas já esperadas na categoria são: DriveMelancolia e A SeparaçãoOs favoritos a levar o prêmio na grande noite são: O ArtistaOs descendentes e A Invenção de Hugo Cabret

2 - A categoria de Melhor Diretor está uma beleza: quatro grandes cineastas e um ótimo "novato". Lembraram de Terence Malick, em detrimento de Steven Spielberg (que acabou sendo esnobado duplamente, nesta categoria e em Animação, onde poderia concorrer com As aventuras de Tintim). Além de Spielberg, ficou de fora David Fincher, por Os homens que não amavam as mulheres. Interessante ver Woody Allen indicado pela sétima vez ao Oscar de Melhor Diretor (por Meia Noite em Paris). Ele ganhou apenas uma vez nesta categoria, por Noivo Neurótica, Noiva Nervosa (1977). Dificilmente seriam indicados Nicolas Winding Refn e Lars Von Trier, cujos trabalhos são excepcionais em Drive e Melancolia, respectivamente. O favorito parece ser o francês Michel Hazanavicius, mas ver Scorsese vitorioso seria uma grata surpresa. 

3 - Na categoria de Melhor Ator, a ausência mais sentida é a de Michael Fassbender que teve um ótimo ano e estava excelente em Shame. A indicação do mexicano Demián Bichir por A better life pode ser considerada uma surpresa, apesar do ator já ter sido indicado ao SAG pelo papel. Leonardo Di Caprio é outro que ficou de fora da lista. É muito bom ver o ótimo e veterano Gary Oldman indicado pela primeira vez ao Oscar. George Clooney é favoritíssimo e já pode se considerar com uma mão na estatueta (que será sua segunda). 

4 - Na categoria de Melhor Atriz, a surpresa é a indicação de Rooney Mara por Os Homens que não Amavam as Mulheres. Ela pegou a vaga que poderia ter ido para Tilda Swinton por Precisamos Falar Sobre Kevin, Charlize Theron por Jovens Adultos ou  Elizabeth Olsen por Martha Macy May Marlene. Nesta categoria, o prêmio parece que vai para Meryl Streep (A Dama de Ferro) ou Viola Davis (Histórias Cruzadas). Michelle Williams pode representar perigo, caso haja uma divisão de votos. Não concordo com a indicação de Viola Davis como atriz principal, já que o papel dela é claramente de coadjuvante no filme. 

5 - Nas categorias de coadjuvantes, temos dois ótimos veteranos sendo lembrados de última hora: Nick Nolte e o sueco Max Von Sidow. Jonah Hill não faz nada de mais em O Homem que Mudou o Jogo, mas é tão adorável que conseguiu uma indicação na mesma categoria. O favorito é outro veterano, Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor. Quanto às mulheres, não houve grande surpresas. Ficou de fora uma das grandes revelações do ano: a jovem Shailene Woodley de Os Descendentes. No entanto, todas as indicadas são muito boas e Octavia Spencer é a grande favorita.

6 - Em Melhor Roteiro Original, é interessante a lembrança de Margin Call  e Missão: Madrinha de Casamento. O último é realmente amado nos Estados Unidos, sendo a comédia americana mais bem sucedida do ano nas premiações. Felizmente, A Separação também foi lembrada nesta categoria. A categoria de fotografia está fortíssima. A briga pela estatueta parece que será entre os fantásticos Emmanuel Lubezki (A árvore da vida) e Janusz Kaminski (Cavalo de Guerra). Infelizmente, As Aventuras de Tintim, ficou de fora da categoria de Melhor Animação, que lembrou em contrapartida do mediano O Gato de Botas. Desta forma, Rango se torna o franco favorito. Triste também não ver a trilha sonora de Drive sendo indicada, mas nesta categoria competem os gigantes John Williams (duas vezes) e Howard Shore. O primeiro já tem 5 Oscar's e o segundo 3. Apesar da forte concorrência, o francês Ludovic Bource pode sair vitorioso nessa disputa. A categoria de Melhor Canção está ficando cada vez mais estranha. Antigamente eram cinco indicados, depois passaram a ser três e este ano só duas canções apareceram na lista. Daqui a pouco, a Academia divulgará apenas o vencedor ou extinguirá a categoria. A boa e surpreendente notícia é que os brasileiros estão representados no Oscar, com Sérgio Mendes e Carlinhos Brown que são autores de "Real in Rio". Deve-se dizer que a trilha sonora de Rio é uma das melhores coisas da animação. 


6 - Por fim, é muito bom ver A Invenção de Hugo Cabret com 11 indicações, seguido por O Artista com 10, ambos os filmes são grandes declarações de amor ao cinema. Logo após a premiação, o Clube do Filme analisará os vencedores. Confira abaixo a lista completa:


Indicados ao Oscar 2012

Melhor Filme

Cavalo de Guerra
O Artista
Moneyball
Os Descendentes
Histórias Cruzadas
A Árvore da Vida
Meia-noite em Paris
A Invenção de Hugo Cabret
 
Tão Forte e Tão Perto
Melhor Atriz

Viola Davis, por Histórias Cruzadas
Meryl Streep, por A Dama de Ferro
Rooney Mara, por Millenium - Os Homens que não amavam as mulheres
Michelle Williams, por Sete Dias com Marilyn
Glenn Close, por Albert Nobbs
Melhor Ator

Demián Bichir, por A Better Life
George Clooney, por Os Descendentes
Jean Dujardin, por O Artista
Gary Oldman, por O Espião que Sabia Demais
Brad Pitt, por Moneyball
Melhor Atriz Coadjuvante

Bérénice Bejo, por O Artista
Jessica Chastain, por Histórias Cruzadas
Melissa McCarthy, por Missão Madrinha de Casamento
Janet McTeer, por Albert Nobbs
Octavia Spencer, por Histórias Cruzadas
Ator Coadjuvante

Kenneth Branagah, por Sete Dias com Marilyn
Jonah Hill, por Moneyball
Nick Nolte, por Warrior
Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor
Max von Sydow, por Tão Forte e Tão Perto
Melhor Diretor

Michel Hazanavicius, por O Artista
Alexander Payne, por Os Descendentes
Martin Scorsese, por A Invenção de Hugo Cabret
Woody Allen, por Meia-noite em Paris
Terrence Malick, por A Árvore da Vida
Melhor Documentário 

Hell and Back Again 
If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front 
Paradise Lost 3: Purgatory 
Pina 
Undefeated
Melhor Documentário em Curta-metragem 

The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement 
God is the bigger Elvis 
Incident in New Baghdad 
Saving Face 
The Tsunami and the Cherry Blossom
Melhor Edição 

O Artista 
Os Descendentes 
Millenium - Os Homens que não amavam as mulheres 
A Invenção de Hugo Cabret 
Moneyball
Melhor Animação 

A Cat in Paris 
Chico & Rita 
Kung Fu Panda 2 
O Gato de Botas 
Rango
Melhor Filme Estrangeiro 

Bullhead 
Footnote 
In Darkness 
Monsieur Lazhar 
A Separação

Melhor Maquiagem 

Albert Nobbs 
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 
A Dama de Ferro

Melhor Trilha Sonora 

As Aventuras de Tintin 
O Artista 
A Invenção de Hugo Cabret 
O Espião que sabia demais 
Cavalo de Guerra
Melhor Canção Original

Man or Muppet, de Os Muppets (Bret McKenzie)
Real in Rio, de Rio (Sérgio Mendes and Carlinhos Brown)
Melhor Roteiro Original

O Artista
Missão Madrinha de Casamento
Margin Call - O Dia Antes do Fim
Meia-noite em Paris
A Separação
Melhor Roteiro Adaptado

Os Descendentes
A Invenção de Hugo Cabret
Tudo pelo Poder
Moneyball
O Espião que sabia demais
Melhor Som

Millenium - Os Homens que não amavam as mulheres
A Invenção de Hugo Cabret
Moneyball
Transformers: O Lado Oculto da Lua Cavalo de Guerra
Melhor Edição de Som

Drive
Millenium - Os Homens que não amavam as mulheres
A Invenção de Hugo Cabret
Transformers: O Lado Oculto da Lua
Cavalo de Guerra
Melhores Efeitos Visuais

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
A Invenção de Hugo Cabret
Gigantes de Aço
Planeta dos Macacos: A Origem
Transformers: O Lado Oculto da Lua
Melhor Curta-Metragem de Animação

Dimanche/Sunday
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore
La Luna
A Morning Stroll
Wild Life
Melhor Curta-Metragem

Pentecost
Raju
The Shore
Time Freak
Tuba Atlantic
Melhor Direção de Arte

O Artista
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
A Invenção de Hugo Cabret
Meia-noite em Paris
Cavalo de Guerra
Melhor Fotografia

O Artista
Millenium - Os Homens que não amavam as mulheres
A Invenção de Hugo Cabret
A Árvore da Vida

Cavalo de Guerra


domingo, 22 de janeiro de 2012

O Homem que Mudou o Jogo - 2011

Título original: Moneyball
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Bennett Miller
Atores: Brad Pitt, Robin Wright, Philip Seymour Hoffman, Jonah Hill.
Duração: 133 min
Gênero: Drama


Billy Beane (Brad Pitt) e Peter Brand (Jonah Hill) em cena do filme


Assim como existem comédia, drama, terror, suspense, será que podemos reivindicar um gênero "esporte" para o cinema? Grande parte dos filmes que giram em torno de uma prática esportiva compartilha códigos, clichês e fórmulas próprios, o que nos permitiria defender a ideia de um gênero a parte. De qualquer forma, sendo gênero ou subgênero, ótimos filmes já foram produzidos sobre os mais variados tipos de esporte, a maioria deles dando grande importância ao poder da superação. O boxe parece ser a modalidade esportiva mais privilegiada, tendo inspirado grandes filmes, como Rocky, um lutador (1976), Touro Indomável (1980), Menina de Ouro (2004) e O Vencedor (2010). Outras modalidades, no entanto, também já tiveram o privilégio de serem retratadas no cinema: o futebol (Driblando o destino - 2002), o atletismo (Carruagens de fogo - 1981), o bobsleigh (Jamaica abaixo de zero - 1993), o tênis (Wimbledon, O Jogo do Amor - 2004), o vale-tudo (O Lutador - 2008), o surfe (Tá dando onda - 2007), o rugby (Invictus - 2009), a sinuca (Desafio à Corrupção - 1961) e a lista continua... 

Uma das primeiras produções hollywoodianas a focalizar o mundo esportivo foi Ídolo, Amante e Herói (1942). Este clássico, pioneiro do "gênero", é protagonizado por Gary Cooper e conta a história de Lou Gehrig, famoso jogador americano de baseball . Sobre este esporte, um dos favoritos dos norte-americanos, foram feitos também Um homem fora de série (1984) e Uma Equipe Muito Especial (1992). Juntando-se a essa lista, temos o novo filme de Bennet Miller (Capote - 2005) que vem recebendo boas doses de elogios e que, ao que tudo indica, dará a Brad Pitt sua terceira indicação ao Oscar. Trata-se de Moneyball (ou O Homem que Mudou o Jogo, sua piegas tradução brasileira). 

Moneyball é a adaptação do livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, escrito por Michael Lewis. A trama do livro e do filme gira em torno da história verídica de Billy Beane, gerente geral (general manager ou GM em inglês) do time Oakland Athletics, que se destacou por conseguir montar uma equipe bem sucedida através de um método inovador, baseado em estatísticas, e contando com poucos recursos financeiros. O gerente geral é o responsável pelas contrações de jogadores e negociações com outros times, sendo uma figura essencial no mundo do baseball. O roteiro do filme foi escrito pelos renomados e premiados Steve Zaillian (A Lista de Shindler - 1993) e Aaron Sorkin (A Rede Social - 2010). 

É interessante salientar que o filme provavelmente terá menos impacto sobre os brasileiros, por exemplo, do que tem sobre os próprios americanos. Esse fenômeno ocorre porque o baseball é um esporte de pouca visibilidade no Brasil, cujas regras a maioria de nós ignoramos (ainda não posso afirmar que sei o que é homerun). Nos Estados Unidos, ao contrário, o esporte está inserido no cotidiano das pessoas, incluído na cultura do país, como é o futebol para nós. Certamente, parte do carinho que o filme vem recendo, é fruto do amor que os americanos nutrem pelo baseball. Uma fala de Beane (Pitt) parece expressar bem o sentimento que o esporte provoca no povo americano: "Como não ser romântico com o baseball?". Mas não somente este fanatismo nacional explica o sucesso do filme nos Estados Unidos, uma vez que a produção apresenta também muitas qualidades. 

É muito bem-sucedida a estratégia utilizada pelos roteiristas de fazer com que o espectador mergulhe nos bastidores de um time de baseball e conheça seu funcionamento e hierarquia. Chega a ser fascinante admirar o mercado de jogadores, as trocas, as barganhas e as negociações. Grandes momentos do longa-metragem estão associados às cenas em que vemos Beane e seu traquejo e habilidade (ou, por vezes, falta deles) na hora de conseguir um tão sonhado jogador. O filme ainda exibe toda a seriedade e arte por trás da montagem de uma equipe, na seleção dos jogadores, na análise de suas qualidades e defeitos. Ao dedicar o primeiro ato do filme à montagem do time, os roteiristas nos convidam a partilhar o desafio de Beane que é o de fazer com que o Oakland Athletics consiga rivalizar com os grandes (e mais endinheirados) times. Por participar desde essa primeira etapa, o espectador tende a se envolver cada vez mais com a história, tornando-se também um torcedor. 

É interessante constatar que o roteiro focaliza muito mais a relação do protagonista com o time que ele defende do que a preparação do time e a transformação do mesmo. Ao invés de criar uma narrativa que mostra como um conjunto de jogadores medianos e desacreditados consegue evoluir e alcançar o sucesso, Moneyball opta por se concentrar nas jogadas realizadas por Beane, para superar as dificuldades e o ceticismo dos colegas e da mídia e fazer com que o time consiga se destacar na Major League. As imagens dos jogos são raramente mostradas diretamente, sendo, na maioria das vezes, exibidas como transmissões da televisão, o que implica um espectador. Dessa forma, fica claro que o que mais importa não é o jogo em si, mas a relação das pessoas com o esporte. 

O roteiro acerta também ao fazer de Beane, uma figura intrigante, interessante e complexa. Muito de sua história resta lacunar, como o que gerou seu divórcio ou como ele fez a transição de jogador para gerente geral. Beane é um homem determinado, extremamente objetivo, impulsivo, sincero e talvez obsessivo. Provavelmente frustrado com suas decisões do passado, ele tenta compensar algo através do time que gerencia. Claramente ele põe a carreira à frente de sua vida pessoal. O filme nem sugere uma vida amorosa para o protagonista, a única mulher de sua vida é a filha adolescente. Todas as atenções do personagem são voltadas para o time e, ao final, torna-se evidente que existe também uma questão ideológica  que o motiva. 

No entanto, nem tudo é perfeito no segundo filme de Bennett Miller. Após uma primeira metade notável, o filme cai sensivelmente na segunda. Apesar de não se tornar propriamente cansativa, a narrativa se torna por vezes arrastada e a sensação que fica é que o filme poderia ter sido mais enxuto. Considero também um desperdício, o fato de que o personagem do treinador (interpretado pelo fantástico Philip Seymour Hoffman) seja tão mal aproveitado pelo roteiro. Sendo um dos que se opõe de forma mais veemente a Beane, seria interessante se a relação entre os dois personagens fosse mais explorada ou se, ao menos, pudéssemos saber mais sobre o treinador ou vê-lo em ação, preparando o time. O roteiro investe, por outro lado, na relação entre Beane e Peter Brand (Jonah Hill), economista que se torna o braço direito do protagonista. Por mais que o início da relação dos dois personagens soe forçada, a dinâmica da parceria entre os dois é um dos pontos altos do filme. Ao final, é divertido notar que Peter passa usar o mesmo método de questionamento incisivo de Beane. 

Em seu segundo longa-metragem de ficção, Bennett Miller comprova ser um cineasta promissor e muito interessante. Há uma tensão constante no filme, que confere à história dramaticidade e um clima muito menos leve do que poderia ter. O diretor também faz um interessante uso do som, ao incluir a narração e os comentários dos jogos de forma quase opressora no filme. Por vezes, tais narrações parecem ser a voz de desaprovação da consciência do protagonista. Assim como em Capote, existe certa frieza na bela fotografia (do premiado Wally Pfister) que foge dos tons fortes. No campo das atuações, o destaque absoluto é Brad Pitt, que faz seu melhor trabalho em anos, conferindo várias nuances ao seu personagem (e devo confessar que não gosto do ator). O resto do elenco, em grande parte masculino, realiza um bom trabalho. Gosto particularmente da participação dos atores veteranos que compõe a cúpula de Beane. Jonah Hill, o gordinho de Superbad (2007), está adorável, com sua expressão sempre atônita, mas as indicações a prêmios que vem recebendo talvez sejam exageradas. Hoffman (que já havia trabalhado com Miller em Capote) é boicotado pelo roteiro e tem pouco o que fazer com seu personagem.

O Homem que Mudou o Jogo é um filme que não decepciona, podendo conquistar até mesmo aqueles que não sabem nada de baseball (como eu). Mesmo com suas falhas, o roteiro do filme consegue se destacar por não se render completamente aos clichês do "gênero", falando de superação, sem soar meloso e revelando-se uma bela declaração de amor ao esporte. 





quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

50% - 2011

Título original: 50/50
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Jonathan Levine
Atores: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Bryce Dallas Howard.
Duração: 100 min
Gênero: Comédia dramática

"Você vai ficar bem. As pessoas se curam. Famosos se curam. Lance Armstrong pega câncer o tempo todo. E ele está bem."

Ótima cena de 50%
O que os filmes a seguir tem em comum? Laços de Ternura (1983), Love Story (1970), Um amor para recordar (2002), O tempo que resta (2005), Lado a Lado (1998), Le bruit des glaçons (2010), Minha vida sem mim (2003), Uma lição de vida (2001), Uma prova de amor (2009), Minha Vida (1993), As Invasões bárbaras (2003). Você não deve ter demorado a responder: todos eles falam sobre câncer. A famigerada doença e a turbulência que ela provoca na vida de sua vítima já foram retratadas de diversas maneiras no cinema: do melodrama açucarado (Laços de TernuraLove Story, etc) à comédia de humor negro (Le bruit des glaçons). Na televisão americana, dois ótimos seriados também abordam o tema: a série de ação Breaking Bad (2008-2011) e a comédia dramática The Big C (2010-2011)

Sem dúvida, há algo de criativamente instigador no câncer. Talvez tantos filmes sejam feitos sobre ele (muitas vezes, mal ousamos pronunciar seu nome) para podermos lidar melhor com uma doença que pode surpreender qualquer pessoa a qualquer instante. O câncer nos faz enfrentar a morte (tanto a nossa quanto a de uma pessoa querida) de uma maneira impiedosa, contra nossa vontade. Mesmo diante dos piores filmes sobre o tema, somos, muitas vezes, tocados por todo sofrimento e exigência de readaptação que a doença traz consigo. Muitos romances e dramas são feitos sobre o assunto. Mas, afinal, como realizar uma comédia sobre o perigo e o medo da morte? As Invasões BárbarasRuído do gelo e a série The Big C mostram diferentes possibilidades. A essa lista podemos acrescentar o novíssimo 50% (2011). 

Em 50%, Adam (Joseph Gordon-Levitt) é um jovem rapaz de 27 anos que leva uma vida saudável e regrada, ao lado de sua namorada Rachael (Bryce Dallas Howard).  O rapaz trabalha numa rádio em Seattle ao lado de seu melhor amigo Kyle (Seth Rogen). Após sentir dores na região lombar, ele procura um médico e é diagnosticado com um tumor maligno na coluna. Após uma pesquisa na internet, ele descobre que tem 50% de chance de sobreviver à doença. O filme é baseado na própria experiência de Will Reiser, roteirista do longa-metragem, e Seth Rogen. Reiser é um sobrevivente de um câncer e contou com o apoio do amigo Rogen durante todo o processo do tratamento. 

O primeiro acerto de 50% é o de tentar fugir dos extremos, não investindo nem no melodrama, nem numa abordagem fria. O roteiro do filme, mesmo que previsível e formulaico, em alguns momentos, exibe uma visão que revela a sinceridade tocante de alguém que já vivenciou o drama da doença. Sendo assim, o longa não minimiza o sofrimento de se estar com câncer, mas também não faz dele uma tragédia. Acompanhamos, ao longo do filme, a evolução da maneira com a qual o protagonista lida com sua nova realidade, as etapas da sua aceitação. O roteiro de Reiser opta por mostrar de forma realista como Adam digere a notícia, não optando pelo batido "vou virar minha vida de cabeça para baixo". 

Outra qualidade do filme é saber diluir a comédia no drama, nos presenteando com momentos emocionantes (como o do colapso nervoso de Adam) e algumas tiradas engraçadíssimas. Mesmo que o trabalho do jovem diretor Jonathan Levine não seja notável (o filme parece, por vezes, carecer de ritmo), ele demonstra sensibilidade ao retratar o universo ligeiramente melancólico de Adam.

Opondo-se à complexidade do protagonista, temos personagens que se revelam extremamente unidimensionais como Rachael (Bryce Dallas Howard) e Diane (Anjelica Huston) A primeira é a namorada egocêntrica e egoísta (e Bryce Dallas Howard vem se especializando em fazer bitches, vide sua personagem em Vidas Cruzadas) e a segunda é o estereótipo da mãe possessiva e eternamente descontente. Além disso, o mal de Alzheimer de Richard (Serge Houde), pai de Adam, não convence em nenhum momento, culpa não só do ator, mas também do roteiro que não sabe o que fazer com o personagem, acrescentando-o talvez para justificar o comportamento estressado de Diane ou adicionar drama à vida familiar do protagonista. Ao final, o roteiro se lembra de criar um laço afetivo entre Richard e o filho, pouco verossímil, já que o coitado do pai fora ignorado até então. 

Enquanto Seth Rogen parece interpretar muito bem ele mesmo (não pelo fato de o personagem ser inspirado no ator, mas porque suas atuações são todas iguais), Joseph Gordon-Levitt interpreta um homem comum, cujo charme é ser um homem comum. A performance de Levitt é fundamental para que compremos toda a ideia do filme e ele faz um belíssimo trabalho, conseguindo transmitir ao espectador a frustração, tristeza e desespero de seu personagem. Por fim, a jovem atriz Anna Kendrick, indicada ao Oscar recentemente por Amor Sem Escalas (2009), empresta seu carisma a Katherine, psicóloga de Adam. Katherine é, com certeza, uma das piores terapeutas que o cinema já viu. Por mais que seja pouco verossímil que uma profissional, mesmo que iniciante, seja tão incompetente, a relação da personagem e de Adam é conduzida de maneira delicada pelo filme, fazendo-nos acreditar num possível romance. 

50% não é um grande filme e está longe de ser o melhor longa-metragem sobre o câncer. No entanto, esta boa comédia dramática conseguirá emocionar e arrancar algumas boas risadas de muita gente. Ao final, o filme se revela um retrato sensível da luta pela vida.