sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Carnage (Deus da Carnificina) - 2011

Título original: Carnage
Lançamento: 2011
País: França, Alemanha, Polônia, Espanha
Atores: Jodie FosterKate Winslet,Christoph Waltz e John C. Reilly
Diretor: Roman Polanski
Duração: 79 min
Gênero: Comédia/ Drama

Dois casais à beira de um ataque de nervos

Um filme baseado em uma peça de teatro. Quatro personagens, dois casais. Indivíduos que revelam, pouco a pouco, suas verdadeiras faces e suas respectivas neuroses. Casamentos disfuncionais. Uma visita regada a whisky, verdades indigestas e vômito. Poderíamos estar falando de Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), mas a obra em questão é Carnage, adaptação de Roman Polanski para a bem-sucedida peça Deus da Carnificina, da escritora francesa Yasmina Reza. Assim como ocorre no clássico de Mike Nichols, o huis clos de Carnage é o palco encontrado para exorcismo de vários demônios, lugar onde são desferidas diversas acusações e fraquezas são expostas. 

Assim que foi anunciada a adaptação da peça, criou-se grande expectativa com o projeto não só pelo ácido texto de Reza, mas pela possibilidade do nascimento de um novo clássico. O engajamento do mestre Roman Polanski à filmagem e o casting de um quarteto de atores, que somam juntos nada menos que 4 Oscar's e 12 indicações ao prêmio, elevou ainda mais a expectativa de um grande filme. Deve-se ainda destacar o sucesso das montagens da peça em Zurique, Londres e nos Estados Unidos. A adaptação da Broadway foi indicada a vários Tony's e a ótima Marcia Gay Harden foi premiada como Melhor Atriz. Com um elenco completamente diferente das montagens no teatro, o texto de Reza agora está imortalizado, quase sem nenhuma alteração, também no cinema. 

Eis como podemos resumir a história de Carnage: Após uma discussão, Zachary, 11 anos, atacou o coleguinha Ethan, da mesma idade, com um pedaço de pau, quebrando dois dentes do garoto. Os pais do agressor, Alan (Christoph Waltz) e Nancy (Kate Winslet), vão à casa dos pais do agredido, Penélope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), para, então, discutirem os procedimentos a se tomar depois deste evento. A visita, que se inicia com ares de diplomacia e cordialidade, vai sendo estendida até o momento em que as verdades começam a serem ditas e o falso clima de harmonia desaparece. 

Ótima cena de Carnage
Para começar, é interessante observar a importância do que é dito e do que não é dito na história e, principalmente, quem fala. O espectador não tem acesso, em nenhum momento, às vozes dos personagens diretamente envolvidos no acontecimento motriz do filme. Além das duas crianças não estarem presentes na ocasião do encontro dos pais, elas não revelam para os mesmos o que motivou a agressão e qual o contexto do confronto. Tanto os quatro personagens principais, quanto o público, continuarão às escuras até o final da projeção. De acordo com Penélope, Ethan relutou até mesmo a denunciar Zachary. Existe, portanto, uma forma de cumplicidade infantil que não é respeitada pelos pais, compreensivelmente ansiosos para tudo compreender e punir. Desde o início da trama, fica claro que a história não gira em torno das crianças e sim dos adultos, que muitas vezes se comportam como crianças. Mas existe outro tipo de não-dito na história que nada tem a ver com os meninos, trata-se da animosidade que se cria entre os quatro personagens, as verdadeiras impressões, o caos que cada um esconde. Esse não-dito se torna, eventualmente, dito. 

Podemos afirmar que Yasmina Reza trabalha através de estereótipos, construindo e desconstruindo os mesmos. Seus personagens, não fogem muito, no entanto, de tipos. Podemos delinear aqueles responsáveis pela ação e aqueles que têm uma postura passiva. Neste sentido, a peça/filme pode ser considerada até mesmo feminista. São as duas mulheres que fazem a história acontecer, sendo autoras dos principais gestos. São elas que estimulam o conflito e que parecem realmente se importar com o assunto. Se por um lado, podemos falar em feminismo, por outro podemos também falar em um machismo gritante, já que o estereótipo da mulher encrenqueira, insatisfeita e reclamona também é mantido. 

Penélope (Jodie Foster) é louca por livros de arte.
Comecemos falando de Penélope. Trata-se, em minha opinião, da personagem mais interessante do filme. É ela a instância que não consegue se calar, a parte mais incomodada com a agressão. Ela deixa escapar, por diversas vezes, o quão abominável ela considera o gesto de Ethan (já na primeira cena ela diz  que a criança estava "armada"). Combativa, intelectual, culta, engajada com o mundo, a personagem é a iniciadora do conflito. Penélope é a encarnação da consciência do mundo. No entanto, ao tentar fazer as coisas certas e  ao não ser levada a sério, ela se perde em sua própria histeria. 

Nancy (Kate Winslet) é louca pela sua bolsa e pelo seu estojo de maquiagem.
Nancy é o oposto de Penélope, sendo a encarnação da burguesa bem-sucedida, com cada fio de cabelo  no lugar, postura elegante e contida (pelo menos a princípio). Logo no início, Penélope sentencia: a mãe de Zachary é uma "fake". A falta de autenticidade inicial da moça só consegue ser quebrada a partir do momento em que ela vomita, exibindo sua fragilidade e pondo literalmente para fora toda a frustração e irritação que ela estava armazenando até então. O vômito é o momento de catarse da personagem (e, sem dúvida, uma das grandes cenas do filme). Nancy também se revela combativa e o fato de um hamster ter sido abandonado na rua, lhe causa a maior indignação. 

Alan (Christoph Waltz) não vive sem seu celular.
Alan é a figura do homem de negócios de sucesso, estratégico, insensível e completamente tomado pela sua vida profissional. Sua visão cínica e irônica sobre as coisas, faz dele o personagem mais engraçado (a persona de Waltz cai como uma luva ao papel). O personagem é diminuído à condição de criança quando seu brinquedinho, digo, seu celular, entra em pane. Por fim, Michael é o homem-banana, que se deixa governar tanto pela mãe, quanto pela esposa. Fraco, sem grandes ambições, grandes opiniões, Michael se deixa levar ora por Penélope, ora por Alan. 

Michael (John C. Reilly) é especialista em artefatos domésticos.

E onde entra Roman Polanski em tudo isso? Como um grande diretor manifesta sua habilidade em um filme tão apegado a suas origens teatrais e que se passa em um só lugar? A tarefa de se adaptar uma peça teatral é sempre arriscada, já que o objetivo é realizar-se um filme e não um teatro filmado. Polanski, sabendo disso, nos presenteia com mais uma grande direção. A maneira com a qual ele cria uma narrativa circular, em que a cena de abertura dialoga com a final, a decupagem do filme, a criação de um ambiente claustrofóbico e a direção dos atores são fenomenais. E por falar em atores, nós temos sem dúvida um dos melhores trabalhos de elenco deste ano que passou. Talvez John C. Reilly brilhe menos, mas acredito que seja mais em função de seu personagem. Foster, Winslet e Waltz tem momentos espetaculares e poderiam, sem dúvida, terem sido mais lembrados nesta temporada de premiações (que ainda não acabou). 

Quem esperar por um novo Quem tem medo de Virginia Woolf?, talvez vá se decepcionar um pouco com Carnage. O clássico de Mike Nichols, este sim, é uma carnificina impiedosa e um mergulho intenso na alma humana. Carnage é, no máximo, uma carnificina light, cômica e leve. Não consegue também ir muito fundo em seus personagens, nos oferecendo um mar de infinitas possibilidades. Ao fim dos parcos 79 minutos de projeção, ficamos querendo mais. Mesmo assim, é um filme divertido e, ao contrário de muitos, faz até pensar. 





quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Um ano de Clube do Filme!




Caros leitores,

No próximo dia 18, o Clube do Filme celebrará um ano de seu primeiro post.

Compartilho com vocês minha alegria em poder falar de cinema, trocar experiências e conhecimentos sobre essa paixão que temos em comum.

Para festejar este primeiro aniversário e celebrar um ano de muitas conquistaso Clube do Filme irá sortear o DVD do clássico Suplício de uma Saudade (1955).

Cena de Suplício de Uma Saudade

O filme de 1955 é um dos melodramas mais queridos da Era de Ouro de Hollywood e conta uma bela história de amor. Suplício de uma saudade foi dirigido por Henry King e protagonizado pelos astros William Holden e Jennifer Jones. O filme foi indicado a oito Oscar’s (incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz) e foi premiado com as estatuetas de Melhor Figurino, Melhor Canção e Melhor Trilha Sonora (Comédia ou Musical).

Para participar do sorteio, basta:

1 – Seguir nosso twitterwww.twitter.com/clubedofilmeleo

2 – Retuitar a mensagem:  Celebre 1 ano do Clube do Filme e concorra ao DVD do clássico Suplício de uma Saudade. Siga o @clubedofilmeleo e RT! http://clubedofilmeleleo.blogspot.com

Se você já for nosso seguidor no twitter, basta retuitar a frase.

O sorteio e o anúncio do ganhador serão realizados no dia 18 de janeiro. 

Grande abraço e obrigado por fazer parte deste clube!



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Orlando - A Mulher Imortal (1992)

Título original: Orlando
Lançamento: 1992
País: Inglaterra
Diretor: Sally Potter
Atores: Tilda SwintonBilly Zane, Quentin Crisp, Charlotte Valandrey
Gênero: Drama

"A cozinha estava tão escura que mal se podia distinguir uma chaleira de um coador. Um pobre gato preto foi confundido com carvão e atirado no fogo."     (trecho de Orlando) 

Orlando (Tilda Swinton) - versão homem

Em 11 de novembro de 1928, Virginia Woolf publicou Orlando - Uma Biografia. O romance biográfico acompanha a vida do personagem epônimo e fictício, desde o século XVI até 11 de novembro de 1928 (isso mesmo, até a data do lançamento do livro). Com uma narrativa deliciosamente parodística e um narrador ternamente irônico, a autora inglesa produz um dos mais interessantes estudos de gênero da literatura mundial. Orlando, nascido homem (quanto a isso não existe nenhuma dúvida), após algumas desventuras e um par de séculos de existência, acorda, um belo dia, mulher. Muitas páginas foram escritas sobre o romance, muitos estudiosos da literatura, da psicanálise e da filosofia se debruçaram sobre esta ousada obra-prima. O cinema, no entanto, só se atreveu a adaptá-la uma única vez e a responsável por este feito é a diretora inglesa Sally Potter. 

Sally Potter começou sua carreira como diretora em 1969. Apenas em 1983, ela realizou seu primeiro longa-metragem de ficção, o pouco conhecido The Gold Diggers. Seu segundo longa, Orlando, no entanto, teve destaque mundial e chegou a ser indicado a dois Oscar's (Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino), além de ter sido lembrado em outras premiações mundo afora. Desde este sucesso cult, Potter fez apenas quatro filmes, provando ser uma cineasta tão interessante quanto pouco prolífica. Apesar de sua trajetória irregular, Potter deve ser parabenizada pela coragem de escrever e dirigir uma adaptação do fantástico romance de Virginia Woolf. 

Orlando (Swinton) - versão mulher
Sem dúvida, a cineasta se deparou com algumas dificuldades nessa transposição. Provavelmente a maior delas tenha sido com relação ao elemento mais irresistível do romance: sua própria narração. A figura do biógrafo, aquele que conta as desventuras de Orlando, poderia ser transposta para o cinema, por exemplo, através de uma voz off. Potter rejeita este caminho mais fácil e óbvio. Para o conhecedor da obra original, é inevitável lamentar a ausência dos comentários irônicos e bem-humorados do biógrafo. Potter, no entanto, consegue preservar resquícios do humor presente no romance (que é, de fato, engraçadíssimo). Se no livro, era o olhar do narrador que portava um humor jocoso, no filme é o olhar de Orlando que cumpre este papel. 

Sally Potter faz escolhas importantes e audaciosas em sua adaptação. Além de amputar a narração, ela enxuga a trama, retirando da trajetória do personagem-título muitos de seus episódios e evocações líricas. A adaptação, que poderia apresentar mais de três horas de duração nas mãos de um cineasta de gosto épico, se desenvolve em apenas uma hora e meia sob a regência de Potter. Assim, a diretora preserva a leveza da história, evitando uma adaptação inchada e cansativa (o que não nos impede de imaginar o interessante épico que o romance poderia originar sob a batuta de um grande diretor). 

Orlando (Swinton) e a Rainha Elizabeth I (Quentin Crisp)
Um dos grandes acertos de Sally Potter é a utilização de um artifício que pode parecer banal, mas que confere todo um charme ao filme. Trata-se do olhar que Orlando (Tilda Swinton) lança constantemente em direção à câmera e, consequentemente, ao espectador. Tais olhares pontuam os acontecimentos da trama e funcionam como os parênteses do narrador no romance. Eles também criam uma relação de intimidade entre o público e o protagonista, como se este convidasse incessantemente aquele a se engajar na história. 

Orlando torna-se importante também por ter sido o filme que deu visibilidade (mas não necessariamente fama) à magnética atriz inglesa Tilda Swinton. A escalação da mesma para o papel principal foi outra jogada de mestre de Potter, afinal Swinton é uma das atrizes mais andróginas que o cinema já viu. Assim, ela não encontra dificuldades em interpretar um personagem que muda de gênero no meio da história. É interessante reparar como a atuação da atriz não se transforma bruscamente, uma vez que, em sua essência, o personagem continua o mesmo. O mais impressionante é perceber que Swinton nos faz esquecer, na primeira metade do filme, que ela é de fato uma mulher interpretando um homem, tamanha é a qualidade de sua composição. Potter ainda se permite brincar, em outros momentos, com a questão do gênero, ao escalar o ator Quentin Crisp (ótimo!) para interpretar ninguém menos que a Rainha Elizabeth I. E o que dizer de Billy Zane que, no filme, parece carregar mais feminilidade que Orlando, já metamorfizado em mulher?

Orlando (Swinton) e Shelmerdine (Billy Zane)
O filme ainda se notabiliza pelo excelente uso dos grandes planos, pela belíssima fotografia e, sobretudo, pela magistral direção de arte e figurino que, além de deslumbrantes, conseguem retratar os diferentes períodos focalizados pela história. Orlando é um ótimo exemplo de uma adaptação que toma a distancia necessária do livro, para tentar transpor, sob uma diferente linguagem, o charme e a magia da obra inspiradora. Na cena final, Sally Potter toma a liberdade de acrescentar um toque psicodélico e autoral, que comprova que ela não tem medo de ousar. 




sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret - 2011

Título original: Hugo
Lançamento: 2011 
País: EUA
Direção: Martin Scorsese
Atores: Asa Butterfield, Chlöe Moretz, Ben Kingsley, Emily Mortimer, Jude Law.
Duração: 127 min
Gênero: Aventura


O garoto Hugo Cabret (Asa Butterfield) pendurado no relógio e, ao fundo, a paisagem de Paris. 


O que esperar de um filme dirigido por um dos maiores diretores vivos do cinema sobre o responsável por fazer da sétima arte, de fato, uma arte? Respondo: puro encanto. Martin Scorsese já havia provado em O Aviador (2004) sua maestria ao reconstituir a Era de Ouro de Hollywood. Em Hugo Cabret, Scorsese faz ainda mais bonito ao tecer uma bela homenagem ao mestre George Méliès. O filme é baseado no premiado livro de Brian Selznick (primo distante do famoso produtor David O. Selznick), que acrescentou uma pitada de ficção e magia na história do legendário diretor francês. 

Méliès nasceu em 1861, em Paris. Brilhante mágico e ilusionista, um belo dia, ele se deparou com uma nova invenção: o cinematógrafo, criado pelos irmãos Lumière, no final do século XIX. Encantado pela máquina, o inquieto artista resolveu começar a fazer filmes. Hoje em dia, ele é considerado o principal responsável por fazer do registro de imagens em movimento uma arte. Criativo, curioso e incansável, Méliès era reconhecido pela sua habilidade em brincar com as imagens e pela magnificência de seus cenários, o capricho de seus figurinos, além de suas histórias fantasiosas e divertidas. Após a Primeira Guerra Mundial, Méliès veio à falência e a maioria de seus filmes (ele dirigiu mais de quinhentos) foram perdidos. Felizmente, algumas de suas obras puderam ser recuperadas, com destaque para o clássico Viagem à lua (1902). Multitalentoso, Méliès atuava, dirigia e roteirizava os seus filmes, além de idealizar os cenários e os figurinos dos mesmos. Ele morreu em 1938, aos 76 anos. 

Célebre cena de Viagem à lua (1902)
Reconhecido por suas obras-primas que focalizam, em sua maioria, homens inadaptados, agressivos e marginais, Scorsese faz algo completamente atípico em seu novo longa-metragem, criando um belíssimo conto de fadas. Os mais cínicos provavelmente torcerão o nariz para o caráter pueril e inocente da história, mas não creio que serão muitos. O filme conta a história do garoto Hugo Cabret (uma versão de Oliver Twist), que, órfão de pai e de mãe, vê-se obrigado a viver atrás das paredes de uma das maiores estações  de trem de Paris, onde trabalha escondido na manutenção dos grandiosos relógios da gare. Solitário, o menino vive de pequenos furtos, tendo que fugir constantemente do inspetor da estação. Nesta mesma gare, trabalha o já velhinho George (o Méliès), em uma loja de brinquedos. O destino fará com que as vidas dos dois personagens se cruzem. É interessante observar como o relógio e as engrenagens desempenham um papel fundamental no filme, sendo elementos onipresentes na história. Hugo Cabret resgata a arte por traz do manejo da maquinaria responsável pelo funcionamento de brinquedos, câmeras, robôs e, obviamente, relógios. 

Em A invenção de Hugo Cabret, Scorsese não mede esforços para nos impressionar. Já na cena de abertura, através de uma fusão, ele faz engrenagens se transformarem na Place Charles de Gaulle (ou Place de l'Étoile) em Paris. Em seguida, através de um travelling de tirar o fôlego, que atravessa toda a estação Montparnasse, ele nos apresenta a Hugo, o herói da trama. Usando e abusando de ótimos planos-sequência (muitos deles que exploram o interior da maquinaria dos relógios) e de belíssimos plongées, Scorsese nos presenteia com um verdadeiro espetáculo visual que faz valer a tecnologia 3D. Auxiliado por uma direção de arte deslumbrante, uma fotografia genial e um figurino impecável, o diretor consegue recriar a Paris dos anos 30 (como o fez o ótimo Meia Noite em Paris, de Woody Allen) e reencenar cenas de filmes de Méliès! E não é só isso: ele ainda nos impressiona com um descarrilhamento capaz de fazer o espectador levantar da cadeira, lembrando o que ocorreu, na primeira exibição do cinematógrafo, em 1895, quando as pessoas temeram serem atingidas pelo trem projetado pelos irmãos Lumière.  

Hugo (Butterfield) apresenta a Isabelle (Chlöe Moretz) a magia do cinema
A Invenção de Hugo Cabret é o primeiro filme de Scorsese, em mais de dez anos, que não conta com a participação de Leonardo Di Caprio. Para encarnar o protagonista da história, o diretor escolheu o talentoso garoto Asa Butterfield. Acrescentando experiência ao elenco, temos o grande Ben Kingsley (que nunca decepciona) na pele de George Méliès e também Helen McCrory e Sacha Baron Cohen. Temos ainda Chlöe Grace Moretz, jovem estrela de quatorze anos que lembra bastante a atriz Emma Watson e que esbanja carisma. O filme ainda se dá ao luxo de contar com pequenas participações de grandes atores, como Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Frances de la Tour e Jude Law. 

O novo filme de Martin Scorsese, cotado para o prêmio maior do Oscar 2012, é uma homenagem e uma declaração de amor ao cinema. É um filme feito para crianças e para adultos que não têm medo de voltar a serem crianças e redescobrir o encantamento que a sétima arte pode provocar em nós. A invenção de Hugo Cabret é uma aula de cinema e sobre o cinema. 



quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Toda forma de amor - 2011

Título original: Beginners
País: Estados Unidos
Lançamento: 2011
Diretor: Mike Mills
Atores Ewan McGregorChristopher Plummer e Mélanie Laurent
Gênero: Comédia dramática

"Você me faz rir, mas não é engraçado."

Hal (Christopher Plummer) e Oliver (Ewan McGregor), pai e filho em Toda Forma de Amor

Toda forma de amor é o segundo longa-metragem de ficção de Mike Mills, diretor, músico e artista gráfico americano de 45 anos. Seu primeiro longa Impulsividade (2005) não é suficientemente conhecido pelo grande público, mas foi um sucesso de crítica, tendo sido lembrado no Festival de Berlim e no Sundance. O novo filme de Mills vem chamando a atenção pela grande possibilidade de dar ao veterano Christopher Plummer, de A Noviça Rebelde (1965), seu primeiro Oscar. Em Toda Forma de Amor, Mills, também responsável pelo roteiro do filme, conta a história de Oliver, um ilustrador (elemento autobiográfico?) que deve descobrir como lidar com a morte do pai e com o surgimento de um novo amor. Detalhe importante: quatro anos antes de morrer, aos 75 anos, Hal (Plummer) conta ao filho Oliver (Ewan McGregor) que é gay e que pretende finalmente se assumir para o mundo. 

Um dos grandes feitos da obra de Mills é agenciar diferentes temporalidades de maneira fluida e orgânica. Estruturado em flashbacks e flashforwards, o filme lida com o presente, o passado próximo e o passado distante, sem se tornar esquemático ou confuso. A decupagem do filme, neste sentido, é genial, já que consegue relacionar os diferentes momentos da vida do protagonista através de supostas associações mentais feitas pelo mesmo, relacionadas às próprias lembranças de Oliver. A medida que o filme se desenrola, tais associações se tornam cheias de significado, já que o espectador torna-se mais e mais íntimo do protagonista. 

O filme revela os processos de aprendizado dos três personagens principais (não é por acaso que o título original do longa é Iniciantes). Hal abandona a vida de hétero, de homem casado e pai de família, após a morte de sua mulher, e recomeça sua vida como gay. É dele uma das melhores frases do filme: "Eu não quero ser gay apenas na teoria. Eu quero partir para a ação". Após encontrar um jovem namorado, Andy (Goran Visnjic), Hal descobre que tem câncer terminal e, a partir de então, deve aprender a viver com essa nova realidade. A coragem com que ele lida com essas duas situações acabam por ser inspiradora para seu filho. 

Oliver (McGregor) e Anna (Mélanie Laurent)
Oliver, por sua vez, encontra dificuldades para enfrentar diversos problemas. Primeiramente, o protagonista deve lidar com o vazio que a morte do pai lhe deixou (representado pela belíssima primeira cena do filme). Mas não é só isso. Durante a sua infância, Oliver foi "contaminado" pelo casamento infeliz de seus pais e, adulto, ele deve aprender a acreditar que relacionamentos podem dar certo. Mais do que isso, Oliver, que é extremamente melancólico, deve aprender que é possível ser feliz no amor. Já Anna, a nova paixão de Oliver, deve buscar vencer a depressão e a solidão e encontrar estabilidade no amor. Oliver e Anna terminam o filme ainda iniciantes, mas muito mais aptos a se compreenderem e a amarem.

Uma das grandes qualidades do filme é a construção de seus personagens, extremamente humanos. O roteiro trata cada um deles de maneira carinhosa e cuidadosa, revelando suas qualidades e fraquezas com uma sensibilidade única. A história de amor entre Anna e Oliver é desenvolvida de maneira encantadora e poderíamos resumi-la assim: as duas pessoas mais tristes do mundo se apaixonam e descobrem como sorrir juntas. E, por mais que cada um deles tenha que lidar com os próprios fantasmas, é difícil não acreditar que um é feito para o outro. Mills acerta também ao incluir o desenho como elemento fundamental no filme, como tradutor dos sentimentos do protagonista. O uso que ele faz dessas ilustrações e também de fotos de arquivo é excepcional. É também extremamente poética a maneira com a qual Oliver resgata a origem de seu pai, de sua mãe, de Anna e de si mesmo, através de uma apresentação que nos remete à abertura de O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001). E não me espantaria saber que o diretor é fã do filme francês e que tenha se inspirado, em algum nível, neste jovem clássico. 

Por fim, é inevitável não mencionar as belíssimas atuações que este filme contém. Ewan McGregor surge mais uma vez fantástico ao encarnar um personagem apaixonante, que nos comunica a cada instante sua tristeza, sua inadaptação ao mundo, sua melancolia e sua alma de artista. A bela atriz francesa Mélanie Laurent, nos oferece uma performance tocante, interpretando uma mulher que guarda uma lágrima por trás de cada sorriso. A sintonia entre os dois atores é um dos grandes trunfos do filme. O grande Christopher Plummer nos oferece uma performance digna de Oscar e é, sem dúvida, o favorito deste ano à estatueta de Melhor Ator Coadjuvante. Mary Page Keller, que interpreta a mãe de Oliver, tem uma participação reduzida, mas sua presença marcante e sua interpretação fazem de suas cenas umas das melhores do filme. Finalmente, não podemos deixar de mencionar o fofíssimo cachorrinho Cosmo (sim, não estou louco!) que dá vida a Arthur, cãozinho de Hal, e que tem grande importância na trama. 

É uma pena que Toda Forma de Amor só venha despertando o burburinho de premiações para Plummer, uma vez que o filme poderia ser lembrado também por tantos outros aspectos. Sem dúvida, o longa de Mills é um dos mais interessantes e cativantes do ano passado. Vale a pena conferir!





quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Sangue Frio - 1967

Título original: In Cold Blood
Lançamento: 1967 
País: EUA
Direção: Richard Brooks
Atores: Robert Blake, Scott Wilson, John Forsythe, Paul Stewart.
Duração: 134 min 
Gênero: Policial

"Achei o Sr. Clutter un sujeito muito bacana. Achei isso até o momento em que cortei a garganta dele." 

Perry (Robert Blake) e Dick (Scott Wilson)


Perry Smith. Assassino. Nascido em 1928. Morto por enforcamento em 1965, aos 36 anos. Metade irlandês, metade índio. Três irmãos. Dois deles cometeram suicídio. A mãe, alcoólatra, morreu quando ele tinha 13 anos. Sofreu violência doméstica enquanto viveu com o pai. Passou por mais de um orfanato. Serviu na Guerra da Coréia. Desde um grave acidente até o fim da vida, sofreu severas dores nas pernas. Manco. Viciado em aspirina. Apesar de ter cursado apenas até a terceira série, tinha um grande interesse por arte. Escrevia poemas e desenhava. Assumiu ter matado os quatro membros da família Clutter: a mãe, o pai, o filho e a filha. Motivo: roubo. Quantia obtida: 40 dólares. Seu parceiro de crime: Dick Hickock (também enforcado em 1965). Fortes indícios revelam que Perry manteve um relacionamento amoroso com o escritor Truman Capote, após a prisão do assassino. Perry Smith: uma tragédia anunciada; uma vida cinematográfica. 

O brutal assassinato da família Clutter despertou o interesse do escritor Truman Capote que, a partir de dados da investigação da polícia, de sua própria investigação e de entrevistas com os assassinos, escreveu o romance A Sangue Frio, publicado em 1966. A obra de Capote é pioneira do romance de não-ficção. Um ano após a publicação do livro, foi lançado o filme, de mesmo nome, dirigido por Richard Brooks, adaptação fiel do romance. Dois outros filmes sobre o assunto foram produzidos, assim como uma minissérie. 

O diretor e roteirista Richard Brooks tem no currículo os clássicos Gata em Teto de Zinco Quente (1958) e Entre Deus e o Pecado (1960). Sua adaptação para o romance de Capote é sua obra-prima, seu maior legado para o cinema. Brooks se apropria de uma obra revolucionária da literatura americana, que relata um assassinato que chocou os Estados Unidos, uma ferida ainda não cicatrizada na época, e realiza um filme que desafia a categorização em gêneros. A Sangue Frio é um drama psicológico, um thriller angustiante, um filme policial, um road movie, um filme de terror, um drama de tribunal, que ainda conta com ares de filme noir.

O longa-metragem acompanha a dupla de assassinos desde o planejamento do crime até a execução dos mesmos em 1965. O trajeto de fuga dos protagonistas é intercalado com a investigação da polícia, liderada pelo detetive Alvin Dewey (John Forsythe) e com alguns flashbacks, sendo o mais importante aquele que revela os detalhes do crime. Assim como ocorre no livro, existe um interesse mais acentuado por Perry Smith (Robert Blake) do que pelo seu parceiro Dick Hicock (Scott Wilson). 

Brooks acerta ao dar a Smith, um caráter complexo. O diretor/roteirista pinta o personagem como um homem perturbado pelo passado, atormentado pelos traumas de infância. Em alguns momentos, o personagem se aproxima da figura do louco, em outros, ele se comporta como uma criança ingênua. No entanto, não são criadas justificativas para os atos de Perry. Ele pode ser fruto de uma infância problemática, mas é plenamente consciente de seus atos, sendo capaz de refletir sobre sua própria história e sobre o crime. Não há como negar o instinto assassino do personagem, capaz, no entanto, de ações nobres como a de evitar que Dick estupre a filha Clutter, pouco antes de assassiná-la ele mesmo. Ambíguo, Perry Smith pode ser definido como um doce monstro. Não é de se espantar que o público crie uma empatia com o personagem. E, chocado, o espectador pode perceber que torce por ele.

Cena do filme: a captura dos assassinos

A afetividade encontrada na caracterização de Perry, não é vista em Dick, que não deixa de ser um personagem extremamente interessante. Charmoso, falso, irresponsável, insensível e ambicioso, Dick é um sujeito que, aparentemente, não é dotado de culpa e que tem grande facilidade em mentir. Ao contrário de Perry, não existe nenhum trauma que explique o comportamento do personagem e suas motivações são reduzidas ao desejo de enriquecimento fácil. É interessante notar a maneira com a qual a relação de Perry e Dick é retratada. Existe uma homoafetividade explícita na maneira com a qual os dois se relacionam. A questão da sexualidade é, por sinal, algo que é mostrado de maneira muito sutil pelo filme, mas que não deixa de ser um elemento importante na construção dos personagens. Dick é um homem extremamente sexualizado, que tem um interesse particular por adolescentes. Já para Perry, o sexo parece ser uma questão muito mais complicada, algo muito mal resolvido em sua vida. 

O brilhantismo do filme não se concentra, no entanto, apenas na construção dos personagens. Com o auxílio de uma belíssima fotografia em preto-e-branco, Richard Brooks cria uma aura de suspense e de tensão que muito se aproxima do cinema noir. A fantástica utilização do contraste entre luz e sombra, parece representar a própria dualidade do protagonista, como nos planos em que o rosto do personagem encontra-se metade iluminado e metade na escuridão. A própria maneira com a qual o Perry Smith nos é apresentada (através de suas botas), nos remete àquelas dos vilões dos clássicos O terceiro homem (1949) e O mensageiro do Diabo (1955). Além disso, Brooks nos presenteia com cenas de um lirismo e sensibilidade únicos, como aquela em que o reflexo da chuva na janela parece formar lágrimas no rosto de Perry. A escolha de filmar nos locais onde a história efetivamente se passou, como na casa onde o crime foi cometido, confere à produção um realismo mórbido.

Somando-se à elegância e ao lirismo da direção Brooks, temos as ótimas performances da dupla de atores principal, assim como a de todos os atores secundários. Destaque deve ser feito a Robert Blake que, em seu maior momento no cinema, nos oferece uma atuação inesquecível. Detalhe curioso é que o ator, popularizado pelo seu trabalho na televisão americana, na série Baretta, foi acusado de assassinar sua mulher em 2005. Após um julgamento polêmico, ele foi absolvido. 

A Sangue Frio discute até onde existe uma justificativa para os atos violentos cometidos pelo ser humano. Será que a maldade precisa de uma razão para ser liberada? Como é possível que pessoas sãs possam cometer atos insanos? A Sangue Frio é uma obra-prima do cinema que faz jus ao magnífico romance de Truman Capote e que merece ser relembrada.


Perry Smith (Robert Blake) na bela cena final do filme




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Natal no Clube do Filme

O Clube do Filme faz a seleção dos 10 filmes que mais expressam o espírito natalino. 

Confira a lista e participe da nossa Promoção de Natal pelo twitter. 

Siga o @clubedofilmeleo e RT a mensagem: "Natal no Clube do Filme - Siga o @clubedofilmeleo, RT esta msg e concorra ao dvd do clássico 'A Doce Vida'. Resultado no dia 24/12 às 12h."

1 – A felicidade não se compra (It's A Wonderful Life) – 1946  / Dir. Frank Capra


2 – De ilusão também se vive (Miracle On 34th Street) – 1947 / Dir. George Seaton


3 – Natal Branco (White Christmas) – 1954 / Dir. Michael Curtiz


4 – Agora seremos felizes (Meet Me in St. Louis) – 1944 / Dir. Vincente Minnelli


5 – Uma história de Natal (A Christmas Story) – 1983 / Dir. Bob Clark


6 – Simplesmente amor (Love Actually) – 2003 / Dir. Richard Curtis


7 – Esqueceram de mim (Home Alone) – 1990 / Dir. Chris Columbus


8 –  O Grinch (How the Grinch Stole Christmas ) – 2000 / Dir. Ron Howard


9 – Um Herói de Brinquedo (Jingle All the Way) – 1996 / Dir. Brian Levant


10 – Papai Noel às avessas (Bad Santa) – 2003 / Dir. Terry Zwigoff



FELIZ NATAL!!!