quarta-feira, 13 de abril de 2011

Deixe ela entrar - 2008

Lina Leanderson e os seus magníficos olhos

Dedicarei minhas próximas postagens a falar de filmes de terror, gênero às vezes tão subestimado e pouco levado a sério. Os filmes de terror falam dos nossos instintos mais básicos de sobrevivência, do medo e da morte. Claro que, como em todos os gêneros cinematográficos, existem exemplares que são completamente dispensáveis, muitos que se tornam risíveis e não assustadores. Mas também existem grandes filmes, como este recente Deixe ela entrar

Passei o filme inteiro me dizendo que este não ele não era um filme de terror e, sim, uma linda história de amor. Foi somente, após terminar o filme, que percebi o quão assustadora era a história que tinha acabado de ver. Se você estiver interessado em vê-lo, assista ao filme antes de ler qualquer crítica, inclusive o meu comentário abaixo. Deixe ela entrar é um filme sueco, que conta a história de Oskar, um menino de doze anos que sofre bullying cotidianamente na escola e por isso acaba reprimindo um grande desejos de violência. Um dia ele conhece uma garota da sua idade, Eli, nova vizinha em seu prédio e os dois começam uma linda amizade. O detalhe é que ela é um tipo de vampiro e, portanto, necessita de sangue humano para sobreviver. 

Deixe ela entrar é ambientado em uma cidadezinha sueca coberta de gelo e a linda fotografia do filme mostra o quão melancólica é essa claridade glacial. O branco e o vermelho são as cores do filme, representando a neve e o sangue. Ao mesmo tempo em que vemos Oskar se apaixonar por Eli e criar uma ligação forte com a garota, vemos os ataques e assassinatos que ela é obrigada a cometer pela sua sobrevivência. O cineasta, através dos seus lindos closes, mostra o quão especial é Oskar, um garoto naturalmente bom, muito solitário. Vítima de violência, ele carrega em si também uma semente de violência. Kare Hedebrant, que interpreta Oskar, tem um carisma natural e se torna fácil se identificar com o menino. 

Já Lina Leandersson, que interpreta Eli, impressiona pelo seu olhar que parece carregar uma longa vida (de fato a personagem está presa em um corpo de 12 anos, mas é muito mais velha). Existe uma tristeza em seu olhar e uma necessidade de ter alguém. No primeiro ato do filme, a vampira tem um companheiro que a auxilia a obter sangue, matando pessoas. Este velho companheiro, Hakan,  interpretado com uma sensibilidade tocante por Per Ragnar e que morre por ela no primeiro ato do filme,  pode passar como pai da garota. Ao final, compreendemos que ele era muito provavelmente um amante mortal que foi envelhecendo enquanto Eli continuava uma criança. Podemos, então, questionar até onde Eli enxerga em Oskar um servo que pode se tornar um psicopata, matando para que ela sobreviva. É assustador perceber que Oskar provavelmente será um sucessor de Hakan.

O terror do filme, no entanto, não está apenas na necessidade de sangue de Eli, mas na maldade humana personificada pelos colegas de Oskar, que apesar de serem crianças e terem noção da própria maldade, parecem impelidos a fazer o mal. No filme, Hakan e Eli matam pessoas boas e inocentes e é compreensível que um amigo de um dos assassinados busque fazer justiça ao querer matar Eli. Neste momento, Oskar a salva: o que nos faz questionar a nossa própria vontade de ver o menino ficar junto com a vampira. Queremos o romance e a felicidade desses dois personagens, mas isto provavelmente custará muitas mortes inocentes. 

Deixe ela entrar é um dos melhores filmes de vampiro já realizados. Fugindo do estereótipo e criando uma trama sensível e rica de simbologia, o filme é mais uma jóia do cinema sueco... Chamo a atenção para a direção primorosa de Tomas Alfredson e lindas cenas como a da morte de Hakan e o massacre na piscina.


Trailer do filme:

domingo, 10 de abril de 2011

Tropa de elite 2 - 2010

Wagner Moura em cena do filme


A temática do mundo do crime (sobretudo no Rio de Janeiro) é, sem dúvida, a mais explorada pelo cinema brasileiro. Seguindo este filão temos: Cidade de Deus, Tropa de Elite 1 e 2, Cidade dos homens, Carandiru, Última parada 174, Salve Geral...  Esse exagero de produções que giram sobre o crime e a violência podem ter várias explicações: existe um grande público para esse tipo de filme; é uma questão que parece tocar bastante os cineastas brasileiros; e continua atual (basta levar-se em conta o quase-recente episódio do morro do Alemão). Dentre os projetos citados anteriormente, Cidade de Deus é o mais bem sucedido cinematograficamente, um dos melhores filmes da última década e talvez, por isso, o responsável por lançar uma "estética" da favela ou da violência. A importância da denúncia social é inegável, mas confesso que o cinema brasileiro se mostra e se vende como monotemático e fato é que ele ainda está engatinhando em sua retomada. Falta, a meu ver, melhores roteiros e maior incentivo e visibilidade a projetos mais criativos e a novos cineastas.

Quando o primeiro Tropa de elite saiu nos cinemas, uma das coisas que mais me incomodou foi a modinha que se instalou entre jovens e adolescentes de imitar as falas e aplaudir a violência cometida pelos membros do BOPE. Ao que parece, a dimensão crítica do filme muitas vezes passava despercebida e o que ficavam, após a sessão, eram a meia dúzia de frases de efeitos e a música/hino tema do filme. Neste segundo filme, o cineasta José Padilha mergulha bem mais fundo na questão política criando uma trama ainda mais interessante e audaciosa que a produção original. 

Deixando um pouco de lado minha opinião sobre o cinema brasileiro e também minhas preferências cinematográficas, devo dizer que Tropa de Elite 2 é um filme eficiente, bem escrito e bem dirigido. Entretanto, é um filme que passa longe da sutileza tanto na história que conta, como em suas escolhas narrativas. Vem-me em mente o momento em que o Coronel Nascimento se vê diante de um espelho, quando suas atitudes são postas em jogo, e ele tem que refletir sobre si mesmo. O simbolismo deste momento perde um pouco de seu valor pela falta de sutileza com que o diretor o lança. Passa longe da sutileza também o estereótipo criado pelo filme do apresentador sensacionalista, na performance over de André Mattos.

Tropa de elite 2 conta a luta do Coronel Nascimento contra o tráfico, "o sistema" e, dessa vez, também contra os policiais e políticos corruptos. Acertadamente, o roteiro de Padilha e  Bráulio Mantovani busca fazer um retrato humano de seu protagonista e Wagner Moura, mais uma vez, está excelente, ao construir um personagem endurecido, mas extremamente fiel a seus valores. A voz off do personagem permite que ele se revele ainda mais para o espectador. Deve-se aplaudir também o desempenho de todo o elenco masculino do filme, que é espetacular. Irandhir Santos, André Ramiro, Sandro Rocha, Milhem Cortaz, André Mattos, Adriano Garib estão fantásticos e o filme ainda conta com a empolgante pequena participação de Seu Jorge. É interessante ainda apreciar como a história lida com dois personagens aparentemente opostos, vividos por  Wagner Moura e Irandhir Santos, personagens de ideologias diferentes, mas que de certa forma são complementares.

Com uma direção inteligente e uma ótima montagem de Daniel Rezende (que também trabalhou em Cidade de Deus), o filme é construído de grandes momentos de tensão e ótimas cenas de perseguição e tiroteio. Contando com menos cenas de ação que o filme anterior e se dedicando a criar uma intriga política interessante e verossímil, a produção não deixa a peteca cair em nenhum momento, não apelando para o sentimentalismo, nem para as soluções fáceis. A cena final do filme, no entanto, me incomoda por seu discurso um pouco didático, óbvio e, portanto, desnecessário.

Tropa de elite 2, como já era de se esperar, deixa as portas abertas para uma continuação. O filme de maior bilheteria do cinema nacional é um ótimo filme policial, audacioso e, infelizmente, atual... no entanto, ainda prefiro o grande documentário de Padilha Última parada 174 (2002)

Trailer do filme:

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Encurralado - 1971


O caminhão do filme - um personagem em si?


Encurralado é um filme feito para a televisão americana, em 1971, dirigido pelo então novato Steven Spielberg. O cineasta havia dirigido, até então, apenas curtas-metragens e séries. O seu primeiro longa para o cinema foi Louca Escapada, de 1974. Em Encurralado, Spielberg dá uma aula de cinema, dando, mais do que sinais, provas, de seu grande talento para a criação do suspense e do terror psicológico. O filme de 1971 é para mim uma epécie de pai de Tubarão (1975), grande clássico do cineasta. O sucesso e o êxito cinematográfico de Encurralado,  foi, sem dúvida, de grande importância para a subsequente carreira de Spielberg.

Filmado em 13 dias, a produção é uma adaptação de um conto de Richard Matheson, também encarregado pelo roteiro. O filme conta a história de um homem comum, David Mann, classe-média, que sai um dia de carro para um encontro de trabalho e se vê perseguido por um caminhão pelas desertas rodovias do oeste americano. A trama pode ser simples, mas o resultado é um filme angustiante e assustador. 

Encurralado encontra-se no limite entre thriller e terror. A sacada de mestre do diretor é o fato de não revelar o caminhoneiro (apenas seus pés e braço esquerdo), assim como não vemos o tubarão durante a maior parte do filme de 1975. A questão da identidade do vilão é fundamental para a trama: sem rosto, ele se torna ainda mais assustador e imprevisível. Esta falta de identidade também é representada pelas inúmeras placas pregadas no caminhão, ou sejá, a máquina também não pode ser identificada. Por falar em máquina, por um processo de metonímia, vemos o caminhão se tornar o próprio vilão do filme. Sua presença é, em si, ameaçadora.  Spielberg afirmou, certa vez, que escolheu o modelo de caminhão usado no filme, pois sua cabine lembra um rosto.

Encurralado (boa "tradução" para o português, talvez melhor do que "duel/duelo", título original), explora ao máximo o terror psicológico, uma vez que o mocinho, com quem nos identificamos invarialvelmente, se vê completamente à mercê de um mal absoluto, em um jogo terrível de gato e rato. E o pior: não existe uma motivação real para a a ação do perseguidor. Trata-se de um psicopata? Por que ele escolheu perseguir apenas David Mann?

O filme carrega em si uma aura de pesadelo. O protagonista, que de certa forma tem sua coragem questionada por sua mulher em uma cena do filme, tem que lidar com o medo o tempo todo, como se ele devesse ser punido pela covardia do dia anterior. Dennis Weaver, que o interpreta, é eficiente ao mostrar as emoções, indecisões e terror de seu personagem através do seu olhar e de suas expressões faciais. A voz off do personagem também possibilita, em certos momentos, que tenhamos acesso ao desespero interior do personagem. 

Com uma bela fotografia e uma montagem e direção geniais, Encurralado é um Spielberg imperdível! 

Assista ao trailer:

quarta-feira, 30 de março de 2011

Os melhores beijos do cinema - parte 1

Uma das atividades a qual tenho podido me entregar através deste blog é a de fazer inventários. Através das minhas listas me lanço ao prazer do arquivo e busco desafiar a mémoria e o tempo, relembrando as cenas que marcaram a história do cinema e as que marcaram a minha história. Neste post, enumerarei os melhores beijos do cinema. A lista de hoje promete ter muitos desdobramentos já que em praticamente  todo filme existe pelo menos um beijo e seria injusto, portanto, me limitar a apenas uma lista. Nesta primeira seleção, escolhi alguns beijos que se tornaram clássicos  do cinema e outros que, apesar de recentes, têm tudo para se tornarem. Antigos ou novos, são todos beijos de amor. Lembrando que esta é somente a primeira parte de uma seleção que se pretende bem longa...

1 - E o vento levou... (Gone with the wind) - 1939

Clark Gable e Vivien Leigh

Em E o vento levou, um dos meus filmes favoritos, a (anti)heroína Scarlett O'Hara distribui vários tapas e ganha alguns beijos.  Muitos deles são marcantes. Destaco o beijo entre ela e Rett, que acontece antes que ele vá lutar na guerra. Ele a deixa no meio do caminho em direção a Tara. Rett diz: "Aqui está um soldado do Sul que ama você, Scarlett. Que quer sentir seus braços em volta dele, que quer carregar na memória seus beijos nas batalhas. Não se preocupe em me amar, você é uma mulher enviando um soldado para a sua morte com uma linda lembrança. Scarlett! Beije-me! Beije-me! uma vez...". 

O vermelho saturado da fotografia desta cena, presente em diversos momentos durante o filme, torna este beijo ainda mais lindo. 





2 - A um passo da eternidade 
(From here to eternity) - 1953 

Burt Lancaster e Deborah Kerr

Este beijo é normalmente apontado como o mais sexy do cinema. Ele transborda sensualidade e é extremamente ousado, principalmente se considerarmos que foi filmado na década de 50. O filme em si não me agrada muito, mas esta cena permanece como uma das mais famosas do cinema, tendo sido parodiada por diversas vezes, inclusive no desenho Shrek.


3 - Meu primeiro amor (My girl) - 1991

Macaulay Culkin e Anna Chlumsky
Meu primeiro amor é um filme que está presente na memória afetiva de toda uma geração. A cena deste primeiro beijo é um dos momentos mais fofos do cinema! Lindo e sensível, o filme fala sobre o amor, sobre crescer e sobre como lidar com a morte...


4 - Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's) - 1961

George Peppard e Audrey Hepburn
Bonequinha de Luxo é um filme maravilhoso, que consegue ser comédia, romance e drama. Esta cena final é emocionante: a busca pelo gatinho de Audrey termina com um lindo beijo sob a chuva e observe que o gatinho está lá no meio.


5 - Homem-aranha (Spider man) - 2002

 Ok... o filme não é nenhuma obra-prima, mas este beijo foi um dos mais marcantes da última década.


6 - Moulin Rouge, o amor em vermelho - 2001


Moulin Rouge, que trouxe de volta os musicais, é também palco para uma grande história de amor. Este beijo ocorre logo depois que Ewan McGregor canta a linda música de Elton John, Your song.


7 - Uma linda mulher (Pretty Woman) - 1990 


Uma linda mulher conta a história da paixão entre uma prostituta e seu rico cliente. Entre os personagens de Julia Roberts e Richard Gere havia a regra de jamais beijar na boca, ato considerado muito íntimo. Esta cena corresponde ao momento em que este limite é rompido, neste belo conto de fadas moderno.



8 - Titanic - 1997

Leonardo DiCaprio e Kate Winslet

Cena um pouco gasta, mas que não deixa de ser um momento especial do cinema. Impossível não se lembrar dela quando se pensa em grandes beijos. 


9 - O casamento do meu melhor amigo 
(My best friend's wedding) -  1997


Adoro o filme e adoro esta cena, que também contém uma linda declaração de amor, com a ótima frase de  Julia Roberts "Choose me!" (Escolha-me). Roberts, na minha opinião, tem uma das melhores atuações da sua carreira neste filme e o  beijo roubado é sensasional. 



10 - WALL-E - 2008


Wall-e, obra-prima da Pixar, é um dos grandes romances do cinema e, quem diria, entre dois robôs. O beijo entre Wall-e e Eva é seguido de uma linda dança no espaço.



11 - A dama e o vagabundo (Lady and the Tramp)- 1955

Vagabundo e Dama



Este é o beijo acidental mais famoso do cinema. E merecidamente...


12 - Branca de Neve e os sete anões
(Snow White and the Seven Dwarfs) - 1937


Branca de Neve e os sete anões sobrevive ao tempo como um dos filmes mais importantes do cinema. Esta cena corresponde ao beijo da vida, em que o príncipe finalmente encontra sua amada.

 

domingo, 27 de março de 2011

O golpista do ano (I love you Philip Morris) - 2009

Jim Carrey e Ewan McGregor em cena do filme

O filme, logo em sua abertura, nos informa: "Isto realmente aconteceu". Aviso que se faz realmente necessário, uma vez que, na hora e meia que se segue, vemos uma sequência de acontecimentos tão absurdos que nos fazem duvidar da veracidade dos fatos exibidos. I love Philip Morris, pessimamente traduzido para o português por O Golpista do Ano, é um filme que poderia muito bem ser mais um passatempo descartável estrelado por Jim Carrey. No entanto, ele se revela bem mais interessante do que poderíamos imaginar.

O filme conta a história verídica de Steven Russel um pacato policial e pai de família que promove uma reviravolta em sua vida ao se assumir homossexual e ao iniciar uma vida de golpes financeiros. Após ser pego e condenado à prisão, ele conhece Philip Morris na cadeia e se apaixona por ele. Jim Carrey, típico ator ame-o ou deixe-o, mostra mais uma vez (já o havia feito em Brilho eterno de uma mente sem lembranças e em Show de Truman) que é um ótimo ator quando quer. Abandonando parcialmente suas famosas caretas, mas continuando a nos oferecer uma performance extremamente física (o que ele faz muito bem), o ator se entrega de corpo e alma ao seu personagem. Genialmente, ele consegue incorporar o drama a sua performance cômica, uma vez que Steve Russel carrega em si um mundo de contradições e problemas.

O personagem de Carrey é bem definido por Philip Morris (Ewan Mcgregor) neste pequeno e belo monólogo: 

"E você espera que eu te ame? Como? Como eu posso te amar? Eu nem sei quem você é. E sabe o que é triste, eu nem sei se você sabe quem é. E como posso amar alguém que nem existe, me diga?"

O Golpista do Ano é dirigido por uma dupla estreante Glenn Ficarra e John Requa, que também assinam o roteiro. Lidando, no geral, de forma corajosa com um tema polêmico, eles acertam na maioria das escolhas, pecando apenas ao mostrar, em determinados momentos, desconforto ou insegurança ao lidar com a temática gay. Erram a mão, por exemplo, ao tratar duas cenas de sexo entre Morris e Russel de maneira, no mínimo, pouco elegante e fora do tom. Os diretores também se entregam à uma estrutura repetitiva, que serve para ilustrar a sequência de golpes de Russel e a passagem de tempo, mas que, depois de muito usada, torna-se um pouco cansativa.

Além de Carrey, deve-se ser elogiada a composição sensível de Ewan Mcgregor (uma das melhores coisas do filme) e a ponta digna de Rodrigo Santoro. O Golpista do Ano, um Prenda-me se for capaz gay, é um filme que não tem vocação para passatempo sem compromisso e nem para unanimidade. Eu recomendo. 

Trailer do filme:


quarta-feira, 23 de março de 2011

Adeus a Elizabeth Taylor


Hoje é um dia muito importante para o cinema. Muitos podem não saber ou não se dar conta disto: nesta quarta-feira, perdemos a última grande estrela feminina da Hollywood Clássica. Ainda temos Olivia de Havilland e Debbie Reynolds, mas essas grandes atrizes nunca alcançaram o status da eterna diva Taylor. A atriz, que morreu hoje aos 79 anos de uma insuficiência cardíaca congestiva, teve uma vida intensa, cheia de amores, excessos e glamour. Casada 8 vezes, duas com o grande ator Richard Burton, a atriz tinha dez netos e quatro bisnetos. Também deve ser lembrada e louvada como pioneira na luta contra a AIDS. Durante sua vida, ela sofreu com vários problemas de saúde; no final dos anos 50, por exemplo, ela se submeteu a uma cirurgia no cérebro. Taylor ganhou o Oscar duas vezes: a primeira por "Disque Butterfield 8" (1960) e a segunda por "Quem tem medo de Virginia Woolf?" (1966).

A beleza desta estrela maior do cinema está imortalizada em filmes como "Cleópatra" (1963) e "Assim caminha a humanidade" (1956). O que muita gente não sabe é que ela começou a atuar novinha fazendo o filme "Lassie come home" (1943). Eu sou um grande fã de sua personalidade marcante, de sua sensualidade única e principalmente do seu talento. A atriz de olhos violeta tem uma das melhores performances da história do cinema em "Quem tem medo de Virginia woolf?", sem exagero algum! Ainda está maravilhosa em "Gata em teto de zinco quente" (1958) e em "De repente no último verão" (1959).

Felizmente, Elizabeth Taylor está imortalizada em seus filmes e, como a estrela que é, nunca será esquecida...

Cena da atriz em seu melhor filme "Quem tem medo de Virgínia Woolf?":



Fotos da atriz:

Rango - 2011

Este é o simpaticíssimo Rango.
Rango em uma das primeiras cenas do filme.

Quem gosta de filme de animação, vai provavelmente amar Rango. O filme é dirigido por Gore Verbinski, versátil diretor de Os piratas do Caribe e O chamado. A animação, grande homenagem aos filmes de western, captura as principais características do gênero e inclui elementos típicos como o árido oeste americano, tiroteios, cowboys, xerifes, pistoleiros, entre outros. Trata-se de uma releitura do gênero e não de uma paródia, o que, a meu ver, torna o filme ainda mais interessante.
 
A produção conta a história de Rango, um lagarto solitário que, devido a um acidente, se vê perdido no meio do mais absoluto deserto e, por uma sucessão de acontecimentos, acaba se tornando o xerife de uma vila típica de faroeste. Entre os personagens da animação, temos anfíbios, répteis e roedores. E quem acha que eles são animaizinhos bonitinhos no estilo Disney, está enganado. Suas feições são marcadas por  expressões endurecidas, cicatrizes e queimaduras... o desenho é incrivelmente fiel às características dos personagens que povoam o mundo do faroeste. Mas não se preocupe, ainda encontramos personagens fofíssimos como um roedor velhinho e o próprio Rango. O carismático lagarto é, inclusive,  um personagem super interessante: acostumado a não ter nenhuma companhia a não ser de objetos,  ele aprendeu a atuar e a usar a imaginação para combater sua solidão.

Rango agrada e emociona adultos, mas não deixa de ser uma diversão para as crianças. O filme conta com uma ótima trilha sonora e uma direção inspirada, que usa muito bem referências à faroestes consagrados como Matar ou Morrer e obras de Sergio Leone. O filme ainda conta com a "presença"  ilustre e surpreendente de um astro do faroeste em sua parte final. Inteligente, engraçado, sensível e tecnicamente admirável, Rango vale, e muito, o ingresso do cinema.

Assista ao trailer:

sábado, 19 de março de 2011

Declarações de amor no cinema 2

Julie Delpy e Ethan Hawke no lindo Antes do pôr-do-dol

Esta é a segunda lista das minhas declarações de amor favoritas do cinema. Continuo escolhendo aquelas que fogem do convencional e singelo: "Eu te amo!". 

1 - Antes do Pôr-do-sol - 2004

Canção: A waltz for a night (cena legendada)


Antes do Amanhecer é um dos filmes mais românticos dos anos 90, assisti-lo é testemunhar duas pessoas se apaixonando diante dos nossos olhos. Sua continuação, realizada 10 anos depois, Antes do Pôr-do-sol é igualmente linda. Neste segundo filme, a francesa Celine, interpretada pela doce e linda atriz Julie Delpy, canta uma canção que é uma bela declaração de amor para Jesse (Ethan Hawke). Para contextualizar: os dois tinham se encontrado dez anos antes na Europa, se apaixonaram, tiveram uma noite de amor. Ele precisa voltar para os Estados Unidos, então eles combinam um encontro em seis meses, não trocam telefone, nem endereço. Um imprevisto ocorre e eles só se encontram após 10 anos. A canção é linda... e ao final, temos duas falas geniais que dizem tudo sobre o futuro do casal. Ele precisa pegar um vôo, já que está só de passagem por Paris, aí ela diz: "Querido você não vai viajar". E ele responde: "Eu sei."

2 - Como se fosse a primeira vez - 2004

Canção: Forgetful Lucy (cena legendada)


Tudo bem que Adam Sandler não tenha uma filmografia muito digna de respeito, mas este filme é um exemplo de como ele pode ser um bobo adorável e romântico. Como se fosse a primeira vez  é uma comédia romântica (mas acho a situação bem dramática e choro sempre) que conta a história de um moço que se apaixona por uma amnésica e tem que a reconquistar todos os dias. A declaração de amor é feita através de uma canção... boba, mas super fofa, e, em meio a piadinhas, ele diz "Mas mesmo assim eu amo tanto ela, e nunca vou deixá-la". (Devo confessar que também acho Drew Barrymore uma figura apaixonante...) Ao final da cena, quando os dois vão dormir ele pede: "Por favor não me esqueça!". O filme tem outras cenas muito boas, como quando ele tenta chamar a atenção dela na estrada. 

3- Embriagado de amor - 2002




Esta é a declaração de amor mais violenta e menos convencional que eu já vi. Cena tirada do ótimo filme de Paul Thomas Anderson, Embriagado de Amor. Novamente temos Adam Sandler; desta vez contracenando com a fantástica atriz inglesa Emily Watson. Os personagens expressam a violência do sentimento deles de uma forma única no cinema. Ela diz: “Quero morder sua bochecha e mastigá-la”. Ele responde:  “Quero amassar o seu rosto com um martelo e esmagá-lo, você é tão linda…” E  ela finaliza: “Quero arrancar seus olhos, comê-los, mastigá-los e chupá-los". É genial, estranho, um pouco erótico e (porque não?) romântico...

Fala original em inglês:

Barry: I'm lookin' at your face and I just wanna smash it. I just wanna fuckin' smash it with a sledgehammer and squeeze it. You're so pretty.
Lena: I want to chew your face, and I want to scoop out your eyes and I want to eat them and chew them and suck on them.
[pause]
Barry: OK. This is funny. This is nice.


4- O feitiço da lua - 1987


O feitiço da lua é uma divertida comédia romântica dos anos 80 que lançou Nicolas Cage ao estrelato e deu o Oscar de Melhor atriz para Cher. Toda esta cena é muito boa, mas selecionei a parte em que o personagem de Nicolas Cage se declara para Loretta (Cher) e tenta convencê-la a se entregar ao amor. Ele diz: 

“Loretta, eu te amo. Não como eles dizem que o amor é e eu também não sabia disso, mas o amor não torna as coisas bonitas – ele estraga tudo. Ele parte o seu coração. Ele bagunça as coisas. Nós não estamos aqui para fazer coisas perfeitas. Os flocos de neves são perfeitos, as estrelas são perfeitas. Nós não! Nós estamos aqui para arruinar uns aos outros, partir nossos corações, amar as pessoas erradas e morrer. Os livros de história são bobagem. Agora eu quero que você suba as escadas comigo e deite na minha cama”.

Lindo, né? 

Fala original em inglês:

Ronny Cammareri: Loretta, I love you. Not like they told you love is, and I didn't know this either, but love don't make things nice - it ruins everything. It breaks your heart. It makes things a mess. We aren't here to make things perfect. The snowflakes are perfect. The stars are perfect. Not us. Not us! We are here to ruin ourselves and to break our hearts and love the wrong people and *die*. The storybooks are *bullshit*. Now I want you to come upstairs with me and *get* in my bed!

5 - Uma aventura na Martinica  - 1944


Este filme de Howard Hawks exala a química e a paixão entre os seus atores principais : Hunphrey Bogart e Lauren Bacall. Ele se tornou famoso por ser o filme em que o relacionamento dos dois atores começou. Nesta cena, a personagem de Bacall se declara de uma maneira muito original e atrevida ao personagem de Bogart. Após um longo jogo de sedução, ela se rende e diz uma das melhores falas do cinema:

"Você sabe que não precisa atuar comigo, Steve. Você não precisa fazer nada, nem dizer nada. Talvez apenas assoviar.Você sabe assoviar, não sabe, Steve? Basta apertar os lábios e... soprar."

Fala original em inglês:  

Slim: You know you don't have to act with me, Steve. You don't have to say anything, and you don't have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and... blow.  


sexta-feira, 18 de março de 2011

Darling - 1965


Darling é um filme longo, bem longo... em suas duas horas de duração. Longo porque fala do vazio, é uma não-história. Concentrando-se em um estudo de personalidade mais do que em uma trama propriamente dita, o filme acompanha as desventuras de uma personagem egocêntrica, imatura, ambiciosa, frívola, egoísta, indecisa... e lá se vai uma série de adjetivos pouco lisonjeiros. Diana Scott, a "darling" do filme, que no Brasil saiu com o subtítulo no mínimo irônico "a que amou demais", é uma mulher que não sabe o que quer, mas que sabe que quer muita coisa. Falo mal dela, mas na verdade é uma personagem extremamente interessante porque mostra todas as incongruências humanas. Assistimos, durante duas horas, a tentativas dessa mulher de se tornar algo, mas ela constantemente se boicota, ignorando completamente o que sente. Devo estar dando a impressão de que não gostei do filme... pois bem: ele é fantástico!

Para começar, a abertura de Darling exibe um outdoor com uma imagem de africanos passando fome, sendo substituída por um luxuoso anúncio publicitário que tem a protagonista em destaque. Essa é uma metáfora recorrente na produção, que de certa forma nos informa: esse filme mostra a superficialidade em seu máximo... O filme inglês tem um diálogo com o clássico italiano A doce vida, de Fellinni. Ambos retratando um grupo de pessoas ricas, narcisistas, artificiais, vazias e entediadas com a própria existência. O diretor John Schlesinger olha com uma ironia mordaz para os tipos que apresenta e sua direção é genial, inteligente, extremamente elegante e sensível... O filme é um colírio para os olhos, com planos e enquadramentos belíssimos e uma fotografia em preto e branco maravilhosa. 

Diana Scott é interpretada por Julie Christie, no papel que lhe rendeu o Oscar. É uma grande interpretação, em um filme que também é uma homenagem a sua beleza. A produção foi lançada no mesmo ano em que o  famoso épico Dr. Jivago, filme que rendeu à atriz fama mundial. Dois outros atores se destacam: os fantásticos Laurence Harvey (que tem ótimas frases ácidas no filme) e Dirk Bogarde (em uma bela atuação). Darling possui cenas maravilhosas, como a sequência de um strip-tease enraivecido em uma mansão italiana e um jogo bizarro em uma festa em Paris. 

Darling talvez te deixe tão entediado quanto sua protagonista... para mim, foi a descoberta de um cinema elegante e cínico.

Veja as belas fotos do filme:

domingo, 13 de março de 2011

Psicose (1960)

Janet Leigh na mais famosa cena de chuveiro de todos os tempos

Psicose, uma das quatro obras-primas mais conhecidas de Hitchcock, é um clássico do terror que permanece tão perturbador quanto a 50 anos atrás. O terror do filme, no entanto, vem menos do enredo do que da maestria com que Hitchcock dirige o espectador. O mestre inglês manipula seu público, a seu bel-prazer, nos deixando a par do que o ocorre em um sinistro hotel de beira de estrada, mas nunca nos revelando tudo de uma vez só... 

Ao assistir o filme pela segunda vez, depois de um long hiato, me surpreendi com a bela fotografia em preto e branco do filme, uma das responsáveis pela construção de uma atmosfera sombria e tensa. E existe certa frieza na maneira com que o diretor conduz sua narrativa que aumenta ainda mais a sensação de desconforto. Longe de conter uma tragédia amorosa, como em O corpo que cai, o filme nos apresenta falsas pistas com relação ao centro de sua intriga. Logo na primeira cena do filme, a câmera invade um quarto de motel onde dois amantes aproveitam uma hora furtiva durante o dia... Mas o filme não conta uma história de amor. Depois, a mesma moça do motel (Janet Leigh) rouba uma grande soma de dinheiro do escritório em que trabalha, mas tampouco a trama do roubo é o centro do filme. E (não leia esta frase se você não tiver a mínima idéia do que acontece filme e se quiser assisti-lo antes) é no mínimo inusitado que a protagonista, apresentada a nós como tal, seja assassinada na metade do filme.

Uma das tiradas de gênio de Hitchcock é a maneira com que ele nos despista, para nos apresentar quase na metade da projeção uma trama macabra, representada pelo fantástico personagem Norman Bates e o seu hotel no meio do nada. Bates é uma das personalidades mais interessantes do cinema, tendo sido imortalizado pelo grande ator Anthony Perkins. É brilhante a forma com que Perkins constrói seu personagem: a princípio, um jovem naturalmente simpático e agradável que pouco a pouco vai mostrando seu desequilíbrio. Há alguns posts atrás, eu disse que Marnie era o filme mais "freudiano" do diretor, mas Psicose não fica muito atrás, o que o título em si já revela. Toda a questão do complexo de Édipo e outras questões de ordem psicanalítica estão envolvidas na relação do reprimido Bates com sua mãe.

A cena mais célebre do filme é tão famosa, que a maioria das pessoas a conhecem sem nunca ter visto o filme. E não é por acaso que ela se tornou um marco na história do cinema e é considerada, até hoje, como a cena mais assustadora de todos os tempos. O mais interessante é observar que a sequência é construída como uma sucessão de cortes ritmados pela trilha sonora e pelo som da faca. E se observarmos atentivamente, vemos que em nenhum momento a arma sequer encosta na atriz. A violência está na genial montagem de Hitchcock e na trilha sonora de arrepiar de Bernard Herrmann.

Psicose é cinema no que ele tem de melhor... A última cena e o último olhar de Norman Bates são deliciosamente assustadores. 

Anthony Perkins, fantástico e assustador como Norman Bates





Trailer do filme: