sexta-feira, 20 de maio de 2011

Melhores cenas de despedida do cinema - Parte 1

Talvez esse post pudesse ser chamado de Melhores cenas de partidas ou de separação, uma vez que a palavra "despedida" traz um sentimento de aceitação do adeus que nem sempre é verdadeira. O adeus, muitas vezes, é forçado pelas circunstâncias e incompreendido pelas partes que se separam e, muitas vezes, não é verbalizado formalmente: ele pode estar no olhar ou na simples partida. O cinema já nos presenteou com diversas cenas de separação e, como não poderia deixar de ser, resolvi fazer uma das minhas infamadas listas com algumas das cenas que eu amo. 

Gosto de um poema de Elizabeth Bishop (que conheci coincidentemente em um filme, "Em seu Lugar") que fala da arte de perder, e que, para mim, revela um pouco o que é se separar de alguém. A tristeza e melancolia se encontram revestidas pela aceitação da perda, leia: 

Uma Arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério. 

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério. 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério. 

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. 

Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. 

Do mais atual para o mais antigo, temos:


1 - Toy Story 3 - 2010

A despedida de Andy e de seus brinquedos
Toy Story 3 tem pelo menos duas cenas que são extremamente marcantes para mim. A primeira é a aquela em que os brinquedos enfrentam a morte/destruição face a uma incineradora. A outra é esta maravilhosa cena final, em que Andy deve se despedir de seus brinquedos, doando-os a uma menininha, em um lindo ato de solidariedade. É uma cena que representa também a despedida da infância, o fim de uma fase e o início de uma outra etapa na vida do personagem.


2 - Encontros e desenconcontros (Lost in translation) - 2003

O que Bill Murray falou a Scarlett Johansson na hora da despedida?

Encontros e desencontros fala de duas "solidões" que se encontram no Japão. Deste encontro, nasce um sentimento muito forte. Sofia Coppola, em um lance de mestre, nos priva das últimas palavras que Bob (Murray) cochicha no ouvido de Charlotte (Johansson). Daí a ambiguidade da despedida, nunca saberemos se do cochicho saiu uma promessa de reencontro. A música "Just like Honey" ainda deixa a cena mais mais bonita.



3 - Central do Brasil - 1998

Isadora (Fernanda Montenegro) e Josué (Vinícius de Oliveira)

A cena da separação de Isadora e Josué, neste belo filme de Walter Salles, é um dos momentos mais tocantes do nosso cinema. Ao longo deste road movie, vemos a construção da relação dos dois personagens. A separação deles é emocionante para o espectador que se deixa apaixonar pela história de dois indivíduos unidos pelo acaso. 



4 - As pontes de Madison (The Bridges of Madison Count) - 1995 

Meryl Streep e sua dúvida: "Vou com Clint Eastwood ou fico com meu marido?"
Uma das maiores cenas de dúvida do cinema. Francesca (Streep) deve tomar em poucos minutos uma decisão que vai mudar o resto da sua vida: ou ela permanece em sua cidadezinha com seu marido, ou ela parte com o fotógrafo Robert (Clint Eastwood) com quem teve um breve e intenso caso de amor. A cena é magistralmente escrita e se passa em um carro, enquanto chove. A dramaticidade deste momento encontra-se na urgência da decisão e no medo do arrenpendimento. A atuação de Streep contribui para que essa seja uma cena de despedida inesquecível.




5 - E.T. - O extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestria) - 1982 

O abraço de despedida entre o E.T. e Elliott






Após sua experiência na Terra com Elliott e sua irmãzinha, E.T. deve voltar a seu planeta. Ao som da maravilhosa trilha sonora de John Williams, acompanhamos a despedida desses melhores amigos. Enfim, esta clássica cena  dispensa comentários! 


 6 - Pollyanna - 1960


A estrela-mirim Hayley Mills
A versão cinematográfica de 1960, do livro homônimo de grande sucesso, não é  lembrada hoje em dia. A história açucarada da menina alegre, que sempre procurava ver o lado bom das coisas, foi transposto neste filme fofo da Disney.  Ao final da história, Pollyanna sofre um acidente e perde a capacidade de andar. Toda a cidade vem, então, a sua casa para mostrar solidariedade e se despedir da menina que será levada para um hospital, para o seu tratamento. Uma cena emocionante, digna de boas lágrimas. 


7 - Casablanca - 1942



Bogart e Bergmam
Talvez esta seja a cena mais romântica do cinema e uma das mais belas despedidas. Rick Blaine (Humphrey Bogart), abnegado, pede para Ilsa (Ingrid Bergman) partir com seu marido, grande herói da resistência nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, para quem ela pode dar o apoio necessário na luta contra o nazismo. E para completar a magia da cena (neste filme recheado de grandes frases), Rick diz: "Sempre teremos Paris". 


8 -  As vinhas da ira (The grapes of wrath) - 1940


Jane Darwell e Henry Fonda - despedida de mãe e filho

Baseado na clássica obra homônima do escritor americano John Steinbeck, este filme de John Ford é um poderoso retrato dos Estados Unidos na época da grande depressão.  Ao final do filme, Tom Joad (Fonda), o protagonista, decide se engajar na luta pelos direitos sociais. Ele, que já é um ex-condenado, deve então viver como um fora-da-lei e, para a segurança da sua família, deve abandoná-la. A cena em que ele se despede da sua mãe, interpretada por Jane Darwell, é maravilhosa e o pequeno monólogo do personagem é belíssimo. 




9 - E o vento levou... (Gone with the wind) - 1939


Scarlett e Rett: uma despedida com gosto de "pé na bunda"
O filme mais famoso de todos os tempos, também tem uma das melhores cenas de despedida. Rett Butler (Clark Gable) cansado da temperamental Scarlett (Vivien Leigh), resolve pôr um fim no relacionamento dos dois, justo no momento em que ela descobre que o ama. Toda a cena é fantástica, pois Scarlett acostumada a conseguir tudo o que quer, implora para ele ficar de todas as maneiras possíveis, até ouvir a frase: "Frankly my dear, I d'ont give a damn!". Alguns ficam com pena da grande (anti)heroína, outros acham que Rett aguentou até demais. Por fim, algo é certo: esta é a maior separação do cinema, apesar de Scarlett jurar que vai reconquistá-lo. 





