terça-feira, 31 de maio de 2011

Os 15 jovens atores mais promissores do cinema atual

Quais são os jovens atores nos quais devemos ficar de olho? 

Eis uma lista de 15 atores jovens e promissores do nosso cinema atual. Confira!


1 - Elle Fanning 

Nasceu em: 09/04/1998

Irmã mais nova de Dakota, Elle Fanning tem apenas 13 anos e quase 20 filmes no currículo. Quatro deles estão em produção ou pós-produção atualmente, o que quer dizer que, em 2011/2012, teremos várias oportunidades de conferir o talento da jovem atriz. 

Elle Fanning teve um papel de destaque no último filme de Sofia Coppola, Um lugar qualquer (2010), pelo qual recebeu muitos elogios. 

Próximos projetos:

Super 8  (2011) de J.J. Abrams

Twixt Now and Sunrise (2011) de Francis Ford Coppola

We Bought a Zoo  (2011) de Cameron Crowe

Vivaldi  (2011) de Boris Damast


2 - Hailee Steinfeld 

Nasceu em:11/12/1996


Hailee Steinfield fez apenas um longa-metragem, Bravura Indômita (2010), pelo qual foi revelada no ano passado. A menina de 15 anos foi indicada, em sua estreia, ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, além de ter sido premiada por diversas outras associações. Sua performance no filme dos irmãos Coen impressionou a crítica e ela foi a principal concorrente de Melissa Leo no Oscar deste ano. 

A atriz integra o elenco do filme Romeu e Julieta que será dirigido por Carlo Carlei e que se encontra em pré-produção. 

Próximo projeto: 

Romeo and Juliet (2012) de Carlo Carlei

3 - Abigail Breslin 

Nasceu em:14/04/1996


Quem não se lembra da menina barrigudinha de Pequena Miss Sunshine (2006)? Abigail Breslin conquistou o coração dos americanos por este papel e foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2007. Depois disso, a atriz já fez diversos filmes (a maioria deles inexpressivos) que não renderam a mesma atenção da crítica, mas que confirmaram seu carisma.  Este ano, ela dublou Priscilla no ótimo desenho Rango (2010)

Próximos projetos:

New Year's Eve (2011) de Garry Marshall

Innocence (2012) de Hilary Brougher

4 - Saoirse Ronan 

Nasceu em:12/04/1994


Sem dúvida, essa atriz de nome quase impronunciável, é uma das maiores revelações do cinema nos últimos anos. Ela se tornou conhecida por Desejo e reparação (2007) de Joe Wright, seu terceiro filme, pelo qual foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.  

Dona de um talento único, Ronan foi uma das poucas salvas pela crítica do desastre Um olhar do Paraíso (2009), filme de Peter Jackson. 

Este ano ela já protagonizou outro filme de Joe Wright, Hanna (2011), que estreou nos Estados Unidos no início de maio.
 
Próximos projetos: 

Hanna (2011) de Joe Wright

Violet & Daisy (2011) de Geoffrey Fletcher

Bizantium (2012) de Neil Jordan 

The Host (2012) de Andrew Niccol

5 – Dakota Fanning 

Nasceu em: 23/02/1994

Dakota Fanning foi a atriz-mirim mais famosa e celebrada da última década, mas, ironicamente, não conseguiu sua indicação ao Oscar como suas três colegas citadas anteriormente. A atriz tem mais de 20 trabalhos no cinema. Ela foi destaque em Uma lição de amor (2001), com Sean Penn, depois em Guerra dos Mundos (2005) de Steven Spielberg, e em O amigo oculto (2006), com Robert de Niro. Fez, recentemente, The runaways (2010) e a saga Crepúsculo, ambos os trabalhos com Kirsten Stewart. 

A atriz parece estar sendo bem sucedida na transição da carreira infantil para a carreira adulta. Com 17 anos, ela não para de trabalhar e tem cinco filmes em produção. 

Próximos projetos:

Amanhecer – Parte 1 (2011) de Bill Condon 

Amanhecer – Pate 2 (2012) de Bill Condon 

The motel life (2012) de Alan Polsky, Gabe Polsky

Mississipi Wild (2012) de Jesse Baget

Very good girls (2012) de Naomi Foner

6 - Jennifer Lawrence 

Nasceu em:15/08/1990 


Jennifer Lawrence começou no cinema em 2008, mas só alcançou a fama no ano passado. Ela foi revelada pelo filme independente, Inverno da Alma (2010), pelo qual concorreu ao Oscar de Melhor Atriz. Lawrence está, atualmente, envolvida em seis produções que devem estrear em 2011 e 2012. 

Próximos projetos:

Like Crazy (2011) de Drake Doremus

Um novo despertar (2011) de Jodie Foster

X-man: primeira classe (2011) de Matthew Vaughn

House at the end of the street (2012) de Mark Tonderai

The Hunger games (2012) de Gary Ross 

Truckstop (2012) de Rotimi Rainwater

7 - Emma Watson 

Nasceu em:15/04/1990


A Hermione, da saga de Harry Potter, vem evoluindo bastante e mostrando ser uma atriz cada vez mais interessante. Por enquanto, a única personagem que ela encarnou no cinema foi a famosa amiga de Harry Potter. Cheia de estilo, a atriz foi eleita a celebridade mais elegante do último ano. Com o fim da série Harry Potter, ela promete se dedicar a papéis mais desafiadores. 

Próximos projetos:

Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2 (2011) de David Yates

My week with Marilyn (2011) de Simon Curtis

The perks of  being a Wallflower (2012) de  Stephen Chbosky

8 - Kristen Stewart

Nasceu em: 09/04/1990 




O primeiro grande papel de Kirsten Stewart foi em O quarto do pânico (2002) de David Fincher. Ela se  tornou um ídolo teen, em 2008, com a sua personagem Bella Swan, na saga Crepúsculo. Apesar de não mostrar muito do seu talento na saga, Stewart é uma atriz bem interessante. Ela estará no filme do brasileiro Walter Salles, On the road  (2011). A grande atriz e diretora Jodie Foster já disse que é fã da jovem atriz. 

Próximos projetos: 

Amanhecer – Parte 1 (2011) de Bill Condon 

Amanhecer – Pate 2 (2012) de Bill Condon 

On the road (2011) de Walter Salles

Snow white and the huntsman (2012) de Rupert Sanders

9 - Daniel Radcliffe 

Nasceu em: 23/07/1989 


O ator inglês de 21 anos se consagrou no cinema na pele do bruxo Harry Potter. Seu primeiro longa-metragem, no entanto, foi O Alfaiate do Panamá (2001). Radcliffe provavelmente vai ter dificuldade de se distanciar do papel que o deixou mundialmente famoso, mas ele já mostrou ter talento suficiente para encarar projetos diferentes e mais audaciosos (principalmente no teatro; ele fez Equus nos palcos londrinos e estreou recentemente um musical na Broadway) .  

Próximos projetos:

Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2 (2011) de David Yates

The Woman in Black (2012) de James Watkins

10 - Rupert Grint 

Nasceu em: 24/08/1988 


O simpático ator inglês de 22 anos, também revelado pela série Harry Potter, tem mais filmes em produção que seus dois colegas de saga e de lista. 

Próximos projetos:

Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2 (2011) de David Yates

Cross Country (2011) de Paul Fielding, Timothy Fielding

Comrade (2012) de Petter Naess

Eddie the eagle (2012) de Declan Lowney 

11 - Haley Joel Osment 

Nasceu em:10/04/1988



Grande estrela-mirim, Haley Joel Osment, é lembrado pelo seu trabalho em O sexto sentido (1999, pelo qual foi indicado ao Oscar), em A corrente do bem (2000) e em A.I. – Inteligência artificial (2001). O ator teve uma carreira consistente, até desaparecer dos holofotes na primeira metade dos anos 2000. A partir de 2007, ele se voltou para a dublagem de games. No entanto, o ator parece ter voltado à ativa e tem dois filmes em pós-produção que serão lançados, provavelmente, ainda em 2011.

Próximos projetos:

Montana amazon (2011) de D.G. Brock

Sassy Pants (2011) de Coley Sohn

12 - Evan Rachel Wood 

Nasceu em: 07/09/1987


Evan Rachel Wood é quase uma veterana no cinema. Ela estreou na telona em 1998, em O poder da emoção, ao lado de Kevin Bacon. Ela ganhou notoriedade, no entanto, ao interpretar uma adolescente rebelde em Aos treze (2003), papel pelo qual foi extremamente elogiada, tendo sido indicada ao Globo de Ouro daquele ano. Depois disso, ela fez outros bons trabalhos em Desaparecidas (2003), Across the universe (2007) e O lutador (2008).  Ela estará no próximo filme dirigido por George Clooney, que conta com grandes atores como Ryan Gosling, Paul Giamatti, Philip Seymor Hoffman e Marisa Tomei. Material extremamente “oscarizável”.

Próximo projeto:

The Ides of March (2011) de George Clooney

13 - Ellen Page 

Nasceu em: 21/02/1987



A atriz canadense de 24 anos estreou no cinema em 2002, mas foi em 2005 que ela se fez notar pelo público e pela crítica. Ela deu um show em Meninamá.com (2005) e logo depois foi indicada ao Oscar por Juno (2007). No seu currículo ainda constam o ótimo A origem (2010). Ela está no elenco da próxima comédia de Woody Allen.

Próximo projeto:

Bop Decameron (2012) de Woody Allen 

14 - Robert Pattinson 

Nasceu em: 13/04/1986

Robert Pattinson surgiu no cinema no filme Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005). De uma saga teen, ele foi para outra. Lançado à condição de star em 2008, com o filme Crepúsculo, ele ainda não mostrou um talento particularmente marcante, mas ainda tem tempo... Ele lançará cinco filmes em 2011/2012. 

Próximos projetos:

Amanhecer – Parte 1 (2011) de Bill Condon 

Amanhecer – Pate 2 (2012) de Bill Condon 

Água para elefantes (2011) de Francis Lawrence

Bel Ami (2011) de Declan Donnellan, Nick Ormerod

Cosmopolis (2012) David Cronenberg

15 - Carey Mulligan 

Nasceu em: 28/05/1985


Carey Mulligan é a atriz mais velha de nossa lista. De todos, ela também foi a que estreou no cinema mais tarde, com 20 anos. Seu primeiro trabalho foi no ótimo Orgulho e Preconceito (2005). No entanto, ela alcançou fama mundial apenas em 2009, com Educação, filme pelo qual recebeu a indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Mulligan é considerada uma das melhores atrizes de sua geração e acumula bons trabalhos em Wall Street – O dinheiro nunca dorme (2010) e Não me abandone jamais (2010). Seus próximos projetos são bem promissores.

Próximos projetos:

Drive (2011) de Nicolas Winding Refn

Shame (2011) de Steve McQueen

The great Gatsby (2012) de Baz Luhrmann



quinta-feira, 26 de maio de 2011

Os filmes mais aguardados do ano (após Cannes)

O Festival de Cannes, o de maior prestígio do mundo cinematográfico, acabou neste último domingo com a premiação de A Árvore da Vida com a Palma de Ouro. Muitos filmes, que serão lançados nos próximos meses, foram apresentados nas mostras competitivas do festival. Segue a lista daqueles cujas estreias devemos aguardar ansiosamente.

1 - A árvore da Vida, de Terrence Mallick

Belo pôster do filme ganhador da Palma de Ouro.

O filme não foi unanimidade em sua apresentação em Cannes, o que não é nenhuma surpresa por se tratar de uma obra de Mallick. Ao que parece, o cineasta fez um filme visualmente espetacular e muito poético. O filme conseguiu conquistar a maior parte do júri e levou o maior prêmio do festival. Em seu elenco estão Brad Pitt e Sean Penn.




2 - Drive, de Nicolas Winding Refn


Gosling parabeniza o diretor por sua vitória em Cannes


O jovem cineasta Nicolas Winding Refn levou o prêmio de melhor direção em Cannes. O filme empolgou o público do festival francês e conta a história de Driver (Ryan Gosling) dublê de filmes durante o dia e motorista de fugas durante a noite. O filme conta com um dos melhores atores jovens de Hollywood, Ryan Gosling, e com a atriz indicada ao Oscar em 2009, Carey Mulligan. 



3 - Melancolia, de Lars von Trier

Kirsten Dunst, premiada por Melancolia


Lars von Trier causou uma polêmica extratosférica por causa de seus comentários referentes ao nazismo durante uma entrevista coletiva em Cannes. Ironicamente, apesar de ter sido expulso do festival, seu filme foi muito bem recebido pela crítica, que tinha torcido nariz para o seu filme anterior, o ótimo Anticristo (2009). Como grande fã do cinema de Lars von Trier, estou super ansioso por essa nova produção. O diretor tem a habilidade de tirar performances absurdas de suas atrizes (vide Bjork, Emily Watson, Nicole Kidman e Charlotte Gainsbourg). Neste ano, Kirsten Dunst confirmou a tradição, levando o prêmio de melhor atriz de Cannes. 




4 - La Piel Que Habito, de Pedro Almodóvar

Antonio Bandeiras de volta a um filme de Almodóvar

O filme do grande diretor espanhol era considerado o favorito pela imprensa, mas acabou saindo de mãos abanando do festival. De qualquer forma, o filme foi bastante elogiado e a crítica louvou o fato de Almodóvar ter trabalhado muito bem com elementos de diversos gêneros. O filme também marca a retomada  parceria do diretor com uma de suas grandes estrelas: Antonio Bandeiras.  




5 - O garoto de bicicletade Jean-Pierre e Luc Dardenne

Pôster do filme

Os irmãos Dardenne são extremamente queridos pelo Festival de Cannes e, neste ano, foram premiados com o segundo prêmio mais importante do festival: o Grande Prêmio. Os cineastas já realizaram grandes pérolas do cinema como Rosetta (1999) O filho (2002) e A criança (2005).  Seu novo filme, O garoto de bicicleta, volta a retratar o universo infantil e parecer ser mais um belo filme.




6 - This must be the place, de Paolo Sorrentino 


Se Sean Penn já não tivesse 2 Oscars, arriscaria falar em um terceiro por este filme.


Este filme do diretor italiano Paolo Sorrentino foi extremamente elogiado em Cannes e conta com dois atores que eu adoro: Sean Penn e Frances McDormand. Sean Penn parece estar fantástico no filme, era o favorito para o prêmio de melhor ator, mas acabou perdendo para o francês Jean Dujardin. Ele interpreta uma estrela aposentada do rock que procura se vingar do homem que executou seu pai. Pelas fotos, dá para ter uma idéia da  transformação do ator para o filme. 





7 -  O abismo prateado, de Karim Ainouz


Alessandra Negrini em Abismo prateado

O filme brasileiro entrou na mostra Quinzena dos realizadores do Festival de Cannes. Não ganhou nenhum prêmio, mas foi muito elogiado, assim como a performance de Alessandra Negrini. A história é baseada na canção "Olhos nos olhos"de Chico Buarque. O diretor que já provou seu talento no fantástico Madame Satã (2002),  parece ter feito outro ótimo trabalho. 



domingo, 22 de maio de 2011

Incêndios - 2010

"A infância é como uma faca cravada na garganta."

"Às vezes, é melhor não saber [a verdade]."

"A morte nunca é o fim de uma história. Ainda existem os vestígios."

Nawal Marwan, interpretada por Lubna Azabal


Incêndios é uma produção canadense indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. Ele é a adaptação da peça homônima do dramaturgo (e também diretor) libanês Wadji Mouawad, que escreve, no entanto, em francês e vive no Canadá. Antes de conhecer o filme, tive a oportunidade de fazer um estudo sobre uma das cenas da peça em um trabalho universitário (curiosamente a cena estudada, não foi transposta para o filme). Infelizmente, não tive ainda a oportunidade de ler a peça por completo. Não poderei falar, portanto, do trabalho de adaptação da obra, algo que me sinto imensamente impelido a fazer no futuro. Posso dizer, no entanto, que Mouawad é um dos melhores autores francófonos contemporâneos e sua linguagem é extremamente rica, com uma grande influência da linguagem cinematográfica. Um querido professor francês, afirmou que o texto da peça é um dos melhores textos teatrais que ele já leu.

Incêndios, o filme, parece fazer jus ao grande texto que adapta. Ele é tão rico e existe tanto o que falar desta obra, que é dificil saber por onde começar. Sem dúvida, devido à poderosa obra original, temos um dos filmes mais emocionantes dos últimos anos. Incêndios conta história de uma mulher, Nawal Marwan, de 60 anos, que morre e deixa a seus filhos (um casal de gêmeos), junto com seu testamento, duas cartas para serem entregues para o pai e o irmão do casal. Simon, o filho, deve entregar a carta a seu irmão e Jeanne, a filha, deve entregar a carta a o seu pai. Apenas após o cumprimento dessa tarefa, Nawal poderá ter um sepultamento normal. A missão se revela absurda e quase impossível uma vez que Simon e Jeanne acreditavam que seu pai estava morto e desconheciam completamente a existência de um terceiro irmão. Nawal, cristã e originária do Oriente Médio, faz, através dessa missão, com que seus filhos descubram sua própria origem.

Incêndios conta a história de uma escavação do passado, um processo doloroso de descoberta de uma origem. Tanto a peça, como o filme carregam uma aura mítica, própria das tragédias gregas. A intolerância religiosa é o que produz a trama e a guerra civil entre cristãos e muçulmanos no Oriente Médio é mais do que pano de fundo para história, é, junto com o destino, uma das forças motrizes da história. Incêndios, no entanto, dificilmente possa ser rotulado como um filme panfletário antiguerra. A crítica, que existe, é construída de maneira bem orgânica ao enredo e o espectador não pode deixar de sentir o horror de uma guerra em nome da religião.

O filme mostra uma viagem que parece ser essencial para a maturidade e para o autoconhecimento de Simon e Jeanne. O rapaz tem um comportamento que o aproxima a um adolescente imaturo e, desde o primeiro instante, recusa sua tarefa; só o vemos reaparecer no último terço do filme. Jeanne, no entanto, abraça sua missão e viaja ao Oriente Médio em busca da verdade. Acompanhamos durante mais da metade do filme a duas buscas paralelas: a busca de Jeanne por seu pai e por seu irmão e, em outro tempo, a busca de Nawal por seu primeiro filho dado para adoção por ser fruto de sua relação com um refugiado mulçumano. Duas mulheres, atravessando os mesmos lugares, em busca de um parente perdido. O jogo passado/presente, também presente na peça, é extremamente bem realizado por evocar a relação íntima dessas duas jornadas: como se uma fosse a "revivência" da outra. Temos, durante todo o filme, a sensação de estarmos diante de um trauma, algo enterrado na memória e que vai ser trazido a tona. 

Uma das qualidades da produção está na força de seu elenco: os atores estão excelentes desde os protagonistas até as participações-relâmpago. Lubna Azabal (intérprete de Nawal), no entanto, é o  grande destaque do filme. Sua performance é tão forte quanto sua personagem. A atriz consegue exprimir, através do olhar, uma dor que não pode ser expressa por palavras. A personagem fala pouco e, quando fala, podemos sentir sua voz entrecortada pelo sofrimento. Nawal, poeticamente chamada como "a mulher que canta", é uma heroína trágica inesquecível. 

Incêndios é apenas o quarto longa-metragem de Denis Villeneuve, diretor que já é, no entanto, bastante premiado. Ele conduz muito bem a experiência cinematográfica que é este filme de 2010. Não me sai da cabeça, por exemplo, a primeira cena em que Nihad, uma criança, olha diretamente para a câmera e, para nós espectadores, com uma raiva que, ao mesmo tempo, parece ser um pedido de socorro. Através de lindos planos gerais, Villeneuve também nos mostra as paisagens do Oriente Médio, revelando o contraste que existe entre a bela natureza árida e o horror que se reproduz naquele lugar. Villeneuve também escolhe sabiamente o momento em que a violência deve ser explicitada e o momento em que ela deve ser apenas sugerida. 

A única coisa que me incomodou foi a presença de títulos que dividem o filme, mais ou menos, em capítulos. Esse recurso distancia o espectador da história, uma vez que interfere no fluxo visual. A meu ver a titulação deve ter uma função bem definida na narrativa, senão é completamente desnecessária. Em Incêndios, ela soa mais como um didatismo desnecessário.

Deve-se elogiar a bela fotografia de André Turpin e a trilha sonora de Grégoire Hetzel que conta ainda com duas ótimas músicas do Radiohead.



O texto a seguir vai revelar detalhes importantes da trama do filme, se preferir, não leia antes de assisti-lo. 




Incêndios é uma reatualização do mito de Édipo, contado pela tragédia grega de Sófocles, Édipo Rei. Na história, Édipo mata o seu pai e casa-se com sua mãe, Jocasta. Em Incêndios, a revelação da identidade do pai e do irmão ocorre em dois momentos. No primeiro momento, temos uma bela cena em que, já sabendo da verdade, Simon pergunta para Jeanne: "Um mais um é sempre dois. Certo?". Ele reitera a pergunta por diversas vezes, até que Jeanne compreende o significado. As duas pessoas que eles estavam procurando são de fato a mesma: o irmão e o pai são um só indivíduo. Simon e Jeanne devem enfrentar o fato de serem fruto de um incesto. A reação da personagem é fantástica (numa ótima interpretação de Mélissa Désormeaux-Poulin). Apenas em um segundo momento a verdade pode ser verbalizada, um processo essencial para a superação da dor.

O filme levanta a questão se vale a pena saber a verdade, mesmo ela sendo terrível. Ao final, ele parece responder que sim.




Assista ao trailer:




sexta-feira, 20 de maio de 2011

Melhores cenas de despedida do cinema - Parte 1

Talvez esse post pudesse ser chamado de Melhores cenas de partidas ou de separação, uma vez que a palavra "despedida" traz um sentimento de aceitação do adeus que nem sempre é verdadeira. O adeus, muitas vezes, é forçado pelas circunstâncias e incompreendido pelas partes que se separam e, muitas vezes, não é verbalizado formalmente: ele pode estar no olhar ou na simples partida. O cinema já nos presenteou com diversas cenas de separação e, como não poderia deixar de ser, resolvi fazer uma das minhas infamadas listas com algumas das cenas que eu amo. 

Gosto de um poema de Elizabeth Bishop (que conheci coincidentemente em um filme, "Em seu Lugar") que fala da arte de perder, e que, para mim, revela um pouco o que é se separar de alguém. A tristeza e melancolia se encontram revestidas pela aceitação da perda, leia: 

Uma Arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério. 

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério. 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério. 

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. 

Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. 

Do mais atual para o mais antigo, temos:


1 - Toy Story 3 - 2010

A despedida de Andy e de seus brinquedos
Toy Story 3 tem pelo menos duas cenas que são extremamente marcantes para mim. A primeira é a aquela em que os brinquedos enfrentam a morte/destruição face a uma incineradora. A outra é esta maravilhosa cena final, em que Andy deve se despedir de seus brinquedos, doando-os a uma menininha, em um lindo ato de solidariedade. É uma cena que representa também a despedida da infância, o fim de uma fase e o início de uma outra etapa na vida do personagem.


2 - Encontros e desenconcontros (Lost in translation) - 2003

O que Bill Murray falou a Scarlett Johansson na hora da despedida?

Encontros e desencontros fala de duas "solidões" que se encontram no Japão. Deste encontro, nasce um sentimento muito forte. Sofia Coppola, em um lance de mestre, nos priva das últimas palavras que Bob (Murray) cochicha no ouvido de Charlotte (Johansson). Daí a ambiguidade da despedida, nunca saberemos se do cochicho saiu uma promessa de reencontro. A música "Just like Honey" ainda deixa a cena mais mais bonita.



3 - Central do Brasil - 1998

Isadora (Fernanda Montenegro) e Josué (Vinícius de Oliveira)

A cena da separação de Isadora e Josué, neste belo filme de Walter Salles, é um dos momentos mais tocantes do nosso cinema. Ao longo deste road movie, vemos a construção da relação dos dois personagens. A separação deles é emocionante para o espectador que se deixa apaixonar pela história de dois indivíduos unidos pelo acaso. 



4 - As pontes de Madison (The Bridges of Madison Count) - 1995 

Meryl Streep e sua dúvida: "Vou com Clint Eastwood ou fico com meu marido?"
Uma das maiores cenas de dúvida do cinema. Francesca (Streep) deve tomar em poucos minutos uma decisão que vai mudar o resto da sua vida: ou ela permanece em sua cidadezinha com seu marido, ou ela parte com o fotógrafo Robert (Clint Eastwood) com quem teve um breve e intenso caso de amor. A cena é magistralmente escrita e se passa em um carro, enquanto chove. A dramaticidade deste momento encontra-se na urgência da decisão e no medo do arrenpendimento. A atuação de Streep contribui para que essa seja uma cena de despedida inesquecível.




5 - E.T. - O extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestria) - 1982 

O abraço de despedida entre o E.T. e Elliott






Após sua experiência na Terra com Elliott e sua irmãzinha, E.T. deve voltar a seu planeta. Ao som da maravilhosa trilha sonora de John Williams, acompanhamos a despedida desses melhores amigos. Enfim, esta clássica cena  dispensa comentários! 


 6 - Pollyanna - 1960


A estrela-mirim Hayley Mills
A versão cinematográfica de 1960, do livro homônimo de grande sucesso, não é  lembrada hoje em dia. A história açucarada da menina alegre, que sempre procurava ver o lado bom das coisas, foi transposto neste filme fofo da Disney.  Ao final da história, Pollyanna sofre um acidente e perde a capacidade de andar. Toda a cidade vem, então, a sua casa para mostrar solidariedade e se despedir da menina que será levada para um hospital, para o seu tratamento. Uma cena emocionante, digna de boas lágrimas. 


7 - Casablanca - 1942



Bogart e Bergmam
Talvez esta seja a cena mais romântica do cinema e uma das mais belas despedidas. Rick Blaine (Humphrey Bogart), abnegado, pede para Ilsa (Ingrid Bergman) partir com seu marido, grande herói da resistência nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, para quem ela pode dar o apoio necessário na luta contra o nazismo. E para completar a magia da cena (neste filme recheado de grandes frases), Rick diz: "Sempre teremos Paris". 


8 -  As vinhas da ira (The grapes of wrath) - 1940


Jane Darwell e Henry Fonda - despedida de mãe e filho

Baseado na clássica obra homônima do escritor americano John Steinbeck, este filme de John Ford é um poderoso retrato dos Estados Unidos na época da grande depressão.  Ao final do filme, Tom Joad (Fonda), o protagonista, decide se engajar na luta pelos direitos sociais. Ele, que já é um ex-condenado, deve então viver como um fora-da-lei e, para a segurança da sua família, deve abandoná-la. A cena em que ele se despede da sua mãe, interpretada por Jane Darwell, é maravilhosa e o pequeno monólogo do personagem é belíssimo. 




9 - E o vento levou... (Gone with the wind) - 1939


Scarlett e Rett: uma despedida com gosto de "pé na bunda"
O filme mais famoso de todos os tempos, também tem uma das melhores cenas de despedida. Rett Butler (Clark Gable) cansado da temperamental Scarlett (Vivien Leigh), resolve pôr um fim no relacionamento dos dois, justo no momento em que ela descobre que o ama. Toda a cena é fantástica, pois Scarlett acostumada a conseguir tudo o que quer, implora para ele ficar de todas as maneiras possíveis, até ouvir a frase: "Frankly my dear, I d'ont give a damn!". Alguns ficam com pena da grande (anti)heroína, outros acham que Rett aguentou até demais. Por fim, algo é certo: esta é a maior separação do cinema, apesar de Scarlett jurar que vai reconquistá-lo. 





Veja as outras listas do Clube do Filme:


 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/03/declaracoes-de-amor-no-cinema-2.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/03/cenas-que-eu-amo-melhores-choros-do.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/02/cenas-que-eu-amo-dancas-no-cinema-1.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/02/frases-do-cinema-declaracoes-de-amor.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/02/os-melhores-insultos-do-cinema-1.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/01/cenas-que-eu-amo-musicas-em-filmes-1.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/01/cenas-que-eu-amo-musicas-em-filmes-2.html

http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/03/os-melhores-beijos-do-cinema-parte-1.html


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ligações perigosas - 1988

John Malkovich como o sedutor Visconde de Valmont
O romance epistolar, As ligações perigosas, foi adaptado para o cinema e para a televisão por diversas vezes. Escrito pelo francês Choderlos de Laclos e publicado em 1782, esta obra é um clássico da literatura mundial e um grande tratado sobre a libertinagem. Das adaptações cinematográficas mais conhecidas, temos Valmont (1989), dirigido por Milos Forman; a versão teen, Segundas Intenções (1999); e, o mais famoso, Ligações Perigosas (1988), dirigido por Stephen Frears.

Um dos responsáveis pelo sucesso da versão de 1988 é Christopher Hampton, autor do roteiro do filme que, por sua vez, é uma adaptação da peça que ele havia escrito para a Broadway, baseada no romance de Laclos.Temos aí um interessante caso de romance que virou peça, que virou filme. Hampton teve a difícil tarefa de transformar uma narração epistolar em uma peça de teatro. Obviamente muito do que é narrado no romance original teve que ser transformado em ação e diálogo. Muito se perdeu, é verdade, afinal parte do charme do romance é a maravilhosa écriture das cartas. Hampton, no entanto, cumpre sua tarefa com muito êxito, pois o filme consegue ter uma grande força dramática e diálogos irresistíveis.

Ligações perigosas preserva uma linguagem bem teatral, o que pode ser encarado como um defeito em determinadas adaptações, mas que, neste caso, revela-se extremamente apropriado, uma vez que seus protagonistas são verdadeiros atores, performers da dissimulação. E afinal, o que é a Marquesa de Merteuil senão uma grande diretora/manipuladora de uma comédia perversa e pervertida? A metáfora do teatro é, portanto, mais do que adequada, pois vemos retratado um grupo de pessoas que sobrevivem em sociedade através da encenação.Não é de se estranhar que um dos personagens se retire da história dizendo: "Feche as cortinas".

Ligações Perigosas conta a história de dois libertinos aristocratas do século XVIII que se divertem através de suas conquistas e de seus affaires ilícitos. A Marquesa de Merteuil (Glenn Close) e o Visconde de Valmont (John Malkovich), os protagonistas desta história, não respeitam nem a moral, nem os bons costumes. De certa forma, eles se consideram acima de tudo isso e menosprezam a maioria das pessoas que os cercam. Apesar de passarem por cima dos valores da sociedade em que vivem, eles devem agir com toda cautela e dissimulação para que não sejam descobertos. A Marquesa de Merteuil, como ela mesma se define na carta 81 do romance e em cena do filme, é uma virtuosa na arte da libertinagem. Ela se "autofabricou" para ser um gênio na arte de enganar e superou todos os limites que sua condição de mulher poderia lhe impor. Personagem maquiavélica, ela encontra em Valmont um par perfeito para suas aventuras. Para vingar-se de um antigo amante, ela propõe ao Visconde de seduzir a futura noiva dele. Valmont, por sua vez, interessa-se em conquistar uma mulher casada e religiosa, Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer).

Grande parte do charme desta produção encontra-se na performance de seus atores principais. Glenn Close tem um desempenho notável ao retratar a Marquesa de Merteuil como uma mulher extremamente inteligente, manipuladora, dissimulada, vingativa e fria. Nada em sua composição é over. É interessante observar como, através do olhar, a atriz consegue personificar uma mulher que está sempre a um passo a frente de todos, que tem tudo calculado. Já John Malkovich, exibe um sarcasmo e uma ironia únicos, em um personagem cujo sorriso é quase um assédio sexual. Seus trejeitos femininos contrastam com sua a virilidade, sua dicção revela um homem que saboreia cada palavra e cada mentira que diz. No meio de toda dissimulação, surge a doce Michelle Pfeiffer, a vítima, em uma performance trágica e sensível. Temos ainda o prazer de ver o talento da então muito jovem Uma Thurman e o desprazer de ver Keanu Reeves, que até hoje não aprendeu a atuar (quem sabe um dia). 

É importante salientar a função dos espelhos no filme. Podemos ver, por diversas vezes, seus protagonistas, principalmente a Marquesa, se olhando no espelho. Isso revela a princípio a extrema vaidade dos personagens, mas simboliza mais do que isso. O espelho funciona também como uma duplicação dos personagens, ou seja, quando eles se olham no espelho, eles parecem refletir sobre a própria dualidade: o que eles são e o que eles fingem ser. A imagem refletida no espelho pode também simbolizar um julgamento de suas ações, um olhar exterior sobre si mesmos.

Ligações perigosas é uma adaptação bem-sucedida do grande romance francês do século XVIII. Das que eu tive o prazer de conferi, a melhor. Novas e diferentes adaptações, no entanto, são possíveis e, com certeza, a obra de Laclos é interessante o suficiente para instigar novos diretores e novos olhares. 

Trailer do filme: 

domingo, 15 de maio de 2011

A época da inocência - 1993

Michelle Pfeiffer e Daniel Day-Lewis
A bela cena do farol...


Scorsese disse certa vez que este era o seu filme mais violento. O diretor de Taxi Driver (1976), Os bons companheiros (1990) e Touro Indomável (1980), com certeza, não se referia a violência física, muito bem representada nesses três grandes filmes, mas sim a uma violência provavelmente mais terrível: a do amor que não pode se realizar. Coincidentemente, acabo de ler A Princesa de Clèves romance francês do final do século XVII, que conta também uma história de um amor irrealizável. A ambientação da aristocracia francesa, da corte, com suas convenções e seus vícios estão de certa forma transpostas na história de A época da inocência, filme adaptado do romance de Edith Warton. Com certeza, o clássico francês de Madame de LaFayette foi de grande inspiração para o romance de Warton, escritora americana bem mais contemporânea, morta em 1937. Apesar de se passarem em épocas e lugares diferentes, A Princesa de Clèves e A época da inocência parecem opor a virtude à realização amorosa. Suas protagonistas carregam em si um enorme senso de dignidade e moral, que as impedem de se entregarem ao amor.

Encanta-me a forma com a qual Scorsese consegue transitar maravilhosamente em diversos gêneros diferentes. Talvez consigamos encontrar um denominador comum em suas diferentes obras: o bem x o mal ou, talvez, o bem e o mal (sem nunca cair no maniqueísmo). A época da inocência é demesuradamente poético e romântico. Em cada cena e em cada tomada, vemos o cuidado do diretor em contar uma história muito íntima de amor. Tudo ocorre em seu tempo e com um tempo diferente. Na cena em que Daniel Day-Lewis fecha os olhos profundamente, só por estar na presença da mulher que ele ama, podemos sentir o aperto no coração do personagem, o tempo parece parar. Scorsese consegue filmar esse aperto no coração, transformá-lo, através da imagem, em algo que nós, espectadores, possamos sentir. Este é apenas um exemplo da maestria do diretor. Através de seus lindos planos seqüência e das sobreposições de imagens, ele nos guia e nos faz descobrir um mundo cheio de preconceitos, vaidades, fofocas e luxo; um mundo que proíbe a liberdade e o amor em nome do "Nome".  

O filme se passa no século XIX em Nova York, onde uma "aristocracia" americana parece imitar as convenções das cortes européias. Newland Archer (Day-Lewis), advogado, de uma família tradicional e abastada, é noivo de May Welland (Winona Ryder). A ovelha negra da família Welland é a Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), uma mulher que abandonou o marido na Europa e que chega a Nova York para recomeçar sua vida.  Mal vista pela grande sociedade, ela encontra em Archer um grande apoio e os dois se apaixonam.

A primeira cena do filme consegue resumir metaforicamente todo o enredo do mesmo. Antes, os lindos créditos iniciais mostram uma sequência de flores se desabrochando; a flor é um elemento muito importante no filme, símbolo da feminilidade e da conquista. Nesta primeira cena, também seguimos a flor, primeiro na mão da atriz, depois no paletó de Archer e por fim no colo e no cabelo de May. Em uma sala de ópera, vemos toda a aristocracia nova-iorquina reunida. Os homens com seus binóculos observam as mulheres, como insetos em busca da flor mais colorida. Existe uma circulação de binóculos entre os personagens presentes, o único que não o utiliza é Archer (o inseto que, em tese, já achou sua flor, sua noiva). Surgem então as primas, May e Condessa, esta com um vestido azul brilhante que se destaca. Ela é a flor mais colorida, sobre quem os olhares se depositam. A condessa também tem seu par de binóculos, mas ela os deixa sobre o balcão. Ela é uma mulher que também já foi inseto, ou seja, também já teve a atitude tipicamente masculina (na época) de olhar e não somente ser olhada, ela largou o marido e teve seus affaires. Ao voltar para os Estados Unidos, ela pretende ser flor de novo. Quando Archer vai falar com sua noiva, a princípio ele só tem olhos para ela, mas logo depois ele muda de flor, senta-se ao lado da Condessa, a flor mais atraente, por quem ele se apaixonará.

O triângulo amoroso é interpretado com uma grande delicadeza por Day-Lewis, Pfeiffer e Ryder. Day-Lewis está presente em quase todas as cenas do filme, seu personagem é aquele com o qual nos identificamos. Seu drama, seu sofrimento, suas pulsões são extremamente violentos (daí a declaração de Scorsese). A interpretação deste ator é maravilhosa, tocante, minuciosa, bela em cada detalhe. Sua química com Michelle Pfiffer contribui ainda mais para que acreditemos na história de amor de seus personagens. Além disso, Pfeiffer é sempre apaixonante.

A época da inocência conta ainda com uma trilha sonora fantasticamente romântica, criada por Elmer Bernstein. A fotografia do filme é linda; por vezes parece que estamos diante de quadros (não por acaso, já que outro elemento muito importante no filme é a pintura). Enfim, um filme deliciosamente romântico e magistralmente dirigido. 


Trailer do filme: 

sábado, 7 de maio de 2011

Nascido para matar - 1987

R. Lee Remey, como Sargento Hartman.


Stanley Kubrick é um dos grandes gênios da história do cinema. Perfeccionista e controlador ao extremo, o diretor gostava de ter sob seu comando todos os aspectos de suas produções. Sua filosofia de trabalho, no entanto, deu muito certo. Ele é responsável por, no mínimo, 5 obras primas: Glória feita de sangue (1957), Laranja mecânica (1971), Dr. Fantástico (1964), 2001 - Uma odiséia no espaço (1968) e O iluminado (1980). Em seu currículo, ainda constam outros grandes filmes como Spartacus (1960), Barry Lindon (1975), De olhos bem fechados (1999) e este Nascido para matar (1987). É interessante observar que este diretor tão brilhante nunca tenha sido unanimidade. Ele foi alvo de duras críticas: pela violência em Laranja Mecânica, pelo erotismo em Lolita, pelo humor negro em Dr. Fantástico, entre outras. Na filmografia de Kubrick, o tema da guerra ocupa um lugar privilegiado. Glória feita de sangue se passa durante a Primeira Guerra Mundial, Dr. Fantástico, durante a Segunda Guerra e Nascido para matar, durante a Guerra do Vietnã.  

Fortemente inserida no contexto da Guerra Fria, a Guerra do Vietnam opunha basicamente o comunismo e o capitalismo. Ela começou como um conflito entre as duas partes do país: o norte comunista e o sul nacionalista. A intervenção massiva dos Estados Unidos, fez com que a guerra tomasse dimensões catastróficas, causando grandes perdas humanas e uma grande insatisfação do povo estadunidense.  A guerra se prolongou de 1959 a 1975 e representou a primeira derrota militar dos Estados Unidos. Nascido para matar, baseado no romance de Gustav Hasford, foi ofuscado, na época do seu lançamento, pelo grande sucesso de Platoon, de Oliver Stone. Platoon também tem como tema a guerra do Vietnam e ganhou 4 Oscars, inclusive de Melhor Filme e de Melhor Diretor. Apesar de Platoon ser mais conhecido, ainda hoje, muitos especialistas consideram Nascido para matar melhor que o filme de Stone. No entanto, há uma diferença muito grande no tom dos dois filmes. Se o filme de Stone se concentra na ação e no drama, o filme de Kubrick dispõe de um humor e uma crítica absolutamente ácidos.

Nascido para matar (Full Metal Jacket em inglês, mome de uma munição) conta a história de um grupo de rapazes que, após se alistarem no exército, passam por um duro treinamento e são enviados para o Vietnam. O filme pode ser dividido em duas partes: os primeiros 45 minutos mostram o treinamento/tortura dos soldados e o restante da produção mostra a ação no Vietnam. Sem créditos iniciais, o filme já nos lança , em sua primeira cena, à raspagem dos cabelos dos jovens que acompanharemos na continuação do filme. Esta cena é acompanhada de uma música country cujo refrão diz "Adeus querida, olá Vietnam!". Kubrick joga com os estereótipos, com a ironia e o humor o tempo todo. Ao mesmo tempo em que a cena de abertura é agressiva, também é patética.

A cena que se segue é antológica. Vemos a apresentação do sargento de artilharia Hartman, responsável pelo treinamento dos recrutas. R. Lee Remey, o ator que interpreta o personagem, não era a opção inicial do diretor para o papel. Na verdade, ele foi contratado como um conselheiro da produção, devido a sua experiência na guerra. No entanto, Kubrick ficou impressionado com o ator que personificava como ninguém o ameaçador sargento. Dizem que o próprio Remey pediu o papel e, ao ouvir um não de Kubrick, pediu que o diretor mudasse a postura ao falar com ele e Kubrick instintivamente obedeceu ao comando, o que fez com que Remey ganhasse o papel. Ao assistir o filme, é impossível pensar em alguém mais adequado para interpretar o sargento. Apesar de ameaçador e desprezível,  Hartman tem tiradas hilárias. Remey, na cena de apresentação citada anteriormente, improvisou grande parte das falas, algo quase impensável em um filme de Kubrick. Leia algumas delas:

"Sou severo, mas justo. Não há discriminação racial aqui. Não desprezo crioulos, judeus, carcamanos ou cucarachas. Aqui são todos igualmente inúteis."

"Admiro sua honestidade. Gosto de você, pode até comer a minha irmã."

- Qual a sua altura, soldado?
- 1, 75 m, senhor!
- Não sabiam que empilhavam merda tão alto. 

"Você é tão feio que parece uma obra-prima de arte moderna."

E a mais famosa: 

"Aposto que você é do tipo que come o rabo de alguém e nem tem a decência de oferecer o próprio." 

Essas são apenas algumas de suas pérolas. E detalhe: o ator raramente pisca. Outra grande atração da primeira parte do filme é o ator Vincent D'Onofrio, que interpreta Pyle, um soldado que não consegue se adaptar a rotina do treinamento e às exigências do sargento Hartman. Pyle é o único dos recrutas que parece achar graça das tiradas de Hartman na cena de apresentação, ele mal consegue segurar o riso. De certa forma, nos identificamos a ele, porque também acabamos achando graça dos absurdos ditos pelo sargento. No entanto, ele é severamente punido e se torna o alvo preferido do sargento. O ator, em sua fantástica interpretação (o olhar dele é de arrepiar), nos mostra Pyle como um sujeito, inicialmente inofensivo e bobo, talvez com algum tipo de distúrbio psicológico, mas que, por causa das diversas agressões e humilhações, se desumaniza, se transformando em um tipo de monstro/máquina. Kubrick ilustra muito bem a mecanização dos soldados através dos comportamentos repetitivos dos mesmos, dos exercícios, dos hinos decorados. A repetição também está presente no estilo do filme: muitas figuras narrativas são repetidas constantemente, como o travelling e o fondu enchainé.

Em Nascido para matar, o trágico e o cômico são duas faces da mesma moeda. O humor está presente nos hinos dos soldados, nas tiradas de Hartman e do protagonista, o Soldado Joker (em português piadista). O termo Joker joga também com outro significado, a carta de baralho, o curinga, que, em certos jogos, muda de valor conforme a combinação de cartas que o jogador tem em mãos. O soldado Joker é realmente o curinga no filme, pois ele se revela indecifrável, suas atitudes parecem se contradizerem. Ele é corajoso, mas servil a Hartman; ele auxilia Pyle, mas depois ajuda a espancá-lo; ele se alista para ser jornalista de guerra, mas quer ir para o campo combater; por fim ele tem um broche que simboliza paz e ,em seu capacete, está escrito “nascido para matar”. Joker (interpretado por Matthew Modine), aparentemente inteligente e sagaz, mostra ser, no fundo, um rapaz perdido, representando talvez toda uma geração. 

A segunda parte do filme focaliza o cotidiano dos soldados no Vietnam. O absurdo da guerra é mostrado de perto. Kubrick revela que os soldados não têm a mínima consciência do que estão fazendo. Eles esbravejam contra o comunismo, mas ao que parece, não fazem idéia do motivo que os levam a matar e a destruir. Dessa forma, Kubrick mostra a burrice da guerra. Adotando em alguns momentos o tom de documentário, o filme alterna as cenas de ação, com momentos de "reflexão" dos próprios soldados.

Eficiente em todos os aspectos, Nascido para matar, é um dos filmes de guerra mais inteligentes e interessantes de todos os tempos, uma grande e ácida crítica contra a indústria bélica.

Trailer do filme:

domingo, 1 de maio de 2011

Se meu apartamento falasse - 1960

Jack Lemmon e Shirley MacLaine


Se meu apartamento falasse, clássico de 1960, aparece em diversas listas de cinema como um dos melhores filmes de comédia de todos os tempos. Ele poderia também aparecer na lista de melhor romance, de melhor drama e de melhor filme da história do cinema! Esta jóia do cinema americano, dirigida e escrita por Billy Wilder, me comove todas as vezes que a assisto.

Billy Wilder é, sem dúvida, um dos maiores ícones do cinema, tendo feito a melhor comédia de todos os tempos, Quanto mais quente melhor, e um dos maiores filmes sobre o cinema, Crepúsculo dos Deuses. Wilder transitava maravilhosamente bem entre a comédia e o drama e, em Se meu apartamento falasse, ele dá todas as provas de sua maestria. O filme conta a história de C.C. Baxter (Jack Lemmon), um funcionário de uma grande empresa de seguro, que, visando uma promoção em seu trabalho, adquire o hábito de emprestar seu apartamento para vários de seus superiores e as respectivas amantes deles. A situação vai aos poucos saindo dos limites, quando Baxter já não consegue mais dizer não para seus colegas. Para complicar, Baxter é apaixonado por Fran Kubelik (Shirley MacLaine), ascensorista do prédio onde trabalha. Ela, no entanto, tem um caso com o diretor da companhia, que também pedirá o apartamento emprestado. 

De início, tem que se louvar a interpretação sensibilíssima de Lemmon, grande ator cômico, que, neste filme, é a pura descrição do amor, da doçura e da solidão. O ator, que em sua carreira encarnou, por diversas, vezes o tipo azarado, que sempre se dá mal, dá uma profundidade a mais ao desastrado Baxter. O olhar de Lemmon, quando ele recebe injustamente um soco, é algo que não consigo esquecer. Mas não é só Lemmon que nos corta o coração. Shirley MacLaine talvez tenha, neste filme, o melhor papel de sua carreira. Ela interpreta Fran, uma jovem simples, honesta, doce, que se apaixona por um homem casado (interpretado pelo galã Fred MacMurray). MacLaine consegue fazer com que não julguemos a personagem. Fran ama verdadeiramente o cafajeste, mesmo sabendo que está sendo iludida. Ela percebe o interesse de Baxter e é tocante ouvi-la dizendo que seria muito melhor que ela se apaixonasse por uma pessoa como ele, mas que ela sempre se envolve com a pessoa errada. É incrível o quanto que Lemmon e MacLaine conseguem construir dois personagens adoráveis e humanos. 

O apartamento em si é um personagem no filme, devido a sua extrema importância no enredo. Billy Wilder o apresenta como um lugar extremamente acolhedor e ao mesmo tempo triste, afinal ele abriga uma grande solidão, a de Baxter. Como o personagem mesmo diz em uma cena do filme: ele não tem "garota", nem família, ninguém. Wilder não deixa de acentuar a ironia presente no fato de que apesar de o apartamento ser um lugar de encontros quentes e cheios de vida, seu dono está sempre só e cansado. 

Uma grande marca do diretor é conseguir tirar humor de situações trágicas, o que faz com que o filme tenha momentos muito divertidos. O filme ainda critica sutilmente a exploração do homem pelo homem, os jogos de interesse e o processo de destruição da dignidade alheia que ocorre nas empresas. Ele também não deixa de opor os relacionamentos superficiais e guiados pela luxúria e pelo interesse, do sentimento puro e verdadeiro do amor, do encantamento. 

Se meu apartamento falasse conta com cenas magistrais, como toda a sequência após uma tentativa de suicídio (um dos melhores momentos do cinema) e a cena final: poética, sincera e verdadeira. O filme, ganhador de 5 Oscars em 1961, é uma união de um roteiro e uma direção primorosos, bela fotografia, atuações inspiradas e um certo tipo de magia que parece estar presentes nos grandes filmes. 

Trailer do filme: