domingo, 22 de janeiro de 2012

O Homem que Mudou o Jogo - 2011

Título original: Moneyball
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Bennett Miller
Atores: Brad Pitt, Robin Wright, Philip Seymour Hoffman, Jonah Hill.
Duração: 133 min
Gênero: Drama


Billy Beane (Brad Pitt) e Peter Brand (Jonah Hill) em cena do filme


Assim como existem comédia, drama, terror, suspense, será que podemos reivindicar um gênero "esporte" para o cinema? Grande parte dos filmes que giram em torno de uma prática esportiva compartilha códigos, clichês e fórmulas próprios, o que nos permitiria defender a ideia de um gênero a parte. De qualquer forma, sendo gênero ou subgênero, ótimos filmes já foram produzidos sobre os mais variados tipos de esporte, a maioria deles dando grande importância ao poder da superação. O boxe parece ser a modalidade esportiva mais privilegiada, tendo inspirado grandes filmes, como Rocky, um lutador (1976), Touro Indomável (1980), Menina de Ouro (2004) e O Vencedor (2010). Outras modalidades, no entanto, também já tiveram o privilégio de serem retratadas no cinema: o futebol (Driblando o destino - 2002), o atletismo (Carruagens de fogo - 1981), o bobsleigh (Jamaica abaixo de zero - 1993), o tênis (Wimbledon, O Jogo do Amor - 2004), o vale-tudo (O Lutador - 2008), o surfe (Tá dando onda - 2007), o rugby (Invictus - 2009), a sinuca (Desafio à Corrupção - 1961) e a lista continua... 

Uma das primeiras produções hollywoodianas a focalizar o mundo esportivo foi Ídolo, Amante e Herói (1942). Este clássico, pioneiro do "gênero", é protagonizado por Gary Cooper e conta a história de Lou Gehrig, famoso jogador americano de baseball . Sobre este esporte, um dos favoritos dos norte-americanos, foram feitos também Um homem fora de série (1984) e Uma Equipe Muito Especial (1992). Juntando-se a essa lista, temos o novo filme de Bennet Miller (Capote - 2005) que vem recebendo boas doses de elogios e que, ao que tudo indica, dará a Brad Pitt sua terceira indicação ao Oscar. Trata-se de Moneyball (ou O Homem que Mudou o Jogo, sua piegas tradução brasileira). 

Moneyball é a adaptação do livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, escrito por Michael Lewis. A trama do livro e do filme gira em torno da história verídica de Billy Beane, gerente geral (general manager ou GM em inglês) do time Oakland Athletics, que se destacou por conseguir montar uma equipe bem sucedida através de um método inovador, baseado em estatísticas, e contando com poucos recursos financeiros. O gerente geral é o responsável pelas contrações de jogadores e negociações com outros times, sendo uma figura essencial no mundo do baseball. O roteiro do filme foi escrito pelos renomados e premiados Steve Zaillian (A Lista de Shindler - 1993) e Aaron Sorkin (A Rede Social - 2010). 

É interessante salientar que o filme provavelmente terá menos impacto sobre os brasileiros, por exemplo, do que tem sobre os próprios americanos. Esse fenômeno ocorre porque o baseball é um esporte de pouca visibilidade no Brasil, cujas regras a maioria de nós ignoramos (ainda não posso afirmar que sei o que é homerun). Nos Estados Unidos, ao contrário, o esporte está inserido no cotidiano das pessoas, incluído na cultura do país, como é o futebol para nós. Certamente, parte do carinho que o filme vem recendo, é fruto do amor que os americanos nutrem pelo baseball. Uma fala de Beane (Pitt) parece expressar bem o sentimento que o esporte provoca no povo americano: "Como não ser romântico com o baseball?". Mas não somente este fanatismo nacional explica o sucesso do filme nos Estados Unidos, uma vez que a produção apresenta também muitas qualidades. 

É muito bem-sucedida a estratégia utilizada pelos roteiristas de fazer com que o espectador mergulhe nos bastidores de um time de baseball e conheça seu funcionamento e hierarquia. Chega a ser fascinante admirar o mercado de jogadores, as trocas, as barganhas e as negociações. Grandes momentos do longa-metragem estão associados às cenas em que vemos Beane e seu traquejo e habilidade (ou, por vezes, falta deles) na hora de conseguir um tão sonhado jogador. O filme ainda exibe toda a seriedade e arte por trás da montagem de uma equipe, na seleção dos jogadores, na análise de suas qualidades e defeitos. Ao dedicar o primeiro ato do filme à montagem do time, os roteiristas nos convidam a partilhar o desafio de Beane que é o de fazer com que o Oakland Athletics consiga rivalizar com os grandes (e mais endinheirados) times. Por participar desde essa primeira etapa, o espectador tende a se envolver cada vez mais com a história, tornando-se também um torcedor. 

É interessante constatar que o roteiro focaliza muito mais a relação do protagonista com o time que ele defende do que a preparação do time e a transformação do mesmo. Ao invés de criar uma narrativa que mostra como um conjunto de jogadores medianos e desacreditados consegue evoluir e alcançar o sucesso, Moneyball opta por se concentrar nas jogadas realizadas por Beane, para superar as dificuldades e o ceticismo dos colegas e da mídia e fazer com que o time consiga se destacar na Major League. As imagens dos jogos são raramente mostradas diretamente, sendo, na maioria das vezes, exibidas como transmissões da televisão, o que implica um espectador. Dessa forma, fica claro que o que mais importa não é o jogo em si, mas a relação das pessoas com o esporte. 

O roteiro acerta também ao fazer de Beane, uma figura intrigante, interessante e complexa. Muito de sua história resta lacunar, como o que gerou seu divórcio ou como ele fez a transição de jogador para gerente geral. Beane é um homem determinado, extremamente objetivo, impulsivo, sincero e talvez obsessivo. Provavelmente frustrado com suas decisões do passado, ele tenta compensar algo através do time que gerencia. Claramente ele põe a carreira à frente de sua vida pessoal. O filme nem sugere uma vida amorosa para o protagonista, a única mulher de sua vida é a filha adolescente. Todas as atenções do personagem são voltadas para o time e, ao final, torna-se evidente que existe também uma questão ideológica  que o motiva. 

No entanto, nem tudo é perfeito no segundo filme de Bennett Miller. Após uma primeira metade notável, o filme cai sensivelmente na segunda. Apesar de não se tornar propriamente cansativa, a narrativa se torna por vezes arrastada e a sensação que fica é que o filme poderia ter sido mais enxuto. Considero também um desperdício, o fato de que o personagem do treinador (interpretado pelo fantástico Philip Seymour Hoffman) seja tão mal aproveitado pelo roteiro. Sendo um dos que se opõe de forma mais veemente a Beane, seria interessante se a relação entre os dois personagens fosse mais explorada ou se, ao menos, pudéssemos saber mais sobre o treinador ou vê-lo em ação, preparando o time. O roteiro investe, por outro lado, na relação entre Beane e Peter Brand (Jonah Hill), economista que se torna o braço direito do protagonista. Por mais que o início da relação dos dois personagens soe forçada, a dinâmica da parceria entre os dois é um dos pontos altos do filme. Ao final, é divertido notar que Peter passa usar o mesmo método de questionamento incisivo de Beane. 

Em seu segundo longa-metragem de ficção, Bennett Miller comprova ser um cineasta promissor e muito interessante. Há uma tensão constante no filme, que confere à história dramaticidade e um clima muito menos leve do que poderia ter. O diretor também faz um interessante uso do som, ao incluir a narração e os comentários dos jogos de forma quase opressora no filme. Por vezes, tais narrações parecem ser a voz de desaprovação da consciência do protagonista. Assim como em Capote, existe certa frieza na bela fotografia (do premiado Wally Pfister) que foge dos tons fortes. No campo das atuações, o destaque absoluto é Brad Pitt, que faz seu melhor trabalho em anos, conferindo várias nuances ao seu personagem (e devo confessar que não gosto do ator). O resto do elenco, em grande parte masculino, realiza um bom trabalho. Gosto particularmente da participação dos atores veteranos que compõe a cúpula de Beane. Jonah Hill, o gordinho de Superbad (2007), está adorável, com sua expressão sempre atônita, mas as indicações a prêmios que vem recebendo talvez sejam exageradas. Hoffman (que já havia trabalhado com Miller em Capote) é boicotado pelo roteiro e tem pouco o que fazer com seu personagem.

O Homem que Mudou o Jogo é um filme que não decepciona, podendo conquistar até mesmo aqueles que não sabem nada de baseball (como eu). Mesmo com suas falhas, o roteiro do filme consegue se destacar por não se render completamente aos clichês do "gênero", falando de superação, sem soar meloso e revelando-se uma bela declaração de amor ao esporte. 





quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

50% - 2011

Título original: 50/50
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Jonathan Levine
Atores: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Bryce Dallas Howard.
Duração: 100 min
Gênero: Comédia dramática

"Você vai ficar bem. As pessoas se curam. Famosos se curam. Lance Armstrong pega câncer o tempo todo. E ele está bem."

Ótima cena de 50%
O que os filmes a seguir tem em comum? Laços de Ternura (1983), Love Story (1970), Um amor para recordar (2002), O tempo que resta (2005), Lado a Lado (1998), Le bruit des glaçons (2010), Minha vida sem mim (2003), Uma lição de vida (2001), Uma prova de amor (2009), Minha Vida (1993), As Invasões bárbaras (2003). Você não deve ter demorado a responder: todos eles falam sobre câncer. A famigerada doença e a turbulência que ela provoca na vida de sua vítima já foram retratadas de diversas maneiras no cinema: do melodrama açucarado (Laços de TernuraLove Story, etc) à comédia de humor negro (Le bruit des glaçons). Na televisão americana, dois ótimos seriados também abordam o tema: a série de ação Breaking Bad (2008-2011) e a comédia dramática The Big C (2010-2011)

Sem dúvida, há algo de criativamente instigador no câncer. Talvez tantos filmes sejam feitos sobre ele (muitas vezes, mal ousamos pronunciar seu nome) para podermos lidar melhor com uma doença que pode surpreender qualquer pessoa a qualquer instante. O câncer nos faz enfrentar a morte (tanto a nossa quanto a de uma pessoa querida) de uma maneira impiedosa, contra nossa vontade. Mesmo diante dos piores filmes sobre o tema, somos, muitas vezes, tocados por todo sofrimento e exigência de readaptação que a doença traz consigo. Muitos romances e dramas são feitos sobre o assunto. Mas, afinal, como realizar uma comédia sobre o perigo e o medo da morte? As Invasões BárbarasRuído do gelo e a série The Big C mostram diferentes possibilidades. A essa lista podemos acrescentar o novíssimo 50% (2011). 

Em 50%, Adam (Joseph Gordon-Levitt) é um jovem rapaz de 27 anos que leva uma vida saudável e regrada, ao lado de sua namorada Rachael (Bryce Dallas Howard).  O rapaz trabalha numa rádio em Seattle ao lado de seu melhor amigo Kyle (Seth Rogen). Após sentir dores na região lombar, ele procura um médico e é diagnosticado com um tumor maligno na coluna. Após uma pesquisa na internet, ele descobre que tem 50% de chance de sobreviver à doença. O filme é baseado na própria experiência de Will Reiser, roteirista do longa-metragem, e Seth Rogen. Reiser é um sobrevivente de um câncer e contou com o apoio do amigo Rogen durante todo o processo do tratamento. 

O primeiro acerto de 50% é o de tentar fugir dos extremos, não investindo nem no melodrama, nem numa abordagem fria. O roteiro do filme, mesmo que previsível e formulaico, em alguns momentos, exibe uma visão que revela a sinceridade tocante de alguém que já vivenciou o drama da doença. Sendo assim, o longa não minimiza o sofrimento de se estar com câncer, mas também não faz dele uma tragédia. Acompanhamos, ao longo do filme, a evolução da maneira com a qual o protagonista lida com sua nova realidade, as etapas da sua aceitação. O roteiro de Reiser opta por mostrar de forma realista como Adam digere a notícia, não optando pelo batido "vou virar minha vida de cabeça para baixo". 

Outra qualidade do filme é saber diluir a comédia no drama, nos presenteando com momentos emocionantes (como o do colapso nervoso de Adam) e algumas tiradas engraçadíssimas. Mesmo que o trabalho do jovem diretor Jonathan Levine não seja notável (o filme parece, por vezes, carecer de ritmo), ele demonstra sensibilidade ao retratar o universo ligeiramente melancólico de Adam.

Opondo-se à complexidade do protagonista, temos personagens que se revelam extremamente unidimensionais como Rachael (Bryce Dallas Howard) e Diane (Anjelica Huston) A primeira é a namorada egocêntrica e egoísta (e Bryce Dallas Howard vem se especializando em fazer bitches, vide sua personagem em Vidas Cruzadas) e a segunda é o estereótipo da mãe possessiva e eternamente descontente. Além disso, o mal de Alzheimer de Richard (Serge Houde), pai de Adam, não convence em nenhum momento, culpa não só do ator, mas também do roteiro que não sabe o que fazer com o personagem, acrescentando-o talvez para justificar o comportamento estressado de Diane ou adicionar drama à vida familiar do protagonista. Ao final, o roteiro se lembra de criar um laço afetivo entre Richard e o filho, pouco verossímil, já que o coitado do pai fora ignorado até então. 

Enquanto Seth Rogen parece interpretar muito bem ele mesmo (não pelo fato de o personagem ser inspirado no ator, mas porque suas atuações são todas iguais), Joseph Gordon-Levitt interpreta um homem comum, cujo charme é ser um homem comum. A performance de Levitt é fundamental para que compremos toda a ideia do filme e ele faz um belíssimo trabalho, conseguindo transmitir ao espectador a frustração, tristeza e desespero de seu personagem. Por fim, a jovem atriz Anna Kendrick, indicada ao Oscar recentemente por Amor Sem Escalas (2009), empresta seu carisma a Katherine, psicóloga de Adam. Katherine é, com certeza, uma das piores terapeutas que o cinema já viu. Por mais que seja pouco verossímil que uma profissional, mesmo que iniciante, seja tão incompetente, a relação da personagem e de Adam é conduzida de maneira delicada pelo filme, fazendo-nos acreditar num possível romance. 

50% não é um grande filme e está longe de ser o melhor longa-metragem sobre o câncer. No entanto, esta boa comédia dramática conseguirá emocionar e arrancar algumas boas risadas de muita gente. Ao final, o filme se revela um retrato sensível da luta pela vida. 




terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O artista - 2011

Título original: The Artist
Lançamento: 2011
País: França / Bélgica
Direção: Michel Hazanavicius
Atores: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, Penelope Ann Miller.
Duração: 100 min
Gênero: Comédia Romântica


George Valentin (Jean Dujardin) e Peppy Miller (Bérénice Miller)

Nada mais inusitado do que fazer, em pleno século XXI, um filme mudo e em preto em branco, enquanto grande parte da indústria cinematográfica está se rendendo a avanços tecnológicos como a evolução do 3D e do motion capture. Nada mais genial e rentável também, ao que parece. O projeto do diretor francês Michel Hazanavicius é um ímã de prêmios. Em poucos dias de diferença, O Artista levou o prêmio de Melhor Filme e Melhor Diretor do Critics' Choice Awards e o Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia. Entretanto, já desde o Festival de Cannes (onde Jean Dujardin ganhou o prêmio de Melhor Ator), o filme vem recebendo prêmios, elogios e constando em praticamente todas as listas de melhores filmes do ano. A crítica dos Estados Unidos, em especial, parece nutrir um afeto incomensurável pelo longa, o que não é de se admirar já que O Artista é uma grande homenagem ao cinema americano. 

Ser uma homenagem não garantiria, no entanto, o sucesso do filme. Afinal, fazer uma reverência ao passado não significa, necessariamente, fazer um filme de qualidade. Pois bem, Michel Hazanavicius conseguiu, de uma maneira extremamente inteligente e audaciosa, se revelar para mundo e mostrar um inesperado e grande talento. O diretor francês tem no currículo apenas quatro longas-metragens, um curta e vários trabalhos para a televisão. Pode-se afirmar que, até o início do ano passado, Hazanavicius não havia "estourado", nem chamado muita atenção, apesar do relativo sucesso das suas comédias francesas Agente 117 (2006) e sua sequência OSS: 117 - Rio ne répond plus (2009). Que O Artista virou um grande hit todo mundo sabe, mas será que ele é tão bom quanto falam?
Jean Dujardin e Bérénice Bejo dançam no filme

Em O Artista, Hazanavicius completa a terceira parceria no cinema com Jean Dujardin. O galã, versão francesa de George Clooney, conquistou fama através do seriado televisivo de sucesso Un gars et une fille (1999-2003). Desde então, ele vêm construindo uma carreira consistente no cinema francês, sendo um dos atores mais requisitados do país. Conhecido por suas habilidades cômicas, Dujardin também já se aventurou em papéis mais desafiadores como na fantástica comédia dramática de humor negro Le bruit des glaçons (2010), onde interpreta um alcoólatra com câncer terminal. Às vésperas de completar 40 anos, o ator se vê no auge de sua carreira que tem tudo para avançar ultramares. A indicação ao Oscar de Melhor Ator parece fato consumado. 

Como par romântico de Dujardin no filme, Hazanavicius escalou sua mulher na vida real, a belíssima atriz argentina Bérénice Bejo. Essa não é a primeira vez que marido e mulher trabalham juntos no cinema. Bejo também esteve em Agente 117. A atriz de 35 anos construiu sua vida e carreira na França e tem dois filhos com o diretor. Apesar de ser a atriz principal do filme, ela tem sido promovida para as premiações como coadjuvante e também está a um passo de uma indicação ao Oscar. Bejo e Dujardin compartilham a cena com um elenco de atores americanos (o filme foi inteiramente rodado nos Estados Unidos). Os famosos John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller e Missi Pyle também participam do longa. 
O Artista conta a história de George Valentin (Jean Dujardin), grande astro de filmes mudos que, certo dia, tromba com uma espevitada fã, Peppy Miller (Bérénice Bejo), que logo começa, ela também, a trabalhar no cinema. A vida do ator vira de cabeça para baixo com a chegada do cinema sonoro, com a qual ele recusa ase adaptar. O nome "Valentin" é, provavelmente, uma referência a Rudolph Valentino, grande estrela do cinema mudo que morreu, aos 31 anos, um ano antes da chegada do cinema sonoro, em 1926. A sinopse do filme nos remete, imediatamente, ao clássico Cantando na Chuva (1952), que também retrata a chegada do som ao cinema. E não é que Dujardin é parecido com Gene Kelly, protagonista do musical de 1952? 


A atriz argentina Bérénice Bejo é casada com o diretor do filme, Michel Hazanavicius.

O enredo do filme é, em si, extremamente simples, pouco original e previsível. Mas isso pouco importa. A última preocupação do filme é soar original, ou melhor, no caso dele, ser original é justamente imitar um modelo "fora de moda". Desde a primeira sequência, Hazanavicius nos mostra que trata-se de um filme  de alto teor metalinguístico. É interessantíssimo como o diretor faz questão de focalizar constantemente a plateia, se interessando nas reações do público e retratando o lugar privilegiado que o cinema ocupava na vida das pessoas já no final dos anos 20. 

O Artista acaba sendo para o Hazanavicius um espaço para brincar com as convenções e códigos do cinema clássico. O diretor faz uso de diversos recursos típicos do cinema antigo, nos brindando com ótimas gags visuais, sobreposição de imagens, utilizando com frequência a transição de íris (círculo), brincando com a iluminação, com os estilos e gêneros (indo da comédia pastelão ao melodrama e passando pelo aventura de capa e espada, e até mesmo pelo expressionismo alemão numa ótima sequência de sonho). O diretor francês prova não apenas gostar da era de ouro hollywoodiana, como também ser um profundo conhecedor da mesma. 

O filme faz referências a diversos artistas e é possível identificá-los em vários momentos. Como não ver Gene Kelly e Debbie Renolds na sequência em que Valentin e Miller dançan juntos? Ou Douglas Fairbanks quando Valentin interpreta D'Artagnan de Os três Mosqueteiros? E a pinta de Miller não lembra Marilyn Monroe? No entanto, uma das homenagens mais significativas do filme é a cena do café da manhã entre Valentin e sua mulher, adaptação da ótima cena do grande clássico Cidadão Kane (1941). Nela, vemos a gradual degradação do casamento dos personagens, sem que seja preciso que eles falem sequer um "a".

Primeiro encontro dos protagonistas

Vários fatores contribuem para que O Artista consiga ser um projeto bem-sucedido. A direção de fotografia do filme é fenomenal, revelando um cuidado extremo ao agenciar diferentes estilos e fazendo referências a várias tendências ou momentos da história da fotografia no cinema. A direção de arte e figurino trabalham juntas numa reconstituição de época impecável (e é interessante notar o quanto a década de 30 inspirou os cineastas no ano que passou). A trilha sonora de Ludovic Bource (premiada no Globo de Ouro) é um dos grandes sucessos do filme e adquire uma função fundamental, uma vez que ela pontua a narrativa e é praticamente onipresente ao longo de toda a projeção. A trilha sonora, assim como a fotografia, é extremamente auto-referencial, ou seja, busca inspiração nos tipos de músicas usados nos clássicos.

Recentemente, a atriz Kim Novak acusou o filme de plagiar um dos temas musicais de Um Corpo que Cai (1958), composto por Bernard Herrmann. O tema de amor inesquecível da obra de Hitchcock foi realmente utilizado tal como foi composto, sem nenhuma mudança sequer. O uso, no entanto, é assumido e acusado pelo próprio filme em seus créditos finais, onde a peça é citada como música adicional. Além do mais, o filme é um acúmulo de "apropriações" diretas ou indiretas e se todos os autores (se estivessem vivos) fossem processar, os produtores iriam à falência. É importante acrescentar que Hazanavicius assume veementemente que o filme é uma homenagem e, de certa forma, uma colagem de vários momentos inesquecíveis do cinema. Deve-se destacar também que O Artista não é um filme completamente mudo e a sabedoria do diretor consiste em saber utilizar os sons diegéticos (aqueles da própria narrativa) em momentos-chaves da trama, de forma inteligente e surpreendente. 

Somando-se à excelência da técnica do filme, temos o charme, a versatilidade e o carisma de Jean Dujardin e  Bérénice Bejo. Os dois atores conseguem exalar toda a magia típica das estrelas do cinema clássico e ambos estão encantadores em seus respectivos papéis. Talvez toda a visibilidade que o filme tem tido, faça com que os atores lancem vôos mais altos, investindo também em produções internacionais. Vale destacar também um outro astro do filme. Trata-se do cachorrinho Uggie que interpreta o mascote de Valentin. Ele e Cosmo (de Toda Forma de Amor) são as maiores revelações caninas do cinema nos últimos tempos. 

O Artista é um filme encantador, bem-realizado e divertido. Acredito que ele ainda possa alimentar interessantes discussões com relação à reconstituição que faz do cinema mudo. Será que a "imitação" tem o mesmo valor artístico que uma obra "original"? Será que o sucesso do filme não se apóia muito mais em um empréstimo de fórmulas já consagradas, em uma manipulação de um tipo de nostalgia cinematográfica? Questões a serem discutidas. Como homenagem, o filme é um delicioso entretenimento e uma aula de cinema.  Melhor do que o concorrente A Invenção de Hugo Cabret (2011)? Na minha opinião, não. 


(Filme visto em Toulouse, França, no dia 16/01/2012)

Clique aqui e assista ao trailer



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Carnage (Deus da Carnificina) - 2011

Título original: Carnage
Lançamento: 2011
País: França, Alemanha, Polônia, Espanha
Atores: Jodie FosterKate Winslet,Christoph Waltz e John C. Reilly
Diretor: Roman Polanski
Duração: 79 min
Gênero: Comédia/ Drama

Dois casais à beira de um ataque de nervos

Um filme baseado em uma peça de teatro. Quatro personagens, dois casais. Indivíduos que revelam, pouco a pouco, suas verdadeiras faces e suas respectivas neuroses. Casamentos disfuncionais. Uma visita regada a whisky, verdades indigestas e vômito. Poderíamos estar falando de Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), mas a obra em questão é Carnage, adaptação de Roman Polanski para a bem-sucedida peça Deus da Carnificina, da escritora francesa Yasmina Reza. Assim como ocorre no clássico de Mike Nichols, o huis clos de Carnage é o palco encontrado para exorcismo de vários demônios, lugar onde são desferidas diversas acusações e fraquezas são expostas. 

Assim que foi anunciada a adaptação da peça, criou-se grande expectativa com o projeto não só pelo ácido texto de Reza, mas pela possibilidade do nascimento de um novo clássico. O engajamento do mestre Roman Polanski à filmagem e o casting de um quarteto de atores, que somam juntos nada menos que 4 Oscar's e 12 indicações ao prêmio, elevou ainda mais a expectativa de um grande filme. Deve-se ainda destacar o sucesso das montagens da peça em Zurique, Londres e nos Estados Unidos. A adaptação da Broadway foi indicada a vários Tony's e a ótima Marcia Gay Harden foi premiada como Melhor Atriz. Com um elenco completamente diferente das montagens no teatro, o texto de Reza agora está imortalizado, quase sem nenhuma alteração, também no cinema. 

Eis como podemos resumir a história de Carnage: Após uma discussão, Zachary, 11 anos, atacou o coleguinha Ethan, da mesma idade, com um pedaço de pau, quebrando dois dentes do garoto. Os pais do agressor, Alan (Christoph Waltz) e Nancy (Kate Winslet), vão à casa dos pais do agredido, Penélope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), para, então, discutirem os procedimentos a se tomar depois deste evento. A visita, que se inicia com ares de diplomacia e cordialidade, vai sendo estendida até o momento em que as verdades começam a serem ditas e o falso clima de harmonia desaparece. 

Ótima cena de Carnage
Para começar, é interessante observar a importância do que é dito e do que não é dito na história e, principalmente, quem fala. O espectador não tem acesso, em nenhum momento, às vozes dos personagens diretamente envolvidos no acontecimento motriz do filme. Além das duas crianças não estarem presentes na ocasião do encontro dos pais, elas não revelam para os mesmos o que motivou a agressão e qual o contexto do confronto. Tanto os quatro personagens principais, quanto o público, continuarão às escuras até o final da projeção. De acordo com Penélope, Ethan relutou até mesmo a denunciar Zachary. Existe, portanto, uma forma de cumplicidade infantil que não é respeitada pelos pais, compreensivelmente ansiosos para tudo compreender e punir. Desde o início da trama, fica claro que a história não gira em torno das crianças e sim dos adultos, que muitas vezes se comportam como crianças. Mas existe outro tipo de não-dito na história que nada tem a ver com os meninos, trata-se da animosidade que se cria entre os quatro personagens, as verdadeiras impressões, o caos que cada um esconde. Esse não-dito se torna, eventualmente, dito. 

Podemos afirmar que Yasmina Reza trabalha através de estereótipos, construindo e desconstruindo os mesmos. Seus personagens, não fogem muito, no entanto, de tipos. Podemos delinear aqueles responsáveis pela ação e aqueles que têm uma postura passiva. Neste sentido, a peça/filme pode ser considerada até mesmo feminista. São as duas mulheres que fazem a história acontecer, sendo autoras dos principais gestos. São elas que estimulam o conflito e que parecem realmente se importar com o assunto. Se por um lado, podemos falar em feminismo, por outro podemos também falar em um machismo gritante, já que o estereótipo da mulher encrenqueira, insatisfeita e reclamona também é mantido. 

Penélope (Jodie Foster) é louca por livros de arte.
Comecemos falando de Penélope. Trata-se, em minha opinião, da personagem mais interessante do filme. É ela a instância que não consegue se calar, a parte mais incomodada com a agressão. Ela deixa escapar, por diversas vezes, o quão abominável ela considera o gesto de Ethan (já na primeira cena ela diz  que a criança estava "armada"). Combativa, intelectual, culta, engajada com o mundo, a personagem é a iniciadora do conflito. Penélope é a encarnação da consciência do mundo. No entanto, ao tentar fazer as coisas certas e  ao não ser levada a sério, ela se perde em sua própria histeria. 

Nancy (Kate Winslet) é louca pela sua bolsa e pelo seu estojo de maquiagem.
Nancy é o oposto de Penélope, sendo a encarnação da burguesa bem-sucedida, com cada fio de cabelo  no lugar, postura elegante e contida (pelo menos a princípio). Logo no início, Penélope sentencia: a mãe de Zachary é uma "fake". A falta de autenticidade inicial da moça só consegue ser quebrada a partir do momento em que ela vomita, exibindo sua fragilidade e pondo literalmente para fora toda a frustração e irritação que ela estava armazenando até então. O vômito é o momento de catarse da personagem (e, sem dúvida, uma das grandes cenas do filme). Nancy também se revela combativa e o fato de um hamster ter sido abandonado na rua, lhe causa a maior indignação. 

Alan (Christoph Waltz) não vive sem seu celular.
Alan é a figura do homem de negócios de sucesso, estratégico, insensível e completamente tomado pela sua vida profissional. Sua visão cínica e irônica sobre as coisas, faz dele o personagem mais engraçado (a persona de Waltz cai como uma luva ao papel). O personagem é diminuído à condição de criança quando seu brinquedinho, digo, seu celular, entra em pane. Por fim, Michael é o homem-banana, que se deixa governar tanto pela mãe, quanto pela esposa. Fraco, sem grandes ambições, grandes opiniões, Michael se deixa levar ora por Penélope, ora por Alan. 

Michael (John C. Reilly) é especialista em artefatos domésticos.

E onde entra Roman Polanski em tudo isso? Como um grande diretor manifesta sua habilidade em um filme tão apegado a suas origens teatrais e que se passa em um só lugar? A tarefa de se adaptar uma peça teatral é sempre arriscada, já que o objetivo é realizar-se um filme e não um teatro filmado. Polanski, sabendo disso, nos presenteia com mais uma grande direção. A maneira com a qual ele cria uma narrativa circular, em que a cena de abertura dialoga com a final, a decupagem do filme, a criação de um ambiente claustrofóbico e a direção dos atores são fenomenais. E por falar em atores, nós temos sem dúvida um dos melhores trabalhos de elenco deste ano que passou. Talvez John C. Reilly brilhe menos, mas acredito que seja mais em função de seu personagem. Foster, Winslet e Waltz tem momentos espetaculares e poderiam, sem dúvida, terem sido mais lembrados nesta temporada de premiações (que ainda não acabou). 

Quem esperar por um novo Quem tem medo de Virginia Woolf?, talvez vá se decepcionar um pouco com Carnage. O clássico de Mike Nichols, este sim, é uma carnificina impiedosa e um mergulho intenso na alma humana. Carnage é, no máximo, uma carnificina light, cômica e leve. Não consegue também ir muito fundo em seus personagens, nos oferecendo um mar de infinitas possibilidades. Ao fim dos parcos 79 minutos de projeção, ficamos querendo mais. Mesmo assim, é um filme divertido e, ao contrário de muitos, faz até pensar. 





quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Um ano de Clube do Filme!




Caros leitores,

No próximo dia 18, o Clube do Filme celebrará um ano de seu primeiro post.

Compartilho com vocês minha alegria em poder falar de cinema, trocar experiências e conhecimentos sobre essa paixão que temos em comum.

Para festejar este primeiro aniversário e celebrar um ano de muitas conquistaso Clube do Filme irá sortear o DVD do clássico Suplício de uma Saudade (1955).

Cena de Suplício de Uma Saudade

O filme de 1955 é um dos melodramas mais queridos da Era de Ouro de Hollywood e conta uma bela história de amor. Suplício de uma saudade foi dirigido por Henry King e protagonizado pelos astros William Holden e Jennifer Jones. O filme foi indicado a oito Oscar’s (incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz) e foi premiado com as estatuetas de Melhor Figurino, Melhor Canção e Melhor Trilha Sonora (Comédia ou Musical).

Para participar do sorteio, basta:

1 – Seguir nosso twitterwww.twitter.com/clubedofilmeleo

2 – Retuitar a mensagem:  Celebre 1 ano do Clube do Filme e concorra ao DVD do clássico Suplício de uma Saudade. Siga o @clubedofilmeleo e RT! http://clubedofilmeleleo.blogspot.com

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O sorteio e o anúncio do ganhador serão realizados no dia 18 de janeiro. 

Grande abraço e obrigado por fazer parte deste clube!



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Orlando - A Mulher Imortal (1992)

Título original: Orlando
Lançamento: 1992
País: Inglaterra
Diretor: Sally Potter
Atores: Tilda SwintonBilly Zane, Quentin Crisp, Charlotte Valandrey
Gênero: Drama

"A cozinha estava tão escura que mal se podia distinguir uma chaleira de um coador. Um pobre gato preto foi confundido com carvão e atirado no fogo."     (trecho de Orlando) 

Orlando (Tilda Swinton) - versão homem

Em 11 de novembro de 1928, Virginia Woolf publicou Orlando - Uma Biografia. O romance biográfico acompanha a vida do personagem epônimo e fictício, desde o século XVI até 11 de novembro de 1928 (isso mesmo, até a data do lançamento do livro). Com uma narrativa deliciosamente parodística e um narrador ternamente irônico, a autora inglesa produz um dos mais interessantes estudos de gênero da literatura mundial. Orlando, nascido homem (quanto a isso não existe nenhuma dúvida), após algumas desventuras e um par de séculos de existência, acorda, um belo dia, mulher. Muitas páginas foram escritas sobre o romance, muitos estudiosos da literatura, da psicanálise e da filosofia se debruçaram sobre esta ousada obra-prima. O cinema, no entanto, só se atreveu a adaptá-la uma única vez e a responsável por este feito é a diretora inglesa Sally Potter. 

Sally Potter começou sua carreira como diretora em 1969. Apenas em 1983, ela realizou seu primeiro longa-metragem de ficção, o pouco conhecido The Gold Diggers. Seu segundo longa, Orlando, no entanto, teve destaque mundial e chegou a ser indicado a dois Oscar's (Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino), além de ter sido lembrado em outras premiações mundo afora. Desde este sucesso cult, Potter fez apenas quatro filmes, provando ser uma cineasta tão interessante quanto pouco prolífica. Apesar de sua trajetória irregular, Potter deve ser parabenizada pela coragem de escrever e dirigir uma adaptação do fantástico romance de Virginia Woolf. 

Orlando (Swinton) - versão mulher
Sem dúvida, a cineasta se deparou com algumas dificuldades nessa transposição. Provavelmente a maior delas tenha sido com relação ao elemento mais irresistível do romance: sua própria narração. A figura do biógrafo, aquele que conta as desventuras de Orlando, poderia ser transposta para o cinema, por exemplo, através de uma voz off. Potter rejeita este caminho mais fácil e óbvio. Para o conhecedor da obra original, é inevitável lamentar a ausência dos comentários irônicos e bem-humorados do biógrafo. Potter, no entanto, consegue preservar resquícios do humor presente no romance (que é, de fato, engraçadíssimo). Se no livro, era o olhar do narrador que portava um humor jocoso, no filme é o olhar de Orlando que cumpre este papel. 

Sally Potter faz escolhas importantes e audaciosas em sua adaptação. Além de amputar a narração, ela enxuga a trama, retirando da trajetória do personagem-título muitos de seus episódios e evocações líricas. A adaptação, que poderia apresentar mais de três horas de duração nas mãos de um cineasta de gosto épico, se desenvolve em apenas uma hora e meia sob a regência de Potter. Assim, a diretora preserva a leveza da história, evitando uma adaptação inchada e cansativa (o que não nos impede de imaginar o interessante épico que o romance poderia originar sob a batuta de um grande diretor). 

Orlando (Swinton) e a Rainha Elizabeth I (Quentin Crisp)
Um dos grandes acertos de Sally Potter é a utilização de um artifício que pode parecer banal, mas que confere todo um charme ao filme. Trata-se do olhar que Orlando (Tilda Swinton) lança constantemente em direção à câmera e, consequentemente, ao espectador. Tais olhares pontuam os acontecimentos da trama e funcionam como os parênteses do narrador no romance. Eles também criam uma relação de intimidade entre o público e o protagonista, como se este convidasse incessantemente aquele a se engajar na história. 

Orlando torna-se importante também por ter sido o filme que deu visibilidade (mas não necessariamente fama) à magnética atriz inglesa Tilda Swinton. A escalação da mesma para o papel principal foi outra jogada de mestre de Potter, afinal Swinton é uma das atrizes mais andróginas que o cinema já viu. Assim, ela não encontra dificuldades em interpretar um personagem que muda de gênero no meio da história. É interessante reparar como a atuação da atriz não se transforma bruscamente, uma vez que, em sua essência, o personagem continua o mesmo. O mais impressionante é perceber que Swinton nos faz esquecer, na primeira metade do filme, que ela é de fato uma mulher interpretando um homem, tamanha é a qualidade de sua composição. Potter ainda se permite brincar, em outros momentos, com a questão do gênero, ao escalar o ator Quentin Crisp (ótimo!) para interpretar ninguém menos que a Rainha Elizabeth I. E o que dizer de Billy Zane que, no filme, parece carregar mais feminilidade que Orlando, já metamorfizado em mulher?

Orlando (Swinton) e Shelmerdine (Billy Zane)
O filme ainda se notabiliza pelo excelente uso dos grandes planos, pela belíssima fotografia e, sobretudo, pela magistral direção de arte e figurino que, além de deslumbrantes, conseguem retratar os diferentes períodos focalizados pela história. Orlando é um ótimo exemplo de uma adaptação que toma a distancia necessária do livro, para tentar transpor, sob uma diferente linguagem, o charme e a magia da obra inspiradora. Na cena final, Sally Potter toma a liberdade de acrescentar um toque psicodélico e autoral, que comprova que ela não tem medo de ousar. 




sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret - 2011

Título original: Hugo
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Martin Scorsese
Atores: Asa Butterfield, Chlöe Moretz, Ben Kingsley, Emily Mortimer, Jude Law.
Duração: 127 min
Gênero: Aventura


O garoto Hugo Cabret (Asa Butterfield) pendurado no relógio e, ao fundo, a paisagem de Paris. 


O que esperar de um filme dirigido por um dos maiores diretores vivos do cinema sobre o responsável por fazer da sétima arte, de fato, uma arte? Respondo: puro encanto. Martin Scorsese já havia provado em O Aviador (2004) sua maestria ao reconstituir a Era de Ouro de Hollywood. Em Hugo Cabret, Scorsese faz ainda mais bonito ao tecer uma bela homenagem ao mestre George Méliès. O filme é baseado no premiado livro de Brian Selznick (primo distante do famoso produtor David O. Selznick), que acrescentou uma pitada de ficção e magia na história do legendário diretor francês. 

Méliès nasceu em 1861, em Paris. Brilhante mágico e ilusionista, um belo dia, ele se deparou com uma nova invenção: o cinematógrafo, criado pelos irmãos Lumière, no final do século XIX. Encantado pela máquina, o inquieto artista resolveu começar a fazer filmes. Hoje em dia, ele é considerado o principal responsável por fazer do registro de imagens em movimento uma arte. Criativo, curioso e incansável, Méliès era reconhecido pela sua habilidade em brincar com as imagens e pela magnificência de seus cenários, o capricho de seus figurinos, além de suas histórias fantasiosas e divertidas. Após a Primeira Guerra Mundial, Méliès veio à falência e a maioria de seus filmes (ele dirigiu mais de quinhentos) foram perdidos. Felizmente, algumas de suas obras puderam ser recuperadas, com destaque para o clássico Viagem à lua (1902). Multitalentoso, Méliès atuava, dirigia e roteirizava os seus filmes, além de idealizar os cenários e os figurinos dos mesmos. Ele morreu em 1938, aos 76 anos. 

Célebre cena de Viagem à lua (1902)
Reconhecido por suas obras-primas que focalizam, em sua maioria, homens inadaptados, agressivos e marginais, Scorsese faz algo completamente atípico em seu novo longa-metragem, criando um belíssimo conto de fadas. Os mais cínicos provavelmente torcerão o nariz para o caráter pueril e inocente da história, mas não creio que serão muitos. O filme conta a história do garoto Hugo Cabret (uma versão de Oliver Twist), que, órfão de pai e de mãe, vê-se obrigado a viver atrás das paredes de uma das maiores estações  de trem de Paris, onde trabalha escondido na manutenção dos grandiosos relógios da gare. Solitário, o menino vive de pequenos furtos, tendo que fugir constantemente do inspetor da estação. Nesta mesma gare, trabalha o já velhinho George (o Méliès), em uma loja de brinquedos. O destino fará com que as vidas dos dois personagens se cruzem. É interessante observar como o relógio e as engrenagens desempenham um papel fundamental no filme, sendo elementos onipresentes na história. Hugo Cabret resgata a arte por traz do manejo da maquinaria responsável pelo funcionamento de brinquedos, câmeras, robôs e, obviamente, relógios. 

Em A invenção de Hugo Cabret, Scorsese não mede esforços para nos impressionar. Já na cena de abertura, através de uma fusão, ele faz engrenagens se transformarem na Place Charles de Gaulle (ou Place de l'Étoile) em Paris. Em seguida, através de um travelling de tirar o fôlego, que atravessa toda a estação Montparnasse, ele nos apresenta a Hugo, o herói da trama. Usando e abusando de ótimos planos-sequência (muitos deles que exploram o interior da maquinaria dos relógios) e de belíssimos plongées, Scorsese nos presenteia com um verdadeiro espetáculo visual que faz valer a tecnologia 3D. Auxiliado por uma direção de arte deslumbrante, uma fotografia genial e um figurino impecável, o diretor consegue recriar a Paris dos anos 30 (como o fez o ótimo Meia Noite em Paris, de Woody Allen) e reencenar cenas de filmes de Méliès! E não é só isso: ele ainda nos impressiona com um descarrilhamento capaz de fazer o espectador levantar da cadeira, lembrando o que ocorreu, na primeira exibição do cinematógrafo, em 1895, quando as pessoas temeram serem atingidas pelo trem projetado pelos irmãos Lumière.  

Hugo (Butterfield) apresenta a Isabelle (Chlöe Moretz) a magia do cinema
A Invenção de Hugo Cabret é o primeiro filme de Scorsese, em mais de dez anos, que não conta com a participação de Leonardo Di Caprio. Para encarnar o protagonista da história, o diretor escolheu o talentoso garoto Asa Butterfield. Acrescentando experiência ao elenco, temos o grande Ben Kingsley (que nunca decepciona) na pele de George Méliès e também Helen McCrory e Sacha Baron Cohen. Temos ainda Chlöe Grace Moretz, jovem estrela de quatorze anos que lembra bastante a atriz Emma Watson e que esbanja carisma. O filme ainda se dá ao luxo de contar com pequenas participações de grandes atores, como Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Frances de la Tour e Jude Law. 

O novo filme de Martin Scorsese, cotado para o prêmio maior do Oscar 2012, é uma homenagem e uma declaração de amor ao cinema. É um filme feito para crianças e para adultos que não têm medo de voltar a serem crianças e redescobrir o encantamento que a sétima arte pode provocar em nós. A invenção de Hugo Cabret é uma aula de cinema e sobre o cinema. 



quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Toda forma de amor - 2011

Título original: Beginners
País: Estados Unidos
Lançamento: 2011
Diretor: Mike Mills
Atores Ewan McGregorChristopher Plummer e Mélanie Laurent
Gênero: Comédia dramática

"Você me faz rir, mas não é engraçado."

Hal (Christopher Plummer) e Oliver (Ewan McGregor), pai e filho em Toda Forma de Amor

Toda forma de amor é o segundo longa-metragem de ficção de Mike Mills, diretor, músico e artista gráfico americano de 45 anos. Seu primeiro longa Impulsividade (2005) não é suficientemente conhecido pelo grande público, mas foi um sucesso de crítica, tendo sido lembrado no Festival de Berlim e no Sundance. O novo filme de Mills vem chamando a atenção pela grande possibilidade de dar ao veterano Christopher Plummer, de A Noviça Rebelde (1965), seu primeiro Oscar. Em Toda Forma de Amor, Mills, também responsável pelo roteiro do filme, conta a história de Oliver, um ilustrador (elemento autobiográfico?) que deve descobrir como lidar com a morte do pai e com o surgimento de um novo amor. Detalhe importante: quatro anos antes de morrer, aos 75 anos, Hal (Plummer) conta ao filho Oliver (Ewan McGregor) que é gay e que pretende finalmente se assumir para o mundo. 

Um dos grandes feitos da obra de Mills é agenciar diferentes temporalidades de maneira fluida e orgânica. Estruturado em flashbacks e flashforwards, o filme lida com o presente, o passado próximo e o passado distante, sem se tornar esquemático ou confuso. A decupagem do filme, neste sentido, é genial, já que consegue relacionar os diferentes momentos da vida do protagonista através de supostas associações mentais feitas pelo mesmo, relacionadas às próprias lembranças de Oliver. A medida que o filme se desenrola, tais associações se tornam cheias de significado, já que o espectador torna-se mais e mais íntimo do protagonista. 

O filme revela os processos de aprendizado dos três personagens principais (não é por acaso que o título original do longa é Iniciantes). Hal abandona a vida de hétero, de homem casado e pai de família, após a morte de sua mulher, e recomeça sua vida como gay. É dele uma das melhores frases do filme: "Eu não quero ser gay apenas na teoria. Eu quero partir para a ação". Após encontrar um jovem namorado, Andy (Goran Visnjic), Hal descobre que tem câncer terminal e, a partir de então, deve aprender a viver com essa nova realidade. A coragem com que ele lida com essas duas situações acabam por ser inspiradora para seu filho. 

Oliver (McGregor) e Anna (Mélanie Laurent)
Oliver, por sua vez, encontra dificuldades para enfrentar diversos problemas. Primeiramente, o protagonista deve lidar com o vazio que a morte do pai lhe deixou (representado pela belíssima primeira cena do filme). Mas não é só isso. Durante a sua infância, Oliver foi "contaminado" pelo casamento infeliz de seus pais e, adulto, ele deve aprender a acreditar que relacionamentos podem dar certo. Mais do que isso, Oliver, que é extremamente melancólico, deve aprender que é possível ser feliz no amor. Já Anna, a nova paixão de Oliver, deve buscar vencer a depressão e a solidão e encontrar estabilidade no amor. Oliver e Anna terminam o filme ainda iniciantes, mas muito mais aptos a se compreenderem e a amarem.

Uma das grandes qualidades do filme é a construção de seus personagens, extremamente humanos. O roteiro trata cada um deles de maneira carinhosa e cuidadosa, revelando suas qualidades e fraquezas com uma sensibilidade única. A história de amor entre Anna e Oliver é desenvolvida de maneira encantadora e poderíamos resumi-la assim: as duas pessoas mais tristes do mundo se apaixonam e descobrem como sorrir juntas. E, por mais que cada um deles tenha que lidar com os próprios fantasmas, é difícil não acreditar que um é feito para o outro. Mills acerta também ao incluir o desenho como elemento fundamental no filme, como tradutor dos sentimentos do protagonista. O uso que ele faz dessas ilustrações e também de fotos de arquivo é excepcional. É também extremamente poética a maneira com a qual Oliver resgata a origem de seu pai, de sua mãe, de Anna e de si mesmo, através de uma apresentação que nos remete à abertura de O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001). E não me espantaria saber que o diretor é fã do filme francês e que tenha se inspirado, em algum nível, neste jovem clássico. 

Por fim, é inevitável não mencionar as belíssimas atuações que este filme contém. Ewan McGregor surge mais uma vez fantástico ao encarnar um personagem apaixonante, que nos comunica a cada instante sua tristeza, sua inadaptação ao mundo, sua melancolia e sua alma de artista. A bela atriz francesa Mélanie Laurent, nos oferece uma performance tocante, interpretando uma mulher que guarda uma lágrima por trás de cada sorriso. A sintonia entre os dois atores é um dos grandes trunfos do filme. O grande Christopher Plummer nos oferece uma performance digna de Oscar e é, sem dúvida, o favorito deste ano à estatueta de Melhor Ator Coadjuvante. Mary Page Keller, que interpreta a mãe de Oliver, tem uma participação reduzida, mas sua presença marcante e sua interpretação fazem de suas cenas umas das melhores do filme. Finalmente, não podemos deixar de mencionar o fofíssimo cachorrinho Cosmo (sim, não estou louco!) que dá vida a Arthur, cãozinho de Hal, e que tem grande importância na trama. 

É uma pena que Toda Forma de Amor só venha despertando o burburinho de premiações para Plummer, uma vez que o filme poderia ser lembrado também por tantos outros aspectos. Sem dúvida, o longa de Mills é um dos mais interessantes e cativantes do ano passado. Vale a pena conferir!