Veja as outras listas do Clube do Filme:


 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/03/declaracoes-de-amor-no-cinema-2.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/03/cenas-que-eu-amo-melhores-choros-do.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/02/cenas-que-eu-amo-dancas-no-cinema-1.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/02/frases-do-cinema-declaracoes-de-amor.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/02/os-melhores-insultos-do-cinema-1.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/01/cenas-que-eu-amo-musicas-em-filmes-1.html

 http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/01/cenas-que-eu-amo-musicas-em-filmes-2.html

http://clubedofilmeleleo.blogspot.com/2011/03/os-melhores-beijos-do-cinema-parte-1.html


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ligações perigosas - 1988

John Malkovich como o sedutor Visconde de Valmont
O romance epistolar, As ligações perigosas, foi adaptado para o cinema e para a televisão por diversas vezes. Escrito pelo francês Choderlos de Laclos e publicado em 1782, esta obra é um clássico da literatura mundial e um grande tratado sobre a libertinagem. Das adaptações cinematográficas mais conhecidas, temos Valmont (1989), dirigido por Milos Forman; a versão teen, Segundas Intenções (1999); e, o mais famoso, Ligações Perigosas (1988), dirigido por Stephen Frears.

Um dos responsáveis pelo sucesso da versão de 1988 é Christopher Hampton, autor do roteiro do filme que, por sua vez, é uma adaptação da peça que ele havia escrito para a Broadway, baseada no romance de Laclos.Temos aí um interessante caso de romance que virou peça, que virou filme. Hampton teve a difícil tarefa de transformar uma narração epistolar em uma peça de teatro. Obviamente muito do que é narrado no romance original teve que ser transformado em ação e diálogo. Muito se perdeu, é verdade, afinal parte do charme do romance é a maravilhosa écriture das cartas. Hampton, no entanto, cumpre sua tarefa com muito êxito, pois o filme consegue ter uma grande força dramática e diálogos irresistíveis.

Ligações perigosas preserva uma linguagem bem teatral, o que pode ser encarado como um defeito em determinadas adaptações, mas que, neste caso, revela-se extremamente apropriado, uma vez que seus protagonistas são verdadeiros atores, performers da dissimulação. E afinal, o que é a Marquesa de Merteuil senão uma grande diretora/manipuladora de uma comédia perversa e pervertida? A metáfora do teatro é, portanto, mais do que adequada, pois vemos retratado um grupo de pessoas que sobrevivem em sociedade através da encenação.Não é de se estranhar que um dos personagens se retire da história dizendo: "Feche as cortinas".

Ligações Perigosas conta a história de dois libertinos aristocratas do século XVIII que se divertem através de suas conquistas e de seus affaires ilícitos. A Marquesa de Merteuil (Glenn Close) e o Visconde de Valmont (John Malkovich), os protagonistas desta história, não respeitam nem a moral, nem os bons costumes. De certa forma, eles se consideram acima de tudo isso e menosprezam a maioria das pessoas que os cercam. Apesar de passarem por cima dos valores da sociedade em que vivem, eles devem agir com toda cautela e dissimulação para que não sejam descobertos. A Marquesa de Merteuil, como ela mesma se define na carta 81 do romance e em cena do filme, é uma virtuosa na arte da libertinagem. Ela se "autofabricou" para ser um gênio na arte de enganar e superou todos os limites que sua condição de mulher poderia lhe impor. Personagem maquiavélica, ela encontra em Valmont um par perfeito para suas aventuras. Para vingar-se de um antigo amante, ela propõe ao Visconde de seduzir a futura noiva dele. Valmont, por sua vez, interessa-se em conquistar uma mulher casada e religiosa, Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer).

Grande parte do charme desta produção encontra-se na performance de seus atores principais. Glenn Close tem um desempenho notável ao retratar a Marquesa de Merteuil como uma mulher extremamente inteligente, manipuladora, dissimulada, vingativa e fria. Nada em sua composição é over. É interessante observar como, através do olhar, a atriz consegue personificar uma mulher que está sempre a um passo a frente de todos, que tem tudo calculado. Já John Malkovich, exibe um sarcasmo e uma ironia únicos, em um personagem cujo sorriso é quase um assédio sexual. Seus trejeitos femininos contrastam com sua a virilidade, sua dicção revela um homem que saboreia cada palavra e cada mentira que diz. No meio de toda dissimulação, surge a doce Michelle Pfeiffer, a vítima, em uma performance trágica e sensível. Temos ainda o prazer de ver o talento da então muito jovem Uma Thurman e o desprazer de ver Keanu Reeves, que até hoje não aprendeu a atuar (quem sabe um dia). 

É importante salientar a função dos espelhos no filme. Podemos ver, por diversas vezes, seus protagonistas, principalmente a Marquesa, se olhando no espelho. Isso revela a princípio a extrema vaidade dos personagens, mas simboliza mais do que isso. O espelho funciona também como uma duplicação dos personagens, ou seja, quando eles se olham no espelho, eles parecem refletir sobre a própria dualidade: o que eles são e o que eles fingem ser. A imagem refletida no espelho pode também simbolizar um julgamento de suas ações, um olhar exterior sobre si mesmos.

Ligações perigosas é uma adaptação bem-sucedida do grande romance francês do século XVIII. Das que eu tive o prazer de conferi, a melhor. Novas e diferentes adaptações, no entanto, são possíveis e, com certeza, a obra de Laclos é interessante o suficiente para instigar novos diretores e novos olhares. 

Trailer do filme: 

domingo, 15 de maio de 2011

A época da inocência - 1993

Michelle Pfeiffer e Daniel Day-Lewis
A bela cena do farol...


Scorsese disse certa vez que este era o seu filme mais violento. O diretor de Taxi Driver (1976), Os bons companheiros (1990) e Touro Indomável (1980), com certeza, não se referia a violência física, muito bem representada nesses três grandes filmes, mas sim a uma violência provavelmente mais terrível: a do amor que não pode se realizar. Coincidentemente, acabo de ler A Princesa de Clèves romance francês do final do século XVII, que conta também uma história de um amor irrealizável. A ambientação da aristocracia francesa, da corte, com suas convenções e seus vícios estão de certa forma transpostas na história de A época da inocência, filme adaptado do romance de Edith Warton. Com certeza, o clássico francês de Madame de LaFayette foi de grande inspiração para o romance de Warton, escritora americana bem mais contemporânea, morta em 1937. Apesar de se passarem em épocas e lugares diferentes, A Princesa de Clèves e A época da inocência parecem opor a virtude à realização amorosa. Suas protagonistas carregam em si um enorme senso de dignidade e moral, que as impedem de se entregarem ao amor.

Encanta-me a forma com a qual Scorsese consegue transitar maravilhosamente em diversos gêneros diferentes. Talvez consigamos encontrar um denominador comum em suas diferentes obras: o bem x o mal ou, talvez, o bem e o mal (sem nunca cair no maniqueísmo). A época da inocência é demesuradamente poético e romântico. Em cada cena e em cada tomada, vemos o cuidado do diretor em contar uma história muito íntima de amor. Tudo ocorre em seu tempo e com um tempo diferente. Na cena em que Daniel Day-Lewis fecha os olhos profundamente, só por estar na presença da mulher que ele ama, podemos sentir o aperto no coração do personagem, o tempo parece parar. Scorsese consegue filmar esse aperto no coração, transformá-lo, através da imagem, em algo que nós, espectadores, possamos sentir. Este é apenas um exemplo da maestria do diretor. Através de seus lindos planos seqüência e das sobreposições de imagens, ele nos guia e nos faz descobrir um mundo cheio de preconceitos, vaidades, fofocas e luxo; um mundo que proíbe a liberdade e o amor em nome do "Nome".  

O filme se passa no século XIX em Nova York, onde uma "aristocracia" americana parece imitar as convenções das cortes européias. Newland Archer (Day-Lewis), advogado, de uma família tradicional e abastada, é noivo de May Welland (Winona Ryder). A ovelha negra da família Welland é a Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), uma mulher que abandonou o marido na Europa e que chega a Nova York para recomeçar sua vida.  Mal vista pela grande sociedade, ela encontra em Archer um grande apoio e os dois se apaixonam.

A primeira cena do filme consegue resumir metaforicamente todo o enredo do mesmo. Antes, os lindos créditos iniciais mostram uma sequência de flores se desabrochando; a flor é um elemento muito importante no filme, símbolo da feminilidade e da conquista. Nesta primeira cena, também seguimos a flor, primeiro na mão da atriz, depois no paletó de Archer e por fim no colo e no cabelo de May. Em uma sala de ópera, vemos toda a aristocracia nova-iorquina reunida. Os homens com seus binóculos observam as mulheres, como insetos em busca da flor mais colorida. Existe uma circulação de binóculos entre os personagens presentes, o único que não o utiliza é Archer (o inseto que, em tese, já achou sua flor, sua noiva). Surgem então as primas, May e Condessa, esta com um vestido azul brilhante que se destaca. Ela é a flor mais colorida, sobre quem os olhares se depositam. A condessa também tem seu par de binóculos, mas ela os deixa sobre o balcão. Ela é uma mulher que também já foi inseto, ou seja, também já teve a atitude tipicamente masculina (na época) de olhar e não somente ser olhada, ela largou o marido e teve seus affaires. Ao voltar para os Estados Unidos, ela pretende ser flor de novo. Quando Archer vai falar com sua noiva, a princípio ele só tem olhos para ela, mas logo depois ele muda de flor, senta-se ao lado da Condessa, a flor mais atraente, por quem ele se apaixonará.

O triângulo amoroso é interpretado com uma grande delicadeza por Day-Lewis, Pfeiffer e Ryder. Day-Lewis está presente em quase todas as cenas do filme, seu personagem é aquele com o qual nos identificamos. Seu drama, seu sofrimento, suas pulsões são extremamente violentos (daí a declaração de Scorsese). A interpretação deste ator é maravilhosa, tocante, minuciosa, bela em cada detalhe. Sua química com Michelle Pfiffer contribui ainda mais para que acreditemos na história de amor de seus personagens. Além disso, Pfeiffer é sempre apaixonante.

A época da inocência conta ainda com uma trilha sonora fantasticamente romântica, criada por Elmer Bernstein. A fotografia do filme é linda; por vezes parece que estamos diante de quadros (não por acaso, já que outro elemento muito importante no filme é a pintura). Enfim, um filme deliciosamente romântico e magistralmente dirigido. 


Trailer do filme: 

sábado, 7 de maio de 2011

Nascido para matar - 1987

R. Lee Remey, como Sargento Hartman.


Stanley Kubrick é um dos grandes gênios da história do cinema. Perfeccionista e controlador ao extremo, o diretor gostava de ter sob seu comando todos os aspectos de suas produções. Sua filosofia de trabalho, no entanto, deu muito certo. Ele é responsável por, no mínimo, 5 obras primas: Glória feita de sangue (1957), Laranja mecânica (1971), Dr. Fantástico (1964), 2001 - Uma odiséia no espaço (1968) e O iluminado (1980). Em seu currículo, ainda constam outros grandes filmes como Spartacus (1960), Barry Lindon (1975), De olhos bem fechados (1999) e este Nascido para matar (1987). É interessante observar que este diretor tão brilhante nunca tenha sido unanimidade. Ele foi alvo de duras críticas: pela violência em Laranja Mecânica, pelo erotismo em Lolita, pelo humor negro em Dr. Fantástico, entre outras. Na filmografia de Kubrick, o tema da guerra ocupa um lugar privilegiado. Glória feita de sangue se passa durante a Primeira Guerra Mundial, Dr. Fantástico, durante a Segunda Guerra e Nascido para matar, durante a Guerra do Vietnã.  

Fortemente inserida no contexto da Guerra Fria, a Guerra do Vietnam opunha basicamente o comunismo e o capitalismo. Ela começou como um conflito entre as duas partes do país: o norte comunista e o sul nacionalista. A intervenção massiva dos Estados Unidos, fez com que a guerra tomasse dimensões catastróficas, causando grandes perdas humanas e uma grande insatisfação do povo estadunidense.  A guerra se prolongou de 1959 a 1975 e representou a primeira derrota militar dos Estados Unidos. Nascido para matar, baseado no romance de Gustav Hasford, foi ofuscado, na época do seu lançamento, pelo grande sucesso de Platoon, de Oliver Stone. Platoon também tem como tema a guerra do Vietnam e ganhou 4 Oscars, inclusive de Melhor Filme e de Melhor Diretor. Apesar de Platoon ser mais conhecido, ainda hoje, muitos especialistas consideram Nascido para matar melhor que o filme de Stone. No entanto, há uma diferença muito grande no tom dos dois filmes. Se o filme de Stone se concentra na ação e no drama, o filme de Kubrick dispõe de um humor e uma crítica absolutamente ácidos.

Nascido para matar (Full Metal Jacket em inglês, mome de uma munição) conta a história de um grupo de rapazes que, após se alistarem no exército, passam por um duro treinamento e são enviados para o Vietnam. O filme pode ser dividido em duas partes: os primeiros 45 minutos mostram o treinamento/tortura dos soldados e o restante da produção mostra a ação no Vietnam. Sem créditos iniciais, o filme já nos lança , em sua primeira cena, à raspagem dos cabelos dos jovens que acompanharemos na continuação do filme. Esta cena é acompanhada de uma música country cujo refrão diz "Adeus querida, olá Vietnam!". Kubrick joga com os estereótipos, com a ironia e o humor o tempo todo. Ao mesmo tempo em que a cena de abertura é agressiva, também é patética.

A cena que se segue é antológica. Vemos a apresentação do sargento de artilharia Hartman, responsável pelo treinamento dos recrutas. R. Lee Remey, o ator que interpreta o personagem, não era a opção inicial do diretor para o papel. Na verdade, ele foi contratado como um conselheiro da produção, devido a sua experiência na guerra. No entanto, Kubrick ficou impressionado com o ator que personificava como ninguém o ameaçador sargento. Dizem que o próprio Remey pediu o papel e, ao ouvir um não de Kubrick, pediu que o diretor mudasse a postura ao falar com ele e Kubrick instintivamente obedeceu ao comando, o que fez com que Remey ganhasse o papel. Ao assistir o filme, é impossível pensar em alguém mais adequado para interpretar o sargento. Apesar de ameaçador e desprezível,  Hartman tem tiradas hilárias. Remey, na cena de apresentação citada anteriormente, improvisou grande parte das falas, algo quase impensável em um filme de Kubrick. Leia algumas delas:

"Sou severo, mas justo. Não há discriminação racial aqui. Não desprezo crioulos, judeus, carcamanos ou cucarachas. Aqui são todos igualmente inúteis."

"Admiro sua honestidade. Gosto de você, pode até comer a minha irmã."

- Qual a sua altura, soldado?
- 1, 75 m, senhor!
- Não sabiam que empilhavam merda tão alto. 

"Você é tão feio que parece uma obra-prima de arte moderna."

E a mais famosa: 

"Aposto que você é do tipo que come o rabo de alguém e nem tem a decência de oferecer o próprio." 

Essas são apenas algumas de suas pérolas. E detalhe: o ator raramente pisca. Outra grande atração da primeira parte do filme é o ator Vincent D'Onofrio, que interpreta Pyle, um soldado que não consegue se adaptar a rotina do treinamento e às exigências do sargento Hartman. Pyle é o único dos recrutas que parece achar graça das tiradas de Hartman na cena de apresentação, ele mal consegue segurar o riso. De certa forma, nos identificamos a ele, porque também acabamos achando graça dos absurdos ditos pelo sargento. No entanto, ele é severamente punido e se torna o alvo preferido do sargento. O ator, em sua fantástica interpretação (o olhar dele é de arrepiar), nos mostra Pyle como um sujeito, inicialmente inofensivo e bobo, talvez com algum tipo de distúrbio psicológico, mas que, por causa das diversas agressões e humilhações, se desumaniza, se transformando em um tipo de monstro/máquina. Kubrick ilustra muito bem a mecanização dos soldados através dos comportamentos repetitivos dos mesmos, dos exercícios, dos hinos decorados. A repetição também está presente no estilo do filme: muitas figuras narrativas são repetidas constantemente, como o travelling e o fondu enchainé.

Em Nascido para matar, o trágico e o cômico são duas faces da mesma moeda. O humor está presente nos hinos dos soldados, nas tiradas de Hartman e do protagonista, o Soldado Joker (em português piadista). O termo Joker joga também com outro significado, a carta de baralho, o curinga, que, em certos jogos, muda de valor conforme a combinação de cartas que o jogador tem em mãos. O soldado Joker é realmente o curinga no filme, pois ele se revela indecifrável, suas atitudes parecem se contradizerem. Ele é corajoso, mas servil a Hartman; ele auxilia Pyle, mas depois ajuda a espancá-lo; ele se alista para ser jornalista de guerra, mas quer ir para o campo combater; por fim ele tem um broche que simboliza paz e ,em seu capacete, está escrito “nascido para matar”. Joker (interpretado por Matthew Modine), aparentemente inteligente e sagaz, mostra ser, no fundo, um rapaz perdido, representando talvez toda uma geração. 

A segunda parte do filme focaliza o cotidiano dos soldados no Vietnam. O absurdo da guerra é mostrado de perto. Kubrick revela que os soldados não têm a mínima consciência do que estão fazendo. Eles esbravejam contra o comunismo, mas ao que parece, não fazem idéia do motivo que os levam a matar e a destruir. Dessa forma, Kubrick mostra a burrice da guerra. Adotando em alguns momentos o tom de documentário, o filme alterna as cenas de ação, com momentos de "reflexão" dos próprios soldados.

Eficiente em todos os aspectos, Nascido para matar, é um dos filmes de guerra mais inteligentes e interessantes de todos os tempos, uma grande e ácida crítica contra a indústria bélica.

Trailer do filme:

domingo, 1 de maio de 2011

Se meu apartamento falasse - 1960

Jack Lemmon e Shirley MacLaine


Se meu apartamento falasse, clássico de 1960, aparece em diversas listas de cinema como um dos melhores filmes de comédia de todos os tempos. Ele poderia também aparecer na lista de melhor romance, de melhor drama e de melhor filme da história do cinema! Esta jóia do cinema americano, dirigida e escrita por Billy Wilder, me comove todas as vezes que a assisto.

Billy Wilder é, sem dúvida, um dos maiores ícones do cinema, tendo feito a melhor comédia de todos os tempos, Quanto mais quente melhor, e um dos maiores filmes sobre o cinema, Crepúsculo dos Deuses. Wilder transitava maravilhosamente bem entre a comédia e o drama e, em Se meu apartamento falasse, ele dá todas as provas de sua maestria. O filme conta a história de C.C. Baxter (Jack Lemmon), um funcionário de uma grande empresa de seguro, que, visando uma promoção em seu trabalho, adquire o hábito de emprestar seu apartamento para vários de seus superiores e as respectivas amantes deles. A situação vai aos poucos saindo dos limites, quando Baxter já não consegue mais dizer não para seus colegas. Para complicar, Baxter é apaixonado por Fran Kubelik (Shirley MacLaine), ascensorista do prédio onde trabalha. Ela, no entanto, tem um caso com o diretor da companhia, que também pedirá o apartamento emprestado. 

De início, tem que se louvar a interpretação sensibilíssima de Lemmon, grande ator cômico, que, neste filme, é a pura descrição do amor, da doçura e da solidão. O ator, que em sua carreira encarnou, por diversas, vezes o tipo azarado, que sempre se dá mal, dá uma profundidade a mais ao desastrado Baxter. O olhar de Lemmon, quando ele recebe injustamente um soco, é algo que não consigo esquecer. Mas não é só Lemmon que nos corta o coração. Shirley MacLaine talvez tenha, neste filme, o melhor papel de sua carreira. Ela interpreta Fran, uma jovem simples, honesta, doce, que se apaixona por um homem casado (interpretado pelo galã Fred MacMurray). MacLaine consegue fazer com que não julguemos a personagem. Fran ama verdadeiramente o cafajeste, mesmo sabendo que está sendo iludida. Ela percebe o interesse de Baxter e é tocante ouvi-la dizendo que seria muito melhor que ela se apaixonasse por uma pessoa como ele, mas que ela sempre se envolve com a pessoa errada. É incrível o quanto que Lemmon e MacLaine conseguem construir dois personagens adoráveis e humanos. 

O apartamento em si é um personagem no filme, devido a sua extrema importância no enredo. Billy Wilder o apresenta como um lugar extremamente acolhedor e ao mesmo tempo triste, afinal ele abriga uma grande solidão, a de Baxter. Como o personagem mesmo diz em uma cena do filme: ele não tem "garota", nem família, ninguém. Wilder não deixa de acentuar a ironia presente no fato de que apesar de o apartamento ser um lugar de encontros quentes e cheios de vida, seu dono está sempre só e cansado. 

Uma grande marca do diretor é conseguir tirar humor de situações trágicas, o que faz com que o filme tenha momentos muito divertidos. O filme ainda critica sutilmente a exploração do homem pelo homem, os jogos de interesse e o processo de destruição da dignidade alheia que ocorre nas empresas. Ele também não deixa de opor os relacionamentos superficiais e guiados pela luxúria e pelo interesse, do sentimento puro e verdadeiro do amor, do encantamento. 

Se meu apartamento falasse conta com cenas magistrais, como toda a sequência após uma tentativa de suicídio (um dos melhores momentos do cinema) e a cena final: poética, sincera e verdadeira. O filme, ganhador de 5 Oscars em 1961, é uma união de um roteiro e uma direção primorosos, bela fotografia, atuações inspiradas e um certo tipo de magia que parece estar presentes nos grandes filmes. 

Trailer do filme:

sábado, 23 de abril de 2011

Pânico 4 - 2011




A série Pânico teve a importante função de revitalizar o gênero do terror no final dos anos 90, com uma abordagem adolescente e divertida. Wes Craven, diretor da quatrilogia e grande ícone do terror, foi também responsável pelos famosos A Hora do pesadelo e por Maldição dos mortos vivos. No entanto, nos últimos anos, o gênero do terror vem apostando cada vez mais na tortura psicológica, em cenas chocantes e na escatologia (os incontáveis Jogos Mortais e O albergue, por exemplo), algo que se difere bastante do tipo de terror feito por Craven, baseado no susto e na surpresa. 

A série acompanha as desventuras da pobre coitada da Sidney Prescott (interpretada por Neve Campbell), personagem fadada a ser perseguida em todos os filmes por um (ou mais, dependendo do filme) serial killer mascarado. Auxiliando-a com este fardo ingrato, estão o delegado Dewey (David Arquette) e a jornalista Gale (Courtney Cox). Neste novo filme, os três personagens estão de volta 10 anos depois do ataque do último assassino. Novamente na cidadezinha de Woodsboro, onde tudo começou, eles se vêem obrigados a lidar com novos assassinatos. Adolescentes da universidade local são novamente as vítimas favoritas do assassino e a sobrinha de Sidney é, aparentemente, a mocinha da vez.

Confesso que o filme despertou em mim diversas emoções, a maioria delas negativas. Não conseguia parar de pensar, por exemplo, por que Neve Campbell, uma atriz interessante, se sujeitou a fazer esse papel de novo. Ainda por cima, ela tem que escutar de uma das personagens que ela está velha. Fiquei com pena. Outra coisa irritante é o desempenho pífio da polícia no filme, uma incompetência total e absurda. O personagem de David Arquette é o perfeito banana e a atuação dele dá até dó. Já Courtney Cox vem com toda a energia, mas sua personagem é mostrada como uma bitch frustrada e invejosa. E o pior: ela tem a atitude, mas não consegue emplacar uma tirada. Os insultos trocados com outras personagens femininas da trama são bizonhos. E, por fim, a maioria dos adolescentes do filme são mostrados como seres acéfalos e idiotas, o pior deles é um que anda o tempo todo com uma mini-câmera na cabeça: Que coisa irritante!

A trama é completamente mal construída e formulaica, parece um recorte de momentos dos filmes anteriores. Os suspeitos são lançados pelo filme de maneira aleatória: chega a ser ridículo ver o namoradinho e a policial aparecerem correndo em cena após o assassinato de alguém, numa tentativa do diretor de fazer com que desconfássemos deles. Mas o pior ainda estar por vir: o filme não consegue ser assustador. Vemos uma sucessão de várias mortes mostradas de maneira pouco inspiradas e, diria, até preguiçosa. Não há a criação de suspense, é tudo muito rápido, na pura filosofia: "pronto matei!". Além do mais, o filme tem vários momentos de humor involuntário, quando vemos, por exemplo, incrédulos, uma personagem que havia sido esfaqueada na barriga se defender maravilhosamente bem no confronto com o assassino; e, na parte final, a transformação de uma personagem.

Como é de se imaginar, nenhum dos personagens é bem desenvolvido e os momentos dramáticos do filme não convencem. Por fim, a revelação do assassino é surreal e o desfecho, apesar de criativo, é patético. Pânico 4 provavelmente será um sucesso de bilheteria, mas é um mau exemplar do gênero do terror e, para mim, uma grande decepção. A boa surpresa da produção foi Hayden Panettiere, exibindo grande segurança e sensualidade em cena. O filme sempre melhorava quando ela aparecia.


domingo, 17 de abril de 2011

Filmes de terror da semana

Um dos aspectos essenciais dos filmes de terror é uma certa cumplicidade das vítimas com os seus algozes. De certa forma, o perigo é procurado pelos personagens, o que nos faz, muitas vezes, questionar: "Por que essa pessoa está fazendo isso?" No entanto, essas escolhas erradas são essenciais, sem elas o gênero não existiria... Nos 3 filmes desta semana, podemos ver esta cumplicidade em cena.

Uma noite alucinante - 1987

Bruce Campbell e a mão que é o próprio demônio


Eu me apaixonei por esta continuação de A morte do demônio. Sam Raimi, o diretor, é conhecido, atualmente, pela trilogia do Homem-Aranha. O filme conta a história de um casal que foi passar uma noite numa cabana no meio de uma floresta. Esta cabana pertencia a um arqueólogo que havia descoberto o livro dos mortos. Acidentalmente, os demônios são libertados através da leitura de passagens do livro e os tais demônios começam a perseguir os visitantes. Esta produção do final dos anos 80 é um filme de terror trash, extremamente engraçado e criativo. Os efeitos especiais e a direção de arte do filme são maravilhosos, porque o diretor não tem a mínima preocupação com a verossimilhança, nem com o realismo. Ele brinca com a arte de fazer cinema, criando tomadas maravilhosas (não me esqueço do plano subjetivo da mãozinha perseguindo alguém). O protagonista é interpretado por Bruce Campbell, que tem um talento questionável, mas um vigor fantástico. Suas caras e bocas são impagáveis. Seu personagem é perseguido de todas as formas possíveis, inclusive por uma mão e uma cabeça demoníacas. Uma noite alucinante é hilário e ainda dá para ter uns bons sustos!

Abismo do medo - 2005

Shauna Macdonald coberta de sangue em uma das melhores cenas do filme.


Este primeiro Abismo do medo conta a história de um grupo de mulheres que amam esportes radicais e resolvem desbravar uma caverna em um lugar remoto da Inglaterra. A expedição tem por objetivo reunir essas amigas e servir como recomeço para uma delas que perdeu o marido e a filha em um trágico acidente mostrado no início da trama. Na caverna, as belas mulheres passam a ser perseguidas por um bando de hominídeos mutantes das cavernas. A direção de Neil Marshall é muito eficiente, o filme garante ótimos sustos, uma trama verdadeiramente assustadora e belos momentos. O filme demora um pouco para engrenar, mas a partir do momento que as moças entram na caverna, ele nos deixa completamente angustiados até o fim. As atrizes estão muito bem, sobretudo Shauna Macdonald (a protagonista) que passa uma força tremenda a sua personagem. Não gostei tanto de Natalie Jackson Mendoza (a antagonista), um pouco artificial, mas ao final do filme ela passa a convencer e tem ótimas cenas. Abismo do medo não é uma obra-prima do gênero, mas é um ótimo filme.

Abismo do medo 2 - 2009

Novamente Shauna, em cena de luta

Abismo do medo não apresenta uma conclusão para o espectador, então essa sequência é aguardada com ansiedade para quem gostou do primeiro filme. Infelizmente, ele não é tão bem sucedido quanto seu antecessor. O enredo mostra a expedição de busca pelas garotas desaparecidas. Dirigido por outro diretor, Jon Harris, o filme constrói uma trama basicamente igual à anterior, com a mesma estrutura e o mesmo formato. O filme não consegue ser tão angustiante e assustador como o primeiro, já que o espectador já sabe mais ou menos o que vai acontecer com os novos personagens. O diretor ainda comete o erro de fazer um filme mais claro (a escuridão do filme anterior era um elemento essencial para o susto). Apesar da trama forçada, Abismo do medo 2 também tem seus bons momentos e garante alguns bons sustos. A produção conta novamente com a atriz Shauna Macdonald, em uma ótima interpretação. Já o resto do elenco é bem irregular, mas os personagens também não ajudam. O pior caso é o do delegado do filme, um personagem injustificadamente detestável. O filme também termina com um enigma, em um final nada satisfatório. Um terceiro filme seria necessário. Estou torcendo!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Deixe ela entrar - 2008

Lina Leanderson e os seus magníficos olhos

Dedicarei minhas próximas postagens a falar de filmes de terror, gênero às vezes tão subestimado e pouco levado a sério. Os filmes de terror falam dos nossos instintos mais básicos de sobrevivência, do medo e da morte. Claro que, como em todos os gêneros cinematográficos, existem exemplares que são completamente dispensáveis, muitos que se tornam risíveis e não assustadores. Mas também existem grandes filmes, como este recente Deixe ela entrar

Passei o filme inteiro me dizendo que este não ele não era um filme de terror e, sim, uma linda história de amor. Foi somente, após terminar o filme, que percebi o quão assustadora era a história que tinha acabado de ver. Se você estiver interessado em vê-lo, assista ao filme antes de ler qualquer crítica, inclusive o meu comentário abaixo. Deixe ela entrar é um filme sueco, que conta a história de Oskar, um menino de doze anos que sofre bullying cotidianamente na escola e por isso acaba reprimindo um grande desejos de violência. Um dia ele conhece uma garota da sua idade, Eli, nova vizinha em seu prédio e os dois começam uma linda amizade. O detalhe é que ela é um tipo de vampiro e, portanto, necessita de sangue humano para sobreviver. 

Deixe ela entrar é ambientado em uma cidadezinha sueca coberta de gelo e a linda fotografia do filme mostra o quão melancólica é essa claridade glacial. O branco e o vermelho são as cores do filme, representando a neve e o sangue. Ao mesmo tempo em que vemos Oskar se apaixonar por Eli e criar uma ligação forte com a garota, vemos os ataques e assassinatos que ela é obrigada a cometer pela sua sobrevivência. O cineasta, através dos seus lindos closes, mostra o quão especial é Oskar, um garoto naturalmente bom, muito solitário. Vítima de violência, ele carrega em si também uma semente de violência. Kare Hedebrant, que interpreta Oskar, tem um carisma natural e se torna fácil se identificar com o menino. 

Já Lina Leandersson, que interpreta Eli, impressiona pelo seu olhar que parece carregar uma longa vida (de fato a personagem está presa em um corpo de 12 anos, mas é muito mais velha). Existe uma tristeza em seu olhar e uma necessidade de ter alguém. No primeiro ato do filme, a vampira tem um companheiro que a auxilia a obter sangue, matando pessoas. Este velho companheiro, Hakan,  interpretado com uma sensibilidade tocante por Per Ragnar e que morre por ela no primeiro ato do filme,  pode passar como pai da garota. Ao final, compreendemos que ele era muito provavelmente um amante mortal que foi envelhecendo enquanto Eli continuava uma criança. Podemos, então, questionar até onde Eli enxerga em Oskar um servo que pode se tornar um psicopata, matando para que ela sobreviva. É assustador perceber que Oskar provavelmente será um sucessor de Hakan.

O terror do filme, no entanto, não está apenas na necessidade de sangue de Eli, mas na maldade humana personificada pelos colegas de Oskar, que apesar de serem crianças e terem noção da própria maldade, parecem impelidos a fazer o mal. No filme, Hakan e Eli matam pessoas boas e inocentes e é compreensível que um amigo de um dos assassinados busque fazer justiça ao querer matar Eli. Neste momento, Oskar a salva: o que nos faz questionar a nossa própria vontade de ver o menino ficar junto com a vampira. Queremos o romance e a felicidade desses dois personagens, mas isto provavelmente custará muitas mortes inocentes. 

Deixe ela entrar é um dos melhores filmes de vampiro já realizados. Fugindo do estereótipo e criando uma trama sensível e rica de simbologia, o filme é mais uma jóia do cinema sueco... Chamo a atenção para a direção primorosa de Tomas Alfredson e lindas cenas como a da morte de Hakan e o massacre na piscina.


Trailer do filme:

domingo, 10 de abril de 2011

Tropa de elite 2 - 2010

Wagner Moura em cena do filme


A temática do mundo do crime (sobretudo no Rio de Janeiro) é, sem dúvida, a mais explorada pelo cinema brasileiro. Seguindo este filão temos: Cidade de Deus, Tropa de Elite 1 e 2, Cidade dos homens, Carandiru, Última parada 174, Salve Geral...  Esse exagero de produções que giram sobre o crime e a violência podem ter várias explicações: existe um grande público para esse tipo de filme; é uma questão que parece tocar bastante os cineastas brasileiros; e continua atual (basta levar-se em conta o quase-recente episódio do morro do Alemão). Dentre os projetos citados anteriormente, Cidade de Deus é o mais bem sucedido cinematograficamente, um dos melhores filmes da última década e talvez, por isso, o responsável por lançar uma "estética" da favela ou da violência. A importância da denúncia social é inegável, mas confesso que o cinema brasileiro se mostra e se vende como monotemático e fato é que ele ainda está engatinhando em sua retomada. Falta, a meu ver, melhores roteiros e maior incentivo e visibilidade a projetos mais criativos e a novos cineastas.

Quando o primeiro Tropa de elite saiu nos cinemas, uma das coisas que mais me incomodou foi a modinha que se instalou entre jovens e adolescentes de imitar as falas e aplaudir a violência cometida pelos membros do BOPE. Ao que parece, a dimensão crítica do filme muitas vezes passava despercebida e o que ficavam, após a sessão, eram a meia dúzia de frases de efeitos e a música/hino tema do filme. Neste segundo filme, o cineasta José Padilha mergulha bem mais fundo na questão política criando uma trama ainda mais interessante e audaciosa que a produção original. 

Deixando um pouco de lado minha opinião sobre o cinema brasileiro e também minhas preferências cinematográficas, devo dizer que Tropa de Elite 2 é um filme eficiente, bem escrito e bem dirigido. Entretanto, é um filme que passa longe da sutileza tanto na história que conta, como em suas escolhas narrativas. Vem-me em mente o momento em que o Coronel Nascimento se vê diante de um espelho, quando suas atitudes são postas em jogo, e ele tem que refletir sobre si mesmo. O simbolismo deste momento perde um pouco de seu valor pela falta de sutileza com que o diretor o lança. Passa longe da sutileza também o estereótipo criado pelo filme do apresentador sensacionalista, na performance over de André Mattos.

Tropa de elite 2 conta a luta do Coronel Nascimento contra o tráfico, "o sistema" e, dessa vez, também contra os policiais e políticos corruptos. Acertadamente, o roteiro de Padilha e  Bráulio Mantovani busca fazer um retrato humano de seu protagonista e Wagner Moura, mais uma vez, está excelente, ao construir um personagem endurecido, mas extremamente fiel a seus valores. A voz off do personagem permite que ele se revele ainda mais para o espectador. Deve-se aplaudir também o desempenho de todo o elenco masculino do filme, que é espetacular. Irandhir Santos, André Ramiro, Sandro Rocha, Milhem Cortaz, André Mattos, Adriano Garib estão fantásticos e o filme ainda conta com a empolgante pequena participação de Seu Jorge. É interessante ainda apreciar como a história lida com dois personagens aparentemente opostos, vividos por  Wagner Moura e Irandhir Santos, personagens de ideologias diferentes, mas que de certa forma são complementares.

Com uma direção inteligente e uma ótima montagem de Daniel Rezende (que também trabalhou em Cidade de Deus), o filme é construído de grandes momentos de tensão e ótimas cenas de perseguição e tiroteio. Contando com menos cenas de ação que o filme anterior e se dedicando a criar uma intriga política interessante e verossímil, a produção não deixa a peteca cair em nenhum momento, não apelando para o sentimentalismo, nem para as soluções fáceis. A cena final do filme, no entanto, me incomoda por seu discurso um pouco didático, óbvio e, portanto, desnecessário.

Tropa de elite 2, como já era de se esperar, deixa as portas abertas para uma continuação. O filme de maior bilheteria do cinema nacional é um ótimo filme policial, audacioso e, infelizmente, atual... no entanto, ainda prefiro o grande documentário de Padilha Última parada 174 (2002)

Trailer do filme:

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Encurralado - 1971


O caminhão do filme - um personagem em si?


Encurralado é um filme feito para a televisão americana, em 1971, dirigido pelo então novato Steven Spielberg. O cineasta havia dirigido, até então, apenas curtas-metragens e séries. O seu primeiro longa para o cinema foi Louca Escapada, de 1974. Em Encurralado, Spielberg dá uma aula de cinema, dando, mais do que sinais, provas, de seu grande talento para a criação do suspense e do terror psicológico. O filme de 1971 é para mim uma epécie de pai de Tubarão (1975), grande clássico do cineasta. O sucesso e o êxito cinematográfico de Encurralado,  foi, sem dúvida, de grande importância para a subsequente carreira de Spielberg.

Filmado em 13 dias, a produção é uma adaptação de um conto de Richard Matheson, também encarregado pelo roteiro. O filme conta a história de um homem comum, David Mann, classe-média, que sai um dia de carro para um encontro de trabalho e se vê perseguido por um caminhão pelas desertas rodovias do oeste americano. A trama pode ser simples, mas o resultado é um filme angustiante e assustador. 

Encurralado encontra-se no limite entre thriller e terror. A sacada de mestre do diretor é o fato de não revelar o caminhoneiro (apenas seus pés e braço esquerdo), assim como não vemos o tubarão durante a maior parte do filme de 1975. A questão da identidade do vilão é fundamental para a trama: sem rosto, ele se torna ainda mais assustador e imprevisível. Esta falta de identidade também é representada pelas inúmeras placas pregadas no caminhão, ou sejá, a máquina também não pode ser identificada. Por falar em máquina, por um processo de metonímia, vemos o caminhão se tornar o próprio vilão do filme. Sua presença é, em si, ameaçadora.  Spielberg afirmou, certa vez, que escolheu o modelo de caminhão usado no filme, pois sua cabine lembra um rosto.

Encurralado (boa "tradução" para o português, talvez melhor do que "duel/duelo", título original), explora ao máximo o terror psicológico, uma vez que o mocinho, com quem nos identificamos invarialvelmente, se vê completamente à mercê de um mal absoluto, em um jogo terrível de gato e rato. E o pior: não existe uma motivação real para a a ação do perseguidor. Trata-se de um psicopata? Por que ele escolheu perseguir apenas David Mann?

O filme carrega em si uma aura de pesadelo. O protagonista, que de certa forma tem sua coragem questionada por sua mulher em uma cena do filme, tem que lidar com o medo o tempo todo, como se ele devesse ser punido pela covardia do dia anterior. Dennis Weaver, que o interpreta, é eficiente ao mostrar as emoções, indecisões e terror de seu personagem através do seu olhar e de suas expressões faciais. A voz off do personagem também possibilita, em certos momentos, que tenhamos acesso ao desespero interior do personagem. 

Com uma bela fotografia e uma montagem e direção geniais, Encurralado é um Spielberg imperdível! 

Assista ao trailer: